sábado, 27 de setembro de 2008

PITACOS

O título geral desta seleção de breves textos foi surrupiado de meu primo Alexandre Ribeiro, que escreve bem pra caralho (como mais um primo meu, aliás, e que, como ele, faz questão de esconder o próprio talento). Mal de família, vocês entendem.


Faltam 2 dias!

Na segunda-feira, 29/09, completa-se um século inteirinho que o Sr. Machado de Assis abandonou o próprio corpo à sorte dos vermes que logo, logo roeriam as frias carnes de seu cadáver. Enquanto seus contemporâneos sobreviventes e as gerações futuras teriam para sempre uma literatura pra lá de viva, à disposição deles, leitores, aferrados a uma arte verbal capaz de roer – como quem não quer nada – também a nossa moral e os nossos péssimos costumes.


Dica de leitura urgente

As confissões do homem invisível, de Alexandre Plosk, é um caudaloso romance recém-lançado pela Bertrand Brasil (391 páginas, R$ 49,00). Nem parece literatura brasileira. Está tudo lá: Maupassant, H. G. Wells, alguns cientificismo que lembram a vigília dos obsessivos protagonistas de Edgar Allan Poe, e, principalmente, o estilo Plosk, único, sem antecessores e – duvido! – continuadores na tímida literatura nacional. Escrevemos bem, sim; mas pensamos com muito medo, indo pouco além da sobrevivência dos nossos umbigos. Não sabemos contar histórias e, muito menos, pesadelos intermináveis nos quais o real suplanta o quase naturalismo da má-consciência burguesa. Plosk nos livra de tudo isso: oferece diversão, angústia, assombro, novidade, viagem no tempo, no espaço, sem psicologismos previsíveis, e com narradores decididos e atormentados num nível acima da média, o que daria ótimos filmes. Não pelo (muito bom, sim) Fernando Meirelles, mas por gente de Hollywood, como os Irmãos Cohen ou até o Woody Allen. Brasileiros sofrem de cegueira para tamanha imaginação.


Dica de filme

Como a última vez em que fui ao cinema o chato do Glauber Rocha ainda estava na onda (é... só vejo tevê a cabo. Não é preferência, é falta de tempo mesmo para enfrentar uma saída, o tempo de espera no cinema, e o retorno: escrevo a Odisséia nesse intervalo todo), indico no canal 81, MGM (Metro-Goldwyn-Mayer), o longa de 1994 Romance entre amigos (“What Happened Was”, literalmente O que aconteceu foi...), dirigido e estrelado pelo Tom Noonan, que contracena com Karen Sillas, e que entre quinta-feira e sexta, ontem, passou três vezes. Passará outras, é só ficar de olho.
O filme são os dois atores, e só. O mais impactante (aliás, uma peça de teatro filmada) é o ritmo marcadamente arrastado, truncado, em que palavras, emoções e ações parecem travar na hora H. Se é que existe alguma hora H nos 91 minutos de duração da história. Que história? Jackie (Karen Sillas, que está ótima, como o parceiro e diretor), solteira além de “uma certa idade” – mas ainda atraente –, é uma secretária em um escritório de advocacia. Vive uma profissão e uma vida medíocres. Convida Michael (Noonan), colega de trabalho, numa sexta-feira, para jantar no apartamento dela. Quem sabe role algum clima… Pois a absoluta ausência de clima (estampada na atuação impecavelmente inexpressiva dos dois) revela, paradoxalmente (a desesperança é o avesso do desespero pela esperança), que tudo pode acontecer. Quase ao final de um jantar monótono, tenso diante das supostas possibilidades que jamais decolam, Jackie revela que fará aniversário dali a dois dias, e que resolveu antecipar a festinha. Só para os dois. Ele se sente pressionado. Mas, no fundo, é um homem pressionado – independente daquela situação. Trata de se mandar. Quando ela começa a recolher o bolo que nem comeram, as bebidas que nem chegaram a abrir, Michael, já na porta, começa a falar (enfim!) e o que fala nada revela além de seu cotidiano tão precário quanto o dela, esvaziado de qualquer chance. Nessas horas em que a fala de um cala a do outro (jamais ocorre a interação do estilo pingue-pongue), emerge da vastidão deserta e (nunca gélida) morna de um mar onde jazem afogados, à espera, sempre à espera, a solidão mais crua que já presenciei encenada.
Por fim, o desabafo do parceiro é apenas o monólogo elíptico de um estranho. Jackie ousou ainda revelar: “gosto de você”. É pouco para tanto isolamento, instaurado em cada um. Michael, tendo revelado sua existência sem-graça, vai embora. Jackie começa a apagar as luzes. Eu aplaudi. Na frente da tevê, comovido, inquieto, aplaudi. (27/09/2008)

5 comentários:

Anônimo disse...

Boas dicas. Gostei. Tentarei encontrar.

Beijo

Joana Giacomazzi

Anônimo disse...

Pôxa, caro crítico, você não apenas pôs nas alturas o livro do Alexandre Plosk, mas colocou abaixo a literatura brasileira. Os brasileiros são tão assim, digo, "da Idade da Pedra"?


Ildo Agamenon Costa, Vitória - ES

Anônimo disse...

Amigo Ildo: São. Uma prova é que o Machado de Assis, no seu tempo, por não ser um provinciano nacionalista, foi o único escritor de então capaz de um registro narrativa digno de ser chamado de universal. O resto era tentativa de achar o umbigo do Brasil. Um Brasil carnavalizado e/ou tornado heróico – sem ser. Mas o livro do livro Alexendre Plosk já é uma prova (não isolada, não) de que novos ares nos alimenta. E depois, desde Clarice Lispector já passamos da aldeia para o universal. Não que a aldeia seja proibida, de jeito nenhum. O diabo é saber contar dela, estar nela e sair dela sem sair, entende? Só exceções até agora na literatura brasileira, acanhada, acanhada.

Vamos debatendo isso.

Anônimo disse...

"Romance entre amigos" (“What Happened Was”), dirigido por Tom Noonan, também um dos protagnoistas, é uma peça perfeita. Como peça e como filme. Tudo encaixado, no lugar. A fala inócua, sobretudo da mulher, que, sozinha, carente (quem não é?), busca a companhia de um colega de firma, a quem convida para jantar em seu apartamento, é desviada pelas hesitações dele, um impotente social (quem não é?). De arrepiar.

Sillas Alcaraz Santos, Pelotas, RS.

Maribel disse...

Caro Bentancur,

Obrigada pela dica do Confissões de um Homem Invisível. Aqui em casa eu e meu marido lemos e adoramos!!!
abraços,
Maribel