terça-feira, 27 de outubro de 2009

Três vezes na Feira

A 55ª Feira do Livro de Porto Alegre, que abre nesta sexta-feira, 30 de outubro, e vai até o segundo domingo, dia 15 de novembro, é o espaço por excelência da visibilidade do livro. A gente curte tanto o evento que, quando vai ver, quase sem sentir, prepara um livro, dois, três – e eles convergem todos para aquele espaço de convivência que, não à toa, é chamado de "a maior feira de livros a céu aberto da América Latina". Este ano todos os meus títulos são no gênero infantojuvenil. Mas literatura de verdade (se eu tiver sorte de ter chegado a ela) não tem idade, e é para todos os públicos. Em resumo, para quem gosta de ler, preparado a entregar-se a toda natureza de surpresas. São três sessões de autógrafos com três editoras diferentes, de três estados.

31/10, sábado – 19h30min: O morto que não encontrava o céu (WS Editor); terror com humor. Especificamente, para leitores entre 9 e 12 anos, mas pais, tios e avós são bem-vindos. Praça de Autógrafos.




05/11, quinta-feira – 17h: Três pais (Saraiva – Selo Atual); três livros em um: duas adaptações de clássicos – Shakespeare e Kafka – e mais uma novela inédita do autor, Pai embrulhado para presente. Série temática Três por três: este volume toma como ponto de partida a delicada condição paterna, e de chegada, torço, a condição humana. No deck dos autógrafos – Pórtico Central do Cais do Porto, Área Infantil.




(Entrevista a Melissa Stranieri)

- Há mais de 20 anos você é crítico literário, julgando outras obras e escritores. Qual o critério que utiliza para avaliar as próprias publicações? Diria que se procuro ser justo com os outros autores que comento, comigo prefiro (claro, exagerando um pouco) até mesmo ser injusto. Exijo ao máximo de mim (e nem seria bom que exigisse menos que isso). Um bom livro deve ser criativo na trama, ter personagens interessantes e uma linguagem saborosa, com ritmo, quase musical, e ao mesmo tempo fácil de ler. Não posso, como crítico, abrir mão de encontrar isso em qualquer livro que analiso. A diferença é que quando se trata de um livro meu, bom, aí então eu levo essa exigência a um nível extremo. Procuro, em resumo, escrever o livro que eu, como leitor, sonho um dia encontrar para ler. Difícil chegar a tanto, mas não custa tentar (risos).

- Você já escreveu para o público adulto e também para o infantojuvenil. Qual a diferença entre eles? Toda e nenhuma. Nenhuma porque quando se escreve, busca-se uma doação sem a qual o artista não é artista, mas mero prestidigitador. Entregando-se inteiro ao que conta, vai junto como ser, e acontece junto de sua história, entregando aos leitores um livro que vale uma pessoa inteira e suas obsessões e encantamentos. E também, nos aspectos externos, há toda uma diferença. Isto porque o público adulto, bem, a gente nunca fica sabendo quem é. O infantojuvenil é que faz com que você, como autor, seja convidado a ir nas escolas, e é entrevistado daquela forma livre e espontânea, típica das crianças e adolescentes: perguntam de tudo. A garotada não se intimida na hora da curiosidade. Os leitores adultos já são mais dados a uma reserva compreensível, o que é raro quando se trata de jovens. Quando publico para adultos, acontece uma sessão de autógrafos, sai crítica na imprensa, com sorte ganho algum prêmio, e o resto é um enigma só. Quando publico infantojuvenil, fazem encenações sobre os meus livros, cartazes, me escrevem cartinhas manuscritas lá do interior, mandam recado até pelo Orkut – é uma festa!

- Já são cerca de 30 obras publicadas e sempre com uma história diferente. Como surgem as ideias para escrever os livros? Como surgem todas as idéias em todas as cabeças de qualquer pessoa. Imprevisivelmente (a gente deve estar sempre de “portas” e “janelas” abertas; no sentido figurado, claro), ao acaso, como quem sai para brincar no parque e nem sabe o que vai acontecer e então se depara com muitos fatos. A vida nos apronta muitas surpresas. Basta não ter medo de imaginar. No fundo, bem lá no fundo, todos nós já temos, como quando estamos sonhando, histórias prontas à espera de que a gente as descubra e as traga para fora de nossa mente e as coloque no papel. Eu sempre sento na frente no computador quase que não tendo a mínima ideia do que vou escrever. Eu disse "quase". Evidentemente, há um projeto básico, um desejo forte que me impele para a frente mas não se mostra visível enquanto não escrevo as primeiras frases. Começo então a escrever, inevitavelmente. De acordo como está o meu espírito nesse dia. E as coisas vão rolando (como uma bola que eu fosse chutando)... e a história tranca aqui, destranca ali, tranca de novo, mas, de repente, acontece! Quando termino um livro, surpreendo-me e digo para mim mesmo: “mas então era isso que eu tinha para contar?!”

- No livro “Três pais” você associa Hamlet com o livro. Como isso acontece? Desconfio que muitas das histórias já escritas no mundo de alguma forma dialogam umas com as outras. No caso do Hamlet, o príncipe é visitado pelo fantasma de seu pai que foi assassinado, pai que pede vingança ao filho, e Hamlet sofre com a presença paterna a exigir dele a difícil justiça e, ao mesmo tempo, o príncipe também sofre com a ausência desse pai, que já não pode se defender. Na outra história, “Carta ao Pai”, do Kafka, o filho acusa o pai de ter sido muito duro, exigente, e aí invertem-se os papéis: é o filho que deseja justiça. E na terceira história, criada por mim, “Pai embrulhado para presente”, eu narro a história de um pai que é desafiado a ficar longe das duas filhas para vencer na carreira, no trabalho. Mas a realização profissional, nesse caso, quase arrisca colocar o afeto pra escanteio. Bom seria ter os dois em seu ponto máximo... Mas é o caso de buscar equilibrar as prioridades, a afetiva e a material – obviamente não excludentes. Naturalmente, esse pai jamais vai parar de trabalhar, ele prefere enfrentar alguns sacrifícios porém sua escolha principal, ali, é ficar sempre perto das filhas. Entre a glória e a fortuna ou o afeto (na verdade uma questão que não podemos aceitar que seja posta assim), ele escolhe o afeto como glória e fortuna legítimas. Dele, do amor paterno, tirará a energia para construir o resto. E aí, voltando ao Hamlet da pergunta, a angústia que se apodera do príncipe que precisa denunciar o assassino de seu pai – o tio! –, é o afeto a força decisiva para que ele crie a coragem nunca antes demonstrada. Afinal, sem afeto de que adiantaria existirem pais e filhos? Que sentido e sabor teria, enfim, a vida?


12/11, quinta-feira – 17h: Tem vampiro no hospital (Editora Positivo); terror com humor. Leitores entre 9 e 12 anos, mas todos os curiosos, entre 9 e 400 anos (idade estimada de Drácula) são leitores-alvo. No deck dos autógrafos – Pórtico Central do Cais do Porto, Área Infantil.




Bem, amigos, é isso. Como as agendas andam lotadas, vocês têm três chances para comparecer ao menos a uma das sessões. E considerando que minha última sessão foi em 2006, eu já estava com saudades deste clima que só a Feira possui. Daí porque neste ano resolvi exagerar, e parti para comparecer em dose tripla. Não dá para facilitar... (27/10/2009)

sábado, 24 de outubro de 2009

ALÉM E AQUÉM DO VERSO ("Versilêncios", de Gerusa Leal)




Não é todo dia que surge um bom livro de poemas. Culpa dos poetas. Em parte, em pequena parte. Em grande parte a culpa é mesmo dos editores, que acusam o mercado dentro de cuja barriga os livreiros, famintos, bradam: “não há leitores de poesia!”. Não? Somos então uma espécie em extinção. Eu e mais uns cinco mil que certamente leem o gênero no Brasil. Parece que o problema não está só com a poesia mas com a indústria editorial, que opta pelo mais fácil como uma criança fazendo o dever de casa. Movida pela pior das obrigações – e por isso não deslancha. Culturalmente não.

Mas esta é uma discussão longa. Vender, vender mesmo (esgotar edições), claro que a poesia não fará isso. Mas pagar seus custos ao menos, dando, em contrapartida, uma valorização no catálogo das editoras, deixando-os mais nobres, pagando ao editor com a “quota prestígio” – que parece que o Departamento Editorial ignora –, isso ela tem feito sempre que um herói invista em versos: naturalmente, de qualidade.

Pois Versilêncios, de Gerusa Leal (nascida em Recife e residindo atualmente em Olinda), é desses livros dos quais as editoras não correm atrás. Azar o nosso, leitores dependentes químicos de Literatura com L maiúscula. Não fosse o prêmio Edmir Domingues de Poesia 2007, da Academia Pernambucana de Letras, que a obra merecidamente ganhou, e o apoio viabilizador da edição, através da lei do sistema de incentivo à cultura, e o livro não viria à luz. Permaneceria inédito, provavelmente, apesar de seus incontáveis méritos, ou dependeria daquelas infrutíferas iniciativas de poetas que, corajosos ou impacientes, pagam do próprio bolso uma edição destinada a não ser profissional mas, literalmente, independente (isto é: independente do mercado, onde não se insere, independente de distribuição, de comercialização e, assim, de recepção, condenada a permanecer à margem).

O primeiro a torcer o nariz diante do produto é o livreiro, que deseja ver na capa um selo importante. Diante de tal ausência, não dá a atenção devida, não o expõe, e o frequentador da livraria não tem como adivinhar que a obra existe. Obra destinada, portanto, a não existir mesmo.

Uma vez declarei num programa de tevê de grande audiência, em cadeia nacional: “pior que ficar inédito é publicar mal.” E não publicar mal, só por editoras profissionais, sólidas, e que, lamentavelmente, estão dando às costas à poesia. Mas esta, como escrevi linhas atrás, é outra discussão.

A pauta aqui é Gerusa Leal, poeta e ficcionista. E, mais especificamente, Versilêncios, que acaba de ser lançado, porém sem a necessária distribuição. De Pernambuco, de onde vem, até chegar ao RS, mais que a enorme distância, separa-o o milagre. Milagre que pôs o livro em minhas mãos por essas atalhos especiais que só os vínculos estéticos somados aos humanos propiciam.

Tenho lido pouca poesia (porque pouca poesia tem sido publicada) e relido muita, os clássicos (porque estes, adotados, são os únicos diante dos quais o editor não arrisca).

Versilêncios abre-se já a partir do título, multifacetado, com a tripla carga semântica do neologismo que a poeta criou para batizar seu filho, ufa!, não enjeitado (bendito prêmio...). “Ver silêncios” (poesia, afinal, é imagem, embora também música, e se até o silêncio fala ao poeta, este o desenha em suas metáforas-traço). “Ver” soma-se à primeira sílaba, “si”, de “silêncios”, numa junção que dá em “versi”, “verso” em italiano, e basta pensar em Dante, não exatamente no livro lembrado, mas inevitável quando se pensa em poesia e em italiano, para ver a intensa riqueza significadora do título. E ainda: “Versos” e “silêncios”, isto é, “versos silenciosos” – melhor tradução para o projeto de extremo rigor e de pleno acerto que Gerusa atinge como poeta.

Eis a tripla encruzilhada que, antes de obstáculo, é abertura para um caminho mais amplo à procura de uma leitura de fato entregue a esses cinquenta poemas singulares.

A poética de Versilêncios é construção rigorosa, com versos esculpidos, talhados, não tivesse, pela força do ritmo, uma fluência cuja harmonia atinge em cheio sua cadência nunca dura, nunca seca, mas, sim, quase sussurrada e, desta forma, buscando lírica rara: a marcar exatamente porque escolheu entremostrar-se e não o contrário, que é exibir-se com os excessos comuns de uma poesia que não passa de prosa ritmada ao extremo.

A edição, evento a ser saudado, sobretudo pelas dificuldades que sempre cercam tal fato, está à altura, com introdução e posfácio críticos, ambos de fôlego e com leituras que não causam eco, que não chovem no molhado. Um pouco pela qualidade dos ensaístas, André Cervinskis e Stéphane Chao, um pouco pela própria poeta, que não descuida de um único verso, que escreve silabando. E que, ainda que chegue ao zelo infinito de medir cada som, não se exila do discurso próprio da poesia, o do paradoxo, o da permanente refundação do mundo e da inacabável instauração do real. Um real que é sempre outro, não este, no qual escrevo.

Citar um poema? Cito um inteiro, o primeiro, no qual a poeta, sem demora, já mostra ao que veio: “não escrevo o que não sinto / amadora que sou / sinto o que não escrevo / jeito de amar a dor // escrevo o que não sinto / salvo a vida / não sinto o que não escrevo / nem percebo que vivi”. Dividido em doze seções, Versilêncios nos leva para um território onde tudo o que lemos-escutamos só grita nos instantes (muitos) em que a beleza é tanta que nos impõe uma resposta: a da emoção estética forte, manifestada em geral quando diante de um livro muito acima da média.
É o caso.
Gerusa Leal. Anotaram o nome? Procurem no blog (olhem que belo nome) Flor de Gelo, endereço: http://flor-de-gelo.blogspot.com/ e tudo que eu não disse aqui alguém terá dito por lá. (24/10/2009)

domingo, 28 de junho de 2009

UM POEMA PARA SEMPRE (e um aniversário)

Tenho cruzado muito eventualmente com Paulo Seben, saio pouco de casa, não sei dos passos do meu xará, mas sou mesmo um bicho-do-mato, não bastasse o Seben ser gremista e eu, colorado. Mas vamos ao que interessa.

Seben está de aniversário hoje, faz 49 anos, um guri! Bem, ainda não é a pauta, que bichos-do-mato não freqüentam festas de aniversários, sobretudo as de 49. Ainda se fossem as de 25, 30 anos, podia rolar alguma coisa...

Professor de literatura na UFRGS e – atenção! – poeta. Sim, o Seben, que 90% da gurizada conhece, é um professor daqueles, fodões, exigente, mas aplicado e generoso na clareza com que expõe os conteúdos do programa que herdou e que, inteligente, renova. Mas e o poeta?

Aliás, bota poeta nisso. Qualquer dúvida, busquem ler e reler seu livro Tango da Independência (Unidade Editorial da SMC-POA, 1995). Há outros, poucos, que o poeta e ensaísta Seben, também fodão, e, assim, criterioso ao máximo, publicou. Pouco (e bem). Hayde e o Homem-Tronco (fevereiro de 1988, disponível desde 2004 no site www.lojadosubsolo.com), Poemas podres (parcialmente escrito na década de 1980), O Uraguai, de Basílio da Gama (Ed. Feevale, 2001, e reescrito e reeditado agora para a Leitura XXI), Caderno Globo 33 (Instituto Estadual do Livro, 2002), A Escrava Isaura (adaptação para neoleitores, L&PM, 2003), além de ter participado de algumas antologias legitimamente antológicas e não meras coletâneas.

Bem, a melhor forma de comemorar o aniversário de um homem, se ele é um poeta, é mostrando o poeta que ele é. E há um poema de Paulo Seben que resume o que é a trajetória de quase todos nós, homens, e dos poetas incluídos, “Caminho”. Leiam esse poema, façam-me o favor. Eis toda a odisséia possível, a do precário, flagrada num instante de travessia de um ser com o qual é impossível não nos indentificar. Além do que, falando em poesia, identificações à parte, o poema, por si só, vale mais que isso. É um mundo novo, instaurado. No caso da obra-prima de Seben, sem favor algum um dos dez melhores poemas já produzidos ao extremo sul do País, um novo mundo na medida que nos restaura o mundo de sempre, perdido no cotidiano sem voz para expressá-lo. E que Seben expressa como raros.


CAMINHO


Paulo Seben



Um homem de mãos nos bolsos
cruzando a praça vazia.
Talvez em meio à garoa
ou restos de cerração.
O fato é que está sozinho
e tem nos bolsos vazios
as duas mãos impotentes.
O fato é que está vazio,
e as suas mãos tão sozinhas
cerradas nos bolsos vão
sem poder nem ir à toa.
Caminha rumo ao patíbulo.

As mãos seguram a vida
que tenta fugir dali.
Os dentes cerrados cortam
a língua que quer sair.
Os lábios cerrados calam
a voz que iria gritar.
Caminha rumo ao patíbulo
no frio da antemanhã.

Se houvesse sol, se ele abrisse
os braços pra perguntar
por que caminha sozinho,
por que um bolso é algema,
por que há neblina sempre
e praças que atravessar...

O sol não há. Não há gente
a quem fizesse a pergunta.
Caminha trôpego e chuta
pedrinhas em gol nenhum.
Caminha rumo ao patíbulo
e não deseja chegar.



do Caderno Globo 33 (IEL – Instituto Estadual do Livro, 2002)


Acho que chega. Não tenho mais nada a escrever. Só a ler. E a reler. Como vocês. O aniversariante de hoje merece. (28/06/2009).

sábado, 2 de maio de 2009

A REINVENÇÃO DA LITERATURA


Autores brasileiros contemporâneos provam a vocação
que a literatura possui para jamais ser estática,
mesmo quando busca o reconhecimento





O escritor argentino Julio Cortázar (1914-1984) declarou certa vez que quando se sentava para escrever era como se a literatura não existisse e ele tivesse de reinventá-la. Estávamos em época de ditadura militar, e a saída para o discurso possível era o realismo mágico, que pela própria natureza – sem ser, necessariamente, gigante – gerou alguns gigantes: o próprio Cortázar, García Márquez, Juan Rulfo, Carlos Fuentes etc. No Brasil de então brotava o primeiro – e melhor – Moacyr Scliar (o dos contos de Carnaval dos animais e das novelas A Guerra no Bonfim, O exército de um homem só e Os deuses de Raquel) e um clássico pouco falado atualmente, José J. Veiga (de Goiás, mas bem editado e aceito no centro do País).
Era uma reação estética saudável a uma situação política doentia. Mas e hoje? Hoje, a pressão é outra. Deixou de ser especificamente opressiva no sentido de que deixou de ser política. Mas passou a ser multiplicada opressivamente porque é de ordem econômica e gerada pelos estragos que a sociedade de consumo causa, tendo atingido, pelo visto, seu apogeu.
Tenho uma filha de nove anos que, grande leitora, no entanto não escapa impune à obrigação de consumir modismos incontáveis e caríssimos, sem os quais ela estará fatalmente marginalizada dentro do grupo escolar que frequenta. Seus únicos pares. A literatura não escapou dessa armadilha, e procura – como um pai procura na equação filha = mundo – achar uma linguagem que dialogue com a dança referencial de um real que encontre legitimidade na fantasia que escraviza, não na fantasia que liberte.

Saturado de tanto emplastro para escamotear as dores seculares do mundo (emplastros que agora nascem do enterro sistemático do que a tradição criou como ponte para atravessarmos com um mínimo de segurança o nosso próprio tempo), o escritor ou revida – com uma bem-fornida mimese – essa profusão de referenciais cuja hegemonia dura um ano e cuja eficácia e profundidade não duram mais que os primeiros parágrafos, ou a pega no contrapé através de um movimento com o qual ela não contava: o da linguagem.

No primeiro caso, o da mimese, encontramos na obra do mineiro radicado em São Paulo Luiz Ruffato a resposta renovadora. O que poderia ser anacrônico ou assopro cansativo sobre as cinzas da História de fundo social emana brasa viva a revivificar sobrevivência, violência, migração para a grande cidade do centro do País, o ruidoso e caótico movimento de descendentes de italianos saídos de uma Cataguazes de portas fechadas para uma São Paulo que os joga direto na garoa mais noturna e fria. Grupos que há 30 anos eram chamados de lumpemproletariado, de rebotalhos da classe média baixa, de classe trabalhadora em áreas onde a modernização recém chegava para roubar empregos, não para muni-los de novas e eficientes ferramentas. Famílias dizimadas, luta e luto, e impunes ficam apenas o que se engessam num território onde o passado, mesmo enferrujado, ainda dá as cartas, bocejando.

Em Ruffato, você confere tudo isso na sua série de cinco romances, Inferno provisório, que abriu com Mamma, son tanto felice (176 pág., R$ 27,00), continuou com O mundo inimigo (208 págs., R$ 27,00), depois com Vista parcial da noite (160 págs, R$ 31,00) e da qual saiu não faz muito O Livro das impossibilidades (160 páginas, R$ 31,00), todos editados pela Record. Trata-se de meio século de transposição de um mundo vocacionado para o decomposto. O poder fraudulento, uma comunidade à deriva agarrada pelos intensos medos que alimenta, a carroça desgovernada da crônica dos fatos oficiais, carroça sobrecarregada de gente sem rumo – sem rumo herdado e sem rumo construído.

O mimetismo em Ruffato é total, sem os arranjos que se faz no mundo aí fora em busca da ilusão de que ele pressupostamente funcione. Não há truque no ficcionista. Tudo é exuberância na voragem de um caleidoscópio do precário. Narração e diálogos se misturam. As mais marcantes aventuras são as desventuras que ninguém contaria, por horror ou vergonha. As figuras que Ruffato faz reencarnar, reencarnam mesmo, e tem o peso de fantasmas de carne e osso. Inferno provisório é um ciclo romanesco, e só essa arquitetura ambiciosa (paradoxalmente construída com resíduos: de memória, de descrições no limite dos gêneros, num alucinado ritmo elíptico) já garante para o escritor a singularidade própria dos que, mesmo olhando para trás, reinventam a literatura.


A literatura como personagem

Não é de hoje que o artista ou a obra são convocados a dar as caras, a emprestar suas vozes à personagem principal. A atuar. A copista de Kafka, de Wilson Bueno (Planeta, 200 págs., R$ 35,00) faz de Felice Bauer, noiva de Franz Kafka (1883-1924), a copista que recebe do grande escritor textos para transcrever. Textos que nunca chegarão às mãos de Max Brod, o amigo que o traiu quanto à vontade do escritor, no leito de morte, de que sua obra fosse queimada. Bueno cria uma “recriação” de ambiente e de papéis suspeitos. A fidelidade de Felice, paradoxalmente, destrói obras de que até então nunca ouvíramos falar, como um bestiário (tipicamente kafkiano: o inseto em Gregor Samsa, o tatu em “A construção”, o abutre afogado no sangue da própria vítima...), enquanto nos revela, no livro que Bueno organizada, intercalando trechos cronologicamente ascendentes dos diários da copista com narrativas que incorporam na trama, no estilo, nas referências, na ótica diagonal sobre o mundo opressivo, o universo ficcional de Kafka, obras que estariam para sempre perdidas, não houvesse sido escrito este livro. Todos os textos, menos as cartas, ela queimou. Não o traiu. Mas traiu-se. Irônica comparação a Brod, que traiu descaradamente, e legou o bem que nos legou. Somos o abutre?

Alexandre Plosk, em As confissões do homem invisível (Bertrand Brasil, 392 págs., R$ 49,00), convoca os modelos de O Homem Invisível, de H. G. Wells, O Horla, de Guy de Maupassant (L&PM Editores, esgotado), O Homem de Areia, de E T. A Hoffmann (esgotado), e traz para a contemporaneidade carioca um modelo aterrador e uma brecha metafísica permanentemente aberta: a da diluição do eu.

É com tal ambição de olhar que a literatura permite e, mais, pressiona os escritores a que achem novos modelos, atalhos, arquiteturas. Não os deixará em paz nunca, como não deixou a um outro argentino, Jorge Luis Borges (1899-1986), que passou a vida toda anunciando-se mais como leitor que como escritor, e que inventou (enquanto personagens e temas) obras, autores, estilos, literaturas, um novo cânone a partir do qual – mesmo irreal e mágico – podemos guiarmo-nos na direção garantida de uma literatura comprovadamente nova. (02/05/2009)

domingo, 26 de abril de 2009

O ATELIER DA PALAVRA

A poeta e artista plástica Sandra Ling, à luz do post anterior,
cria em cima do decálogo proposto e faz outro percurso, amplia as direções,
vasculha as possíveis liberdades. O que era “oficina” vira “atelier”,
mais próximo da casa, e o que era “escritor” vira “palavra”,
conceito mais amplo.


Só vivendo para ter palavras.
Escrever não tem hora para começar, e cabe a cada um ser fiel a seus impulsos, sabendo-se ouvir para poder falar.
Deixe a criança descobrir o mundo através de seus próprios olhos, próprios pensamentos, próprios desenhos, deixe-a principalmente brincar, deixa-a ser criança.
Uma criança depois que aprende a desenhar nunca mais consegue fazer aqueles traços espontâneos de grande beleza e vivacidade da infância, depois será um desenhista que a gente olha, vê que faz um desenho maravilhoso, mas é de adulto. Para escrever também acho que a frescura das palavras e das idéias é como a mente de uma criança, original; portanto, diria aos pais (que sempre se antecipam para que o filho tenha o que eles não tiveram), não se precipite em nada, principalmente com a leitura. Ter livros na casa, os seus, os seus prediletos, é a melhor forma de um dia seus filhos se interessarem pela leitura, mais do que comprar para eles ainda muito cedo.

Com um adolescente acredito que a palavra brincar troca de nome e vira namorar, namorar o outro, a vida, a natureza, descobrir mais, estar presente, olhar, observar, sentir, sofrer, errar, passear, viajar, e, sobretudo, pensar – para depois ter o que escrever.

Ao adulto é preciso que não perca nunca sua criança para conseguir criar, escrever, sim, escrever – este ato que será desenvolvido lendo, lendo, lendo por toda a vida.

Cada pessoa tem a sua hora para se iniciar na escrita. Alguns iniciam bem cedo, como um forte chamado. Porém para muitos é um processo que se instala nas mais diversas fases.
Pode se iniciar com frases lidas, frases das quais gostamos bastante, copiando-as; pode ser escrevendo pensamentos que nos marcaram e que tenham forte significado para nós, ou, mesmo, algo que precisamos pensar acerca de, ou qualquer coisa que nos abrace num certo momento. Não existe um jeito único de começar, nem do que escrever e nem um tempo que seja o adequado ou o melhor para isso. Simplesmente escreva se tiver vontade e mesmo necessidade, mas, insisto, não tenha pressa de nada: a pressa atrasa, pois tira você do caminho de achar sua essência, e isto leva tempo, principalmente para achar um gênero. A busca é de encontrar o que você tem a dizer, e o modo aparecerá pela repetição, uma vez que quando gostamos de algo, fazemos várias e várias vezes. Com a repetição, o tal gênero irá certamente revelar-se.

E quando você tiver em sua gaveta, bem escondido, escritos seus, muitos, olhe o conjunto, que é o mesmo que olhar para você mesmo, e sinta o que mais lhe agrada, que pode ser o som, o significado, a forma. Você vai descobrir ali a semente para desenvolvê-la ao longo da vida.

Selecione o que mais tenha significado para você e nesta hora acho positivo então procurar uma oficina do gênero escolhido no momento (que poderá mudar ainda ao longo do processo), e ouvir alguém mais experiente para lhe mostrar caminhos, abrir mais seus olhos, lhe indicar leituras – de alguma forma, tudo isso pode ser decisivo. Mas também não esqueça que qualquer coisa que você escreve é importante. Pode não ser para os outros, para o crítico, mas para você é você naquela hora em que você criava, é o seu melhor naquele instante. Então guarde para si, não joque fora, não precisa mostrar para ninguém suas primeiras escritas, mas guarde.

Depois, a cada texto, acostume-se a deixá-lo dormir um pouco para retomá-lo com outro olhar num outro dia, num outro estado emocional, com outro ritmo, pois assim como as tintas de uma pintura de um dia para outro mudam de cor ao secarem, as palavras não mudam, mas nós mudamos, e este outro olhar sempre verá coisas novas, se necessário coisas a mudar ou não.

Mostre-as a algum crítico competente, que será um ajudante, um alerta, mas não deixe também de mostrar ao seu amor, a seu melhor amigo, a seus filhos, mostrar apenas como se lhes estivesse dando um beijo, dando um pouco de si e, assim, conseguindo ouvir a crítica caseira.

Quando o seu texto ou poema ou seja qual for o gênero escolhido estiver pronto, um livro já montado, seja exigente na hora de publicá-lo.
Seja exigente na mesma proporção que você se exigiu ao fazê-lo.

Saiba ouvir os elogios como um aditivo, uma motivação, sem nunca esquecer que o elogio é para o que já está escrito. O que virá vai depender do foco que você continuar a manter. Escrever será sempre um desafio para consigo próprio, a cada texto novo.
Entre no desafio, entre na vida. (26/04/2009)

segunda-feira, 20 de abril de 2009

A OFICINA DO ESCRITOR

Depois de quarenta anos lutando com palavras (a luta menos vã) dá para afirmar: escrever é um ajuste de contas com a verdade que ficou oculta e ameaçava não ser descoberta nunca mais. Uma isca para pescarmos a emoção que ameaçava ficar trancafiada porque sem ter uma voz que a traduzisse.

A literatura é essa voz forte o suficiente, expressiva o suficiente para dizer o tamanho todo dessa emoção.

E aí, se não escrevermos, trairemos a nós mesmos. Trairemos a todos que poderiam saber de nós o quanto estamos vivos. Trairemos a vida, se não escrevermos.

E se escrevermos, a vida tornar-se-á ainda mais viva, mais bela, mais legítima porque melhor desenhada – em palavras. Os que leem poderão escutar a vida como ela nunca foi escutada antes.

Os que desejam escrever – se desejarem de fato – escreverão. E se hesitarem aqui e ali, um dia ou outro, insistam, briguem consigo mesmos, mas... escrevam!


DEZ MANDAMENTOS PARA ESCREVER O MELHOR QUE FORMOS CAPAZES DE FAZER E, ASSIM, O MELHOR...

1) Leia, leia, leia. Só lendo muito entraremos em sintonia fina com a prosa do mundo, com a poesia do mundo, com as ideias do mundo, com a música verbal, o ritmo sonoro dos animaizinhos que se escondem nos dicionários ou que saltam caoticamente da boca das pessoas, sem um cuidado maior. Lendo, lendo bastante, quando sentarmos para escrever, estaremos tão contaminados de um ruído saudável e rico, de um cinema feito só de palavras mas tão vasto e múltiplo, que na hora de colocarmos nossas ideias no papel, elas naturalmente sairão fortalecidas pelas ideais dos demais, os que publicaram e a quem lemos, e pela forma como eles escreveram, e então nossa forma será mais plena, mais contagiante porque contagiada. Não se pode amar sozinho. Não se pode escrever sem encontrar correspondência nessa fonte viva que é a literatura de todos os tempos. Só mergulhando nela seremos capazes de escrever como escritores de fato, como seres amadurecidos dentro de uma região que é exatamente aquela onde nosso texto deseja habitar.

2) Escreva, escreva, escreva. Escrever não é escrever. Escrever é REescrever. O exercício contínuo da criação nos torna – assim como um ginasta que treina todos os dias – capazes de atingir plenamente o que planejamos criar. Não basta querer, desejar, ou, até mesmo, estar inspirados. É preciso, como um jogador de futebol que treina quase diariamente, ficar em forma para que nossa vocação e nosso dom encontrem seu ritmo perfeito, adequado, suficiente. Primeiro eu faço um copião, quase – desculpem a palavra – um vômito. Depois eu viro leitor de mim mesmo, mas um leitor o mais distanciado possível, e transformo – numa segunda redação – o que foi uma enxurrada num curso d’água melhor dirigido, e afinado. Mas essa primeira revisão e segunda escritura (ou REescritura) é apenas o segundo passo de, digamos, uns cinco.

3) Deixe o texto dormir. O texto, como o ser humano, se não dorme fica perturbado, imperfeito, precário, doente. O texto precisa de tempo, e depois de um certo tempo, pode ser encarado por seu autor sem as ilusões com que seria encarado na primeira redação, quando o autor ainda está um tanto cego, impelido pelo primeiro empurrão que é a própria ideia ou necessidade de escrevê-lo, ideia quase nunca clara e, sobretudo, em termos de acabamento, nebulosa, com altos e baixos. Depois de dormir o suficiente, o texto se mostra tal como é, e quem o escreveu já consegue um distanciamento maior, melhor, e não se sente tão comprometido assim ao ponto de ter dificuldades de passar-lhe a faca! Nesta hora, passa mesmo. Corta o que está demais. Completa o que está de menos. É a terceira escritura ou a segunda REescritura. Poderão haver mais uma ou duas, nunca se sabe.

4) Mostrar a quem sabe, a quem deseja e costuma ler. Com todo o respeito aos amores e aos amigos e aos familiares, mostre o que você produz em literatura a quem conhece literatura. A outros escritores, críticos, a gente pouco comprometida afetivamente com você e que por isso mesmo saberá lê-lo sem enfrentar dificuldades na hora de apontar alguma insuficiência no seu texto. Gente diante da qual você pode ficar absolutamente confiante quando receber um elogio, porque será um, digamos assim, “elogio a frio”, isto é, ditado tão-somente pelo reconhecimento do seu talento, da qualidade do seu texto. Aliás, o elogio terá sido feito ao que você escreveu, não a você. Você pode ser amado e escrever muito mal. Isso é um perigo. Você pode escrever muito bem e não ser amado, o que é uma desgraça. Convém não confundir as duas condições. Seja amado pelo que é como pessoa (pelas pessoas que o amarem, algo fora da literatura) e seja criticado pelas pessoas vocacionadas para lê-lo e analisarem o que você faz, sem cometerem o equívoco de dizer que você é um gênio só porque é simpático ou dizerem que é um medíocre só porque você não dá bola pra elas. Seu texto tem vida independente de você e é assim que deve ser julgado. Portanto, por pessoas independentes das suas relações. Ou, no mínimo, mesmo sendo das suas relações, com a independência necessária (neste caso, o que não é fácil de encontrar).

5) Saiba receber uma crítica. Ou melhor, vibre. Diz o “Eclesiastes”, “Vaidade, tudo é vaidade.” Quem legitimamente deseja escrever, imagino eu, deseja escrever bem, fazer o melhor (o que vale para todas as áreas). Ora, se queremos o melhor, não queremos cometer erros, realizar obras frágeis, imperfeitas. Assim, todo senão, toda crítica que nos alerta das nossas limitações, que nos avisa que o que fizemos não está bem, puxa!, é uma bênção. É preciso ter uma qualidade humana admirável – a da autocrítica – para estarmos preparados para receber a verdadeira crítica, aquela que não nos leva para compadres e que têm a honestidade de nos acordar, avisando que as coisas não correram bem dentro do projeto ao qual nos propusemos. É preciso vencer a barreira da vaidade, do orgulho, para só aí compreender de fato o que esta crítica diz e então enxergarmos com clareza as deficiências do que eventualmente cometemos para que não venhamos a repeti-las no futuro e para que consigamos salvar o projeto defeituoso, aperfeiçoando-o a partir dessa crítica aparentemente nada amiga, porém, na verdade, esta sim, crítica amiga, porque produtiva, útil, não enganadora.

6) Desconfie dos elogios. Ou melhor, preocupe-se. Conheço mais injustiças a favor que injustiças contra. Ou seja, gente que não escreve nada mas que, por ter boas relações políticas, acaba sendo “engolida” como se engole sapos. Medíocres considerados existem milhares. Gênios incompreendidos, uma dúzia, se tanto. É preciso ter a força e a coragem de dispensar os elogios cujo único objetivo é manter a “casa em ordem”, ou seja, visando apenas os interesses da boa convivência (que “boa convivência” é essa se ela só esconde a verdade?). Eu aprendi, desde cedo, que a pessoa que me dava um tapinha nas costas e dizia “Paulo, está uma maravilha” não tinha nada para me ensinar e, na verdade, era inconfiável. E que a pessoa que me fazia uma cara de preocupada, ou constrangida, e me comentava, “Olha, Paulo, bem, quer dizer, sabe?, isto que escreveste, até que começa bem, mas, lá pelo meio, eu acho que tu te perdes um pouco, e tem muita informação sobrando, desnecessária, e tu deves centrar o foco da tua narrativa no conflito central das personagens, e não ficar dando tua opinião sobre as coisas” etc., a pessoa que me mostrava que eu tinha uma pedra no sapato, esta estava me fazendo um enorme favor. Melhor ainda, estava me salvando: fazendo com que eu ganhava anos de vida, economizando um tempo incalculável que eu perderia em enganos se ela ficasse, por educação, só me enrolando, dizendo que estava bom e pronto. Se safando socialmente em nome da camaradagem enquanto eu continuaria, enganado, cometendo os mesmos e velhos erros. O elogio é terrível. Até mesmo quando merecido, ele só não é dispensável (afinal, é merecido), mas deve logo, logo ser deixado para lá. Porque se o escritor concentrar-se demais no elogio recebido, grande é a chance de ele vir a relaxar, descuidar de seu processo criativo. Toda criação geralmente brota de desafios e enigmas. E quem se deita na rede dos elogios recebidos, não se sente desafiada e nem enxerga enigma algum a sua frente, só certezas. E de certezas não se constrói nada além do que todos nós já conhecemos. Perde-se a capacidade para abrir novos caminhos e arriscar. E então viramos escritores comuns, previsíveis, desinteressantes. Movidos só a elogios que buscamos satisfazer e não à saudável exigência de nos superarmos a cada novo livro. É essa superação (nascida sempre da autocrítica) que garantirá a cada novo livro um novo – e grande – passo. Ou seja: apenas a insatisfação é capaz de semear o que têm chance de satisfazer de fato.

7) Escolha um gênero. E fique nele. Dificilmente um único escritor é um bom contista, um bom poeta, um bom romancista, um bom cronista e um bom ensaísta. Isso até existe, mas são exceções, tão raras, que entre 500 nomes que facilmente lembraremos de gente que acertou num único gênero encontraremos somente dois ou três nomes que acertaram em mais de um. Até dois gêneros pode ser, mas gêneros, digamos assim, irmãos. Como prosa de ficção e crônica, vide Luis Fernando Veríssimo. Ou o argentino Julio Cortázar, em narrativa longa (seu romance O JOGO DA AMARELINHA, por exemplo) e os contos, pelos quais ele é mais conhecido (AS ARMAS SECRETAS, OCTAEDRO e mais uns dez títulos). Exceções. A regra é Drummond: poeta, mesmo que tenha escrito um livro de contos e uma meia dúzia de livros de crônicas. Erico Verissimo é romancista, mesmo que tenha escrito livros de viagens, de contos, de memória. Na verdade, muitos autores aventuram-se em mais de um gênero, mas acertam, plenamente, em só um. É normal. Todos nós, afinal, temos uma dicção, um ritmo, um olhar sobre o mundo, os homens, as coisas, a vida. Essa ótica é uma das definições de gênero. Erico Verissimo tinha fôlego de romancista, e seu fôlego contaminava sua imaginação, que convocava várias personagens e várias situações só cabíveis numa narrativa longa, como o romance, nunca como o conto. Uma vez eleito qual o gênero para o qual você se sente vocacionado, aconselho a que leia os melhores autores desse gênero, para que você fique na freqüência certa do gênero que escolheu. Quando dedicar-se a praticá-lo, vai já estar familiarizado com os desafios naturais do gênero que desejava desenvolver. E poderá vencer seus desafios com mais facilidade. Como no futebol, goleiro é goleiro, centroavante é centroavante, na literatura, romancista é romancista, poeta é poeta, autor de literatura infanto-juvenil é autor de literatura infanto-juvenil. Quem não conhece Ziraldo? Quem não conhece O MENINO MALUQUINHO, FLICTS, ABZ? Certo. Mas sabiam que ele escreveu um romance para adultos? Deu tão errado que ninguém lembra nem o título do livro. Nem eu.

8. Publicar mal é pior que ficar inédito. Uma vez escrito seu livro, da melhor forma e com opiniões confiáveis, é hora de publicar. E aqui entra uma revelação que poucos sabem. Publicar bem é tão difícil quanto escrever bem. E publicar por publicar é publicar mal. Nesse caso, melhor ficar inédito. Seu livro ainda tem chance em concursos literários para inéditos e continua a ter chance com uma boa editora, vá lá se saber. Publicar bem é simples, embora complicado. TEM DE SER somente com as boas editoras, que são RARAS, repito, RARAS no Brasil, umas oito ou dez, não mais que isso, entre mais de 300 editoras associadas na Câmara Brasileira do Livro. Só estas oito ou dez farão: 1) uma edição visualmente atrativa e com um acabamento caprichado e seguro, costurado, com capa plastificada; 2) uma boa distribuição e comercialização, o que é fundamental para seu livro circular e, portanto, ganhar visibilidade; 3) uma boa divulgação junto à mídia, proporcionando chances de você ser comentado nos espaços culturais; 4) promoções em Departamentos de Marketing (as boas editoras, RARAS, repito, têm departamentos de marketings). 90% das editoras nunca tiveram, não têm nem terão isso. No Rio Grande do Sul só existem duas editoras que se pode chamar de profissionais. Uma publica literatura, outra, só livros técnicos. Todas as outras estão em Rio e São Paulo. Nenhum outro estado possui uma editora decente.

9) Antes de publicar, teste seu livro em concursos literários. Os concursos literários são a melhor vitrine que existe para o autor ainda não consagrado. Mas existe um importante cuidado que devemos tomar: o mesmo da crítica do compadrismo e o da crítica para valer vale para os concursos. Só vale a pena participar de concursos sérios. Poucos são. A maioria dos concursos são caça-níqueis, cobram inscrição (nunca participe de um concurso que lhe cobre inscrição) e dão de prêmio apenas diplomas, troféus ou publicação numa coletânea com mais uma dúzia de gente que nada tem a ver com a literatura que você faz. Concurso sério SEMPRE tem dotação orçamentária para pagar um prêmio ao vencedor, e isto já é um atestado de seriedade, de acerto em dar a devida valorização ao ganhador. No Rio Grande do Sul, prêmio sério é o Josué Guimarães, da Jornada Nacional de Passo Fundo, por exemplo. No Brasil, o Prêmio Luiz Vilela de Contos, o Ignácio Loyola Brandão, de Araraquara, em São Paulo. Estes todos para contos isolados. Já o Prêmio Minas de Cultura, e o Prêmio Nacional de Ficção da Bahia são para livros inéditos adultos. Para infanto-juvenil, o Barco a Vapor, das edições SM. E ainda tem o Casa de las Américas, em Cuba. A cada ano mudando de gênero (conto, romance, infanto-juvenil, ensaio). Para livros publicados, o Jabuti, o Portugal Telecom, o Cidade de São Paulo, o Biblioteca Nacional e o da Academia Brasileira de Letras. Nos prêmios para livros inéditos, você beliscando um desses, já terá a porta aberta de alguma editora. Os editores consideram um prêmio desses que citei um aval mais que suficiente para eles publicarem você. Vale a pena tentar, não é?

10) Não ser premiado não significa nada. Insista! Conheço maus livros que ganharam importantes prêmios (às vezes a comissão julgadora é muito heterogênea e não chega a acordo algum nos seus votos, levando a um resultado imprevisto) e conheço ótimos autores que concorreram a, digamos, dez prêmios, não ganharam nenhum, e depois de publicados caíram nas graças da crítica. Portanto, ganhar um prêmio é ótimo, ajuda na sua carreira, mas não ganhar não significa que seu trabalho não tenha valor. (20/04/2009)

quinta-feira, 16 de abril de 2009

O MORTO QUE NÃO ENCONTRAVA O CÉU


Pessoal, taí a carinha do meu novo livro, já à disposição dos interessados. A seguir, informações sobre o moço.

O morto que não encontrava o céu
de Paulo Bentancur
WS Editor
Série Infanto-Juvenil – 40 p. – 16 x 23 cm
ISBN 978-85-7599-099-5
R$ 16,00
Faixa etária recomendável: 9-12 anos


Fim de semana. Sábado e domingo com ótimas chances de dar em aventura. Felipe, um menino pra lá de curioso, sai a caminhar pelo bairro, o seu mundo particular e, também, o mundo de tanta gente que mora por ali ou não mora, mas costuma passar pelo lugar. Felipe gosta de um bom papo, não resiste a investigar cada detalhe da realidade. Mas... O que é a realidade? Ora, aquele cara que agora mesmo vem ali! Quem? Aquele sujeito! Rosto estranho. Modos estranhos. E Felipe, sem dar-se conta, foi parar perto demais do cemitério.

Diante de Felipe surge um homem muito difícil de ser descrito. E que busca uma coisa que ninguém busca. Pelo menos ninguém que até aquele dia Felipe tenha conhecido.

História de terror, com todos os sustos imagináveis e inimagináveis. E não bastasse o terror, tem o humor, muito humor. No mínimo para a gente rir de nervoso. Aquele encontro muda a vida de Felipe. Muda para sempre. Ele passa do susto inicial a sustos maiores. Até o susto derradeiro: não ter certeza se está... vivo!

Pedidos pelo fone/fax: 0 xx 51 3029 7018 / 7028 / 7038
E-mail: wseditor@wseditor.com.br
Home-page: http://www.wseditor.com.br
Rua Bernardo Pires, 492 – 90620-010 - Porto Alegre - RS


Era isso, por enquanto. A partir deste livro, muita coisa vem por aí. Espero que nada parecido com o que aconteceu a Felipe... (16/04/2009)