domingo, 14 de setembro de 2008

ARESTAS, APARAS, ARTE 2


Autocrítica

Shakespeare sabia tudo de Ben Johnson e nada de William Shakespeare.


Os cachorros

A obra, como um carro, corta a estrada, vêm os cachorros – o público –, e latem, como se fossem morder o metal blindado contra sua curiosidade de gengivas escuras.
A obra, como um carro, corta a estrada, estaciona nas livrarias, há latidos nos jornais, há rosnares, babas de fome por outra coisa, e logo desistência, a comprida língua de fora pelo fôlego curto, o rabo entre as pernas, o carro longe, esquecido.


Não perguntem ao autor

O homem termina mais uma de suas peças. Lê novamente o que acabou de escrever, francamente incomodado. Mais que as dúvidas habituais que assaltam os que pensam e produzem, em regra pressionados por prazos, o espírito do homem é tomado de um tormento já rotineiro: novamente vê no que criou a marca do excesso, do imperfeito.
Relê tudo com uma atenção desconsolada. Lá estão, bem claros, o enredo improvável, cheio de episódios de exceção, os personagens descontrolados, neuróticos a um passo do inverossímil, e suas falas então, literárias em demasia, de uma profundidade só cabível a um artista, não a um homem ao qual a arte não elegeu.
Sente-se incoerente esse homem que escreve. E, mais que incoerente, falho. Aceita a incoerência (não é ela moeda corrente em suas obras?), assim como aceita o descontrole emocional, o ridículo nos atos das criaturas que põe em cena, o despropósito de suas decisões, a natureza quase bestial de algumas, quase divina de outras. Aceita isso, sim, mas aceita como aceitamos um ritmo cego que nos toma e nos carrega e logo que ele acaba saímos em outra direção.
E tudo isso que o homem escreve é feito numa linguagem que pinga, ressuma, reverbera. Muita música, muita imagem, muita ação, muita legenda. O homem sente-se francamente cansado. Cansado de tudo. Sabe que errou miseravelmente em seu projeto estético. Perdeu desde a primeira linha a possibilidade do equilíbrio. Qual seu destino?
Evidente: cair. Cair do mais alto sonho até a mais baixa realidade. O mundo é impiedoso, disso ele sabe. Que glória poderá esperar? Nenhuma. Claro que nenhuma. O consolo é o relativo sucesso mais imediato – por enquanto ele está vivo e é isso o que mais importa – que seu trabalho faz junto ao público, vulgar, como se sabe.
Quando acaba o espetáculo, ele volta para casa, e logo já bola outra peça descabelada, outro exagero, outro conjunto de vilanias, ridículos, incongruências, únicos sinais que lhe acenam e depois dos quais ele duvida que tenha chegado ao ponto certo.
Um dia morrerá, não se ilude, tudo terá acabado, mas as dívidas não se acumularão, alguma herança material restará, e se seu nome – William Shakespeare – tiver sido varrido da face da Terra, ele não estará presente para lamentar esse resto de silêncio. Até porque concordaria com ele.


O grande consolo

Shakespeare, como a maioria de nós, não sabia o que estava fazendo.


O necessário

É preciso fazer para saber o quanto falta.


O prêmio

Se a coragem é insensata, se o risco é suicida, levam consigo a vida (este prêmio) e a entregam à morte, esta sim sem sentido.
Se o medo é seguro, se o recuo nos mantém na sobrevida, quando a morte chegar – mesmo que demore –, só aí trará um sentido para o que antes não tinha nenhum.


Pensar, esta indelicadeza

Filosofar nada mais é do que enfim esticar os pés da inteligência herdada no berço, herdada mas que não pode ser exercitada em convívio.


Trabalho

O trabalho nos trabalha.


Rotina

Há um enigma enorme na obstinação da rotina.


Tempo mínimo

Leitura é tarefa mais infinita que o amor. Um dia o amor esgota. Um dia o amor aplaca. Um dia o amor desama. E custa a se renovar. E quem amou duas vezes na vida, ou três, já amou muito e pode dar-se por satisfeito. Mas ler...
Imagino três coleções apenas, três súmulas do conhecimento humano e da arte: a enciclopédia espanhola Espasa-Calpe (em mais de cem volumes), a Biblioteca universal de obras célebres (em cerca de 50 volumes) e Vidas ilustres, de Plutarco, que chega a uns 30 tomos. Só esses três monumentos (após cuja leitura poderíamos nos dar por satisfeitos e prontos para olhar o mundo com um mínimo de consciência) levariam mais de trinta anos para serem lidos. Só três coleções! Imagine-se os 200 autores inevitáveis, obrigatórios, os dicionários a serem consultados com vagar, os idiomas necessários para que não acabemos tristemente monoglotas, ilhados numa só língua. Eis o cálculo para um homem passar por esta vida sem ter sido cego diante do supremo prazer, o saber: 300 anos para ler o básico. (14/09/2008)

5 comentários:

Anônimo disse...

Shakespeare tinha tão pouca consciência do que fazia? É sério isso, Paulo?

Irene Bastian – Cachoeira do Sul, RS.

Anônimo disse...

Caro broglueiro,

Teu “Pensar, esta indelicadeza” é de uma ironia... Ou mais que ironia, soco no estômago mesmo! Parabéns.

Júlia Campos, de Salvador, BA.

Anônimo disse...

Bentancur:

Aquele trecho “O necessário” ficou na mosca! Vale por mil livros de auto-ajuda. Dos bons. Rsrsrsrs.

Álvaro Rafel Freitas, Florianópolis.

Anônimo disse...

Bentancur,

imagino a sorte que têm os vampiros (rsrsrsrs), apesar da sede de sangue, claro, que podem viver eternamente e vivem em reclusão, podendo ler tudo isso! Imagino (ninguém levantou essa hipótese) que Drácula tenha sido um grande leitor, talvez o maior de todos.

Walter Danúbio, um ficcionista de Feira de Santana, BA

Paulo Bentancur disse...

Irene:

é o que dizem, é o que dizem. Mas, honestamente, acredito que sim. Shakespeare não podia ser tão perfeito: um gênio e, como se não bastasse, com a consciência de ser gênio. Acho que tal coisa não existe. É só um palpite, evidentemente. Grande abraço.