segunda-feira, 1 de setembro de 2008

AFAGOS NUM TEMA BONITO E GRAVE

Uma outra ciência

Todavia, o amor – essa verdade que dispensa verdades –, dobra a inteligência, torna-a novamente criança, constrói-se pela paciência, pelo perdão, pela espera, por uma aparente inocência que na verdade é a coragem de avançar pela oferta sem a garantia de receber. Quem ama admite, deserdado, deixar uma herança.


Cuidados

Te conhecer foi o primeiro segundo; te perder foi o segundo segundo; e no terceiro a história começou. Riso fácil, lágrima fácil, perguntas fáceis, respostas fáceis – viver, a teu lado, ficou fácil. Mas viver é difícil – amar num mundo sem amor mais ainda –, e aos poucos uma dúvida, duas dúvidas, dúvidas dúvidas dúvidas: pousaram corvos no nosso colo. Como espantá-los? O amor luta e se perturba, perturbação maior porque amorosa.


Um assunto pra lá de batido

O amor não é assunto que se contente em receber legendas, em ser apenas fruto de comentário. O amor quer realizar-se, e cada ser humano clama por amor como clama de fome e sede.
O amor, como toda grande paixão, convive em si o pecado e o perdão. E possui muitas faces, todas elas intensas e capazes de vestir a máscara da deformação. Portanto, cuidado com o amor! Quando parece amor, muitas vezes não é; quando não parece, é. E estes são apenas dois de seus momentos paradoxais. O amor adora imitar a si mesmo também, posando de ser amor por sê-lo, porém sendo sempre um pouco (e este pouco é muito) diferente.
Às vezes monstro imperturbável, a exigir do amante toda espécie de fogo para alimentá-lo. Às vezes ternura infinita, espécie de comoção dadivosa diante do filho gerado. Às vezes olhar fraterno a ver um espelho frente ao amigo. Às vezes saudade que arranca lágrimas e com elas molha a planta amarga que cresce na distância. Amor... Nos torna corajosos, ridículos, heróis, condenados.
Um perigoso limite separa as várias formas de amar. E é lenta a arte de aprender a ultrapassar esses limites. Como lento é o caminhar por essa vereda tortuosa, cheia de sinais e enganos. O amor ao próximo multiplica-se em tantas variações, que chamar de desejo é certo; chamar de irmandade é certo; chamar de piedade é certo; chamar de elevação do ser, embora pareça uma demasia, também é certo. Incertos são somente os acenos amorosos, que em regra falam uma linguagem que só o amor em sua plenitude sabe decifrar, e o homem sob a força do amor observa perplexo, sem saber se existe uma resposta.


Continuando...

Amor é quando enfim os homens se comunicam plenamente, e as palavras e os gestos agitam-se entre eles mais como espectadores do que tradutores.


Pergunta

Você não passar por aqui? É como se o caminhão do gás, o lixeiro, o carteiro não passassem. É como se essa dor não passasse.


Perseverar

Perseverar é, em última instância, crer. Espécie de fé posta em ação, perseverar é somar a espera de quem acredita com a obra de quem insiste porque sabe que um só dia nem a Deus bastou.


Ascensão

O corpo de Matilde, estendido, rompe com a vazia planura do lençol. Surpreende-me, e a tudo, e o vento soca a vidraça, querendo entrar. Mas sou só eu quem está ali e pode ver. E vejo. Meu pau reage de imediato, feliz. E digo para ele, para mim mesmo, atônito, deslumbrado, e orgulhoso: “Levanta-te, glória minha, levanta-te, saltério e cítara” (Salmos, 56, 9).


Fanatismo

Há uma grave seriedade, uma concentração de fanáticos na hora do sexo. Mesmo não acreditando no parceiro.


Condenação do belo

Livre de toda rejeição, perdeu-se em definitivo.
Escolhido, não pôde escolher-se. E só lhe restava então, paciente – sem nem a desculpa do grito da revolta por ter sido esquecido (ó suprema oportunidade) –, engolir calado o beijo de todos, surdos para as palavras que ele parecia não possuir. (06/09/2008)

10 comentários:

Anônimo disse...

Ué, por onde andava, Paulo?

Ernani Ssó

Anônimo disse...

Assunto sério para quem andou afastado...daqui do blog,claro.

Beijo

Joana Giacomazzi

Paulo Bentancur disse...

Ernani SSó,

parabéns pelo teu CONTOS DE MORTE MORRIDA estar como finalista do Jabuti na categoria infanto-juvenil. Eu não agüentava mais não ver nesse tipo de lista nomes de escritores de primeira, como o teu. Como leitor e como escritor e como crítico e como sujeito saturado das seleções sem critério, estou, no mínimo, aliviado.

Grande abraço.

Paulo Bentancur disse...

A propósito, para os digníssimos leitores: Brasília foi um rio que passou em minha vida... e quase me deixei levar. Por outro lado, atolado de trabalho, o blog acabou pagando caro por isso. Durante uma semana, apenas. Espero que não pague mais.

Conto com a interlocução de vocês.

Anônimo disse...

Minha Nossa Senhora, acho que estamos diante de um trecho – ou melhor, vários – mais do que eliz.

Poesia: "quem ama admite, deserdado, deixar uma herança".

Ainda poesia: "pousaram corvos no nosso colo".

Filosofia nada barata, e nada cara (porque de graça, rsrs, no blog): "Às vezes monstro (o amor) imperturbável, a exigir do amante toda espécie de fogo para alimentá-lo."

Aqui é literatura na essência: "as palavras e os gestos agitam-se entre eles mais como espectadores do que tradutores."

Agora entramos no reino das máximas, como em La Rochefoucauld (está certo?): "perseverar é somar a espera de quem acredita com a obra de quem insiste porque sabe que um só dia nem a Deus bastou."

O pornógrafo com tendência ao erotismo destravado, ao descrever a própria ereção, cita... a Bíblia!

O irônico grave: no trecho "Fanatismo".

E, por fim, o golpe final, fatal: "Condenação do belo", invertendo tudo. O feio é que se sai bem. (Ao menos o deixam em paz.) Ao belo não é dado sossêgo mínimo da escolha. Mal consegue, o coitado, pensar...

Um dos melhores posts deste blog.

Fiquei em êxtase. E não foi pelo tema, foi pela forma!

Maria Alaíde Fortes (Foz do Iguaçú, PR)

Anônimo disse...

Hummm. Sumido em Brasília. Na volta, textos sobre o amor. Muito, mas muito suspeito. É bom se cuidar com os grampos.

Ernani Ssó

Paulo Bentancur disse...

Ernani:

humor e amor à parte – sempre bem-vindos –, não andei sumido EM Brasília. Andei sumido em casa mesmo, por causa de trabalho encomendado para Brasília. Mas acabou, como um ciclo. Assim, retomo o trabalho no site, no blog, e em outras direções.

Tenho te lido no blog: http://www.coletiva.net
Aliás, deixo aqui como dica de boa leitura para os internautas, amigos e futuros amigos.

Clecia disse...

Parabéns por mais este belo texto,caro Paulo! E eu não diria que o tema é batido não.É um tema sempre atual e que nunca cansamos de ler. :) Um abraço e um ótimo fim de semana!

Maira Beatriz Engers disse...

AMOR: esse tema logo em setembro Paulo? Quando tudo brota, floresce, se reenergiza. Eu nasci todas as vezes em setembro, é mágico.
Ah! O amor disseca os amantes, eles parecem saber que quando o amor é grande demais e quando um não pode viver sem o outro, esse amor não é mais aplicável: nem a pessoa amada tem a capacidade de receber tanto amor. Fica-se perplexo ao notar que mesmo no amor tenha-se que ter bom senso e senso de medida. Humanizando-se, pois há o perigo de, por assim dizer, morrer de amor. Que belo tema Paulo! Mas parece em desuso.

Maira Beatriz Engers (Professora de Literatura, escritora, Porto Xavier_Santa Rosa/RS)

Paulo Bentancur disse...

Maira, sempre fiel leitora, acrescentando aos temas propostos informações novas. Detalhe: amor não tem nada a ver com estação do ano. felizmente, foi-se o tempo de AS PRIMAVERAS, de Casimiro de Abreu, que hoje ninguém lê. Como, aliás, lucidamente reconheces no fecho do teu comentário, alertando-nos de que parece em "desuso". Mas não está em "desuso". está, como a arte o exige, apresentado em outras formas, nada ligadas a estações, tempos, ciclos. Amor real e às vezes, ironicamente, cruel. Até mesmo contra nossas forças. O romantismo está morto e enterrado, o amor não.