quarta-feira, 6 de março de 2013

OBRIGAÇÃO




Entro na empresa para mais um expediente. Poderia chamá-lo de “pausa de ser”, mas não se deixa de ser nunca, e no entanto a pausa é necessária, vital, porque imposta uma vez que vem a um preço alto quando quebrada (as hierarquias, o mirrado cânone constituinte). Interrompo-me por fora sem me interromper por dentro. Só assim para evitar constrangimentos, conflitos e até violências coletivas. Tudo isso ocorre de qualquer jeito, mas em segredo, em mim mesmo. Somos dois agora: eu e... – vá lá! – o eu que os colegas me supõem. Esse eu sobrevive por mim e, de certa forma, sou-lhe grato. Mas a verdade é que um não suporta o outro. (06/03/2013)

5 comentários:

Anônimo disse...

Olha só quem está de volta! Bentancur, cara, você não pode sumir assim. O site aqui, sempre tendo o que oferecer, é verdade (tantas já foram as postagens), mas a verdade é que eu que leio você senti a ausência no blog. Por um ano, por um ano, seu moço! Se a literatura anda lhe roubando de nós, tudo bem. Em breve teremos livro novo. Mas e se não?

Carlos André Viçosa - Curitiba, PR.

Anônimo disse...

Isso até lembra aquele conto do Caio Fernando de Abreu, "Aqueles dois", em que os protagonistas trabalham numa empresa que é um autêntico "deserto de almas". Qual empresa hoje não é, aliás, exceto algumas muito especiais, resultado de experiências criativas entre amigos empreendedores? Enfim, é o preço do planeta a ser pago. Caro demais, sim. Vendemos alma e, com ela, vai tudo junto. Entramos numa espécie de "estado de suspensão". Um horror!

Abraços. Sempre bom ler você.

Luísa Cademartori (Rio de Janeiro, RJ)

Anônimo disse...

Kafka devia sentir isso todos os dias, e não apenas nas segundas-feiras, que é o fantasma de muitos de nós. Escreva mais!

Seu leitor,

Marco Antônio dos Santos. Vitória, ES.

Anônimo disse...

Cara,

Eu normalmente não gosto de textos mais conceituais por considerá-los, em sua esmagadora maioria, superficiais. Normalmente são escritos por alguém que não sabe sobre o que está escrevendo.

Não é o teu caso.

Em poucas linhas tu conseguiu resumir o que é a vida do cidadão (me identifiquei pra caralho) que tira o sustento trabalhando em algo que detesta. É uma pausa, uma pausa tão longa que de repente deixou de ser pausa; quando o cidadão acorda, percebe que a pausa se inverteu. O "Eu" que ele aspirava ser virou apenas o intervalo, o recreio de 15 minutos, onde só cabe o devaneio.

Em pouco tempo, o "Eu" dos sonhos acaba se tornando insuportável, não por ser chato, mas por estar tão distante do que nos tornamos. Vê-lo é uma agressão a nós mesmos.

Abs!

Lisandro Pessi (Porto Alegre, RS).

Ana Palin disse...

Ah, sim. Se deixarmos, sobra apenas o bagaço para nós mesmos, levam o que há de melhor, da forma pior. Não há que se deixar. Resiste-se com a força reserva.