segunda-feira, 20 de abril de 2009

A OFICINA DO ESCRITOR

Depois de quarenta anos lutando com palavras (a luta menos vã) dá para afirmar: escrever é um ajuste de contas com a verdade que ficou oculta e ameaçava não ser descoberta nunca mais. Uma isca para pescarmos a emoção que ameaçava ficar trancafiada porque sem ter uma voz que a traduzisse.

A literatura é essa voz forte o suficiente, expressiva o suficiente para dizer o tamanho todo dessa emoção.

E aí, se não escrevermos, trairemos a nós mesmos. Trairemos a todos que poderiam saber de nós o quanto estamos vivos. Trairemos a vida, se não escrevermos.

E se escrevermos, a vida tornar-se-á ainda mais viva, mais bela, mais legítima porque melhor desenhada – em palavras. Os que leem poderão escutar a vida como ela nunca foi escutada antes.

Os que desejam escrever – se desejarem de fato – escreverão. E se hesitarem aqui e ali, um dia ou outro, insistam, briguem consigo mesmos, mas... escrevam!


DEZ MANDAMENTOS PARA ESCREVER O MELHOR QUE FORMOS CAPAZES DE FAZER E, ASSIM, O MELHOR...

1) Leia, leia, leia. Só lendo muito entraremos em sintonia fina com a prosa do mundo, com a poesia do mundo, com as ideias do mundo, com a música verbal, o ritmo sonoro dos animaizinhos que se escondem nos dicionários ou que saltam caoticamente da boca das pessoas, sem um cuidado maior. Lendo, lendo bastante, quando sentarmos para escrever, estaremos tão contaminados de um ruído saudável e rico, de um cinema feito só de palavras mas tão vasto e múltiplo, que na hora de colocarmos nossas ideias no papel, elas naturalmente sairão fortalecidas pelas ideais dos demais, os que publicaram e a quem lemos, e pela forma como eles escreveram, e então nossa forma será mais plena, mais contagiante porque contagiada. Não se pode amar sozinho. Não se pode escrever sem encontrar correspondência nessa fonte viva que é a literatura de todos os tempos. Só mergulhando nela seremos capazes de escrever como escritores de fato, como seres amadurecidos dentro de uma região que é exatamente aquela onde nosso texto deseja habitar.

2) Escreva, escreva, escreva. Escrever não é escrever. Escrever é REescrever. O exercício contínuo da criação nos torna – assim como um ginasta que treina todos os dias – capazes de atingir plenamente o que planejamos criar. Não basta querer, desejar, ou, até mesmo, estar inspirados. É preciso, como um jogador de futebol que treina quase diariamente, ficar em forma para que nossa vocação e nosso dom encontrem seu ritmo perfeito, adequado, suficiente. Primeiro eu faço um copião, quase – desculpem a palavra – um vômito. Depois eu viro leitor de mim mesmo, mas um leitor o mais distanciado possível, e transformo – numa segunda redação – o que foi uma enxurrada num curso d’água melhor dirigido, e afinado. Mas essa primeira revisão e segunda escritura (ou REescritura) é apenas o segundo passo de, digamos, uns cinco.

3) Deixe o texto dormir. O texto, como o ser humano, se não dorme fica perturbado, imperfeito, precário, doente. O texto precisa de tempo, e depois de um certo tempo, pode ser encarado por seu autor sem as ilusões com que seria encarado na primeira redação, quando o autor ainda está um tanto cego, impelido pelo primeiro empurrão que é a própria ideia ou necessidade de escrevê-lo, ideia quase nunca clara e, sobretudo, em termos de acabamento, nebulosa, com altos e baixos. Depois de dormir o suficiente, o texto se mostra tal como é, e quem o escreveu já consegue um distanciamento maior, melhor, e não se sente tão comprometido assim ao ponto de ter dificuldades de passar-lhe a faca! Nesta hora, passa mesmo. Corta o que está demais. Completa o que está de menos. É a terceira escritura ou a segunda REescritura. Poderão haver mais uma ou duas, nunca se sabe.

4) Mostrar a quem sabe, a quem deseja e costuma ler. Com todo o respeito aos amores e aos amigos e aos familiares, mostre o que você produz em literatura a quem conhece literatura. A outros escritores, críticos, a gente pouco comprometida afetivamente com você e que por isso mesmo saberá lê-lo sem enfrentar dificuldades na hora de apontar alguma insuficiência no seu texto. Gente diante da qual você pode ficar absolutamente confiante quando receber um elogio, porque será um, digamos assim, “elogio a frio”, isto é, ditado tão-somente pelo reconhecimento do seu talento, da qualidade do seu texto. Aliás, o elogio terá sido feito ao que você escreveu, não a você. Você pode ser amado e escrever muito mal. Isso é um perigo. Você pode escrever muito bem e não ser amado, o que é uma desgraça. Convém não confundir as duas condições. Seja amado pelo que é como pessoa (pelas pessoas que o amarem, algo fora da literatura) e seja criticado pelas pessoas vocacionadas para lê-lo e analisarem o que você faz, sem cometerem o equívoco de dizer que você é um gênio só porque é simpático ou dizerem que é um medíocre só porque você não dá bola pra elas. Seu texto tem vida independente de você e é assim que deve ser julgado. Portanto, por pessoas independentes das suas relações. Ou, no mínimo, mesmo sendo das suas relações, com a independência necessária (neste caso, o que não é fácil de encontrar).

5) Saiba receber uma crítica. Ou melhor, vibre. Diz o “Eclesiastes”, “Vaidade, tudo é vaidade.” Quem legitimamente deseja escrever, imagino eu, deseja escrever bem, fazer o melhor (o que vale para todas as áreas). Ora, se queremos o melhor, não queremos cometer erros, realizar obras frágeis, imperfeitas. Assim, todo senão, toda crítica que nos alerta das nossas limitações, que nos avisa que o que fizemos não está bem, puxa!, é uma bênção. É preciso ter uma qualidade humana admirável – a da autocrítica – para estarmos preparados para receber a verdadeira crítica, aquela que não nos leva para compadres e que têm a honestidade de nos acordar, avisando que as coisas não correram bem dentro do projeto ao qual nos propusemos. É preciso vencer a barreira da vaidade, do orgulho, para só aí compreender de fato o que esta crítica diz e então enxergarmos com clareza as deficiências do que eventualmente cometemos para que não venhamos a repeti-las no futuro e para que consigamos salvar o projeto defeituoso, aperfeiçoando-o a partir dessa crítica aparentemente nada amiga, porém, na verdade, esta sim, crítica amiga, porque produtiva, útil, não enganadora.

6) Desconfie dos elogios. Ou melhor, preocupe-se. Conheço mais injustiças a favor que injustiças contra. Ou seja, gente que não escreve nada mas que, por ter boas relações políticas, acaba sendo “engolida” como se engole sapos. Medíocres considerados existem milhares. Gênios incompreendidos, uma dúzia, se tanto. É preciso ter a força e a coragem de dispensar os elogios cujo único objetivo é manter a “casa em ordem”, ou seja, visando apenas os interesses da boa convivência (que “boa convivência” é essa se ela só esconde a verdade?). Eu aprendi, desde cedo, que a pessoa que me dava um tapinha nas costas e dizia “Paulo, está uma maravilha” não tinha nada para me ensinar e, na verdade, era inconfiável. E que a pessoa que me fazia uma cara de preocupada, ou constrangida, e me comentava, “Olha, Paulo, bem, quer dizer, sabe?, isto que escreveste, até que começa bem, mas, lá pelo meio, eu acho que tu te perdes um pouco, e tem muita informação sobrando, desnecessária, e tu deves centrar o foco da tua narrativa no conflito central das personagens, e não ficar dando tua opinião sobre as coisas” etc., a pessoa que me mostrava que eu tinha uma pedra no sapato, esta estava me fazendo um enorme favor. Melhor ainda, estava me salvando: fazendo com que eu ganhava anos de vida, economizando um tempo incalculável que eu perderia em enganos se ela ficasse, por educação, só me enrolando, dizendo que estava bom e pronto. Se safando socialmente em nome da camaradagem enquanto eu continuaria, enganado, cometendo os mesmos e velhos erros. O elogio é terrível. Até mesmo quando merecido, ele só não é dispensável (afinal, é merecido), mas deve logo, logo ser deixado para lá. Porque se o escritor concentrar-se demais no elogio recebido, grande é a chance de ele vir a relaxar, descuidar de seu processo criativo. Toda criação geralmente brota de desafios e enigmas. E quem se deita na rede dos elogios recebidos, não se sente desafiada e nem enxerga enigma algum a sua frente, só certezas. E de certezas não se constrói nada além do que todos nós já conhecemos. Perde-se a capacidade para abrir novos caminhos e arriscar. E então viramos escritores comuns, previsíveis, desinteressantes. Movidos só a elogios que buscamos satisfazer e não à saudável exigência de nos superarmos a cada novo livro. É essa superação (nascida sempre da autocrítica) que garantirá a cada novo livro um novo – e grande – passo. Ou seja: apenas a insatisfação é capaz de semear o que têm chance de satisfazer de fato.

7) Escolha um gênero. E fique nele. Dificilmente um único escritor é um bom contista, um bom poeta, um bom romancista, um bom cronista e um bom ensaísta. Isso até existe, mas são exceções, tão raras, que entre 500 nomes que facilmente lembraremos de gente que acertou num único gênero encontraremos somente dois ou três nomes que acertaram em mais de um. Até dois gêneros pode ser, mas gêneros, digamos assim, irmãos. Como prosa de ficção e crônica, vide Luis Fernando Veríssimo. Ou o argentino Julio Cortázar, em narrativa longa (seu romance O JOGO DA AMARELINHA, por exemplo) e os contos, pelos quais ele é mais conhecido (AS ARMAS SECRETAS, OCTAEDRO e mais uns dez títulos). Exceções. A regra é Drummond: poeta, mesmo que tenha escrito um livro de contos e uma meia dúzia de livros de crônicas. Erico Verissimo é romancista, mesmo que tenha escrito livros de viagens, de contos, de memória. Na verdade, muitos autores aventuram-se em mais de um gênero, mas acertam, plenamente, em só um. É normal. Todos nós, afinal, temos uma dicção, um ritmo, um olhar sobre o mundo, os homens, as coisas, a vida. Essa ótica é uma das definições de gênero. Erico Verissimo tinha fôlego de romancista, e seu fôlego contaminava sua imaginação, que convocava várias personagens e várias situações só cabíveis numa narrativa longa, como o romance, nunca como o conto. Uma vez eleito qual o gênero para o qual você se sente vocacionado, aconselho a que leia os melhores autores desse gênero, para que você fique na freqüência certa do gênero que escolheu. Quando dedicar-se a praticá-lo, vai já estar familiarizado com os desafios naturais do gênero que desejava desenvolver. E poderá vencer seus desafios com mais facilidade. Como no futebol, goleiro é goleiro, centroavante é centroavante, na literatura, romancista é romancista, poeta é poeta, autor de literatura infanto-juvenil é autor de literatura infanto-juvenil. Quem não conhece Ziraldo? Quem não conhece O MENINO MALUQUINHO, FLICTS, ABZ? Certo. Mas sabiam que ele escreveu um romance para adultos? Deu tão errado que ninguém lembra nem o título do livro. Nem eu.

8. Publicar mal é pior que ficar inédito. Uma vez escrito seu livro, da melhor forma e com opiniões confiáveis, é hora de publicar. E aqui entra uma revelação que poucos sabem. Publicar bem é tão difícil quanto escrever bem. E publicar por publicar é publicar mal. Nesse caso, melhor ficar inédito. Seu livro ainda tem chance em concursos literários para inéditos e continua a ter chance com uma boa editora, vá lá se saber. Publicar bem é simples, embora complicado. TEM DE SER somente com as boas editoras, que são RARAS, repito, RARAS no Brasil, umas oito ou dez, não mais que isso, entre mais de 300 editoras associadas na Câmara Brasileira do Livro. Só estas oito ou dez farão: 1) uma edição visualmente atrativa e com um acabamento caprichado e seguro, costurado, com capa plastificada; 2) uma boa distribuição e comercialização, o que é fundamental para seu livro circular e, portanto, ganhar visibilidade; 3) uma boa divulgação junto à mídia, proporcionando chances de você ser comentado nos espaços culturais; 4) promoções em Departamentos de Marketing (as boas editoras, RARAS, repito, têm departamentos de marketings). 90% das editoras nunca tiveram, não têm nem terão isso. No Rio Grande do Sul só existem duas editoras que se pode chamar de profissionais. Uma publica literatura, outra, só livros técnicos. Todas as outras estão em Rio e São Paulo. Nenhum outro estado possui uma editora decente.

9) Antes de publicar, teste seu livro em concursos literários. Os concursos literários são a melhor vitrine que existe para o autor ainda não consagrado. Mas existe um importante cuidado que devemos tomar: o mesmo da crítica do compadrismo e o da crítica para valer vale para os concursos. Só vale a pena participar de concursos sérios. Poucos são. A maioria dos concursos são caça-níqueis, cobram inscrição (nunca participe de um concurso que lhe cobre inscrição) e dão de prêmio apenas diplomas, troféus ou publicação numa coletânea com mais uma dúzia de gente que nada tem a ver com a literatura que você faz. Concurso sério SEMPRE tem dotação orçamentária para pagar um prêmio ao vencedor, e isto já é um atestado de seriedade, de acerto em dar a devida valorização ao ganhador. No Rio Grande do Sul, prêmio sério é o Josué Guimarães, da Jornada Nacional de Passo Fundo, por exemplo. No Brasil, o Prêmio Luiz Vilela de Contos, o Ignácio Loyola Brandão, de Araraquara, em São Paulo. Estes todos para contos isolados. Já o Prêmio Minas de Cultura, e o Prêmio Nacional de Ficção da Bahia são para livros inéditos adultos. Para infanto-juvenil, o Barco a Vapor, das edições SM. E ainda tem o Casa de las Américas, em Cuba. A cada ano mudando de gênero (conto, romance, infanto-juvenil, ensaio). Para livros publicados, o Jabuti, o Portugal Telecom, o Cidade de São Paulo, o Biblioteca Nacional e o da Academia Brasileira de Letras. Nos prêmios para livros inéditos, você beliscando um desses, já terá a porta aberta de alguma editora. Os editores consideram um prêmio desses que citei um aval mais que suficiente para eles publicarem você. Vale a pena tentar, não é?

10) Não ser premiado não significa nada. Insista! Conheço maus livros que ganharam importantes prêmios (às vezes a comissão julgadora é muito heterogênea e não chega a acordo algum nos seus votos, levando a um resultado imprevisto) e conheço ótimos autores que concorreram a, digamos, dez prêmios, não ganharam nenhum, e depois de publicados caíram nas graças da crítica. Portanto, ganhar um prêmio é ótimo, ajuda na sua carreira, mas não ganhar não significa que seu trabalho não tenha valor. (20/04/2009)

11 comentários:

Anônimo disse...

Opa, oficina de graça, que beleza! Quero mais...


Lisiane Freitas Domingues. Pelotas, RS.

Gerusa Leal disse...

Muito úteis, objetivas e corretas as orientações, Paulo. Dá uma panorâmica boa para quem investe no ofício se situar. Acho que é por aí mesmo. Quem escreve precisa estar atento, no mínimo, a tudo que você pontua nesse decálogo.

CeciLia disse...

Paulo, professor!

O que escreves é coerente com o que ensinas em tuas oficinas, importante demais. Este teu texto deveria ser mais divulgado, debatido nas escolas, nas oficinas literárias presenciais, alardeado.

Obrigada por mais esta lição, abraço,

Anônimo disse...

Meu amigo oficineiro,

dos dez mandamentos, fico com o 1, o 5 e o 6. Todos me pareceram legítimos, com alguns detalhes que poderíamos aprofundar, debater. Mas o 1, o 5 e o 6 são definitivos. Uma aula! Um minicurso. Uma grande conversa que a gente não esquece. Por isso te visito, sempre que posso.

Bom domingo!

Ricardo Vieira - Santa Maria, RS.

Anônimo disse...

Sandra, adorei ler o teu texto: prendeu minha atenção até a última linha...também gostei muito do Blog...vou acessar com freqüência!

Anônimo disse...

Caro Bentancur:

aconselhas, no item 5, que o escritor "saiba recebar uma crítica". Não é de se perguntar também, considerando que vivemos em um País quase sem crítica, aos críticos: "vocês sabem receber um livro?" Eles parecem mais interessados em "julgar", no sentido sentencioso, que ler organicamente, isto é, incorporar-se à intenção do autor e acompanhar com respeito a construção da obra. Raramente vejo críticos fazendo isso. Como não fazem, fica fácil chamaram de maravilha bobagens e de bobagens maravilhas. A crítica que trate, de uma vez por todas, de arregaçar as mangas e começar a trabalhar. É o mínimo.


Walter Cunha Menezes, Curitiba.

Anônimo disse...

Imprimi 50 cópias deste post e distribuí a amigos. Só a amigos. Confesso essa pirataria em público. Creio que você autoriza, não, Paulo? Bem, no mínimo o nome do autor está citado.


Isabel Carvalho. Londrina, PR.

Anônimo disse...

Paulo:

estamos numa época de muitas oficinas de criação literária. Da quantidade se tira qualidade, é inevitável. Você já é um oficineiro conhecido, mas um post como este mostra, além da capacidade intelectual, a coragem de abrir os temas para além da teoria (você investe muito na prática: dá para ver claramente isso nas suas ideias). E divulgar um material destes na internet é de um valor incalculável. Está de parabéns e quem o lê, agradece.

Marília Ramos – Rio de Janeiro.

Anônimo disse...

Ei, Paulo!

Já tinha escutado falar que você dá oficinas on line de criação literária. Pelo jeito, antes mesmo de a gente matricular-se nas suas oficinas recebe um tira-gosto, como este post. Muito esclarecedor. Muito franco. Talento a serviço da realidade, que vem antes do sonho. Escreva mais sobre esse tema inesgotável.

Miriam Agostinho Dantas. Fortaleza. CE.

Lucas disse...

oi Paulo,
Vc faz oficinas de escrita criativa online / a distancia?
estou interessado.
Caso vc tenha pensado e precise de assessoria, fale comigo.
Abraço
Lucas Selbach
www.porfazer.com.br

Marília Silveira disse...

Já de início fico pensando nessa luta com palavras. Porque me parece que é justo isso que fazemos, defendemo-nos das garras vis e vãs da vida com as palavras. Gosto que as palavras que leio me provoquem - os mais diversos sentidos, daí a isca a que se refere Lispector. Isca de sensação, isca de emoção. Literatura é aquilo que, usando palavras, te deixa sem palavras, ou te deixa com outras mil pulsando em ti. Que não seja infinito, posto que é chama, mas que seja intenso enquanto dure o texto.

O maior gosto que sinto hoje é quando leio um texto em qualquer âmbito e consigo ver no rosto das pessoas aquilo que deixei no texto, se elas riem é porque a ironia foi bem escrita, se elas se comovem nada mais é porque deixei o coração demasiadamente humano em cada fragmento seu. Isso é literatura. Assim como é fácil distinguir um bom cantor - aquele que deixa a alma à vista quando canta, um bom escritor também se deixa estar, habita sua escritura. Deixamos a alma naquilo que escrevemos.

Fico pensando nessa tua ideia de deixar a vida mais viva ao escrever. E lembro de momentos em que mal tendo vivido uma cena corri ao papel para descrevê-la (re-escrevê-la?), porque as palavras já brotavam em forma de texto e resignificavam a experiência, que assim de saída, parecia ainda mais bela.

Quanto aos mandamentos são preciosos. Registro-os em meu caderninho de notas imprescindíveis para me tornar escritora. É preciso ler muito porque a viagem para a literatura é uma espécie de mergulho profundo, um tanto sem volta, em que nos entregamos e nos deixamos levar pelos mares de sentidos possíveis das escritas. E depois é escrever mesmo e muito, gosto de escrever o que sinto e penso após ler alguma coisa. Às vezes só consigo ler uns parágrafos e logo é preciso parar para escrever. O ato de escrever sempre tem algo de deixar escorrer as palavras, tal qual água em torneira enferrujada, que demora a sair, que sai suja de início, nada cristalina. E o que se faz é deixar a torneira aberta até que o fluxo da água limpe as ferrugens do cano. Só se aprende a escrever bem, escrevendo. Disso não tenho dúvida.

Isso do tempo de descanso pro texto é também precioso, tal qual pão feito em casa, é preciso deixar a massa descansar para depois crescer. Percebo que assim que escrevo um texto ele parece lindo e perfeito ao ser relido, os defeitos só encontro depois de dormir algumas noites longe dele.

Escrever tem também de nos livrar das angústias, ao pô-las no papel nos sentimos aliviados, mas ainda nos sentimos naquele texto escrito. Depois de um tempo longe ele parece ganhar vida própria,e podemos nos surpreender em releituras, mas já enxergamos o ponto que faltou, a frase longa de mais, a repetição de palavras...

Enfim, todos os outros itens, já fiz boa parte deles, antes mesmo de te ler. Seguimos por aqui. Acompanho-te.

Forte abraço