domingo, 26 de abril de 2009

O ATELIER DA PALAVRA

A poeta e artista plástica Sandra Ling, à luz do post anterior,
cria em cima do decálogo proposto e faz outro percurso, amplia as direções,
vasculha as possíveis liberdades. O que era “oficina” vira “atelier”,
mais próximo da casa, e o que era “escritor” vira “palavra”,
conceito mais amplo.


Só vivendo para ter palavras.
Escrever não tem hora para começar, e cabe a cada um ser fiel a seus impulsos, sabendo-se ouvir para poder falar.
Deixe a criança descobrir o mundo através de seus próprios olhos, próprios pensamentos, próprios desenhos, deixe-a principalmente brincar, deixa-a ser criança.
Uma criança depois que aprende a desenhar nunca mais consegue fazer aqueles traços espontâneos de grande beleza e vivacidade da infância, depois será um desenhista que a gente olha, vê que faz um desenho maravilhoso, mas é de adulto. Para escrever também acho que a frescura das palavras e das idéias é como a mente de uma criança, original; portanto, diria aos pais (que sempre se antecipam para que o filho tenha o que eles não tiveram), não se precipite em nada, principalmente com a leitura. Ter livros na casa, os seus, os seus prediletos, é a melhor forma de um dia seus filhos se interessarem pela leitura, mais do que comprar para eles ainda muito cedo.

Com um adolescente acredito que a palavra brincar troca de nome e vira namorar, namorar o outro, a vida, a natureza, descobrir mais, estar presente, olhar, observar, sentir, sofrer, errar, passear, viajar, e, sobretudo, pensar – para depois ter o que escrever.

Ao adulto é preciso que não perca nunca sua criança para conseguir criar, escrever, sim, escrever – este ato que será desenvolvido lendo, lendo, lendo por toda a vida.

Cada pessoa tem a sua hora para se iniciar na escrita. Alguns iniciam bem cedo, como um forte chamado. Porém para muitos é um processo que se instala nas mais diversas fases.
Pode se iniciar com frases lidas, frases das quais gostamos bastante, copiando-as; pode ser escrevendo pensamentos que nos marcaram e que tenham forte significado para nós, ou, mesmo, algo que precisamos pensar acerca de, ou qualquer coisa que nos abrace num certo momento. Não existe um jeito único de começar, nem do que escrever e nem um tempo que seja o adequado ou o melhor para isso. Simplesmente escreva se tiver vontade e mesmo necessidade, mas, insisto, não tenha pressa de nada: a pressa atrasa, pois tira você do caminho de achar sua essência, e isto leva tempo, principalmente para achar um gênero. A busca é de encontrar o que você tem a dizer, e o modo aparecerá pela repetição, uma vez que quando gostamos de algo, fazemos várias e várias vezes. Com a repetição, o tal gênero irá certamente revelar-se.

E quando você tiver em sua gaveta, bem escondido, escritos seus, muitos, olhe o conjunto, que é o mesmo que olhar para você mesmo, e sinta o que mais lhe agrada, que pode ser o som, o significado, a forma. Você vai descobrir ali a semente para desenvolvê-la ao longo da vida.

Selecione o que mais tenha significado para você e nesta hora acho positivo então procurar uma oficina do gênero escolhido no momento (que poderá mudar ainda ao longo do processo), e ouvir alguém mais experiente para lhe mostrar caminhos, abrir mais seus olhos, lhe indicar leituras – de alguma forma, tudo isso pode ser decisivo. Mas também não esqueça que qualquer coisa que você escreve é importante. Pode não ser para os outros, para o crítico, mas para você é você naquela hora em que você criava, é o seu melhor naquele instante. Então guarde para si, não joque fora, não precisa mostrar para ninguém suas primeiras escritas, mas guarde.

Depois, a cada texto, acostume-se a deixá-lo dormir um pouco para retomá-lo com outro olhar num outro dia, num outro estado emocional, com outro ritmo, pois assim como as tintas de uma pintura de um dia para outro mudam de cor ao secarem, as palavras não mudam, mas nós mudamos, e este outro olhar sempre verá coisas novas, se necessário coisas a mudar ou não.

Mostre-as a algum crítico competente, que será um ajudante, um alerta, mas não deixe também de mostrar ao seu amor, a seu melhor amigo, a seus filhos, mostrar apenas como se lhes estivesse dando um beijo, dando um pouco de si e, assim, conseguindo ouvir a crítica caseira.

Quando o seu texto ou poema ou seja qual for o gênero escolhido estiver pronto, um livro já montado, seja exigente na hora de publicá-lo.
Seja exigente na mesma proporção que você se exigiu ao fazê-lo.

Saiba ouvir os elogios como um aditivo, uma motivação, sem nunca esquecer que o elogio é para o que já está escrito. O que virá vai depender do foco que você continuar a manter. Escrever será sempre um desafio para consigo próprio, a cada texto novo.
Entre no desafio, entre na vida. (26/04/2009)

13 comentários:

Anônimo disse...

Paulo,

além de escrever bem e, antes disso, pensar bem sobre coisas complicadas, enigmáticas mesmo (o ato da criação, principalmente), você sabe convidar as pessoas certas para ampliar a sua ótica reveladora sobre essas regiões muitas vezes obscuras. Neste seu espaço, nunca obscuras. Parabéns à Sandra Ling e a você por colocar o texto dela aqui, à nossa disposição.


Egídio Tacla, São Paulo, SP.

Anônimo disse...

Cara Sandra:

obrigado pelo afago lúcido, pela seriedade crítica, aguda, trazendo junto um convite pleno e essencial para o viver, completando-se na ação da escritura. E ao Bentancur, que sempre abra sua oficina para gente capaz de substituí-la por um atelier como o teu.

Hernanes do Prado (Caxias do Sul, RS)

Anônimo disse...

Sandra, mais uma janelinha para espiar os teus pensamentos maravilhosos... Obrigada por compartilhar.
Rosa, Hong Kong

Yvana disse...

Sandra,
te ler é como te ver, embora a seriedade do assunto, leio a tua doçura.
Adorei conhecer o blog e já estou sugerindo para minha filha que pretende, na vida, revelar todos os seus escritos escondidos.

Anônimo disse...

Sandra,transformar a "oficina" em "atelier" era somente questão de tempo , a lucidez das "palavras" encanta e nos faz percorrer caminhos adormecidos e nostálgicos.
parabéns
Chris Limeira

sandra ling disse...

Paulo,

meu muito obrigada por estar no teu espaço e obrigada também ao Egídio, ao Hernanes, a Rosa,
a Yvana e a Chris, pelas mensagens tão positivas.

um abraço,

sandra

Paulo Bentancur disse...

Sandra:

eu é que agradeço ao teu talento (sempre bem-vindo), à tua sensibilida (sempre bem-vinda), aos teus leitores, tornados meus também (não abro mão de compartilhar o esplendor íntimo da descoberta). E mais, Sandra: este espaço é teu, nosso. Da arte, enfim. Da leitura. Isto é, da vida, que nos acena com sua escritura.

Beijo grande.

nomad disse...

importante nao ter pressa mesmo!

e ter impacencia com a impacencia



vincent, boston

sandra ling disse...

Vincent, artista plural,

que surpresa especial tua visita!
thank you,
abração,

sandra

Anônimo disse...

Sandra

Gostei muito de suas palavras, elas fizeram despertar em mim o "nunca e tarde de mais"

Obrigado

Jack
Sao Paulo

Caco disse...

Sandra,
o texto pareceu-me uma dinâmica harmonia entre forma e conteúdo, que encanta a cada frase, a cada traço.
Caco

Patricia Kaufmann disse...

Sandra querida, gostei muito do seu texto. Vc como sempre, muito sensível. Sua visão da alma me tocou bastante! Parabéns pelo caminho.

bjs Patricia Kaufmann

vitoria hess disse...

Sandra,

Agradeco a chance de ler o seu texto.
Sua lucidez e docura encantam e nos faz refletir; sem pressa e em boa companhia.
Obrigada por compartilhar e pelo seu carinho.

Vitoria