domingo, 8 de março de 2009

ESCREVI. E AGORA?

Pois é. O mais difícil foi feito. O incalculável desafio da criação. Você superou traumas, obsessões, obteve a necessária autocrítica para domar as ilusões enganadoras. E chegou, incólume, até o fim do livro com que sonhou um dia. Ele está pronto, e você o escreveu todinho, linha a linha. O que pode querer mais?

E quer! Quer publicá-lo. Por necessidade que outros compartilhem essa experiência indescritível de outra forma que não a do próprio livro que você fez. Essa experiência que tem vários nomes: minha obra, meu alívio, minha superação, meu presente para mim mesmo e, quem sabe para a Literatura, essa senhora caprichosa e exigente. Porém, para isso, é preciso achar a visibilidade certa ao produto do seu esforço e talento. E a visibilidade só virá numa boa edição. Começa assim a segunda etapa, tão misteriosa e desafiadora quanto a primeira. Pois é, publicar BEM é tão complicado quanto escrever bem.

Trabalhei cerca de 20 anos em meia dúzia de editoras, médias e grandes. Sem contar que tenho amigos escritores já publicados generosamente e escritores recusados tantas vezes que até passaram a se perguntar se não escolheram errado a ferramenta para expressar-se. Não escolheram, pode acreditar em mim.

Acontece que publicar BEM (nem perco meu tempo em comentar a decisão de publicar de qualquer jeito, isto é, pagando do bolso e fazendo uma edição artesanal, amadora, destinada, parece, a garantir que o livro NÃO EXISTA: não vejo sentido nisso), publicar BEM, garanto, é uma batalha incessante, repetida, e que começa a cada livro novo que você escreve, mesmo que já tenha publicado vários.

Sério.

O Brasil – sabemos – não é um país de leitores. Logo, não se pode afirmar com muita tranquilidade que exista um mercado livreiro. Não para a literatura nacional.

Óbvio, as exceções fora. Luis Fernando Verissimo, Lya Luft, Rubem Fonseca, João Ubaldo Ribeiro, Paulo Coelho, Mario Prata, que vendem muito bem, jamais enfrentarão esse problema. E mais uns 50 nomes que embora não vendam tão bem assim trazem prestígio à editora porque já possuem uma obra consolidada ou mesmo com poucos livros possuem um trânsito favorável no meio. Como em qualquer área, no mercado editorial também o fato de você ser bem relacionado com os nomes certos, de preferência dentro das editoras, garante aquela boa edição básica.

Todos esses autores mal chegam a 50 nomes, talvez alguns mais, se tanto.

Mas a maciça maioria é de gente que até ganha um prêmio polpudo em dinheiro de alguma instituição séria mas o autor é tão sério que não está aí para brincadeiras. Recluso em seus escritório, faz literatura de primeira porém não tem amiguinhos no meio e depende de que a editora aposte em seu livro. Como não existe mercado e ele, apesar de bom e de recentemente premiado (alías, o diabo é que é “recentemente”), ainda não construiu um público para si. Então, o editor o vê como um risco.

Livro é um produto como qualquer outro. Esta é uma lei inviolável para 90% dos editores, dos excelentes aos médios. Os ruins só publicam se você pagar. E sendo um produto como outro qualquer, deve gerar lucro, caso contrário...

Como gerar lucro se você tem a favor de si apenas o fato de ter escrito excelente literatura? Por acaso este país sabe lá o que é “excelente literatura”? Soubesse disso, e não comprava Paulo Coelho. Aliás, o mundo todo ignora o que seja, a ignorância não é privilégio no Brasil. Apenas somos um pouquinho mais especializados que a maioria.

Enfim, escrito o livro, na hora de procurar um editor decente prepare-se também para tomar tantos cuidados e agir com estratégias decisivas, observar detalhes ínfimos, agir com o rigor extremo, com a mesma obsessão que você teve na hora da criação artística. Publicar um livro numa boa editora é igualmente uma grande arte. Ou, no mínimo, tirar na loteria. (08/09/2009)

9 comentários:

Anônimo disse...

Paulo,
publicar bem é privilégio, qualidade, sorte, contatos, tu deves saber disso - dentro da experiência que tens - como poucos. Permite apenas que questione apenas uma das tuas afirmações: não entendo que fazer uma edição artesanal e amadora seja para garantir que um livro NÃO EXISTA. Talvez, ao contrário, seja a necessidade de uma outra garantia: a de que ele exista, SIM, enquanto essência, desejo, necessidade de afirmação de uma existência pessoal, não como objeto sujeito às leis do merdado. Paulo, um livro, creio, antes de ser mercado, é idéia, desejo, arte. Depois, como todo negócio, carreira, profissão, visa o lucro. Mas não só. Podes considerar um pouco isso? Abraço, K.

Anônimo disse...

Oi, Paulo!

Fazia tempo que não passava por aqui. Estava com saudade. Podias escrever também sobre o uso de outras mídias para divulgação do livro. O uso de clips divulgados na internet por editoras da Europa talvez valesse como exemplo. E sabes algo sobre o e-book? É verdade que se restringe mais ao livro técnico? Conta, conta...
Beijocas,
Érica

Anônimo disse...

Pois é, Paulo, eu penso que esse seu publicar BEM é muito capitalista. É uma forma de dobrar à barbárie do mercado, aceitar esse pensamento como único. Mário de Andrade editou vários de seus primeiros livros e tantos outros que fizeram história literária e cultural no Brasil. Não prá aceitar isso sem protestar, mesmo que a idéia esteja tão bem elaborada e defendida.

abraço, Zé, Santa Maria, RS

Paulo Bentancur disse...

K, tua posição é nobre, louvável, mais que respeitável. Porém... Sim, tens 100% de razão quando te referes ao fato de que a existência de um livro não pode ser condicionada apenas ao mercado. No entanto, não estamos mais na época da arte tipográfica, no tempo dos primeiros livros de João cabral de Melo Neto, por exemplo, ou do saudoso Cléber Teixeira, de Florianópolis, que rodava 200, 300 exemplares de John Donne, e. e. cummings, gênios para os amigos e mais meia dúzia de legítimos adoradores. Hoje o mundo perdeu vergonhosamente a paciência para tudo que seja lento, artesanal (a não ser o caso dos colecionadores, mas este buscam antiguidades, não novidades) e tudo que não tenha cara de algo industrial não é notado. Não é apenas uma questão de atender ao mercado, mas, mesmo, de atender aos amigos, que nos querem, autores que somos, com um jeito de quem recebeu o único reconhecimento que a contemporaneidade legitima: o da visibilidade numa megastore. Fora isso, nosso livro artesanal ficará como um bilhete de luxo cujos destinatários já não vivem no mesmo tempo, e passaram a uma dimensão atrás da qual temos de correr. Não?

Paulo Bentancur disse...

Caríssimo Zé:

pôxa, homem, Mario de Andrade é dos anos 1930-40. Naquele tempo se fazia revolução cultural com santinho. Hoje nossas caixas de correio são entupidas com folders de luxo que nem abrimos e vão direto pro lixo. Claro, são propaganda barata (com custo gráfico caro). Mas, falando objetivamente: eu quero ser lido. É a única saída. Quando digo ser lido, refiro-me a no mínimo por 3.000 pessoas. Quem não fizer questão de ser lido, e possui uma relação mais sensorial com o livro que qualquer outra (eu tenha todas as relações, da sensorial, eu como leitor, à de fazer diferença no panorama literário do País), quem quer seu livro quase como um segredo ou um, mais um pouco, como um ícone/totem/objeto singular, faz bonito. Mas não será lido. E é isso que eu lamento e busco evitar. O capitalismo aqui é um meio (o processo de produção massiva do livro) não um fim.

Grande debate para o qual todos vocês contribuem aqui.

Me ajudam a pensar.

Abração.

Anônimo disse...

Bom, Paulo

O debate está rico. Se eu fosse escritor, queria ser lido não por pelo menos 3000 pessoas, mas por muito mais. Não é essa questão, se eu quero ou não. Basta ver que os melhores escritores de hoje são quase desconhecidos ou mesmo desconhecios. Alguns se salvam, no salves-e quem puder. Na verdade, a questão é tão funda e complexa...Teríamos que discutir, por exemplo, a quase ausência de leitores de obras que não sejam comerciais....Então passaríamos pela situação da Educação...!!Enfim, é uma questão atordoante.

Zé, SM, RS

Anônimo disse...

Paulo,

Concordo plenamente com você. Creio que publicar um livro é tão sério quanto criar um romance. Ver detalhes, esperar, é algo essencial.

Jeff Negromonte.
Porto Seguro-BA

Anônimo disse...

pois eu pensava nimim mesmo, claro, lendo tudo isso.

já bati no poste, na porta, na cara, e no saco, de uns 20 editores(as). um bando de poltrões, isso sim! não sabem reconhecer um gênio quando vêem um!

mas sigo remando, remando nesse mar de sargaços...

o paulo fala em 3.000 leitores, não sei se é um número bom, podem te levar a sério.

mas ainda saio numa editora, assim como numa escola de samba. duas coisas que aindo faço em vida.

jorge , porto alegre / RS

Teresa Azambuya disse...

Olá, Paulo!
Estou visitando pela primeira vez o teu blog, parabéns, é ótimo!

Gostei especialmente desta discussão sobre a publicação, por ter me debruçado sobre o tema em uma tese acadêmica que escrevi acerca das Oficinas Literárias, da formação de autores contemporâneos e do mercado editorial. Discuto nesse trabalho a questão da publicação virtual, das dificuldades de ingresso dos novos escritores no mercado editorial, dentre outros assuntos.

Quanto à discussão aqui neste post, concordo com o fato de que qualquer escritor iniciante, embora tendo vários mecanismos à disposição para se tornar conhecido (a Internet, publicações bancadas por si próprio, enfim) anseia um reconhecimento que só a inserção num mercado editorial maior possibilitaria. Mas, para isso, claro, enfrenta muitos desafios, e aí temos questões que envolvem desde o sistema capitalista até a educação, como foi abordado aqui. É complexo, mas a reflexão sobre o assunto é importante.

Fica a dica do meu trabalho acadêmico, se interessar.

Um grande abraço e parabéns, mais uma vez, pelo site e pelo blog.

Teresa Azambuya
teresabam@gmail.com