sábado, 7 de março de 2009

AS TRÊS FACES DA PALAVRA

Eu não irei falar de Haroldo de Campos, não porque não queira, mas porque não é preciso, sobretudo porque gente muito mais capacitada que eu na matéria pode falar melhor.
Eu não irei falar do poema concreto, do movimento dos irmãos Campos e o amigo deles, o Décio Pignatari, na década de 50, da guinada radical contra o discurso que inundava e fragilizava, com sua gordura verbal, o poema brasileiro naquele tempo.
Não, eu não irei falar de Galáxias, esse monumento, que me cansa (ante minha frágil prosa) enquanto me encanta e me coa os excessos e as previsibilidades de ritmo.
Eu não irei falar da arte que se desenha com traço – no exercício da plasticidade –, da presença da concretude ainda no mesmo exercício, ou do cotidiano e seus instrumentos aparentemente despretensiosos dando em objetos estéticos que se revelam outra coisa e nos escapam enquanto nos habitam.
Repetidamente surpreso – e daí sempre renovado, o fôlego suplantando o esgotamento anunciado pela falência de formas confortáveis –, eu vivo a experiência diária do verbo que me respira. Dele me nasço e nele ressuscito dos silêncios quando estes representam tão-somente um beco sem saída.

A FALA QUE CALA

Eu falarei da natureza esquiva e generosa, ao mesmo tempo, da palavra que se esconde em si mesma e se exibe além do seu significado ou do seu som. A palavra como desenho, essa me interessa. A palavra como objeto, essa me interessa. A palavra como convivência, na maioria das vezes rio raso no qual molho os pés para atenuar o cansaço da caminhada.
Disso falarei, disso falo agora. Do falar. Do escrever. Do ato quase cego de ir pondo de um ponto em diante uma palavra atrás da outra até que não possa mais, até que chegue, até que pare porque a soma de sons me pede, porque o sentido se dá por satisfeito, porque o cansaço da mão corresponde ao cansaço da mente e nesse turvo esgar de socorro por paz que a alma reclama brota uma espera ou um fim. Sempre por enquanto.
Eu quero falar do que a frase não pode, podendo. Ela não pode ir atropelando enquanto, aleluia!, corre célere pelo espaço antes em branco agora pulverizado por letras que se aliciam em vocábulos que se olham e se separam ou unem como uma operação comum, única, negando e reafirmando o que outros já teriam dito (claro, outra coisa), e essa operação apenas quer pular essa etapa óbvia do recado e inseminar – sem artifício – o óvulo de temperatura branda do branco que aceita sem receio o recreio sério do vocabulário que se enleia em meio aos sinais comuns de uma sintaxe rotineira.
E nem mesmo – ainda que um pouco – o poundemonium de Júlian Rios, em sua larva babélica de combinações que recuso porque o discurso, se se liberta do diálogo ou do narrar ao ouvido preguiçoso, condena-se à repetição de cair sem parar no fosso colossal onde os sons, se cabem todos, se ocultam também. E já não podem ser vistos.
Eu quero não o que sei e nem o que não sei, eu quero o querer de poder fazer com que o verbo reverbere e reverta em mais verbo sem a verve que sofre não de soberba, mas de assoberbamento, eu quero a palavra que cala aquilo que o que fala consente, entregando-se sem luta. Eu quero a lua da pedra que é fruta sem polpa nem casca nem sumo mas pode tudo e fere todos os rumos dos satélites que crêem possuir uma luz que não é sua.
Eu quero o fm do vale onde não florescem rimas, o cimo da montanha onde tamanha é a ausência e esse vazio vaza tanto o pleno quanto o plano onde se desenha a rua. Eu quero não o jogo, menos ainda o jugo, nem o logro, mas logo o oco do colo onde o calor dança com as moléculas de uma forma sem fôrma, o anonimato sem esconderijo, o brilho sem ruído, o ápice discreto, o fértil corroído pela espera de que qualquer nome brote.
E brota, embora não se nota que o inominado sacuda as asas sem desenho, sem ar que as reconheça, sem atmosfera para abraçar um ser em cujas costas elas se seguram.
Três faces desenham essa palavra. Três caras a anunciam. Três bocas falam por ela.
A que escorre por fora do que é dito por todos, a boca que sugere com o molho que muda o sabor da carne. A que finge acompanhar mas sobrevoa a procissão como um anjo negro ou dourado capaz de ser visto somente quando o autor estiver morto. Esta é uma face.
E a segunda. A que não escorre, mas estanca, e fica, cristal, fixa e pétrea, audível apenas por aquele que aproxima o ouvido (ou o olho) do vocábulo ou um conjunto deles imerso num caldo ralo de palavras saturadas em frases presas fáceis da fome apressada dos que não escrevem como quem descobre nem descortina. Isto é, a face/boca da palavra que se nega a ser o que necessitam, recusa de cura, suicídio verbal diante dos mimos fúteis.
E, também – a terceira –, a face severa da palavra lamentosa de sua própria condição, que se arrasta sem afastar-se da via crucis que lhe é destinada, que não foge um só instante (nem letra) do seu desenho exato de ser mirrado e exato, defunto sólido e desolado.
Escolho, assim, o que representa meu escolho, sobra, resíduo tornado fortuna, exuberância de errar sendo livre por não lhe pertencer nem a fortuna de ser lido, que dirá compreendido. Reescrever é o que cabe, a busca pelo aparente brusco susto que é topar com uma sílaba onde não caibo, nunca palavras nas quais a história se crê redonda como um círculo sem circo, nunca ignorando a música que fala desde o vento antes de mim e nem o desenho que ainda no átomo tirou fotos primeiro, quando nem meu trisavô supunha um soneto, seres, que dirá netos, e isso porque o que em regra é dito é sempre um mundo com palavras de uma só cara, palavras baratas, um mundo que as usa com um fim que o salva enquanto ele as mata. (07/03/2009)

3 comentários:

Anônimo disse...

Li. Tive de reler tudo de novo. E reler mais uma vez. Depois tive de dar um tempo. Amanhã ou depois releio a quarta vez. Era essa a intenção do texto, a de quanto a palavra pode nos desorientar, nos engolir?


Heitor Palmeira, Salvador, BA.

Paulo Bentancur disse...

Amigo Heitor,

risos amarelos. Não queria te dar tanto trabalho assim. Não sou como Joyce que disse que manteria os críticos ocupados por 300 anos. E depois, no Brasil, há tão poucos leitores que afugentá-los é suicídio.

Minha intenção, na verdade, foi o contrário. Mostrar o quanto a palavra nos abre caminhos e o mundo – surdo e cego a ela – os fecha. A palavra é tridimensional, para dizer o mínimo.

Se não encher seu caso, continue relendo. Mas prometo voltar ao tema de uma forma mais palatável, juro.

Abração.

Anônimo disse...

NÃO!! Por favor, NÃO!! Escitor, não cometa o suicídio da clareza, a profanação do mistério. Não!! Por favor, não esclareça, não amiúde o que é grande e belo e forte e pluripotencial. Teu texto é o que nem mesmo tu alcanças, e nisso a beleza que eu sabia existir e que esperava há tempos neste lugar de palavra inteira. Um pedaço que me encanta, entre tantos: "Eu quero a lua da pedra que é fruta sem polpa nem casca nem sumo mas pode tudo e fere todos os rumos dos satélites que crêem possuir uma luz que não é sua." Precisa dizer mais? Abraços encantados. K.