domingo, 1 de fevereiro de 2009

AS LÁGRIMAS DE FEDERER

Sou fã de Roger Federer, ex-número 1 do tênis mundial durante quatro anos (2004-2008), quando perdeu o posto para o espanhol Rafael Nadal, uma máquina de bater. Federer joga um tênis mais refinado. Nadal, não à toa apelidado de "Touro Miúra", tem um bíceps de dar invehja a muito peso pesado e, além disso, é quatro anos mais moço que Federer, o que num esporte que tira o fôlego e o sangue (perde-se em média uns 4 quilos por partida), pode ser decisivo. Depende de o cara também ter técnica. E Nadal tem. Sua bola é funda, bate na linha, ou quase na linha, e é pesada, tal a força. Não gosto de seu estilo. Nem Federer gosta. Em 19 partidas que disputaram, Nadal ganhou 13 com a decisão de hoje no Aberto da Austrália, primeiro Grande Slam do ano, contra 6 vitórias do meu ídolo. 68% contra 32%: muita diferença para um nível de tênis que não deveria ser assim, tratando-se dos dois melhores ranqueados da ATP. E já é a quinta vitória consecutiva do espanhol sobre seu maior adversário. Não há hoje maior rivalidade no tênis mundial do que esta: o atual número 1 contra o número 2, ex-número 1. O resultado foi digno do "equilíbrio", 3 x 2, com parciais de 7-5; 3-6; 7-6; 3-6; e 6-2. Federer dominou a maior parte do jogo exceto no set decisivo quando, provavelmente, o elemento psicológico – este grande fator no tênis, ignorado por muitos – resolveu o embate a favor de Nadal. Na cerimônia, o suíço não conseguiu concluir seu discurso, chorando copiosamente. Para alguém que estás prestes a se tornar (pela quantidade de Grandes Slams conquistados) um dos maiores jogadores da história, senão o maior, reagir assim parecerá um despropósito. Não foi. Tanto não foi que Nadal, que finalmente ganhou minha simpatia, perdeu a graça e nem conseguiu sorrir para as câmeras na hora de receber a taça. Estava constrangido, talvez até se sentisse mal em derrotar (e configurando uma série alarmante de vitórias contra um rival que, tênis por tênis, não deve nada a ele e, se deve, pauta a ser muito discutida, deve pouco) um jogador que certamente já causou admiração em Nadal e quem sabe até mesmo a boa inveja. Suíço não chora? Bem, nunca vi Federer reagir assim, como um novato ou um sujeito com a suto-estima abaixo do fufu do cachorro. Fácil: antes ele não tinha motivos para tanto. Até surgir Nadal, essa força atormentadora contra o gênio Federer (continua a ser um gênio, sim – exigiu de Nadal, o demolidor, 4h22min de batalha), o ganhador de 13 Grandes Slams, de 27 anos, era um êxito atrás do outro. Mas em 2008 tudo começou a mudar. Para pior. No entanto, ele tinha conquistado quase tudo, de tal forma que sua vantagem sobre os demais parecia impossível de ser ameaçada. No final do ano passado foi mais que ameaça: depois de repetidas derrotas para Nadal, perdeu o posto de número 1 e começou 2009 sob desconfiança dos críticos. Mas começou bem. Fez uma ótima campanha na Austrália. Parecia recuperado. E talvez esteja. Mas não contra Nadal. É bem provável que o efeito psicológico, mais que o estilo (embora haja estilos de jogos que não encaixam bem com certos estilos opostos, e este deve ser o caso Federer-Nadal, com vantagem para o segundo), deve estar fazendo um estrago violento. Não aconselho Federer a treinar mais, mas sim a frequentar um analista, urgente. Suas lágrimas não foram as de um mero lamento pela derrota (está maduro demais para isso), mas as da impotência frente a alguém que parece incólume, indestrutível, a prova viva – e jovem! – de que o grande tênis de Federer possui um limite. E intransponível. Como torcedor, emocionei-me também. E espero que o paredão um dia desses seja vencido pela autoconfiança recuperada, já que talento Roger Federer tem de sobra. O diabo é que talento só não é tudo. Não é mesmo. (01/02/2009)

3 comentários:

Paulo Bentancur disse...

(Pô, ninguém nesta terrinha assistiu a uma das maiores partidas de tênis dos últimos tempos?)

Anônimo disse...

Ei, Paulo:

eu assisti à partida. Mas depois de um épico desses, dizer o quê, além do que você e os especialistas disseram? O Federer está levando um enorme azar: existir na mesma época de um rapaz que também é gênio. E que é mais jovem que o suíço!

Abraços.

Luiz Correia Mattos (Guarulhos, SP)

alr2209 disse...

Não vi todo o jogo, mas, o pouco que vi concluí que o Federer está voltando a antiga forma, esses números acachapantes pro Nadal são recentes, teve um tempo que Federer "só" perdia em Roland Garros pro Nadal, agora ele perde em todos os pisos, sei, porém acredito que ele ainda esse ano vai superar o Nadal em algum grand slam e empatar com o Sampras em número de títulos importantes, quem viver verá....