sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

SEM GRANA E SEM GRAÇA

O cara tava devendo para quatro bancos, cinco financeiras. SPC, Serasa, Banco Central. Perdera a fome há dois meses.
O cara tava com quatro meses da escola da filha atrasados. Já havia começado o novo ano e nem a rematrícula fora paga. E era a primeira escola na qual ela se adaptara. O cara não tinha vontade de ver filmes, de escutar música, de parar à janela e olhar a rua lá fora como um ser qualquer.
Sentia-se perseguido, com a pressão – cada vez mais forte – de quem está sendo perseguido, será preso, surrado, algo assim.
Humilhado já estava sendo, há muitos meses. Uma humilhação que ele sentia sobretudo quando via, na escola da filha, a abissal diferença entre o que ela recebia na comparação ao que os colegas recebiam. Tirá-la de lá para pô-la numa pior só porque era mais barato? A obrigação de dar-lhe a melhor educação passava pela consciência em casa mas não evitava o desfecho de proporcionar-lhe que estudasse numa escola de ponta. Essa conta ele TINHA de pagar.
O cara não tinha emprego, e os empregos possíveis pagavam salários que nem chegavam a fazer frente aos juros da dívida que ele contraíra como um tipo de herpes genital. E herpes, como acúmulos de dívidas, não têm cura.
Havia amigos. Havia amigas. Havia admiradores e admiradoras.
Estes lhe diziam: “Pô, cara, vê se te ajeita!” Como se bastasse a consciência e a vontade e a decisão de ajeitar-se.
A cada vez que assaltavam um banco sem ferir ninguém, ele sorria. E pensava: “os verdadeiros assaltantes foram assaltados.”
O cara devia três meses de aluguel e a imobiliária entregara a situação a advogados que ameaçavam entrar com uma ação de despejo em uma semana se ele não conseguisse cumprir com um acordo que o oneraria, além do aluguel no mês seguinte, mais 50% do valor como um acerto durante oito meses pelos três atrasados.
Uma amiga disse-lhe: “entre amigos, dívidas não são nada. O pior são dúvidas.” Perfeito, filosoficamente – mas um conceito tão nobre só brota em quem não afundou no buraco que o cara estava.
Até o pescoço.
Mandavam-lhe fotinhos de um mundo perfeito, colorido, com fundo melodioso e açucarado. Ele assistia aquilo de olho no relógio do computador e sentindo a sudorese nas mãos, prontas a continuar, no teclado, o trabalho que entregue em tempo recorde pagaria uma das três contas da semana.
Mandavam-lhe a alegria estampada num universo de implacável desarmonia como se tudo estivesse bem – e estava, entre os que lhe mandavam isso –, e a intenção era boa, mas o diagnosticado perdera definitivamente o faro para flores e o que o esperava, mais tarde, eram os repetidos terrores noturnos.
Surpreendia, ironicamente, que ainda o notassem.
Na verdade, não o notavam.
Notavam o que ele fora, talvez, o que ele poderia talvez ser, a idéia fantasiosa que uma pessoa – mesmo destruída pela doença mortal da dívida – passa aos demais porque a distância protege o horror que a engole e a morte que a carrega para longe da vida dos que vivem e não notam o que a cada dia vai desaparecendo.
Era o que o consolava.
“Um dia eu desapareço definitivamente.”
Mas isso ia demorar. O diabo é que ia demorar, e como! Ele estava na meia-idade e sua expectativa de vida era de mais um quarto de século. Teria de aturar o discurso moralista dos exemplares homens que serviam de referência para seu círculo, e também da generosa (e inútil) esperança dos que ainda insistiam em incluí-lo no mesmo círculo quando ele já não dispunha nem mesmo das pegadas que sua trajetória nos últimos 30 anos deixaram em sua vida e que os mais recentes destroços apagaram a tal ponto que nem ele tinha como localizar os lugares certos, as ações adequadas, exemplares, de sua própria autoria, autoria que agora ele era o primeiro a negar – pela impossibilidade de repeti-la.
Corria o risco de ter de morar de favor. De levar a filha para uma escola pública. De completar três anos sem comprar um livro, um CD, de não gastar R$ 10,00 num presente para ninguém, independente da importância que tivesse.
Falido, tornara-se um pesteado que só se aproximaria de alguém para pedir socorro ou um empréstimo pessoal. Empréstimo que não pagaria tão cedo. Um grande contingente, percebendo isso, afastava-se como quem se afasta de alguém com hanseníase.
A sua biografia, diziam alguns, estava sendo rasgada por ele.
Enquanto isso, a cada dois, três meses, ele rasgava um carnê, enfim pago. Mas ainda havia muitos carnês para rasgar.
E também admiradoras que falavam em “saudade”, que o elogiavam (manifestações que, claro, lhe faziam bem), e que só aumentavam a dívida – afinal, isso não era um consolo, era quase um deboche.
Num ponto ele concordava. Também nele a saudade era grande. A de muitos anos atrás, quando ele não devia e não era objeto do julgamento moral dos que não sabem o que é uma grande queda nem o objeto deslocado da admiração dos que se encantam com o que um homem agonizante foi um dia.
Foi. (27/02/2009)

6 comentários:

Anônimo disse...

Parece que o poeta está de férias e o homem vergado sob o peso da crise mundial veio dar as caras aqui neste blog... Mas vejo lógica nessa verdade amarga, a dos amigos e amigas nos verem mas não verem de fato. É isso, não é?

Beijo.


Martha Correia – Caxias do Sul, RS

Anônimo disse...

Bentancur:

pôxa, moço... Pegou pesado, sabe? Eu não sei se escreveria nesse tom. Arrasa-quarteirão. No entanto, é bem verdade que os textos cada vez mais se encaminham para essa tendência de não fazer sala de visitas para o leitor. Quem o lê, mesmo angustiado, agradece pela luz que ilumina a treva.

Parabéns.


Pedro Dutra, Salvador, BA.

Melissa disse...

bah.

Anônimo disse...

Paulo, esse personagem sofrido já está corriqueiro demais em nosso dia-a-dia que não se presta mais à literatura. Você substituirá facilmente por algo bem mais a altura de seu talento. Pense nisso...

Luíz Horácio, escritor. Porto Alegre, RS

Paulo Bentancur disse...

Luíz Horácio:

Entendi a crítica, gentil, sem dúvida. Porém, a pauta era outra: os "amigos e amigas" que enquanto o sujeito afunda como um Titanic ficam dando adeusinho e mandando mensagens bobas. Não funciona sob essa ótica? Ou seja, o fato de que não é dar relevância à vítima, mas ao entorno, que parece nunca enxergar a extensão da tragédia.

Abraços e volte sempre. Com críticas, que só acrescentam.

Anônimo disse...

Bentancur,

agora entendo aquele seu post sobre os 200 anos do aniversário do Edgar Allan Poe.

É barra, mas você é bom, cara.


Júlio Dantas Freitas, Divinópolis, MG