sábado, 19 de julho de 2008

JÁ ESTÁ NA HORA DE CITARMOS DREXLER. ALÉM DE ESCUTÁ-LO

Se você é um dos felizardos que conseguiu seu ingresso para assistir o uruguaio Jorge Drexler (Montevidéu, 21/09/1964) no 3o Festival de Inverno, no Teatro do Bourbon Country, amanhã, domingo, 21 de julho, às 22h, parabéns. Lotação esgotada desde o meio da semana. Vitor Ramil, uma sobremesa no show, vai estar junto, dando as boas-vindas ao vizinho com quem tem uma música em parceria, “12 Segundos de Escuridão”. A letra? Naturalmente de Drexler, de sensibilidade literária como um Caetano Veloso porém discreto como um Chico Buarque. E com sólida formação intelectual (sem o pedantismo que poderia tornar ilegíveis suas letras) num país mais que discreto, grave. “12 Segundos de Escuridão” canta o movimento de um farol cuja luz não importa, somente os 12 segundos que o farol, em sua incessante rotação, demora até retornar com a previsível iluminação sobre o óbvio visível. É naquele intervalo de 12 segundos, no escuro – quando a luz se movimenta na direção oposta –, que se pode ver o possível de si. Sem a distração inevitável do que a claridade, chegada, apenas encobre com mostrar o cenário evidente. Mas Drexler, filho dos filhos da ditadura uruguaia, que em 2005 emergiu para o cenário internacional com o Oscar para melhor canção original no filme Diários de Motocicleta, de Walter Salles, tem dez álbuns lançados, desde 1992. Dezesseis anos de um estilo entre a balada, substituindo o que seria explicitamente político há meia geração pela metafísica possível da constatação das ausências, das revelações tardias, do amor cuja precariedade é, contraditoriamente, sua única plenitude e, rara, a ser apreendida com toda a entrega, isto é, a dos desarmados de ilusão. E eu sem ingresso!

Drexler é um romântico sem inocência alguma, um filósofo diluído em canções cuja transparência não cedem à simplificação, um pensador que nos embala, nos toma com sua melodia que cabe no amplo nicho do pop de qualidade. Altíssima, aliás. Seu violão vai do minimalismo à procura do acorde menos gritante e, assim, menos surdo, ao toque enérgico de um homem que mergulha não só na letra, sempre ambiciosa e altamente sugestiva, mas na melodia que nos deixa tensos pela força que convoca e com a qual nos carrega para longe. Longe do barulhinho chato empurra-empurra e das letras que andam por aí, letras que, se lidas, o ouvinte se surpreende com algo entre o simplório e o gratuito. Pop, definitivamente, não serve. Drexler tem experimentado, nessa década e meia de carreira, diversos gêneros, o rock entre eles. Mas um rock mais (ou menos) que progressivo, acariciando as cordas e, noutras músicas, fazendo-as vibrarem como elásticos de atiradeiras cuja pedra estilhaça nossas vidraças e, através delas, deixa entrar o alarido da época, o vento que vem do rio soprando lá fora.

E eu sem ingresso.

Exagero? Ouçam “Hermana Duda”, ouçam. E ouçam outra vez. Quando conseguirem parar de ouvir, me escrevam. Eis o link para chegarem nessa peça contagiante e perturbadora (o que dá no mesmo).

http://www.youtube.com/watch?v=nxYrbw9hu9o&feature=related

Aí vai a tradução da letra, para se ter uma idéia. Mesmo dissociada, aqui, da melodia, sobrevive, e bem.

Irmã dúvida

Não tenho a quem rezar, pedindo luz.
Ando apalpando o espaço às cegas.
Não me interpretem mal,
Não estou me queixando.
Sou jardineiro dos meus dilemas.

Irmã dúvida,
Passarão os anos,
Mudarão as modas,
Virão outras guerras,
Perderão os mesmos
E tomara que tu
Sigas me levando contigo.

Mas esta noite, irmã dúvida,
Irmã dúvida, da-me um respiro.

Não tenho a quem culpar
Que não seja eu,
Com meu monte de “coisas pendentes”.
Não me interpretem mal,
Estou me dando bem. Ou pelo menos
Tenho a intenção.

Irmã dúvida,
Passarão os discos,
Subirão as águas,
Mudarão as crises,
Pagarão os mesmos
E tomara que tu
Sigas mordendo a minha língua.

Mas esta noite, irmã dúvida,
Dá-me uma trégua.

Irmã dúvida,
Passarão os anos,
Mudarão as modas,
Virão outras guerras,
Perderão os mesmos
E tomara que tu
Sigas me levando contigo.

Mas esta noite, só esta noite,
Irmã dúvida, dá-me um respiro...”

Carajo. E eu sem ingresso. (19/07/2008)

7 comentários:

Anônimo disse...

Dá-me um respiro? Paulo, eu traduziria por me dê uma folga. Foda-se a métrica. O ouvido vale mais.
Agora, a letra é bonita mesmo.

Ernani Ssó

Anônimo disse...

Carajo, que texto!
Tens mesmo bom gosto para tudo: literatura, música...
Parabéns! Mais uma aula. Vou ouvir a música.

Beijo

Joana Giacomazzi

Maira Beatriz Engers disse...

Paulo:
"...dá-me um respiro.
Não tenho a quem culpar
Que não seja eu,
Com meu monte de coisas pendentes."

Ah! E como temos coisas pendentes!
E você sem ingresso,aí na capital?
A letra é máxima.
Abraços Maira B. Engers (Professora de Literatura, escritora)

Anônimo disse...

Bentancur:

eu já conhecia Drexler, tem tempo isso. Talvez porque eu seja muito ligado à música. Não conhecia teu blog, que descobri há poucos dias, recomendado por um amigo. Ele chamava minha atenção para a linguagem que você usa, para o seu estilo, pouco blogueiro. Vim conferir e não deu outra. Passo por aqui todos os dias. A cada um deles faço uma viagem ao "passado", lendo textos que você postou há tempos. Para mim, tudo novidade. E ainda tem o site, que não visitei. Por enquanto.

Júlio Medrado Borges / Santo André, SP.

Anônimo disse...

Paulo,
perdi-me pensando "Sou jardineiro dos meus dilemas",toda primeira estrofe mas,este último verso... ô,Drexler, que Oscar merecido, e merece outros.
Maravilha teres nos dado este texto(Não só a música esta, só enrriqueceu o texto).
Já ouvi a mísica e até vou gravar para ouvir mais.
Valeu muito,muito nos lembrar este Uruguaio maravilhoso.
Literatura e música,música e literatura.Teu blog está cada vez melhor heim?Parabéns!

Beijo

Lucia Helena

Anônimo disse...

Fui no show, aqui em Porto Alegre, no Bourbon Country, na segunda-feira, dia 21. Nunca tinha visto Drexler ao vivo. Impressionou-me. Sem nenhuma parafernália, tem a imposição de palco que tem, por exemplo, aqui no Brasil, um Caetano, que Bentancur cita. Mas com aquele jeito uruguaio de ser, grave, com sorrisos discretos, provocados pela brasileira platéia, menos grave que as letras do hermano. Já andei pescando pela internet e vi que se pode conseguir uma meia dúzia de CDs dele. É um dos nomes do momento, com merecimento. Valeu a dica e o destaque, prezado crítico.

Carlos César do Prado, São Leopoldo, RS.

Anônimo disse...

Hoje comprei um CD de Drexler para dar a um amigo, que está de aniversário: 12 SEGUNDOS DE OSCURIDAD, capa azul, um luxo! Antes, li o teu post. Para não ter dúvidas de que dar um outro presente seria adiar o melhor de todos. Obrigado pela dica.

Ivani Cardozo Ottoni - Farroupilha, RS.