domingo, 4 de maio de 2008

CARTA ABERTA AO PAI MORTO

A Miguel Ângelo Bentancur

Pai,

aí onde estás – esta região remota, esquiva e, ao mesmo tempo, sempre fiel: a memória – imagino que só através de mim possas saber que enfim essa espécie de milagre aconteceu. O Inter, o nosso amado Inter, o Inter que tanto nos faz sofrer (até mesmo nas vitórias sofridas; e, sobretudo, contra o Juventude, essa teimosa pedra no caminho), o Inter sagrou-se campeão gaúcho. Mas isso não seria nenhum milagre; afinal, nosso clube foi o que mais títulos estaduais ganhou até agora. O milagre é que foi em cima do Juventude – e com uma humilhante goleada!
Tão humilhante que o resultado certamente se fixará com pegajosa amargura na memória de juventudinos, há duas horas esperançosos, e de gremistas ressentidos na ausência de decidirem qualquer coisa por causa de prematura desclassificação.
Não do mesmo jeito, claro, tua perda está fixada na minha lembrança, e desta forma te preservo, me salvo junto contigo, e continuo o diálogo, podendo então te comentar, exultante e aliviado: que vitória...
Na hora do oitavo gol fui obrigado a pensar: a superioridade do time pelo qual torcemos fê-lo jogar como se praticasse outro esporte: 8 gols é produção de futsal, não de futebol de campo, raramente generoso quando se trata de placar. Mais um detalhe, praticamente desprezível: a maior goleada do campeonato. Com quem eu poderia dividir tudo isso, acerca de quem tanto amo, o meu time (quem não ama tanto o time pelo qual torce?)? Só mesmo com quem muito o amou e agora, presente apenas no meu silêncio, o ama através da minha memória.
Carrego por ti, pai (que tantas vezes carregaste por mim, em algumas eventualidades duplamente bêbado, de alegria e de bebida de fato), essa fúria salvadora da aborrecida sensação de precariedade. Fúria e salvação que nascem, hoje, 4 de maio de 2008, um ano e dois meses depois de tua morte (em coma, nem soubeste, no apagar das luzes de 2006, que fomos campeões mundias interclubes), de um evento único: a odisséia recém terminada e vencida, de forma esmagadora, a resposta do time que nunca joga duro ao time que sempre disputava copas do mundo contra nós, que entrávamos com a suavidade de quem se dispõe apenas a amistosos.
8 x 1, pai. E o último gol marcado pelo Clemer, o nosso goleiro. Dá para acreditar? Eu acredito, porque poder te contar isso, tanto tempo sem te ver cara a cara, parece até um milagre.
Não é. Foi afinal um jogo de recuperação de tantas possibilidades com que o nosso time acenava. As mesmas com que sempre acenaste para que a nossa proximidade nunca tivesse fim. E não teve, pai, não teve.
Comemora comigo esse placar divino, comemora. Invisível tu, mudo tu, verão em mim uma manifestação redobrada. Como se eu estivesse tomado pela tua embriaguez alegre, aquela com a qual consolavas, com alguma ironia, claro (faz parte do jogo), os derrotados. Seu grande erro não foi terem jogado mal. Foi o de terem nos roubado tantas vezes a alegria para a qual nascemos vocacionados.

2 comentários:

Anônimo disse...

Uffffaaaaaa Paulo,
há algo a dizer depois de ler este texto?
Muito tocada e feliz como colorada.
Joana

Maira B. Engers disse...

Paulo... "...fúria salvadora da aborrecida sensação de precariedade.Fúria e salvação que nascem com a vitória esmagadora..."
Homem-menino conseguindo falar ao pai. Um campeonato de futebol: duas vitórias.
Leio junto de teu magnífico texto o Edimilsom(meu sobrinho), que ao finalizar o jogo anterior disse-me:
- Tia, não há febre que fique, depois de 5x1! Sou colorado. O pai o quer invisível.Eu torço por mais vitórias.

Maira B. Engers- Professora,poetisa, ativista cultural (mairaengers@hotmail.com)