quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

TERRÍVEIS TARADOS E A REAÇÃO COMUM DAS MULHERES

Um homem, 35 anos, passa por uma mulher bonita, lá pelos seus 28, 30. Encanta-se. Controla-se até onde pode. E não vai além de cantarolar, emparelhando o passo quase ao lado dela, num trecho da calçada em que estão apenas ambos, e mais nenhuma testemunha para envergonhá-lo: "Você é linda, / linda demais. / Você é linda sim. / Esta canção / é só pra dizer / e diz..." Nem a observa, tenso, talvez. Embora com o encanto inquebrável. Até que... A mulher apressa o passo, como se corresse de um assassino e, cinco metros adiante, olha para trás, encara-o, pura fúria, encolhe os dedos e estica o indicador, dando o troco socialmente merecido: "vai tomar no teu cu!"

Outro homem, mais jovem, rapaz ainda, passa por uma adolescente de uns 16, 17 anos, e mais murmura que exclama, olhando sempre em frente: "Meeeeeeuuuuu Deuuuuussssss!" A jovem vira-se, como se abalroada por um búfalo, e vocifera: "Não te enxerga, ô meu?!"

Um homem de meia-idade, fazendo sua habitual caminhada, para próximo a uma dama distinta, idade similar, colar de pérolas e palavras secretas que ele supõe jamais um dia escutar. Comenta com a parceira na espera do demorado semáforo: "este cruzamento é chato mesmo..." Ela não responde, como se se fosse fazê-lo acabasse de assinar a própria sentença de morte. Ele ainda acrescenta, assim que o sinal abre e ela dispara: "Boa taaaaarde!". Ela segue quase correndo, tropeça, vira-se na direção dele e o olhar de puro desgosto acompanha a boca vomitando um "filho da puta, não respeita ninguém? Não se olha no espelho?" Ele, chocado, tem vontade de perguntar-lhe se ela tem alguma intimidade com a língua portuguesa. Mas sabe que a palavra "intimidade" poderia não pegar bem.

Um senhor septuagenário observa com indisfarçável alegria os movimentos de uma senhora sexagenária, vestido florido, coque no cabelo cinza mas tão docemente moderno. Ela dá o flagrante no olhar e sacode a cabeça, comentando com uma outra que passa: "esses velhos não respeitam ninguém...".

Um menino de uns dez anos examina artigos esportivos numa loja especializada. Uma menina da mesma idade gruda o olho nele e não desgruda. Ele não vê nada mais belo que o par de tênis, a caneleira, as luvas. Quando está saindo do estabelcimento com o pai, a menina arrisca: "Tchau!" E ele, sem saber que é a coisa mais natural do mundo, responde: "Tchau!". (23/02/2011)

10 comentários:

Anônimo disse...

Paulo,

você sabe que fenômeno é este? Não é difícil de entender. Durante milhares de anos as mulheres foram submetidas ao desrespeito masculino. Ficaram traumatizadas. Hoje – acredito no que você retrata – alguns homens mais civilizados e cavalheiros, à mínima lisonja que lançam na direção delas, são recebidos com pedras nas mãos. Mas estas mulheres tem seus motivos. Uma memória histórica, Paulo, que não honraesses homens. Mas achei interessante o texto, muito interessante.

Lucília Mendes Arruda - Olinda, PE

Paulo Bentancur disse...

Amiga Lucília,

adorei teu comentário. E concordo com ele. Mas temos de ver os dois lados. E tratei de mostrar o DE ALGUNS HOMENS (minoria, provavelmente, claro), que, bem-intencionados, são pegos de surpresa. Eles pagam também pelos crimes dos antepassados ou pela rasteira cultura masculina ainda disseminada no presente. Mas, puxa!, não podemos ler um pelos demais. Cinco por cinco milhões. O ato isolado e contextualizado precisa ser levado mais em consideração. De qualquer forma, quis, mesmo, mexer no vespeiro. E desfazer um pouco o mito de que TODOS OS HOMENS SÃO CHINELÕES E, SOBRETUDO, TODAS AS MULHERES UMAS LADIES AGREDIDAS E INDEFESAS. Olha só a reação delas. Aprenderam direitinho com os homens, não com as mulheres. (Embora, sim, as nossas avós e bisavós não eram boas professoras em termos de administrar esse tipo de situação.) Agradeço a opinião lúcida, a leitura. E vamos debatendo temais assim, polêmicos. Abração.

Anônimo disse...

caro Paulo, ah, não! Admito. Isso hoje existe e é, ufa!, finalmente, um sinal saudável, de avanço cultural, de as mulheres terem enfim aprendido a se defenderem. Acho que soubeste detectar as reações delas, sim, que fragraste como estamos mais ousadas, corajosas, livres! Mas esses homens que citas, sei não... Estão muito bonzinhos pro meu gosto. Educacinhos como nunca vi homem algum na rua dirigigir-se a uma mulher. São horríveis! Vulgares. Desrespeitosos. Até mesmo amedrontadores. Ou achas que essas mulheres estão piradas, venco chifre em cabeça de cavalo?

Mas que os texto abriu uma boa polêmica, abriu. Beijo. Em ti, hem, que eu conheço. Bem, mais ou menos... rsrsrsrs.


Rosa Vieira Frias - Caxias do Sul, RS

Anônimo disse...

Paulo, meu querido mestre,

Estou convencida de que esse texto surgiu de alguma experiência (atravessada) vivida por voce. Pois te digo, também pelas minhas experiências, que essa agressão feminina gratuita, que é o que parece na leitura, me é totalmente estranha. Eu e muitas das mulheres do meu círculo nos sentimos muito lisonjeadas quando algum desconhecido qualquer lança um desses olhares tarados, ou ainda soltam um manjado “gostosa”. Sou sincera em dizer que isso me faz muito bem. Um dia desses eu passava pela Praça da Sé, acabada de cansaço, com salto alto, carregando processos, enfim, um trapo, e eis que pelo caminho entre o metrô e o fórum, ouvi uns dois ou três “gostosa”. Isso me fez um bem danado. Mas me fez tão bem, que tão logo me livrei dos processos parei numa lanchonete, transformei o meu tradicional chanelzinho numa rabo de cavalo, tomei um açaí geladíssimo e voltei refeita, refrescada, me sentindo em plena Copacabana. Agora, lendo o seu texto fiquei aqui pensando, será que minha auto-estima está tão em baixa para eu gostar do que a maioria abomina, ou, será que realmente me sinto “gostosa” e só fiquei feliz por reconhecerem isso no momento em que eu me sentia o pó da rabiola? Sei lá quem está certa, se as ofendidas (essas do seu texto) ou as facinhas (eu, no caso) . Só sei que jamais me ofendo com elogios, me ofenderia sim, se algum matungo passasse do meu lado e me dissesse “mas tu é um tribufú, hem?”. Credo, não gosto nem de pensar. Acho que eu matava o desgraçado. Mas, experiências à parte, quero parabenizá-lo pelo texto, bom, muito bom, como tudo que voce faz, e polêmico, evidente. E que arremate, hem meu caro? Essa limpeza da alma infantil nos faz sentir envergonha de ter crescido, não é? Beijos. Da sua discípula Silvia.

Anônimo disse...

Paulo
Para cada ação, há uma reação, isso todo mundo sabe. Pela reação das mulheres é óbvio que nenhuma delas gostou das cantadas. Se as mulheres gostassem desse comportamento idiota dos homens, certamente alguma delas teria correspondido. Eu reajo do mesmo jeito, quando não respondo grosseiramente, mando, em pensamento, o cara ir para o inferno! Eu não tolero receber cantadas desses tarados desconhecidos na rua, ou em qualquer lugar que seja... e falo também por minhas amigas: elas detestam. Quando recebo cantadas, galanteios baratos, ou qualquer gracinha fecho logo a cara, começo a andar depressa e não olho para trás, vai que seja algum psicopata. Esses sujeitos dão sempre seus elogios acompanhados daquele olhar nojento de quem quer te devorar. Eca! Muitas mulheres afirmam que se sair de casa e não levar uma cantada perdeu o dia( não consigo entender isso, será alguma carência?) Segundo elas, a cantada amacia o ego, menos o meu.

Maristela Mendes disse...

Paulo,
Eu, muito inteligente...rsrs, cliquei em anônimo e não coloquei meu nome...não sou fantasma, tá!? essa última postagem é de Maristela Mendes.
abs.

Paulo Bentancur disse...

Silvia, parceira atenta,

sempre com posições corajosas e bem-humoradas. Não, não é experiência vivida por mim. Não preciso desses recursos tão "perigosos" dos personagens que entrevistei. Os meus, quando eram necessários, eram mais eficientes. Falava com a franqueza possível (não tão descaradamente, claro, afinal estava cortejando - eta palavra antiguinha essa!) e a moça em questão certamente ocupava a mesma mesa que eu nalgum bar, livraria-café, restaurante. E dava certo ou não dava. Geralmente dava porque eu não me arriscava cegamente. Só ia na bola da vez (rsrsrsrs), depois de farejar uma certa disponibilidade e um interesse que a amiga não disfarçava direito. Por isso que afirmo que não é experiência (atravessada) minha. São curiosidades incontroláveis de escritor (e homem, óbvio), que quer sempre saber como o mundo anda. A parte mais intensa do mundo, a das relações entre homem e mulher.

Adorei que tenhas gostado do final. Como sabes ler bem! Porque foi a parte de que mais gostei, a única fictícia, a única baseada, de certa forma, nas minhas experiências de menino, e a tua interpretação foi a mesma minha: uma certa vergonha em ter crescido. Parabéns, Silvia; beijos, Silvia, escritora também.

Anônimo disse...

Interessante seria se uma mulher ouvisse que suas pernas não estavam bem depiladas naquele dia ou que a bolsa não estava de acordo com o vestido.

Suponhamos, o homem nem falou diretamente para ela, falou para o colega ao lado, mas ela ouviu.

Ferida, ela se levanta e sai rapidamente do local, anda apressada quebrando a calçada com o salto. Daí, cruza com um desses, que a gente chama de unzinho qualquer e recebe uma piscada. Mínima, só um leve bater de pestanas.

Daquele que, por um átimo, foi o melhor amigo do mundo. Foi ou não foi?

Paulo Bentancur eleva as mulheres. E ainda fica segurando lá no alto por um bom tempo. Nunca precisou de halteres, o danado. E ainda escreve isso tudo.

Meeeeeeuuuuu Deeeeeuuuuussss!

Moon Baby disse...

Paulo,
como prometi, vou deixar meu comentário a respeito da reação das mulheres. Acredito que não seja nenhuma maravilha o que vou escrever, mas creio que cada um reage de acordo com suas vivências.
Abraço
Ceres

Vana Comissoli disse...

As idades... Ah, como nos deixam idiotas!
E, por favor, não me falem de desrespeito, é uma ofensa à minha percepção.
O real: se não dás em cima de uma mulher, ela chorará lágrimas diluídas em vinho, ou licor. Se dás, és um filho da puta.
E olha que sou mulher. rsrsrs
Pobres homens e pobres mulheres que acabam falando linguagens tão díspares para chegar no mesmo objetivo.