sábado, 24 de outubro de 2009

ALÉM E AQUÉM DO VERSO ("Versilêncios", de Gerusa Leal)




Não é todo dia que surge um bom livro de poemas. Culpa dos poetas. Em parte, em pequena parte. Em grande parte a culpa é mesmo dos editores, que acusam o mercado dentro de cuja barriga os livreiros, famintos, bradam: “não há leitores de poesia!”. Não? Somos então uma espécie em extinção. Eu e mais uns cinco mil que certamente leem o gênero no Brasil. Parece que o problema não está só com a poesia mas com a indústria editorial, que opta pelo mais fácil como uma criança fazendo o dever de casa. Movida pela pior das obrigações – e por isso não deslancha. Culturalmente não.

Mas esta é uma discussão longa. Vender, vender mesmo (esgotar edições), claro que a poesia não fará isso. Mas pagar seus custos ao menos, dando, em contrapartida, uma valorização no catálogo das editoras, deixando-os mais nobres, pagando ao editor com a “quota prestígio” – que parece que o Departamento Editorial ignora –, isso ela tem feito sempre que um herói invista em versos: naturalmente, de qualidade.

Pois Versilêncios, de Gerusa Leal (nascida em Recife e residindo atualmente em Olinda), é desses livros dos quais as editoras não correm atrás. Azar o nosso, leitores dependentes químicos de Literatura com L maiúscula. Não fosse o prêmio Edmir Domingues de Poesia 2007, da Academia Pernambucana de Letras, que a obra merecidamente ganhou, e o apoio viabilizador da edição, através da lei do sistema de incentivo à cultura, e o livro não viria à luz. Permaneceria inédito, provavelmente, apesar de seus incontáveis méritos, ou dependeria daquelas infrutíferas iniciativas de poetas que, corajosos ou impacientes, pagam do próprio bolso uma edição destinada a não ser profissional mas, literalmente, independente (isto é: independente do mercado, onde não se insere, independente de distribuição, de comercialização e, assim, de recepção, condenada a permanecer à margem).

O primeiro a torcer o nariz diante do produto é o livreiro, que deseja ver na capa um selo importante. Diante de tal ausência, não dá a atenção devida, não o expõe, e o frequentador da livraria não tem como adivinhar que a obra existe. Obra destinada, portanto, a não existir mesmo.

Uma vez declarei num programa de tevê de grande audiência, em cadeia nacional: “pior que ficar inédito é publicar mal.” E não publicar mal, só por editoras profissionais, sólidas, e que, lamentavelmente, estão dando às costas à poesia. Mas esta, como escrevi linhas atrás, é outra discussão.

A pauta aqui é Gerusa Leal, poeta e ficcionista. E, mais especificamente, Versilêncios, que acaba de ser lançado, porém sem a necessária distribuição. De Pernambuco, de onde vem, até chegar ao RS, mais que a enorme distância, separa-o o milagre. Milagre que pôs o livro em minhas mãos por essas atalhos especiais que só os vínculos estéticos somados aos humanos propiciam.

Tenho lido pouca poesia (porque pouca poesia tem sido publicada) e relido muita, os clássicos (porque estes, adotados, são os únicos diante dos quais o editor não arrisca).

Versilêncios abre-se já a partir do título, multifacetado, com a tripla carga semântica do neologismo que a poeta criou para batizar seu filho, ufa!, não enjeitado (bendito prêmio...). “Ver silêncios” (poesia, afinal, é imagem, embora também música, e se até o silêncio fala ao poeta, este o desenha em suas metáforas-traço). “Ver” soma-se à primeira sílaba, “si”, de “silêncios”, numa junção que dá em “versi”, “verso” em italiano, e basta pensar em Dante, não exatamente no livro lembrado, mas inevitável quando se pensa em poesia e em italiano, para ver a intensa riqueza significadora do título. E ainda: “Versos” e “silêncios”, isto é, “versos silenciosos” – melhor tradução para o projeto de extremo rigor e de pleno acerto que Gerusa atinge como poeta.

Eis a tripla encruzilhada que, antes de obstáculo, é abertura para um caminho mais amplo à procura de uma leitura de fato entregue a esses cinquenta poemas singulares.

A poética de Versilêncios é construção rigorosa, com versos esculpidos, talhados, não tivesse, pela força do ritmo, uma fluência cuja harmonia atinge em cheio sua cadência nunca dura, nunca seca, mas, sim, quase sussurrada e, desta forma, buscando lírica rara: a marcar exatamente porque escolheu entremostrar-se e não o contrário, que é exibir-se com os excessos comuns de uma poesia que não passa de prosa ritmada ao extremo.

A edição, evento a ser saudado, sobretudo pelas dificuldades que sempre cercam tal fato, está à altura, com introdução e posfácio críticos, ambos de fôlego e com leituras que não causam eco, que não chovem no molhado. Um pouco pela qualidade dos ensaístas, André Cervinskis e Stéphane Chao, um pouco pela própria poeta, que não descuida de um único verso, que escreve silabando. E que, ainda que chegue ao zelo infinito de medir cada som, não se exila do discurso próprio da poesia, o do paradoxo, o da permanente refundação do mundo e da inacabável instauração do real. Um real que é sempre outro, não este, no qual escrevo.

Citar um poema? Cito um inteiro, o primeiro, no qual a poeta, sem demora, já mostra ao que veio: “não escrevo o que não sinto / amadora que sou / sinto o que não escrevo / jeito de amar a dor // escrevo o que não sinto / salvo a vida / não sinto o que não escrevo / nem percebo que vivi”. Dividido em doze seções, Versilêncios nos leva para um território onde tudo o que lemos-escutamos só grita nos instantes (muitos) em que a beleza é tanta que nos impõe uma resposta: a da emoção estética forte, manifestada em geral quando diante de um livro muito acima da média.
É o caso.
Gerusa Leal. Anotaram o nome? Procurem no blog (olhem que belo nome) Flor de Gelo, endereço: http://flor-de-gelo.blogspot.com/ e tudo que eu não disse aqui alguém terá dito por lá. (24/10/2009)

4 comentários:

Anônimo disse...

Olá, Bentancur!

Que poder o deste livro para levá-lo a quebrar um silêncio (curiosamente, "Versilêncios") de praticamente quatro meses, 120 dias! Achei que você tinha abandonado a trincheira do grande formador de leitores, do oficineiro corajoso que você demonstra ser ao pôr o dedo na ferida de um texto frágil. Agradeço a essa poeta que não conheço e graças a qual você voltou a dar o ar de sua graça. Vou conhecer FLOR DE GELO, óbvio. E aguardar que você escreva mais seguidamente.

Abraços do leitor fiel,

Jarderson de Lima (Vitória, ES)

Susana disse...

Caro Bentancur,
Senti-me muito feliz ao ler suas palavras. Não é todo dia que alguém se arvora a tecer tão belos comentários reais sobre um escritor e sua mais recente obra. E você o fez com tamanha carga de emoção que me senti lisonjeada. Lisonjeada por diversos fatores: 1º por conhecer a obra de Gerusa; 2º por virar fã e posteriormente amiga; e 3º por ter tido a imensa honra de ter sido convidada por ela para fazer o recital de lançamento desta bela obra, agora imagine qual foi a minha surpresa ao receber em casa um exemplar do ainda inédito Versilêncios, e mais surpresa ainda ao folheá-lo e ficar estatalada como criança que ganha uma belo presente. Por isso e mais um pouco, agradeço demais a você pelas belas palavras dirigidas a imensa escritora e ainda maior como pessoa que é Gerusa Leal.

Abraços poéticos da cordelista pernambucana,
Susana Morais

Raimundo de Moraes disse...

Que bom ver o talento da nossa querida Gerusa ser (merecidamente) reconhecido em terras sulinas. Versilêncios - aguardem - é só o começo de muita coisa boa que virá.

paulo salles disse...

Olá, Betancurt

Acessei o seu link por indicação da minha amiga e poeta Gerusa Leal, para ver os comentários sobre "Versilêncios", que foi lançado um pouco antes do lançamento do meu terceiro livro de poesias "Horas Verdes". A maneira que encontrei para homenagear Gerusa, foi através do poema que ora envio a vc.

(DI)VERSIFICANDO

Para a poetiza Gerusa Leal, autora de “Versilêncios’, Prêmio Edmir Domingues da APL em 2007.


mergulhei novamente nos teus versos.
quem sabe pudesse colher a flor de gelo
ou encontrasse algum resto de carpintaria
que pudesse ser objeto de reconstrução

escravo também sou da mesma senhora
e quero ver a poesia nas coisas simples
seja em um encontro familiar
ou segredos de alcova

nasci e também preciso caminhar
com nuvens, chuvisco de azul, fumaça...
não importa
e se viver não é profissão
poesia então...

quero ser, mesmo que intruso, parte dessa tua nau
que singra os mares de Holanda a Olinda
mesmo sem nome e sem falar de amor
só não quero ser barco sem rumo
ou escravo da paixão

Monalisas tive. Sem o mesmo riso
mas com outros atributos
Confessaram me amar. Também disse que as amava
com um ar de um certo talvez

falo de muitas coisas. Pouco dos meus segredos
e se não consigo dormir, também não falo
e no silêncio minha alma dorme

fiz uma pausa em tuas lembranças
no drinque depois do banho
da provisória danação e do teu céu encoberto
não queria te ver pegar a sombrinha e partir
mas, se foi preciso...

não és uma inútil. Tua poesia rasga as veias
e traspassa corações. Teu medo é natural
e nem todos os dias são bons

não és filha de Lilith. És somente uma Eva
quem sabe mais uma mulher de preto
rainha ou última guerreira

troca os morangos mofados
solve o vinho que ainda está na taça
sem apego ao que é fumaça ou cristal
devora as batatas
morrer? Nenhum pouquinho

só não quero é chegar ao final
e contemplar a face impassível de Deus
eu quero é pular o abismo
e ir morar com Ele.

Paulo Salles