sábado, 4 de outubro de 2008

UM POUCO MAIS SOBRE "WHISKY"

Terminou agora na tevê a cabo a exibição do filme que recomendei. São 22h15min quando escrevo este post sobre Whisky, recomendado a mim por Roberto Silva, que tenta, inutilmente, esconder-se em João Pessoa. Pobre Jacobo, o dono da fabriqueta de meias (de discutível qualidade e gosto) e de um carro que sempre custa a pegar. Filhos da puta esses dois diretores, um deles, Juan Pablo Rebella, de apenas 32 anos, morto dois anos depois de lançado o filme. Como o Uruguai é um país triste...

Na vidinha precária da fábrica de meias de Jacobo não cabe um único discurso. Nem meio. Com a chegada do irmão, Herman, vindo do Brasil (eta país de falastrões), o sujeito, contaminado e bem-sucedido, é a única promessa de vínculo, mesmo que provisório. Aliás, nem se trata de vínculo (o irmão vem para os dez anos de morte da mãe, a cujo enterro nem compareceu), mas do ato do sorriso como um evento isolado. Fazer cara (puro mecanismo) de quem diz "uísque" e, assim, mostrar os dentes para o fotógrafo. É o que passam a fazer Jacobo e sua principal funcionária, Marta, que combina com ele, durante a estadia do irmão, cumprir o papel de esposa do desencantado patrão. Nota: não há confissão de desencanto. É desencanto puro, em estado bruto, para além das autocomiserações.

A alegria advinda das discretas demonstrações à visita familiar é no máximo uma declaração de boas-vindas e, depois, com o passar dos dias e da convivência, sob o peso das diferenças entre o anfitrião sem ilusões nem bens e o visitante com charme e dinheiro, o que é drama vira comédia e o que poderia ser comédia vira incômodo, insuportável silêncio. Detalhe: como o silêncio é enfático nessa história! As imagens são quase singelas e, no entanto, impossível resumir a trama, que aponta em tantas direções. Uma das razões é a solidão atroz das duas personagens principais, Jacobo e Marta, e a carência nunca assumida de um e sempre assumida – embora calada – da outra.

O roteiro é uma obra-prima, ainda que a palavra o desmereça, por ser uma expressão gasta e absolutista. Os atores são daquela rara espécie que prova que interpretar não é nem um pouco menos que criar. A sensação, nítida, que me ficou, é que Whisky é um fragmento poderoso das minhas memórias, e que estarei sempre lembrando-o misturado à minha vida, acerca da qual sempre surgem novas dúvidas que poderiam transformá-la, não estivesse ela fechada para a transformação, e iluminadoras certezas sombrias. (04/10/2008)

5 comentários:

Anônimo disse...

Ei, Paulo:

Eu assisti este filme no Festival de Gramado, onde ele, aliás, recebeu prêmio. Por puro acaso assisti. Estava fazendo turismo na cidade e, a convite de um amigo, bem-relacionado (rsrsrs) com os organizadores, consegui entrar. E saí dali me sentindo... como posso dizer? Diferente. É um filme que parece que nos transporta para outra dimensão psicológica, como se nossa vida, antes dele, fosse pura representação. Acredito que essa seja sua grande força.´

Aglaé Messias Malta (Bento Gonçalves, RS)

Anônimo disse...

Atento Paulo:

aquelas chegadas pela manhã, a Marta, a funcionária que revista a bolsa das outras DUAS empregadas (uma fabriqueta lamentável, uma precariedade dos diabos, uma desconfiança infinita...), a Marta, a funcionária-exemplar, solícita, submissa, chegando sempre antes do proprietário, que chega logo depois, e abre aquela porta de correr, de um aço envelhecido pelo tempo e a falta de recursos – aquelas chegadas de manhã são de parar o coração de qualquer um. E na hora de fechar a fábrica, já ao anoitecer, a mesma cena, a funcionária indo para um lado, o chefe para o outro, a câmera pegando o básico, nem um detalhe mas nada panorâmico, só o básico, pouco mais que um 3 x 4. O filme é perfeito ao pescar em águas tão lodosas o peixe pequeno que não alimenta.

Josué Ribas Silvestre - Marília, SP.

Anônimo disse...

Paulo, impressionante são os diálogos. Quase não há diálogos. São personagens nos quais a palavra não manda. Como a maioria da humanidade, aliás. Uma pena. Por isso o filme é importante: arte feita através de imagens tão despidas quanto a vida das personagens que retrata, sem enfeites, sem discurso.

Luís Queiroz,Guarulhos, SP.

Anônimo disse...

Impressão minha ou você, no final do texto, faz o papel de Jacobo?

Luiz Edgardo Moura Assis - Vitória, ES.

Paulo Bentancur disse...

Luiz:

na mosca! Eta leitor...