A leitura é uma ação delicada, difícil – só na aparência simples. Pega-se um livro que se elegeu, com certa incerteza (como ter certeza acerca do que vamos encontrar no miolo do volume?), e abre-se, como abrimos uma porta para entrar numa casa, num auditório, em algum espaço no qual coisas acontecerão. Não sabemos o que vai acontecer. E isso nos deixa curiosos, às vezes ansiosos, às vezes pressionados pela atenção que é preciso colocar durante o ato da leitura, essa visita a esse espaço onde muita ação e muitas personagens surgirão diante de nossos olhos.
A ação pode ser pouca lenta, complicada (mais psicológica que movimento externo) – e nos aborrecer.
Pode ser vertiginosa, cheia de detalhes, e nos deixar sem fôlego, emocionados pelos acontecimentos.
Pode ser uma ação delicada, uma única trama sem grandes lances acrobáticos ou perigosos, mas no entanto repletos de riqueza humana no que os protagonistas realizam. E isso pode nos tocar fundo. Fixar raiz em nossa memória.
Quando se fala em ação, pensa-se logo em diversão, distração. Isso faz parte, sem dúvida, porém (e que ótimo “porém” esse) uma obra literária sonha geralmente com algo maior: comover o leitor, deixar-lhe sinais de que a vida é mais rica ainda do que aparenta. E é fundamental estarmos alertas para captar esses sinais.
As personagens. Pode-se dizer “os” personagens ou “as” personagens. É substantivo comum de dois gêneros. Alguns estranharão: por que “a” personagem? Porque uma de suas fontes vem da palavra latina “persona”, que quer dizer máscara. E ser uma personagem é vestir uma máscara, cumprir à risca um papel. O autor não perdoa. Mas a personagem também não. Muitas vezes, enquanto estou escrevendo, a personagem resolve fazer coisas que eu nem imaginaria ela fazendo. A personagem tem, sim, a sua independência. Controlada por mim, mas ainda independência. Sob esse aspecto, a personagem nunca é um “túmulo”, expressão que utilizamos para definir pessoas tímidas, discretas, que não dizem nada sobre si e sobre os outros ou dizem quase nada. Num livro, as personagens são expostas cruamente, impiedosamente pelo escritor. E o leitor tem a afortunada oportunidade de (como um espião) descobrir tudo, os segredos mais invioláveis, na vida jamais mostrados, na literatura sempre, de um jeito ou de outro, exibidos. Sem, claro, que a personagem saiba.
Você, leitor, fica a par de tudo. E a personagem não irá persegui-lo, fique tranqüilo. Ela ignora o quanto você sabe.
Basta ler como se espiasse por uma fresta que o levasse a um mundo paralelo.
Sim, a literatura é um mundo paralelo. E um mundo – uau! – com a ambição saudável de examinar quase microscopicamente tudo o que neste mundo, o real, de onde escrevo, não se examina, exceto os cientistas (descobertas que só ficam entre eles no momento em que ocorrem, e que só são divulgadas tempos depois, já de uma forma um tanto simplificada). A literatura não, a literatura é um mundo secreto mas o mais democrático dos mundos secretos. O mais popular.
Por isso peço-lhe, jovem amigo que ainda está treinando olhar a página impressa pelo menos uma vez a cada dois dias: aguce os ouvidos. Ouça as palavras que o autor utiliza, o seu vocabulário. Socorra-se no dicionário se alguma delas lhe soar estranha. Escute a harmonia das frases, o ritmo dos parágrafos. A música do texto todo. A linguagem de que se utiliza um autor é como o modo de falar de uma pessoa. E uma pessoa mostra muito quem é pelo jeito como se expressa, mesmo que minta.
Ler com todas as antenas ligadas ajuda-nos a flagrar a mentira, a achar a verdade até em lugares que ela parecia nem existir, de tão singelos que são (uma estrela cabe num grão de areia, é uma idéia e uma imagem a se pensar). E, mais que tudo, a beleza. A beleza é a verdadeira verdade, a verdadeira bondade, a arte expressa com toda sua musculatura à mostra.
E, por fim, leia procurando, não só ao autor, à história que ele conta, aos personagens que ele pinta, aos cenários que descreve, à linguagem com a qual ele conversa com você. Leia procurando a si mesmo. Em algum trecho, no meio do caminho, ou até no fim, quando menos esperar, você poderá se deparar com algum fragmento do livro que diz tudo aquilo que você sempre desejou dizer ou precisou dizer e não sabia como. Agora sabe. Agora pode.
Porque leu, e, lendo, pode escrever-dizer a voz que se somou à sua e, desta forma, ajudou a sua voz a então poder, a partir da leitura, começar a desenhar o rosto que você de fato tem (até então ilegível para você), a história que é sua (e que você nem sabia que havia uma história possível de ser contada). O jovem leitor em geral não descobriu ainda que somente com a leitura ele conquista não apenas o conhecimento “externo” do que muitos escritores quiseram dizer e incontáveis histórias e as figuraças que vivem essas histórias, conquista não apenas uma “cultura”, a permitir-lhe ser, inclusive, um bom falante e um bom ouvinte. Mais que isso, conquista a si e começa enfim a infinita aventura de desvendar os mistérios que ele próprio carrega, há anos. (14/10/2008)
terça-feira, 14 de outubro de 2008
sábado, 11 de outubro de 2008
O DELICADO EXERCÍCIO DA FORÇA
Você deseja, como todos, se dar bem.
Mas “se dar bem” não pega bem, sobretudo dito assim, a seco.
Na verdade, você quer mais. Você deseja ter alegrias com algumas constância e paz ao máximo. A paz acariciada pelo prazer de, inundado de oxigênio por todos os lados, não ser uma ilha, não, e sim alguém que habita sensorialmente e – sempre se quer mais – intelectualmente uma região imensa, inesgotável.
Você quer demais essa experiência. Não, você não quer “uma” experiência, mas várias, sem-conta, você almeja a soma e o predomínio do que faz seu corpo, sua mente, você de forma inteira.
É preciso persistência. Por incrível que pareça (e a idéia até nos faz rir), ser você mesmo necessita de cuidados, de diários reconhecimentos. Como se existisse um espelho especial feito exclusivamente para você. E a passagem frente a ele (e o postar-se diante dele) é obrigatória. Salvadora.
O melhor de tudo é que esse espelho é só uma idéia que humildemente se coloca diante de você. Uma idéia que enxerga você.
Sim, você é visto por ela, a idéia, por ele, o espelho, que, pensando bem, só existe multiplicado: são muitos espelhos, em todo lugar, em casa, na rua, na hora da diversão, na hora do trabalho – até na hora do repouso.
Delicado exercício de ser (porque “ser” significa “ser alguém”, o que é muito mais que “ser algo”), como é fundamental esse permanente estado de alerta mesmo no alheamento. Um alheamento que, segundo Drummond, é “porosidade”. Isto é, nunca se ausentar tão plenamente para não se perder a música do mundo e, junto com ela, a voz que se herdou alimentada pela voz que se construiu.
Cave, fuce, procure, afaste as cortinas, observe, leia, ouça, fale, toque, seja tocado – encare o desafio e a provocação (deliciosa e grave) de identificar o que é força em você e o convoca a construir mas também a fruir, a fazer – e sua recompensa –, a receber o que se move na mesma discreta ação que é gêmea da sua.
Todos nos procuramos. Nós, você, a humanidade, o mundo, as coisas.
E se se repelem, muitas vezes, é porque não compreendem o choque inevitável causado pela paralisação da procura. Alguma força sempre esbarra conosco no caminho. E nos derruba, se não estivermos fortes.
Interessante: pode nos levantar, essa força outra, se estivermos fortes – mesmo frágeis – para ser erguidos. Ajuda externa que nunca é isolada. Nós, decisivamente, a ajudamos. (11/10/2008)
Mas “se dar bem” não pega bem, sobretudo dito assim, a seco.
Na verdade, você quer mais. Você deseja ter alegrias com algumas constância e paz ao máximo. A paz acariciada pelo prazer de, inundado de oxigênio por todos os lados, não ser uma ilha, não, e sim alguém que habita sensorialmente e – sempre se quer mais – intelectualmente uma região imensa, inesgotável.
Você quer demais essa experiência. Não, você não quer “uma” experiência, mas várias, sem-conta, você almeja a soma e o predomínio do que faz seu corpo, sua mente, você de forma inteira.
É preciso persistência. Por incrível que pareça (e a idéia até nos faz rir), ser você mesmo necessita de cuidados, de diários reconhecimentos. Como se existisse um espelho especial feito exclusivamente para você. E a passagem frente a ele (e o postar-se diante dele) é obrigatória. Salvadora.
O melhor de tudo é que esse espelho é só uma idéia que humildemente se coloca diante de você. Uma idéia que enxerga você.
Sim, você é visto por ela, a idéia, por ele, o espelho, que, pensando bem, só existe multiplicado: são muitos espelhos, em todo lugar, em casa, na rua, na hora da diversão, na hora do trabalho – até na hora do repouso.
Delicado exercício de ser (porque “ser” significa “ser alguém”, o que é muito mais que “ser algo”), como é fundamental esse permanente estado de alerta mesmo no alheamento. Um alheamento que, segundo Drummond, é “porosidade”. Isto é, nunca se ausentar tão plenamente para não se perder a música do mundo e, junto com ela, a voz que se herdou alimentada pela voz que se construiu.
Cave, fuce, procure, afaste as cortinas, observe, leia, ouça, fale, toque, seja tocado – encare o desafio e a provocação (deliciosa e grave) de identificar o que é força em você e o convoca a construir mas também a fruir, a fazer – e sua recompensa –, a receber o que se move na mesma discreta ação que é gêmea da sua.
Todos nos procuramos. Nós, você, a humanidade, o mundo, as coisas.
E se se repelem, muitas vezes, é porque não compreendem o choque inevitável causado pela paralisação da procura. Alguma força sempre esbarra conosco no caminho. E nos derruba, se não estivermos fortes.
Interessante: pode nos levantar, essa força outra, se estivermos fortes – mesmo frágeis – para ser erguidos. Ajuda externa que nunca é isolada. Nós, decisivamente, a ajudamos. (11/10/2008)
sábado, 4 de outubro de 2008
UM POUCO MAIS SOBRE "WHISKY"
Terminou agora na tevê a cabo a exibição do filme que recomendei. São 22h15min quando escrevo este post sobre Whisky, recomendado a mim por Roberto Silva, que tenta, inutilmente, esconder-se em João Pessoa. Pobre Jacobo, o dono da fabriqueta de meias (de discutível qualidade e gosto) e de um carro que sempre custa a pegar. Filhos da puta esses dois diretores, um deles, Juan Pablo Rebella, de apenas 32 anos, morto dois anos depois de lançado o filme. Como o Uruguai é um país triste...
Na vidinha precária da fábrica de meias de Jacobo não cabe um único discurso. Nem meio. Com a chegada do irmão, Herman, vindo do Brasil (eta país de falastrões), o sujeito, contaminado e bem-sucedido, é a única promessa de vínculo, mesmo que provisório. Aliás, nem se trata de vínculo (o irmão vem para os dez anos de morte da mãe, a cujo enterro nem compareceu), mas do ato do sorriso como um evento isolado. Fazer cara (puro mecanismo) de quem diz "uísque" e, assim, mostrar os dentes para o fotógrafo. É o que passam a fazer Jacobo e sua principal funcionária, Marta, que combina com ele, durante a estadia do irmão, cumprir o papel de esposa do desencantado patrão. Nota: não há confissão de desencanto. É desencanto puro, em estado bruto, para além das autocomiserações.
A alegria advinda das discretas demonstrações à visita familiar é no máximo uma declaração de boas-vindas e, depois, com o passar dos dias e da convivência, sob o peso das diferenças entre o anfitrião sem ilusões nem bens e o visitante com charme e dinheiro, o que é drama vira comédia e o que poderia ser comédia vira incômodo, insuportável silêncio. Detalhe: como o silêncio é enfático nessa história! As imagens são quase singelas e, no entanto, impossível resumir a trama, que aponta em tantas direções. Uma das razões é a solidão atroz das duas personagens principais, Jacobo e Marta, e a carência nunca assumida de um e sempre assumida – embora calada – da outra.
O roteiro é uma obra-prima, ainda que a palavra o desmereça, por ser uma expressão gasta e absolutista. Os atores são daquela rara espécie que prova que interpretar não é nem um pouco menos que criar. A sensação, nítida, que me ficou, é que Whisky é um fragmento poderoso das minhas memórias, e que estarei sempre lembrando-o misturado à minha vida, acerca da qual sempre surgem novas dúvidas que poderiam transformá-la, não estivesse ela fechada para a transformação, e iluminadoras certezas sombrias. (04/10/2008)
Na vidinha precária da fábrica de meias de Jacobo não cabe um único discurso. Nem meio. Com a chegada do irmão, Herman, vindo do Brasil (eta país de falastrões), o sujeito, contaminado e bem-sucedido, é a única promessa de vínculo, mesmo que provisório. Aliás, nem se trata de vínculo (o irmão vem para os dez anos de morte da mãe, a cujo enterro nem compareceu), mas do ato do sorriso como um evento isolado. Fazer cara (puro mecanismo) de quem diz "uísque" e, assim, mostrar os dentes para o fotógrafo. É o que passam a fazer Jacobo e sua principal funcionária, Marta, que combina com ele, durante a estadia do irmão, cumprir o papel de esposa do desencantado patrão. Nota: não há confissão de desencanto. É desencanto puro, em estado bruto, para além das autocomiserações.
A alegria advinda das discretas demonstrações à visita familiar é no máximo uma declaração de boas-vindas e, depois, com o passar dos dias e da convivência, sob o peso das diferenças entre o anfitrião sem ilusões nem bens e o visitante com charme e dinheiro, o que é drama vira comédia e o que poderia ser comédia vira incômodo, insuportável silêncio. Detalhe: como o silêncio é enfático nessa história! As imagens são quase singelas e, no entanto, impossível resumir a trama, que aponta em tantas direções. Uma das razões é a solidão atroz das duas personagens principais, Jacobo e Marta, e a carência nunca assumida de um e sempre assumida – embora calada – da outra.
O roteiro é uma obra-prima, ainda que a palavra o desmereça, por ser uma expressão gasta e absolutista. Os atores são daquela rara espécie que prova que interpretar não é nem um pouco menos que criar. A sensação, nítida, que me ficou, é que Whisky é um fragmento poderoso das minhas memórias, e que estarei sempre lembrando-o misturado à minha vida, acerca da qual sempre surgem novas dúvidas que poderiam transformá-la, não estivesse ela fechada para a transformação, e iluminadoras certezas sombrias. (04/10/2008)
WHISKY
Hoje, às 20h15min (jante cedo ou – é sábado – jante tarde), na tevê por assinatura, canal 65 da operadora NET, Telecine Cult, um filme uruguaio, Whisky. Nós, que somos vizinhos de Uruguai e Argentina, estamos com o faro mais atento ao bom nível de sua cinematografia, sobetudo a argentina. Bem, quem me lê aqui, sobretudo os não-gaúchos, fiquem ligados. Whisky é uma comédia comovente, aquela espécie de história que reúne o auge das potencialidades narrativas, onde o que é drama humano converte-se em lágrima seca, engolida em favor de sorrisos a costurar um humor raro. Humor alimentado na base de uma melancolia difusa. Solidão e orgulho se unem, uma para dar a profundidade da condição do protagonista, o outro para resgatar sua dignidade e mostrar o quanto o irmão representa para ele. A trama? Morta a esposa há anos (fato que o viúvo encobre), o personagem encarnado por Andrés Pazos, Jacobo, possui uma mulher que trabalha para ele em sua fábrica de meias e que, além de funcionária, é sua única amiga. Recebe a notícia da iminente visita do irmão, Herman, a quem deseja causar boa impressão. Combina com a amiga, Marta, que represente a atual esposa. Os afetos sublimados e as perdas caladas dão um show de contida e, por isso mesmo, tensa e densa emoção a nos arrancar reações que poucos filmes merecem de nós. Whisky é desses poucos filmes, a ser visto e revisto. Ainda bem que tevê por assinatura, em geral, costuma repetir diversas vezes, durante um ano inteiro, praticamente toda a sua programação. Tenho esperanças de ver e rever o filme. dirigido pelos uruguaios Juan Pablo Rebella e Pablo Stoll em 2004, umas três vezes no mínimo, até meados do ano que vem. Mas não facilitem. Programem-se para hoje. Se não acharem o máximo, me cobrem. Prometo me retratar. E, francamente, duvido que o faça. Não por orgulho. (04/10/2008)
segunda-feira, 29 de setembro de 2008
HÁ CEM ANOS MORRIA MACHADO DE ASSIS
“A vida é boa” ele disse, em alto e bom som, para quem o pudesse ouvir no sobrado da Rua Cosme Velho, 18, enquanto suas forças iam se extinguindo.
Cronologia comentada
21/06/1839 – Nasce no Morro do Livramento, no Rio de Janeiro, filho de agregados, o pai era filho de escravos recém libertos. Pintor de paredes. A mãe, branca, era lavadeira. No mesmo ano, seis meses antes, nascera Casimiro de Abreu, futuro autor de As Primaveras, e nelas, o poema “Meus Oito Anos”: “Oh! que saudades que eu tenho/ Da aurora da minha vida,/ Da minha infância querida/ Que os anos não trazem mais !”, publicado quando Machado faria 20 anos e trabalhava para Paula Brito.
1845 – Perde a irmã, Maria, de quatro anos. E, talvez perda maior: a madrinha e protetora, Maria José de Mendonça Barroso. Aqui há controvérsias. Morta tão cedo, como se pode inferir que o papel da madrinha teria sido decisivo na salvação material e intelectual do menino. Não foi à toa que ele vendeu balas fabricadas pela madrasta e aprendeu francês numa padaria.
1849 – Morre-lhe a mãe. As raízes se soltam. Com ela, o pai morre um pouco, ou se desvia, o que dá no mesmo.
1854 – Primeira produção que pode ver impressa. O poema “Soneto”, no Periódico dos Pobres, a 3 de outubro. Quase nunca citado. Três meses depois, a 15 de janeiro de 55, num periódico de reputação, Marmota Fluminense, sai o poema “Ela”, tido como sua real estréia. Não foi.
1856 – Ingressa na Imprensa Nacional, como aprendiz de tipógrafo. Lá conhecerá Manuel Antônio de Almeida, que o ajudará muito. Almeida é autor de um livro que não faz grande sucesso num ambiente de românticos sem humor, mas sem dúvida é, daquele período, das poucas coisas que sobreviveram. Certamente isso terá causado algum impacto positivo em Machado.
1860 – Entra em cena o jornalista. E o comediógrafo. Que não pararão, com idas e vindas, entre a imposição do contista – a produzir até o apagar das luzes – e a cada vez maior consistência na carreira do romancista. Mas deve ao jornalista a prática e um público e ao comediógrafo a reputação de vôos mais altos no início. Promessa que cumpriu.
1861 – Morre Manuel Antônio de Almeida. Sai de cena o segundo protetor. Mas logo não precisará mais deles. Machado de Assis, escrevendo sem parar e, paradoxalmente, rigoroso no projeto e na execução, com uma obra que é, mais que sólida, renovadora porque não se ancora no já feito, arrojada nas proposições temáticas e formais, terá apenas na esposa outros braços estendidos.
1860-63 – O comediógrafo mostra as unhas. Aparadas. Sua primeira peça: Hoje Avental, Amanhã Luva. E logo: Desencantos, O Caminho da Porta e O Protocolo (saem num volume, O Teatro de Machado de Assis, no mesmo ano). Quase Ministro, também de 63, sai em separado.
1864 – Inicia colaboração que marcará época. No Jornal das Famílias, muitos de seus contos saírão durante mais de uma década. O que lembra a fase do argentino Jorge Luis Borges em El Hogar, nos anos 1930.
1864 – Sai seu primeiro livro. Crisálidas, poemas. A crítica vasculhou em vão, nesses poemas derramados (mesmo com versos regulares), alguma pista do Machado que sobreviveu à própria morte. Ficasse só nos poemas, e não o teríamos lembrado. Não deixa, no entanto, de configurar, essa observação, uma injustiça. O processo do artista é longo e irregular, como o de maciça maioria dos artistas, mesmo os grandes. Aos 25 anos era praticamente impossível estabelecer autonomia estética num meio onde criadores fadados a serem esquecidos antes de morrer ditavam as regras. Ele não as seguiria em breve. Mas era preciso esperar
1866 – Desembarca do navio, que a trouxe de Portugal, Carolina Augusta Xavier de Novais, quatro anos mais velha que ele e amiga de Camilo castelo Branco e de outros escritores portugueses.
1869 – Casamento com Carolina. Residem, primeiramente, na Rua dos Andradas. Cinco anos depois, muda-se para a Rua da Lapa. Em 1875, para a Rua das Laranjeiras. O casal busca o abrigo que os fortaleça.
1870 – Edição de Contos Fluminenses e Falenas (poemas). Nos contos, uma evolução na prosa que se fazia então. Na poesia, nada de novo.
1872 – Realiza seu romance inicial, Ressurreição. Já traindo a tradição romântica, coloca o casal, dois protagonistas, num jogo contido onde há mais embate que a exaltação das certezas do desejo mútuo.
1873 – Entra para o funcionalismo público, no Ministério da Agricultura, Comércio e Obras Públicas, e lança Histórias da Meia-Noite, segunda incursão no conto.
1874 – Segundo romance, A Mão e a Luva. Estréia como folhetinista. Depois, no mesmo ano, o romance sai em livro. Guiomar, moça segura de si, de origem humilde, vê a chance de ascensão social pelo casamento. Três são os pretendentes. O fiel Estevão, tratado no entanto com certo desdém pelo narrador. O óbvio, oco e desimportante Jorge, o mais parecido com Guiomar, mas sem charme, naturalmente. E o ambicioso Luis Alves, determinado, com planos políticos e sociais. Apesar desse cenário que a escola romântica não aprovaria, fica evidente a escolha de Guiomar por Luis Alves. A união dos dois é tão certa como a mão e a luva. O cético Machado já dá as cartas em sua fase “romântica”.
1875 – O poeta dá mais um passo. Sai Americanas, seu terceiro livro no gênero. Antecipando uma pausa lírica que durará 26 anos.
1876 – Helena, terceiro romance da primeira fase do autor, vem a público. Talvez o mais frágil porque Machado nele não se detém – como, ao contrário, sempre foi sua marca – no detalhamento psicológico das personagens. É a menos machadiana de suas ficções: o enredo domina tudo. Desde o forte início, com a morte de um homem poderoso, o surgimento de uma suposta filha, Helena, que ele tivera com uma amante, a paixão – recíproca – entre Helena e Estácio, o irmão da moça, até o desfecho surpreendente. O que parece uma ameaça de incesto terá uma reviravolta. Amores paralelos (por Helena, da parte de Mendonça, e por Eugênio, suposto irmão da moça, da parte de Eugênia, prometida desde a infância ao filho do homem poderoso, rico) e interesses de ascensão social, esses sim marca recorrente no universo ficcional de Machado fazem de Helena um roteiro que se insere no corpus de sua obra, mas o tom com que tal roteiro se mostra abre mão das nuances características do escritor, sempre a criar armadilhas e dissolver qualquer possibilidade de evidência. O enigma de Capitu não é um capítulo isolado em sua criação.
1878 – Encerra o ciclo romântico com Iaiá Garcia. Não à toa nesse mesmo ano publica seu célebre ensaio contra o naturalismo de Eça de Queirós em O Primo Basílio. Talvez o mais bem acabado romance da primeira fase. Como se fosse a fronteira entre os jogos afetivos infindáveis e as questões morais e suas derivações a apontar outra concepção de literatura, que se dará dali a dois anos. Em Iaiá Garcia temos a sombra constante do amor entre Jorge, moço rico, e Estela, de origem pobre. A mãe do rapaz, viúva rica amiga do também viúvo Luís Garcia, pai de Iaiá – na verdade Lina –, sabe do interesse do amigo maduro pela moça. Trata de afastar o filho, convencendo-o a alistar-se na Guerra do Paraguai. Depois dá um dote à Estela e a convence que Luís Garcia, um bom partido, pacato e caseiro, é o melhor rumo para a vida da moça. Jorge também era amigo do pai de Iaiá, e confidencia-lhe, quando Luís Garcia já está casado com Estela, dos verdadeiros motivos de sua ida ao Paraguai. Omitindo, por respeito, a identidade da moça que a mãe não queria que ele desposasse. Antes do retorno do rapaz, morre-lhe a mãe. Jorge retorna. Passa freqüentar a casa de Luís Garcia e naturalmente cruzam-se ele e Estela, sempre havendo tensão no encontro entre ambos. Iaiá, muito próxima do pai, conhece-lhe a fundo e percebe a perturbação de Estela nessas horas. Sobretudo quando o pai mostra à esposa as cartas do amigo confessando seus amores proibidos pela mãe, sem citar o nome da pretendida. Na volta Jorge trouxe um amigo, Procópio, que logo se interessa por Iaiá. Faz de Jorge seu confidente, na busca de alguma chance com a filha de Luís Garcia. No entanto, querendo resguardar o pai de uma grande decepção, Iaiá decide-se casar-se com Jorge e, para isto, tenta conquistá-lo, apesar do sentimento de repulsa que o rapaz lhe causava até então. Contando com seus dotes, acaba por noivar com o moço. Entretanto, antes do casamento, morre o velho Luís Garcia. O plano da heroína perde o significado, e Iaiá desmancha o noivado. Mas os dias mostram que, de fato, ela agora está apaixonada por Jorge. Procópio Dias, o pretendente rejeitado, fortalece as suspeitas da moça, insinuando relações amorosas entre Jorge e Estela. Esta, descobrindo o que levou Iaiá a romper o noivado, convence-a de que suas suspeitas não têm fundamento: tudo há muito se resumia às lembranças do passado. Reaproximam-se os noivos e Estela serve-lhes de madrinha no casamento. Após isso, muda-se para São Paulo, onde vai trabalhar na escola de uma amiga. Ainda o Romantismo exige de Machado de Assis respostas, mas a resposta, cada vez mais, é tipicamente machadiana.
1878/79 – Séria enfermidade nos olhos. Passa longa temporada em Nova Friburgo, RJ, em busca de recuperação. Tempo de renovar-se. Muitos biógrafos apontam esse episódio de sua vida como a fronteira entre a primeira fase e a segunda, que vem logo em seguida.
1880 – Tu, só tu, puro amor, peça em homenagem ao terceiro centenário da morte de Camões (1525?-1580). Resume-se ao papel de homenagem. O excessivo psicologismo, no caso, não se adéqua à cena e menos ainda à odisséia relacionada ao episódio camoniano. O teatro é o gênero onde Machado menos acertou. Não à toa só voltará a publicar duas peças, as derradeiras, 26 anos mais tarde.
1881 – Ano-marco na vida do autor. Sai Memórias póstumas de Brás Cubas, seu romance mais original, difícil de definir. Espécie de rapsódia, à qual o autor não voltará nos livros seguintes, mesmo atingindo em alguns nível semelhante de excelência. Algo impossível de se extrair do livro, para começar: uma sinopse. Basta dizer que quem narra é um defunto, que começa o livro no dia de sua morte e a narra, num resumo simplificado, de trás para diante. A literatura brasileira nunca mais seria a mesma.
1882 – Sai mais uma coletânea de contos, já com marcas inconfundíveis da maturidade: Papéis avulsos. O volume abre com "O Alienista", uma novela de 90 páginas que muitos chamam de conto, e que está entre as criações máximas do autor. Para coroar o livro, destacam-se ainda "Teoria do medalhão", "A sereníssima república" e "O espelho", um dos contos mais estudados de Machado.
1884 – Machado e Carolina mudam-se para a casa definitiva, o sobrado na rua Cosme Velho, 18. Nesse mesmo ano sai Histórias sem data. O contista consagra em definitivo o escritor: só neste volume encontram-se "A igreja do Diabo", "Cantiga de esponsais", "Singular ocorrência", "Galeria póstuma", "Capítulo dos chapéus", "Noite de almirante" e "As academias de Sião".
1888 – É nomeado Oficial da Ordem da Rosa por Dom Pedro II. Uma semana após a proclamação da Leia Áurea, libertando os escravos, Machado, avesso a “excessos” públicos, desfila em carro aberto.
1891 – Sai Quincas Borba, segundo romance do seu trio maior (completado com Dom Casmurro) de narrativas longas do autor. O livro dialoga com o Memórias póstumas... A começar pelo personagem homônimo, amigo de Brás Cubas e a quem este seguia como um exemplo de saber, sobretudo por sua filosofia, no Quincas Borba explicada: o Humanitismo. Além disso, o “pensador” – a ironia machadiana nos leva a desconfiar de que sua filosofia seja mero pretexto para nos passar a perna ou, mesmo, que ele seja um alucinado – tem um cão a quem deu seu próprio nome. Quando morre, deixa uma herança em dinheiro para o amigo Rubião, desde que este cuide do cão. O título alude ao filósofo “louco” ou ao animal de estimação? É do pensamento de Quincas Borba, o homem, a frase famosa: “Ao vencedor, as batatas.”
1896 – Sai um de seus mais importantes livros de contos, Várias histórias. Basta que se diga que nesse volume reúnem-se "A cartomante", "Uns braços", "Um homem célebre", "A causa secreta", "Conto de escola" e "Um apólogo". Funda a ABL – Academia Brasileira de Letras e é eleito seu primeiro presidente a 15 de dezembro.
1897 – Sílvio Romero publica o mais notável – pela infelicidade – estudo sobre um grande autor na história da crítica brasileira. Chama-se Machado de Assis, simplesmente, e é a primeira e, ao mesmo tempo, mais enfática resistência à obra machadiana. Acusa aos demais críticos de superestimarem o autor, em quem vê apenas “O estilo de Machado de Assis, sem ser notado por um forte cunho pessoal, é a fotografia exata do seu espírito, de sua índole psicológica indecisa. (...) Vê-se que ele apalpa e tropeça, que sofre de uma perturbação qualquer nos órgãos da linguagem. Machado de Assis repisa, repete, torce e retorce tanto suas idéias e as palavras que as vestem, que deixa-nos a impressão dum tal tartamudear. Esse vezo, esse sestro, tomado por uma cousa conscienciosamente praticada, elevado a uma manifestação de graça e humour, era o resultado de uma lacuna do romancista nos órgãos da palavra”. Diversos trechos revelam o tom preconceituoso de Romero, levando em conta a origem pobre do autor, a gagueira, a timidez, e o fato de ser mulato, como determinantes de uma impossibilidade.
1899 – Outro ano que marca a vida de Machado. Sai Dom Casmurro, romance que, na forma, retoma a narrativa até certo ponto linear de antes de Memórias póstumas... Trata-se de um dos três livros mais estudados das letras nacionais. Só sobre Dom Casmurro, ambígua história de uma aparentemente evidenciada traição, pode-se formar uma biblioteca média de produção crítica nos quase 110 anos de seu surgimento. Também publicado nesse ano, Páginas recolhidas confirma que o contista chegou ao auge há duas décadas. No volume, não bastassem "O caso da vara", "Idéias de canário" e "Filosofia de um par de botas", integra o conjunto "Missa do Galo", seu conto mais discutido.
1901 – Talvez sob o impacto do novo século, Machado faz um balanço de sua poética. Publica seu quarto e último volume de poemas, Ocidentais, e igualmente reúne toda sua produção no gênero, em Poesias completas.
1904 – Sai seu penúltimo romance, Esaú e Jacó, considerado, junto com o próximo, obra crepuscular, uma espécie de queda no projeto estético machadiano. Inevitável. Já tinha feito mais do que todos os que o tinham antecedido – e talvez do que os pósteros. E era um ano que se adivinhava amargo. Em outubro, morria Carolina, que durante 35 anos o acompanhara em tudo, sendo até mesmo sua secretária e revisora. Fortes dores no estômago, agravadas por uma receita equivocada de um farmacêutico, precipitaram o fim por causas que, então, não eram diagnosticadas.
1906 – Publica seu último livro de contos, Relíquias de casa velha, sendo que ali promove uma miscelânea, abrindo o volume com seu melhor poema, “A Carolina”, e logo em seguida com uma narrativa breve que também se inclui entre suas melhores: "Pai contra mãe". Os outros 41 textos, alguns pendendo à crônica, a maioria contos mesmo, recolhem o que ficou pelo caminho, textos esparsos na imprensa, saídos entre 1874 a 1894, reunidos em ordem cronológica.
1908 – Vem à luz seu derradeiro romance, Memorial de Aires. Em 29 de setembro, uma grave infecção intestinal e uma úlcera na língua debilitam seu estado de saúde a ponto de fazê-lo fechar os olhos pela última vez, já madrugada. Muita gente o acompanhava em casa. Não aceitou quando lhe ofereceram um padre para a extrema-unção. “Seria muita hipocrisia.” (29/09/2008)
Cronologia comentada
21/06/1839 – Nasce no Morro do Livramento, no Rio de Janeiro, filho de agregados, o pai era filho de escravos recém libertos. Pintor de paredes. A mãe, branca, era lavadeira. No mesmo ano, seis meses antes, nascera Casimiro de Abreu, futuro autor de As Primaveras, e nelas, o poema “Meus Oito Anos”: “Oh! que saudades que eu tenho/ Da aurora da minha vida,/ Da minha infância querida/ Que os anos não trazem mais !”, publicado quando Machado faria 20 anos e trabalhava para Paula Brito.
1845 – Perde a irmã, Maria, de quatro anos. E, talvez perda maior: a madrinha e protetora, Maria José de Mendonça Barroso. Aqui há controvérsias. Morta tão cedo, como se pode inferir que o papel da madrinha teria sido decisivo na salvação material e intelectual do menino. Não foi à toa que ele vendeu balas fabricadas pela madrasta e aprendeu francês numa padaria.
1849 – Morre-lhe a mãe. As raízes se soltam. Com ela, o pai morre um pouco, ou se desvia, o que dá no mesmo.
1854 – Primeira produção que pode ver impressa. O poema “Soneto”, no Periódico dos Pobres, a 3 de outubro. Quase nunca citado. Três meses depois, a 15 de janeiro de 55, num periódico de reputação, Marmota Fluminense, sai o poema “Ela”, tido como sua real estréia. Não foi.
1856 – Ingressa na Imprensa Nacional, como aprendiz de tipógrafo. Lá conhecerá Manuel Antônio de Almeida, que o ajudará muito. Almeida é autor de um livro que não faz grande sucesso num ambiente de românticos sem humor, mas sem dúvida é, daquele período, das poucas coisas que sobreviveram. Certamente isso terá causado algum impacto positivo em Machado.
1860 – Entra em cena o jornalista. E o comediógrafo. Que não pararão, com idas e vindas, entre a imposição do contista – a produzir até o apagar das luzes – e a cada vez maior consistência na carreira do romancista. Mas deve ao jornalista a prática e um público e ao comediógrafo a reputação de vôos mais altos no início. Promessa que cumpriu.
1861 – Morre Manuel Antônio de Almeida. Sai de cena o segundo protetor. Mas logo não precisará mais deles. Machado de Assis, escrevendo sem parar e, paradoxalmente, rigoroso no projeto e na execução, com uma obra que é, mais que sólida, renovadora porque não se ancora no já feito, arrojada nas proposições temáticas e formais, terá apenas na esposa outros braços estendidos.
1860-63 – O comediógrafo mostra as unhas. Aparadas. Sua primeira peça: Hoje Avental, Amanhã Luva. E logo: Desencantos, O Caminho da Porta e O Protocolo (saem num volume, O Teatro de Machado de Assis, no mesmo ano). Quase Ministro, também de 63, sai em separado.
1864 – Inicia colaboração que marcará época. No Jornal das Famílias, muitos de seus contos saírão durante mais de uma década. O que lembra a fase do argentino Jorge Luis Borges em El Hogar, nos anos 1930.
1864 – Sai seu primeiro livro. Crisálidas, poemas. A crítica vasculhou em vão, nesses poemas derramados (mesmo com versos regulares), alguma pista do Machado que sobreviveu à própria morte. Ficasse só nos poemas, e não o teríamos lembrado. Não deixa, no entanto, de configurar, essa observação, uma injustiça. O processo do artista é longo e irregular, como o de maciça maioria dos artistas, mesmo os grandes. Aos 25 anos era praticamente impossível estabelecer autonomia estética num meio onde criadores fadados a serem esquecidos antes de morrer ditavam as regras. Ele não as seguiria em breve. Mas era preciso esperar
1866 – Desembarca do navio, que a trouxe de Portugal, Carolina Augusta Xavier de Novais, quatro anos mais velha que ele e amiga de Camilo castelo Branco e de outros escritores portugueses.
1869 – Casamento com Carolina. Residem, primeiramente, na Rua dos Andradas. Cinco anos depois, muda-se para a Rua da Lapa. Em 1875, para a Rua das Laranjeiras. O casal busca o abrigo que os fortaleça.
1870 – Edição de Contos Fluminenses e Falenas (poemas). Nos contos, uma evolução na prosa que se fazia então. Na poesia, nada de novo.
1872 – Realiza seu romance inicial, Ressurreição. Já traindo a tradição romântica, coloca o casal, dois protagonistas, num jogo contido onde há mais embate que a exaltação das certezas do desejo mútuo.
1873 – Entra para o funcionalismo público, no Ministério da Agricultura, Comércio e Obras Públicas, e lança Histórias da Meia-Noite, segunda incursão no conto.
1874 – Segundo romance, A Mão e a Luva. Estréia como folhetinista. Depois, no mesmo ano, o romance sai em livro. Guiomar, moça segura de si, de origem humilde, vê a chance de ascensão social pelo casamento. Três são os pretendentes. O fiel Estevão, tratado no entanto com certo desdém pelo narrador. O óbvio, oco e desimportante Jorge, o mais parecido com Guiomar, mas sem charme, naturalmente. E o ambicioso Luis Alves, determinado, com planos políticos e sociais. Apesar desse cenário que a escola romântica não aprovaria, fica evidente a escolha de Guiomar por Luis Alves. A união dos dois é tão certa como a mão e a luva. O cético Machado já dá as cartas em sua fase “romântica”.
1875 – O poeta dá mais um passo. Sai Americanas, seu terceiro livro no gênero. Antecipando uma pausa lírica que durará 26 anos.
1876 – Helena, terceiro romance da primeira fase do autor, vem a público. Talvez o mais frágil porque Machado nele não se detém – como, ao contrário, sempre foi sua marca – no detalhamento psicológico das personagens. É a menos machadiana de suas ficções: o enredo domina tudo. Desde o forte início, com a morte de um homem poderoso, o surgimento de uma suposta filha, Helena, que ele tivera com uma amante, a paixão – recíproca – entre Helena e Estácio, o irmão da moça, até o desfecho surpreendente. O que parece uma ameaça de incesto terá uma reviravolta. Amores paralelos (por Helena, da parte de Mendonça, e por Eugênio, suposto irmão da moça, da parte de Eugênia, prometida desde a infância ao filho do homem poderoso, rico) e interesses de ascensão social, esses sim marca recorrente no universo ficcional de Machado fazem de Helena um roteiro que se insere no corpus de sua obra, mas o tom com que tal roteiro se mostra abre mão das nuances características do escritor, sempre a criar armadilhas e dissolver qualquer possibilidade de evidência. O enigma de Capitu não é um capítulo isolado em sua criação.
1878 – Encerra o ciclo romântico com Iaiá Garcia. Não à toa nesse mesmo ano publica seu célebre ensaio contra o naturalismo de Eça de Queirós em O Primo Basílio. Talvez o mais bem acabado romance da primeira fase. Como se fosse a fronteira entre os jogos afetivos infindáveis e as questões morais e suas derivações a apontar outra concepção de literatura, que se dará dali a dois anos. Em Iaiá Garcia temos a sombra constante do amor entre Jorge, moço rico, e Estela, de origem pobre. A mãe do rapaz, viúva rica amiga do também viúvo Luís Garcia, pai de Iaiá – na verdade Lina –, sabe do interesse do amigo maduro pela moça. Trata de afastar o filho, convencendo-o a alistar-se na Guerra do Paraguai. Depois dá um dote à Estela e a convence que Luís Garcia, um bom partido, pacato e caseiro, é o melhor rumo para a vida da moça. Jorge também era amigo do pai de Iaiá, e confidencia-lhe, quando Luís Garcia já está casado com Estela, dos verdadeiros motivos de sua ida ao Paraguai. Omitindo, por respeito, a identidade da moça que a mãe não queria que ele desposasse. Antes do retorno do rapaz, morre-lhe a mãe. Jorge retorna. Passa freqüentar a casa de Luís Garcia e naturalmente cruzam-se ele e Estela, sempre havendo tensão no encontro entre ambos. Iaiá, muito próxima do pai, conhece-lhe a fundo e percebe a perturbação de Estela nessas horas. Sobretudo quando o pai mostra à esposa as cartas do amigo confessando seus amores proibidos pela mãe, sem citar o nome da pretendida. Na volta Jorge trouxe um amigo, Procópio, que logo se interessa por Iaiá. Faz de Jorge seu confidente, na busca de alguma chance com a filha de Luís Garcia. No entanto, querendo resguardar o pai de uma grande decepção, Iaiá decide-se casar-se com Jorge e, para isto, tenta conquistá-lo, apesar do sentimento de repulsa que o rapaz lhe causava até então. Contando com seus dotes, acaba por noivar com o moço. Entretanto, antes do casamento, morre o velho Luís Garcia. O plano da heroína perde o significado, e Iaiá desmancha o noivado. Mas os dias mostram que, de fato, ela agora está apaixonada por Jorge. Procópio Dias, o pretendente rejeitado, fortalece as suspeitas da moça, insinuando relações amorosas entre Jorge e Estela. Esta, descobrindo o que levou Iaiá a romper o noivado, convence-a de que suas suspeitas não têm fundamento: tudo há muito se resumia às lembranças do passado. Reaproximam-se os noivos e Estela serve-lhes de madrinha no casamento. Após isso, muda-se para São Paulo, onde vai trabalhar na escola de uma amiga. Ainda o Romantismo exige de Machado de Assis respostas, mas a resposta, cada vez mais, é tipicamente machadiana.
1878/79 – Séria enfermidade nos olhos. Passa longa temporada em Nova Friburgo, RJ, em busca de recuperação. Tempo de renovar-se. Muitos biógrafos apontam esse episódio de sua vida como a fronteira entre a primeira fase e a segunda, que vem logo em seguida.
1880 – Tu, só tu, puro amor, peça em homenagem ao terceiro centenário da morte de Camões (1525?-1580). Resume-se ao papel de homenagem. O excessivo psicologismo, no caso, não se adéqua à cena e menos ainda à odisséia relacionada ao episódio camoniano. O teatro é o gênero onde Machado menos acertou. Não à toa só voltará a publicar duas peças, as derradeiras, 26 anos mais tarde.
1881 – Ano-marco na vida do autor. Sai Memórias póstumas de Brás Cubas, seu romance mais original, difícil de definir. Espécie de rapsódia, à qual o autor não voltará nos livros seguintes, mesmo atingindo em alguns nível semelhante de excelência. Algo impossível de se extrair do livro, para começar: uma sinopse. Basta dizer que quem narra é um defunto, que começa o livro no dia de sua morte e a narra, num resumo simplificado, de trás para diante. A literatura brasileira nunca mais seria a mesma.
1882 – Sai mais uma coletânea de contos, já com marcas inconfundíveis da maturidade: Papéis avulsos. O volume abre com "O Alienista", uma novela de 90 páginas que muitos chamam de conto, e que está entre as criações máximas do autor. Para coroar o livro, destacam-se ainda "Teoria do medalhão", "A sereníssima república" e "O espelho", um dos contos mais estudados de Machado.
1884 – Machado e Carolina mudam-se para a casa definitiva, o sobrado na rua Cosme Velho, 18. Nesse mesmo ano sai Histórias sem data. O contista consagra em definitivo o escritor: só neste volume encontram-se "A igreja do Diabo", "Cantiga de esponsais", "Singular ocorrência", "Galeria póstuma", "Capítulo dos chapéus", "Noite de almirante" e "As academias de Sião".
1888 – É nomeado Oficial da Ordem da Rosa por Dom Pedro II. Uma semana após a proclamação da Leia Áurea, libertando os escravos, Machado, avesso a “excessos” públicos, desfila em carro aberto.
1891 – Sai Quincas Borba, segundo romance do seu trio maior (completado com Dom Casmurro) de narrativas longas do autor. O livro dialoga com o Memórias póstumas... A começar pelo personagem homônimo, amigo de Brás Cubas e a quem este seguia como um exemplo de saber, sobretudo por sua filosofia, no Quincas Borba explicada: o Humanitismo. Além disso, o “pensador” – a ironia machadiana nos leva a desconfiar de que sua filosofia seja mero pretexto para nos passar a perna ou, mesmo, que ele seja um alucinado – tem um cão a quem deu seu próprio nome. Quando morre, deixa uma herança em dinheiro para o amigo Rubião, desde que este cuide do cão. O título alude ao filósofo “louco” ou ao animal de estimação? É do pensamento de Quincas Borba, o homem, a frase famosa: “Ao vencedor, as batatas.”
1896 – Sai um de seus mais importantes livros de contos, Várias histórias. Basta que se diga que nesse volume reúnem-se "A cartomante", "Uns braços", "Um homem célebre", "A causa secreta", "Conto de escola" e "Um apólogo". Funda a ABL – Academia Brasileira de Letras e é eleito seu primeiro presidente a 15 de dezembro.
1897 – Sílvio Romero publica o mais notável – pela infelicidade – estudo sobre um grande autor na história da crítica brasileira. Chama-se Machado de Assis, simplesmente, e é a primeira e, ao mesmo tempo, mais enfática resistência à obra machadiana. Acusa aos demais críticos de superestimarem o autor, em quem vê apenas “O estilo de Machado de Assis, sem ser notado por um forte cunho pessoal, é a fotografia exata do seu espírito, de sua índole psicológica indecisa. (...) Vê-se que ele apalpa e tropeça, que sofre de uma perturbação qualquer nos órgãos da linguagem. Machado de Assis repisa, repete, torce e retorce tanto suas idéias e as palavras que as vestem, que deixa-nos a impressão dum tal tartamudear. Esse vezo, esse sestro, tomado por uma cousa conscienciosamente praticada, elevado a uma manifestação de graça e humour, era o resultado de uma lacuna do romancista nos órgãos da palavra”. Diversos trechos revelam o tom preconceituoso de Romero, levando em conta a origem pobre do autor, a gagueira, a timidez, e o fato de ser mulato, como determinantes de uma impossibilidade.
1899 – Outro ano que marca a vida de Machado. Sai Dom Casmurro, romance que, na forma, retoma a narrativa até certo ponto linear de antes de Memórias póstumas... Trata-se de um dos três livros mais estudados das letras nacionais. Só sobre Dom Casmurro, ambígua história de uma aparentemente evidenciada traição, pode-se formar uma biblioteca média de produção crítica nos quase 110 anos de seu surgimento. Também publicado nesse ano, Páginas recolhidas confirma que o contista chegou ao auge há duas décadas. No volume, não bastassem "O caso da vara", "Idéias de canário" e "Filosofia de um par de botas", integra o conjunto "Missa do Galo", seu conto mais discutido.
1901 – Talvez sob o impacto do novo século, Machado faz um balanço de sua poética. Publica seu quarto e último volume de poemas, Ocidentais, e igualmente reúne toda sua produção no gênero, em Poesias completas.
1904 – Sai seu penúltimo romance, Esaú e Jacó, considerado, junto com o próximo, obra crepuscular, uma espécie de queda no projeto estético machadiano. Inevitável. Já tinha feito mais do que todos os que o tinham antecedido – e talvez do que os pósteros. E era um ano que se adivinhava amargo. Em outubro, morria Carolina, que durante 35 anos o acompanhara em tudo, sendo até mesmo sua secretária e revisora. Fortes dores no estômago, agravadas por uma receita equivocada de um farmacêutico, precipitaram o fim por causas que, então, não eram diagnosticadas.
1906 – Publica seu último livro de contos, Relíquias de casa velha, sendo que ali promove uma miscelânea, abrindo o volume com seu melhor poema, “A Carolina”, e logo em seguida com uma narrativa breve que também se inclui entre suas melhores: "Pai contra mãe". Os outros 41 textos, alguns pendendo à crônica, a maioria contos mesmo, recolhem o que ficou pelo caminho, textos esparsos na imprensa, saídos entre 1874 a 1894, reunidos em ordem cronológica.
1908 – Vem à luz seu derradeiro romance, Memorial de Aires. Em 29 de setembro, uma grave infecção intestinal e uma úlcera na língua debilitam seu estado de saúde a ponto de fazê-lo fechar os olhos pela última vez, já madrugada. Muita gente o acompanhava em casa. Não aceitou quando lhe ofereceram um padre para a extrema-unção. “Seria muita hipocrisia.” (29/09/2008)
sábado, 27 de setembro de 2008
PITACOS
O título geral desta seleção de breves textos foi surrupiado de meu primo Alexandre Ribeiro, que escreve bem pra caralho (como mais um primo meu, aliás, e que, como ele, faz questão de esconder o próprio talento). Mal de família, vocês entendem.
Faltam 2 dias!
Na segunda-feira, 29/09, completa-se um século inteirinho que o Sr. Machado de Assis abandonou o próprio corpo à sorte dos vermes que logo, logo roeriam as frias carnes de seu cadáver. Enquanto seus contemporâneos sobreviventes e as gerações futuras teriam para sempre uma literatura pra lá de viva, à disposição deles, leitores, aferrados a uma arte verbal capaz de roer – como quem não quer nada – também a nossa moral e os nossos péssimos costumes.
Dica de leitura urgente
As confissões do homem invisível, de Alexandre Plosk, é um caudaloso romance recém-lançado pela Bertrand Brasil (391 páginas, R$ 49,00). Nem parece literatura brasileira. Está tudo lá: Maupassant, H. G. Wells, alguns cientificismo que lembram a vigília dos obsessivos protagonistas de Edgar Allan Poe, e, principalmente, o estilo Plosk, único, sem antecessores e – duvido! – continuadores na tímida literatura nacional. Escrevemos bem, sim; mas pensamos com muito medo, indo pouco além da sobrevivência dos nossos umbigos. Não sabemos contar histórias e, muito menos, pesadelos intermináveis nos quais o real suplanta o quase naturalismo da má-consciência burguesa. Plosk nos livra de tudo isso: oferece diversão, angústia, assombro, novidade, viagem no tempo, no espaço, sem psicologismos previsíveis, e com narradores decididos e atormentados num nível acima da média, o que daria ótimos filmes. Não pelo (muito bom, sim) Fernando Meirelles, mas por gente de Hollywood, como os Irmãos Cohen ou até o Woody Allen. Brasileiros sofrem de cegueira para tamanha imaginação.
Dica de filme
Como a última vez em que fui ao cinema o chato do Glauber Rocha ainda estava na onda (é... só vejo tevê a cabo. Não é preferência, é falta de tempo mesmo para enfrentar uma saída, o tempo de espera no cinema, e o retorno: escrevo a Odisséia nesse intervalo todo), indico no canal 81, MGM (Metro-Goldwyn-Mayer), o longa de 1994 Romance entre amigos (“What Happened Was”, literalmente O que aconteceu foi...), dirigido e estrelado pelo Tom Noonan, que contracena com Karen Sillas, e que entre quinta-feira e sexta, ontem, passou três vezes. Passará outras, é só ficar de olho.
O filme são os dois atores, e só. O mais impactante (aliás, uma peça de teatro filmada) é o ritmo marcadamente arrastado, truncado, em que palavras, emoções e ações parecem travar na hora H. Se é que existe alguma hora H nos 91 minutos de duração da história. Que história? Jackie (Karen Sillas, que está ótima, como o parceiro e diretor), solteira além de “uma certa idade” – mas ainda atraente –, é uma secretária em um escritório de advocacia. Vive uma profissão e uma vida medíocres. Convida Michael (Noonan), colega de trabalho, numa sexta-feira, para jantar no apartamento dela. Quem sabe role algum clima… Pois a absoluta ausência de clima (estampada na atuação impecavelmente inexpressiva dos dois) revela, paradoxalmente (a desesperança é o avesso do desespero pela esperança), que tudo pode acontecer. Quase ao final de um jantar monótono, tenso diante das supostas possibilidades que jamais decolam, Jackie revela que fará aniversário dali a dois dias, e que resolveu antecipar a festinha. Só para os dois. Ele se sente pressionado. Mas, no fundo, é um homem pressionado – independente daquela situação. Trata de se mandar. Quando ela começa a recolher o bolo que nem comeram, as bebidas que nem chegaram a abrir, Michael, já na porta, começa a falar (enfim!) e o que fala nada revela além de seu cotidiano tão precário quanto o dela, esvaziado de qualquer chance. Nessas horas em que a fala de um cala a do outro (jamais ocorre a interação do estilo pingue-pongue), emerge da vastidão deserta e (nunca gélida) morna de um mar onde jazem afogados, à espera, sempre à espera, a solidão mais crua que já presenciei encenada.
Por fim, o desabafo do parceiro é apenas o monólogo elíptico de um estranho. Jackie ousou ainda revelar: “gosto de você”. É pouco para tanto isolamento, instaurado em cada um. Michael, tendo revelado sua existência sem-graça, vai embora. Jackie começa a apagar as luzes. Eu aplaudi. Na frente da tevê, comovido, inquieto, aplaudi. (27/09/2008)
Faltam 2 dias!
Na segunda-feira, 29/09, completa-se um século inteirinho que o Sr. Machado de Assis abandonou o próprio corpo à sorte dos vermes que logo, logo roeriam as frias carnes de seu cadáver. Enquanto seus contemporâneos sobreviventes e as gerações futuras teriam para sempre uma literatura pra lá de viva, à disposição deles, leitores, aferrados a uma arte verbal capaz de roer – como quem não quer nada – também a nossa moral e os nossos péssimos costumes.
Dica de leitura urgente
As confissões do homem invisível, de Alexandre Plosk, é um caudaloso romance recém-lançado pela Bertrand Brasil (391 páginas, R$ 49,00). Nem parece literatura brasileira. Está tudo lá: Maupassant, H. G. Wells, alguns cientificismo que lembram a vigília dos obsessivos protagonistas de Edgar Allan Poe, e, principalmente, o estilo Plosk, único, sem antecessores e – duvido! – continuadores na tímida literatura nacional. Escrevemos bem, sim; mas pensamos com muito medo, indo pouco além da sobrevivência dos nossos umbigos. Não sabemos contar histórias e, muito menos, pesadelos intermináveis nos quais o real suplanta o quase naturalismo da má-consciência burguesa. Plosk nos livra de tudo isso: oferece diversão, angústia, assombro, novidade, viagem no tempo, no espaço, sem psicologismos previsíveis, e com narradores decididos e atormentados num nível acima da média, o que daria ótimos filmes. Não pelo (muito bom, sim) Fernando Meirelles, mas por gente de Hollywood, como os Irmãos Cohen ou até o Woody Allen. Brasileiros sofrem de cegueira para tamanha imaginação.
Dica de filme
Como a última vez em que fui ao cinema o chato do Glauber Rocha ainda estava na onda (é... só vejo tevê a cabo. Não é preferência, é falta de tempo mesmo para enfrentar uma saída, o tempo de espera no cinema, e o retorno: escrevo a Odisséia nesse intervalo todo), indico no canal 81, MGM (Metro-Goldwyn-Mayer), o longa de 1994 Romance entre amigos (“What Happened Was”, literalmente O que aconteceu foi...), dirigido e estrelado pelo Tom Noonan, que contracena com Karen Sillas, e que entre quinta-feira e sexta, ontem, passou três vezes. Passará outras, é só ficar de olho.
O filme são os dois atores, e só. O mais impactante (aliás, uma peça de teatro filmada) é o ritmo marcadamente arrastado, truncado, em que palavras, emoções e ações parecem travar na hora H. Se é que existe alguma hora H nos 91 minutos de duração da história. Que história? Jackie (Karen Sillas, que está ótima, como o parceiro e diretor), solteira além de “uma certa idade” – mas ainda atraente –, é uma secretária em um escritório de advocacia. Vive uma profissão e uma vida medíocres. Convida Michael (Noonan), colega de trabalho, numa sexta-feira, para jantar no apartamento dela. Quem sabe role algum clima… Pois a absoluta ausência de clima (estampada na atuação impecavelmente inexpressiva dos dois) revela, paradoxalmente (a desesperança é o avesso do desespero pela esperança), que tudo pode acontecer. Quase ao final de um jantar monótono, tenso diante das supostas possibilidades que jamais decolam, Jackie revela que fará aniversário dali a dois dias, e que resolveu antecipar a festinha. Só para os dois. Ele se sente pressionado. Mas, no fundo, é um homem pressionado – independente daquela situação. Trata de se mandar. Quando ela começa a recolher o bolo que nem comeram, as bebidas que nem chegaram a abrir, Michael, já na porta, começa a falar (enfim!) e o que fala nada revela além de seu cotidiano tão precário quanto o dela, esvaziado de qualquer chance. Nessas horas em que a fala de um cala a do outro (jamais ocorre a interação do estilo pingue-pongue), emerge da vastidão deserta e (nunca gélida) morna de um mar onde jazem afogados, à espera, sempre à espera, a solidão mais crua que já presenciei encenada.
Por fim, o desabafo do parceiro é apenas o monólogo elíptico de um estranho. Jackie ousou ainda revelar: “gosto de você”. É pouco para tanto isolamento, instaurado em cada um. Michael, tendo revelado sua existência sem-graça, vai embora. Jackie começa a apagar as luzes. Eu aplaudi. Na frente da tevê, comovido, inquieto, aplaudi. (27/09/2008)
quinta-feira, 25 de setembro de 2008
ENQUANTO O TEMPO TENTA PASSAR INCÓLUME
E já que ninguém gava...
Zeca gava. Domingo, 28/09, sai na revista Época, na seção "Mente aberta", um artigo-relâmpago meu sobre dois livros do meu autor de cabeceira, o argentino Julio Cortázar: A volta ao dia em 80 mundos e Último round, ambos editados pela Civilização Brasileira (que no Brasil edita toda a obra de Cortázar), cada um deles em dois voluminhos de se levar apertados contra o peito, feito uma colegial apaixonada. São contos, artigos, ensaios, poemas, e centenas de imagens. O que o autor chamava de "livro-almanaque". Não seria uma forma antecipada de blog? Originalmente saíram em 1967 e 69, respectivamente. Cortázar, que amava Júlio Verne, era um visionário mesmo, a exemplo de seu mestre.
Faltam 4 dias!
Contagem regressiva para se marcar (relendo os livros, claro, e não com fogos de artifício) os cem anos, não da morte do cidadão Joaquim Maria Machado de Assis (21/06/1839–29/09/1908), mas um centenário que uma obra de qualidade quase inexplicável foi sua herança, deixada a quem estiver disposto a conferir – e bem tratada, diga-se de passagem.
Legítima efeméride
"Efeméride" é uma palavra pra lá de anacrônica. Bem... A Academia Paulista de Letras andou homenageando Paulo Bonfim, lembram (os mais velhos, digo) de Praia de sonetos e outros ós e ôs que um distraído como o Guilherme de Almeida andou incensando? Pois Bonfim é o atual Príncipe dos Poetas Brasileiros (apelo de novo à vossa memória: lembram do Olavo Bilac, o primeiro de todos a receber nobiliárquico título?), ocupa a cadeira 35 da dita academia, completará 82 anos um dia depois do Machadão completar 100 anos de morto, e, sim, está vivo, o homem, vivo! E eu achando que Paulo Bonfim, Paulo Setúbal e outros Paulos cujo sobrenome agora me foge à memória estivessem mortos. É possível que estejam. Na literatura, obviamente. Mas não era disso que falávamos?
Personagem não chora, não gargalha
Semana estranha. De repente me vejo, em oficinas de redação criativa, debatendo até a exaustão o fato de que há um excesso de personagens se desfazendo em lágrimas, gargalhando até não poder mais. Alertei aos autores de semelhantes excessos: na vida, que não tem o menor senso estético, chorar pode ser fundamental (além de inevitável), livrando, sobretudo aos homens, de possíveis ataques cardíacos; gargalhar é uma das coisas mais contagiantes – supondo-se que a piada seja boa mesmo. Porém, na literatura, o diabo sempre se apresentando nos detalhes, chorar tem 83,6% de chances de esvaziar o efeito dramático de uma situação que, sim, levaria qualquer um ou a maioria às lágrimas, mas, uma vez omitidas no texto, criam a tensão emocional decisiva para que o leitor, este liberado para tais excessos, reaja como reagir. Imagine-se um personagem às gargalhadas. O motivo de tal reação, ficcionalmente falando, tem de ser muito bem justificado, criado de forma irretocável. Sem uma atmofesra extremamente propícia, tais gargalhadas nos deixarão, frente às páginas, sem-graça, achando aquilo tudo, senão gratuito, exagerado, constrangidos talvez. Em suma: os personagens que pintem e bordem, e aos leitores que sobre toda a histeria do mundo. Observação: claro, personagens choram e riem, está mais do que óbvio. Mas em situações ante as quais o leitor nem discute, fica inclusive pensando: "puta que o pariu..." Última observação: o tema é amplo, naturalmente, e não é numa nota que irei esgotá-lo. (25/09/2008)
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