O sujeito, afinal de contas, era
medíocre porque, sendo talentoso, deu vez a um medíocre em sacrifício da
própria genialidade, posta de lado pela dúvida sempre cruel da autocrítica, a
princípio uma virtude, a seguir, um vício. Não acreditava no outro, claro,
porém, incapacitado de crer em suas virtudes e engenho, preferiu render-se ao
movimento contínuo, talvez monótono, da necessidade de afirmação do colega, sem
talento algum, sim, entretanto tornado mais forte que ele diante da indiferença
do mundo.
Por outro lado, que talento o do sujeito que, sendo
medíocre, sentiu a hora única na brecha mínima que foi a dor atroz da profunda
insatisfação do amigo talentoso, e naquele segundo de hesitação deixou-o para
trás, permitindo que ficasse inédita uma novela lancinante do outro, e que as
portas se abrissem ao vazio fútil e fácil que foi então sua ascensão imposta
pelo simples desejo de subir. Desejo que ninguém segura. E que o universo,
feito de matéria escura, aplaude. (07/04/2013)
