domingo, 7 de abril de 2013

TALENTOS



O sujeito, afinal de contas, era medíocre porque, sendo talentoso, deu vez a um medíocre em sacrifício da própria genialidade, posta de lado pela dúvida sempre cruel da autocrítica, a princípio uma virtude, a seguir, um vício. Não acreditava no outro, claro, porém, incapacitado de crer em suas virtudes e engenho, preferiu render-se ao movimento contínuo, talvez monótono, da necessidade de afirmação do colega, sem talento algum, sim, entretanto tornado mais forte que ele diante da indiferença do mundo.
Por outro lado, que talento o do sujeito que, sendo medíocre, sentiu a hora única na brecha mínima que foi a dor atroz da profunda insatisfação do amigo talentoso, e naquele segundo de hesitação deixou-o para trás, permitindo que ficasse inédita uma novela lancinante do outro, e que as portas se abrissem ao vazio fútil e fácil que foi então sua ascensão imposta pelo simples desejo de subir. Desejo que ninguém segura. E que o universo, feito de matéria escura, aplaude. (07/04/2013)

domingo, 24 de março de 2013

ADVERTÊNCIA



Obra que é obra não tem espelho. 1) Não pode ser imitada; 2) O próprio autor, ao buscar repeti-la, fracassa. E só lhe resta então partir para algo inteiramente novo. Aliás, por fazer exatamente isto é que ele destrói qualquer possibilidade de espelho e constrói a obra. Abandona-se a cada livro, órfão de si mesmo; e diante do espelho desejado (fácil e resumidor) nada o reflete, condenado como um vampiro que deve beber o sangue de todos, mas jamais o seu. (24/03/2013)

domingo, 17 de março de 2013

UM AMOR SIMPLES



            A namorada pobre não veio ao encontro porque choveu e ela não tinha sombrinha, porque fez frio e ela não tinha casaco, porque dormiu demais e não havia celular nem sequer relógio-despertador em sua casa. A namorada pobre não tem casa.
Um dia dorme numa amiga, outro, numa tia. Como localizá-la?
A namorada pobre aparece poucas vezes, e tem mais fome do que desejo. (17/03/2013)

segunda-feira, 11 de março de 2013

A TESTEMUNHA


Neste mês eu vi 678 acidentes de motos, carros, ônibus, caminhões. Eu vi 439 traficantes e policiais trocando tiros, 202 assaltantes trocando tiros com seguranças de banco, 198 pais espancando filhos pequenos, 112 homens agredindo suas parceiras, os mais pacíficos verbalmente, 93 empresários desviando dinheiro alheio para contas que de fantasma só têm o nome porque são concretamente suas, 76 erros médicos gerando morte ou graves sequelas, 62 homens estuprando de meninas a velhinhas, 51 suicídios, 38 mães abandonando recém-nascidos em portas de hospitais, condomínios ou mesmo em lixões. E, numa tarde onde o sol custava a se pôr, testemunhei um homem grisalho lendo um livro de poemas, tão distraído – transportado eu diria! –, que fiquei ali, um tempo enorme, acompanhando a cena, e ele mergulhado naquilo num banco de praça, em plena rua à luz do dia. Confesso que o fato me deixou completamente consternado. (11/03/2013)

quarta-feira, 6 de março de 2013

OBRIGAÇÃO




Entro na empresa para mais um expediente. Poderia chamá-lo de “pausa de ser”, mas não se deixa de ser nunca, e no entanto a pausa é necessária, vital, porque imposta uma vez que vem a um preço alto quando quebrada (as hierarquias, o mirrado cânone constituinte). Interrompo-me por fora sem me interromper por dentro. Só assim para evitar constrangimentos, conflitos e até violências coletivas. Tudo isso ocorre de qualquer jeito, mas em segredo, em mim mesmo. Somos dois agora: eu e... – vá lá! – o eu que os colegas me supõem. Esse eu sobrevive por mim e, de certa forma, sou-lhe grato. Mas a verdade é que um não suporta o outro. (06/03/2013)

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

VOLTAR A ESCREVER

Um dia, uma hora, após um evento quase imperceptível, ou uma soma deles, e o tão alentador ritmo da criação constante escoa pelo ralo. E ficamos em silêncio, mudos e, se mudos (escritores que somos), sem interlocução, sem gente que também nos fale. O leitor não perdoando nosso silêncio. Então é preciso voltar a escrever para voltar a ler o que recebemos como resposta, o que acontece do outro lado da tela, da linha, da vida que em nós ameaça se encolher e se expande se escrevemos.
Andei parando. As demandas a se somarem e eu com olhos e ouvidos para outras vozes que não a minha. E calei-me, sem calar no entanto o calor do que eu próprio me dizia e das coisas que lia, diariamente, e que reverberavam em mim. Torturante silêncio. Uma hora rebentaria, explodiria, libertar-se-ia e iria em direção a quem faz o favor de me ler. E a roda-viva retomando então seus movimentos, a Terra voltando a seu mecanismo na relação com os demais astros e seu satélite e sua estrela de quinta, sim, mas que grandeza! Agora me sinto restituído a mim mesmo, dono outra vez das minhas ações, estas palavras que me vestem e com as quais vou tateando a realidade para que ela me reconheça e, desta forma, me aceite, me receba inteiro. E aqui estou. Audível, legível. Homem sem cujas palavras ele será apenas um nome à espera de uma lápide. E sem nenhum leitor, nenhuma testemunha, morto antes da hora. (24/01/2012)

sábado, 31 de dezembro de 2011

Uma lágrima para Daniel Piza

2011 acabou mesmo! O Daniel Piza morreu, gente... O melhor jornalista cultural em atividade até então. E autor de livros de ficção, ensaios (sobretudo ensaios e reportagens, além da excepcional biografia de Machado), sem contar a sua página-coluna dominical n'O ESTADÃO, leitura semanal inadiável. Ele pensava todas as áreas, herdeiro legítimo de Paulo Francis, sem criar um personagem para si, coisa na qual o Francis investiu demais. O Brasil fica menos atento, menos sensível. Ou mais: a ausência de Piza nos paralisa antes de prosseguirmos a caminhada e adentrarmos 2012 decididos a continuar a enorme tarefa, desafiadora e fascinante, que ele realizava como ninguém. Agora, é tudo conosco. Obrigado, Daniel, pelas dicas, pela lição, pela energia, pela cultura imensa sem nenhuma afetação. A demonstrar que para enfrentarmos a batalha das ideias não podemos entrar nela apenas municiados por um canhestro canivete e uma só literatura. Piza conhecia, a fundo, a literatura universal em sua essência, artes plásticas, música, história, política, futebol. Não era simplesmente onívoro. Estava mais do que bem preparado. "Shopenhauer aos 26", dele disse Paulo Francis assim que o conheceu, quando Piza tinha essa idade. Morreu vítima de um AVC aos... 41 anos! Eu o lia desde que surgiu no começo dos anos 1990. Traduziu alguns livros importantes, como uma seleção de Bernard Shaw, e A ARTE DA FICÇÃO, de Henry James. E um livro infantojuvenil que merecia ser adotado em tudo que é escola, AS GAROTAS DE NOVA YORK, trazendo à cena LES DEMOISELLES D'AVIGNON, a tela de Picasso, que um dos protagonistas admira e traduz a arte do gênio para o leitor - no Brasil - mais que necessitado de temas assim, raramente enfrentados, ainda mais no gênero. O tamanho desse necrológico é o mesmo da figura de Daniel Piza: grande. Achar interlocução assim é mais que raro, um evento. E a perdemos. Tomara o jornalismo faça escola a partir de sua obra. (31/12/2011)