domingo, 14 de setembro de 2008
ARESTAS, APARAS, ARTE 2
Autocrítica
Shakespeare sabia tudo de Ben Johnson e nada de William Shakespeare.
Os cachorros
A obra, como um carro, corta a estrada, vêm os cachorros – o público –, e latem, como se fossem morder o metal blindado contra sua curiosidade de gengivas escuras.
A obra, como um carro, corta a estrada, estaciona nas livrarias, há latidos nos jornais, há rosnares, babas de fome por outra coisa, e logo desistência, a comprida língua de fora pelo fôlego curto, o rabo entre as pernas, o carro longe, esquecido.
Não perguntem ao autor
O homem termina mais uma de suas peças. Lê novamente o que acabou de escrever, francamente incomodado. Mais que as dúvidas habituais que assaltam os que pensam e produzem, em regra pressionados por prazos, o espírito do homem é tomado de um tormento já rotineiro: novamente vê no que criou a marca do excesso, do imperfeito.
Relê tudo com uma atenção desconsolada. Lá estão, bem claros, o enredo improvável, cheio de episódios de exceção, os personagens descontrolados, neuróticos a um passo do inverossímil, e suas falas então, literárias em demasia, de uma profundidade só cabível a um artista, não a um homem ao qual a arte não elegeu.
Sente-se incoerente esse homem que escreve. E, mais que incoerente, falho. Aceita a incoerência (não é ela moeda corrente em suas obras?), assim como aceita o descontrole emocional, o ridículo nos atos das criaturas que põe em cena, o despropósito de suas decisões, a natureza quase bestial de algumas, quase divina de outras. Aceita isso, sim, mas aceita como aceitamos um ritmo cego que nos toma e nos carrega e logo que ele acaba saímos em outra direção.
E tudo isso que o homem escreve é feito numa linguagem que pinga, ressuma, reverbera. Muita música, muita imagem, muita ação, muita legenda. O homem sente-se francamente cansado. Cansado de tudo. Sabe que errou miseravelmente em seu projeto estético. Perdeu desde a primeira linha a possibilidade do equilíbrio. Qual seu destino?
Evidente: cair. Cair do mais alto sonho até a mais baixa realidade. O mundo é impiedoso, disso ele sabe. Que glória poderá esperar? Nenhuma. Claro que nenhuma. O consolo é o relativo sucesso mais imediato – por enquanto ele está vivo e é isso o que mais importa – que seu trabalho faz junto ao público, vulgar, como se sabe.
Quando acaba o espetáculo, ele volta para casa, e logo já bola outra peça descabelada, outro exagero, outro conjunto de vilanias, ridículos, incongruências, únicos sinais que lhe acenam e depois dos quais ele duvida que tenha chegado ao ponto certo.
Um dia morrerá, não se ilude, tudo terá acabado, mas as dívidas não se acumularão, alguma herança material restará, e se seu nome – William Shakespeare – tiver sido varrido da face da Terra, ele não estará presente para lamentar esse resto de silêncio. Até porque concordaria com ele.
O grande consolo
Shakespeare, como a maioria de nós, não sabia o que estava fazendo.
O necessário
É preciso fazer para saber o quanto falta.
O prêmio
Se a coragem é insensata, se o risco é suicida, levam consigo a vida (este prêmio) e a entregam à morte, esta sim sem sentido.
Se o medo é seguro, se o recuo nos mantém na sobrevida, quando a morte chegar – mesmo que demore –, só aí trará um sentido para o que antes não tinha nenhum.
Pensar, esta indelicadeza
Filosofar nada mais é do que enfim esticar os pés da inteligência herdada no berço, herdada mas que não pode ser exercitada em convívio.
Trabalho
O trabalho nos trabalha.
Rotina
Há um enigma enorme na obstinação da rotina.
Tempo mínimo
Leitura é tarefa mais infinita que o amor. Um dia o amor esgota. Um dia o amor aplaca. Um dia o amor desama. E custa a se renovar. E quem amou duas vezes na vida, ou três, já amou muito e pode dar-se por satisfeito. Mas ler...
Imagino três coleções apenas, três súmulas do conhecimento humano e da arte: a enciclopédia espanhola Espasa-Calpe (em mais de cem volumes), a Biblioteca universal de obras célebres (em cerca de 50 volumes) e Vidas ilustres, de Plutarco, que chega a uns 30 tomos. Só esses três monumentos (após cuja leitura poderíamos nos dar por satisfeitos e prontos para olhar o mundo com um mínimo de consciência) levariam mais de trinta anos para serem lidos. Só três coleções! Imagine-se os 200 autores inevitáveis, obrigatórios, os dicionários a serem consultados com vagar, os idiomas necessários para que não acabemos tristemente monoglotas, ilhados numa só língua. Eis o cálculo para um homem passar por esta vida sem ter sido cego diante do supremo prazer, o saber: 300 anos para ler o básico. (14/09/2008)
ARESTAS, APARAS, ARTE
Cuidado com certas modéstias
Modéstia, em alguns casos, é talento modesto.
Advertência
Obra que é obra não tem espelho. 1) Não pode ser imitada; 2) O próprio autor, ao buscar repeti-la, fracassa. E só lhe resta então partir para algo inteiramente novo. Aliás, por fazer exatamente isto é que ele destrói qualquer possibilidade de espelho e constrói a obra. Abandona-se a cada livro, órfão de si mesmo; e diante do espelho desejado (fácil e resumidor) nada o reflete, condenado como um vampiro que deve beber o sangue de todos, mas jamais o seu.
Legado
Anos e anos tentando, e fracassando como um miserável sem sol. A obra não lhe vinha, não de forma aceitável. Aliás, vinha-lhe a obra, sim, mas em forma de condenação: sua derrota cotidiana, o peso terrível de acumular fracassos. Faltava-lhe, talvez menos que engenho, paciência. Sua vida tinha sido até então aquela marca inapagável do insuficiente. E perto dele só ficavam os que não desejam obra alguma, os que aceitavam o silêncio vazio.
Até o dia em que de repente ele achou a direção certa, e fez o que sempre sonhou, e acertou, ah, acertou, sem nenhuma dúvida acertou. E quis ficar quieto, quando terminou de criar, abraçado a um resto de rancor feliz por enfim ter acertado. Imaginou finalmente pertencer-se.
Porém, o primeiro homem que passou por perto teve a atenção despertada pela obra, e interessou-se, e logo outro, e outro, e outro. E em pouco tempo muitos estavam querendo aquilo para eles. E pegaram o que ele achava que lhe pertencia. E, antes mesmo de transformarem a obra em outra coisa (ele já o pressentia), levaram-na para bem longe. E só lhe restou começar tudo de novo, órfão do que criara, reiniciando o doloroso ritual para que nascesse outro filho ou obra, que também lhe seria arrancado, se se fizesse atraente, e deformado bem longe dos seus braços.
Consagrados tentam (em vão) ler os novos
Os jovens escritores, inseguros, carentes, afoitos, não desejam ler os mais velhos, experientes e consagrados escritores. Não desejam mas deveriam. Ao contrário, querem que os maduros empreguem seu pouco tempo em ler suas experiências, suas tentativas, suas promessas. Os escritores maduros, por sua vez, esforçam-se para achar tempo para ler os que estão começando. Os jovens deveriam poupar-lhes tempo, ao invés de roubar-lhes a preciosa e rara disponibilidade. E deveriam, eles sim, jovens, passar a maior parte do seu tempo lendo aqueles que deixaram de ser jovens há muito. Mas quem está começando quer mesmo é mostrar-se, ao invés de ver. E quem é visto não precisa mostrar-se.
Problemas de geografia
Melhor ser um escritor brasileiro mais ou menos do que um maravilhoso escritor sul-rio-grandense. (10/09/2008)
Modéstia, em alguns casos, é talento modesto.
Advertência
Obra que é obra não tem espelho. 1) Não pode ser imitada; 2) O próprio autor, ao buscar repeti-la, fracassa. E só lhe resta então partir para algo inteiramente novo. Aliás, por fazer exatamente isto é que ele destrói qualquer possibilidade de espelho e constrói a obra. Abandona-se a cada livro, órfão de si mesmo; e diante do espelho desejado (fácil e resumidor) nada o reflete, condenado como um vampiro que deve beber o sangue de todos, mas jamais o seu.
Legado
Anos e anos tentando, e fracassando como um miserável sem sol. A obra não lhe vinha, não de forma aceitável. Aliás, vinha-lhe a obra, sim, mas em forma de condenação: sua derrota cotidiana, o peso terrível de acumular fracassos. Faltava-lhe, talvez menos que engenho, paciência. Sua vida tinha sido até então aquela marca inapagável do insuficiente. E perto dele só ficavam os que não desejam obra alguma, os que aceitavam o silêncio vazio.
Até o dia em que de repente ele achou a direção certa, e fez o que sempre sonhou, e acertou, ah, acertou, sem nenhuma dúvida acertou. E quis ficar quieto, quando terminou de criar, abraçado a um resto de rancor feliz por enfim ter acertado. Imaginou finalmente pertencer-se.
Porém, o primeiro homem que passou por perto teve a atenção despertada pela obra, e interessou-se, e logo outro, e outro, e outro. E em pouco tempo muitos estavam querendo aquilo para eles. E pegaram o que ele achava que lhe pertencia. E, antes mesmo de transformarem a obra em outra coisa (ele já o pressentia), levaram-na para bem longe. E só lhe restou começar tudo de novo, órfão do que criara, reiniciando o doloroso ritual para que nascesse outro filho ou obra, que também lhe seria arrancado, se se fizesse atraente, e deformado bem longe dos seus braços.
Consagrados tentam (em vão) ler os novos
Os jovens escritores, inseguros, carentes, afoitos, não desejam ler os mais velhos, experientes e consagrados escritores. Não desejam mas deveriam. Ao contrário, querem que os maduros empreguem seu pouco tempo em ler suas experiências, suas tentativas, suas promessas. Os escritores maduros, por sua vez, esforçam-se para achar tempo para ler os que estão começando. Os jovens deveriam poupar-lhes tempo, ao invés de roubar-lhes a preciosa e rara disponibilidade. E deveriam, eles sim, jovens, passar a maior parte do seu tempo lendo aqueles que deixaram de ser jovens há muito. Mas quem está começando quer mesmo é mostrar-se, ao invés de ver. E quem é visto não precisa mostrar-se.
Problemas de geografia
Melhor ser um escritor brasileiro mais ou menos do que um maravilhoso escritor sul-rio-grandense. (10/09/2008)
sábado, 6 de setembro de 2008
ATÉ OS LOBOS SE ABATEM
Fausto Wolff, nascido em Santo Ângelo, em 8 de julho de 1940, morreu nesta sexta-feira, 5 de setembro (seria ridículo, por sua trajetória, cair numa data cívica: safou-se por dois dias), no Hospital São Lucas, em Copacabana. Dizem algumas agências que às 20h05min, outras, que às 21h (fica mais redondinho, né?). Falando em versões, atenção, internautas, alguns sites dão a data de nascimento como 17 de outubro, vá lá se saber por quê. Está no site do próprio Fausto, 8 de julho! Fora internado no último domingo – setembro tinha chegado, nada prometedor –, com hemorragia intestinal. O resultado é que entrou em estado comatoso e daí não saiu. Em cinco dias o grave quadro de insuficiência respiratória minou-lhe todas as resistências, se é que alguma havia. Os obituários falam da companheira, a psicanalista Monica Tolipan e de duas filhas, que deixa. A crítica, que nunca lhe deu muita bola, uma hora vai ter de se deparar com três maçudos referenciais não só de nossa época, a de Fausto, mas de várias épocas, uma vez que ele fez uma costura da história do mundo em A 1002ª noite (Bertrand Brasil, 2005). Os outros dois, são, primeiro, À mão esquerda (lançado em 1996, pela Ed. Civilização Brasileira, foi saudado à época como legítimo “romance de geração”, a geração que atravessou os anos 60-70). O terceiro volume a cutucar a fingida (duvido: a ignorância do establismenth, seja ele de que ordem for, inclusive cultural, pela natureza cínica, o faz cego e, assim, amplia-lhe o grau de desconhecimento, sem precisar fingir) é Olympia (Ed. Leitura, 2007), onde ele repete a estrutura cronística-aforística-fabular-colcha de retalhos de A 1002ª noite. Não é fácil acompanhar tais livros tanto pela erudição destilada sem alarde (vire-se, leitor!) quanto pela linguagem sem modos e, ao mesmo tempo, sem forçar a barra para impressionar. Fausto nunca cometeu literatices e nunca fez apenas jornalismo em sua ficção. Soube elevar o jornalismo à categoria de gênero de reflexão e a literatura que praticou sempre fez questão de esfregar sua cara na lama da história da civilização. Passou 40 anos escrevendo loucamente, publicando loucamente, mas como isso se deu a léguas do mundo acadêmico, e, além disso, produzindo ficção um tanto híbrida, tornou-se um lobo uivante (imagem, aliás, de seu blog), cujo saudável perigo – o de expor-nos e às nossas pusilanimidades e preguiças – parecia residir longe de nosso confortável condomínio, de onde saem as páginas que vão compondo a história da literatura que ficará para os futuros estudantes do curso de Letras. Fausto Wolff ainda não está nestas páginas por razões óbvias, extra-literárias. Mas às vezes a morte tem esse paradoxal poder de, mais que ressuscitar, fazer nascer (como a Lima Barreto, entre tantos exemplos) artistas que atingiram a plenitude estética em vida e o reconhecimento, só após a última pá de cimento úmido na catacumba de um cemitério. (06/09/2008)
segunda-feira, 1 de setembro de 2008
AFAGOS NUM TEMA BONITO E GRAVE
Uma outra ciência
Todavia, o amor – essa verdade que dispensa verdades –, dobra a inteligência, torna-a novamente criança, constrói-se pela paciência, pelo perdão, pela espera, por uma aparente inocência que na verdade é a coragem de avançar pela oferta sem a garantia de receber. Quem ama admite, deserdado, deixar uma herança.
Cuidados
Te conhecer foi o primeiro segundo; te perder foi o segundo segundo; e no terceiro a história começou. Riso fácil, lágrima fácil, perguntas fáceis, respostas fáceis – viver, a teu lado, ficou fácil. Mas viver é difícil – amar num mundo sem amor mais ainda –, e aos poucos uma dúvida, duas dúvidas, dúvidas dúvidas dúvidas: pousaram corvos no nosso colo. Como espantá-los? O amor luta e se perturba, perturbação maior porque amorosa.
Um assunto pra lá de batido
O amor não é assunto que se contente em receber legendas, em ser apenas fruto de comentário. O amor quer realizar-se, e cada ser humano clama por amor como clama de fome e sede.
O amor, como toda grande paixão, convive em si o pecado e o perdão. E possui muitas faces, todas elas intensas e capazes de vestir a máscara da deformação. Portanto, cuidado com o amor! Quando parece amor, muitas vezes não é; quando não parece, é. E estes são apenas dois de seus momentos paradoxais. O amor adora imitar a si mesmo também, posando de ser amor por sê-lo, porém sendo sempre um pouco (e este pouco é muito) diferente.
Às vezes monstro imperturbável, a exigir do amante toda espécie de fogo para alimentá-lo. Às vezes ternura infinita, espécie de comoção dadivosa diante do filho gerado. Às vezes olhar fraterno a ver um espelho frente ao amigo. Às vezes saudade que arranca lágrimas e com elas molha a planta amarga que cresce na distância. Amor... Nos torna corajosos, ridículos, heróis, condenados.
Um perigoso limite separa as várias formas de amar. E é lenta a arte de aprender a ultrapassar esses limites. Como lento é o caminhar por essa vereda tortuosa, cheia de sinais e enganos. O amor ao próximo multiplica-se em tantas variações, que chamar de desejo é certo; chamar de irmandade é certo; chamar de piedade é certo; chamar de elevação do ser, embora pareça uma demasia, também é certo. Incertos são somente os acenos amorosos, que em regra falam uma linguagem que só o amor em sua plenitude sabe decifrar, e o homem sob a força do amor observa perplexo, sem saber se existe uma resposta.
Continuando...
Amor é quando enfim os homens se comunicam plenamente, e as palavras e os gestos agitam-se entre eles mais como espectadores do que tradutores.
Pergunta
Você não passar por aqui? É como se o caminhão do gás, o lixeiro, o carteiro não passassem. É como se essa dor não passasse.
Perseverar
Perseverar é, em última instância, crer. Espécie de fé posta em ação, perseverar é somar a espera de quem acredita com a obra de quem insiste porque sabe que um só dia nem a Deus bastou.
Ascensão
O corpo de Matilde, estendido, rompe com a vazia planura do lençol. Surpreende-me, e a tudo, e o vento soca a vidraça, querendo entrar. Mas sou só eu quem está ali e pode ver. E vejo. Meu pau reage de imediato, feliz. E digo para ele, para mim mesmo, atônito, deslumbrado, e orgulhoso: “Levanta-te, glória minha, levanta-te, saltério e cítara” (Salmos, 56, 9).
Fanatismo
Há uma grave seriedade, uma concentração de fanáticos na hora do sexo. Mesmo não acreditando no parceiro.
Condenação do belo
Livre de toda rejeição, perdeu-se em definitivo.
Escolhido, não pôde escolher-se. E só lhe restava então, paciente – sem nem a desculpa do grito da revolta por ter sido esquecido (ó suprema oportunidade) –, engolir calado o beijo de todos, surdos para as palavras que ele parecia não possuir. (06/09/2008)
Todavia, o amor – essa verdade que dispensa verdades –, dobra a inteligência, torna-a novamente criança, constrói-se pela paciência, pelo perdão, pela espera, por uma aparente inocência que na verdade é a coragem de avançar pela oferta sem a garantia de receber. Quem ama admite, deserdado, deixar uma herança.
Cuidados
Te conhecer foi o primeiro segundo; te perder foi o segundo segundo; e no terceiro a história começou. Riso fácil, lágrima fácil, perguntas fáceis, respostas fáceis – viver, a teu lado, ficou fácil. Mas viver é difícil – amar num mundo sem amor mais ainda –, e aos poucos uma dúvida, duas dúvidas, dúvidas dúvidas dúvidas: pousaram corvos no nosso colo. Como espantá-los? O amor luta e se perturba, perturbação maior porque amorosa.
Um assunto pra lá de batido
O amor não é assunto que se contente em receber legendas, em ser apenas fruto de comentário. O amor quer realizar-se, e cada ser humano clama por amor como clama de fome e sede.
O amor, como toda grande paixão, convive em si o pecado e o perdão. E possui muitas faces, todas elas intensas e capazes de vestir a máscara da deformação. Portanto, cuidado com o amor! Quando parece amor, muitas vezes não é; quando não parece, é. E estes são apenas dois de seus momentos paradoxais. O amor adora imitar a si mesmo também, posando de ser amor por sê-lo, porém sendo sempre um pouco (e este pouco é muito) diferente.
Às vezes monstro imperturbável, a exigir do amante toda espécie de fogo para alimentá-lo. Às vezes ternura infinita, espécie de comoção dadivosa diante do filho gerado. Às vezes olhar fraterno a ver um espelho frente ao amigo. Às vezes saudade que arranca lágrimas e com elas molha a planta amarga que cresce na distância. Amor... Nos torna corajosos, ridículos, heróis, condenados.
Um perigoso limite separa as várias formas de amar. E é lenta a arte de aprender a ultrapassar esses limites. Como lento é o caminhar por essa vereda tortuosa, cheia de sinais e enganos. O amor ao próximo multiplica-se em tantas variações, que chamar de desejo é certo; chamar de irmandade é certo; chamar de piedade é certo; chamar de elevação do ser, embora pareça uma demasia, também é certo. Incertos são somente os acenos amorosos, que em regra falam uma linguagem que só o amor em sua plenitude sabe decifrar, e o homem sob a força do amor observa perplexo, sem saber se existe uma resposta.
Continuando...
Amor é quando enfim os homens se comunicam plenamente, e as palavras e os gestos agitam-se entre eles mais como espectadores do que tradutores.
Pergunta
Você não passar por aqui? É como se o caminhão do gás, o lixeiro, o carteiro não passassem. É como se essa dor não passasse.
Perseverar
Perseverar é, em última instância, crer. Espécie de fé posta em ação, perseverar é somar a espera de quem acredita com a obra de quem insiste porque sabe que um só dia nem a Deus bastou.
Ascensão
O corpo de Matilde, estendido, rompe com a vazia planura do lençol. Surpreende-me, e a tudo, e o vento soca a vidraça, querendo entrar. Mas sou só eu quem está ali e pode ver. E vejo. Meu pau reage de imediato, feliz. E digo para ele, para mim mesmo, atônito, deslumbrado, e orgulhoso: “Levanta-te, glória minha, levanta-te, saltério e cítara” (Salmos, 56, 9).
Fanatismo
Há uma grave seriedade, uma concentração de fanáticos na hora do sexo. Mesmo não acreditando no parceiro.
Condenação do belo
Livre de toda rejeição, perdeu-se em definitivo.
Escolhido, não pôde escolher-se. E só lhe restava então, paciente – sem nem a desculpa do grito da revolta por ter sido esquecido (ó suprema oportunidade) –, engolir calado o beijo de todos, surdos para as palavras que ele parecia não possuir. (06/09/2008)
VAMOS LER QUINTANA?
Mario Quintana é daqueles nomes que, uma vez transformados em símbolo de uma cultura, dificilmente recuperam para o trânsito habitual das discussões o registro inaugural que gerou tal símbolo. Traduzindo: obra produzida, o artista consagra-se pela via mais fácil da caricatura, e a obra mesma fica à espera de uma leitura que nunca vem.
Quintana virou poema de Manuel Bandeira, de Drummond, de dezenas de outros poetas menos importantes. Virou personagem de si mesmo (todos somos, mas ele mais do que todos), Anjo Malaquias, tríade de poeta-humorista-filósofo, vivendo sempre na remota região das nuvens, parente daquela espécie definida por Julio Cortázar como el gran comedor de mosca, modesta imagem a descrever a distração a serviço da genialidade.
Mas, e a obra? Foi dela que isso tudo veio, e pouco se vai a ela, contentando-se o público a relações amistosas e tímidas tipo “que simpático e divertido velhinho língua-de-trapo!” Lá longe, no tempo, vão se distanciando de nós A rua dos cataventos, Canções, Sapato florido, Espelho mágico e O aprendiz de feiticeiro, seus cinco primeiros livros, pedra inaugural e última de um conjunto lírico que mais tarde ainda daria irretocáveis momentos como Apontamentos de história sobrenatural (1976), porém já totalmente solidificado e auto-suficiente desde 1951 (data da publicação de Espelho mágico).
Prova desse “esquecimento” de leitura efetiva é a afirmação, já em 1978, de Ivan Junqueira, em seu livro À sombra de Orfeu: “A crítica literária brasileira – às vezes estranha ao próprio conceito de crítica – jamais se ocupou como devia desse imenso poeta que é Mario Quintana”. A frase, aliás, é citada logo na abertura de um importante ensaio, Mario Quintana: As faces do feiticeiro, de Paulo Becker, numa co-edição PUC/Editora da UFRGS (1996, comemorando os 90 anos do poeta, se vivo fosse, morto dois anos antes). O volume mapeia propositadamente apenas os cinco livros iniciais do poeta. A tese de Becker, poeta também, é que nesse quinteto original residem essência, forma, gênese, evolução e cristalização da obra de Quintana.
O ensaio, por sua consistência, por suas qualidades tanto de percuciência crítica quanto de método, não só deve ser recomendado, mas sobretudo torna-se inadiável exatamente pelo panorama hoje desenhado – o de um leviano comodismo diante das possibilidades de discussão que os livros do poeta propõem.
Exigido pela pressão de uma lírica apressadamente modernista, cujo valor dos versos pagava tributo (e caro) aos ventos provocadores da época (década de 30), Quintana estreou noutro tom: com A rua dos cataventos, por exemplo, escolheu o soneto, praticamente aposentado desde a virada do século; enveredou para um tipo de simbolismo tardio, só que nada tardio, já que a ele (ritmos lânguidos, intimismo, imagens de uma rica espiritualidade) somou conquistas estéticas posteriores, num claro sincretismo lírico, costurando duas ou mais escolas.
A vida toda tentaram dar-lhe um rótulo, em vão. Não era possível. Extemporâneo, jamais prestou-se ao papel de epígono ou de clone de uma literatura acostumada a ecos e pouco mais que eles. Este o motivo, talvez, do silêncio crítico, da preguiça de análise, da paupérrima bibliografia sobre sua obra. Como classificar Quintana sem lê-lo com a atenção devida, suficiente para se saber que a partir dele uma nova – e única – trilha na poesia brasileira começa?
Num registro clássico, de aparente passadismo, ele incorporou cores, temas, ritmos novos, logrando versos únicos, pessoais (não no plano do restrito, e sim do estilo único). Somou humor, filosofia (sua poesia é basicamente epigramática) e uma melancolia piedosa com o mundo todo e consigo mesmo. Mas, poeta maior, convida a cada linha a desconfiarmos, a reinaugurarmos o mundo, a viajarmos incessantemente ainda que sem armas e bagagens.
Poeta ao desabrigo, se dispõe, naturalmente vestido de ironia. A maior de todas seria ser lembrado, mas não por seus poemas. Evitemos esse crime lendo-o de fato. (03/09/2008)
Quintana virou poema de Manuel Bandeira, de Drummond, de dezenas de outros poetas menos importantes. Virou personagem de si mesmo (todos somos, mas ele mais do que todos), Anjo Malaquias, tríade de poeta-humorista-filósofo, vivendo sempre na remota região das nuvens, parente daquela espécie definida por Julio Cortázar como el gran comedor de mosca, modesta imagem a descrever a distração a serviço da genialidade.
Mas, e a obra? Foi dela que isso tudo veio, e pouco se vai a ela, contentando-se o público a relações amistosas e tímidas tipo “que simpático e divertido velhinho língua-de-trapo!” Lá longe, no tempo, vão se distanciando de nós A rua dos cataventos, Canções, Sapato florido, Espelho mágico e O aprendiz de feiticeiro, seus cinco primeiros livros, pedra inaugural e última de um conjunto lírico que mais tarde ainda daria irretocáveis momentos como Apontamentos de história sobrenatural (1976), porém já totalmente solidificado e auto-suficiente desde 1951 (data da publicação de Espelho mágico).
Prova desse “esquecimento” de leitura efetiva é a afirmação, já em 1978, de Ivan Junqueira, em seu livro À sombra de Orfeu: “A crítica literária brasileira – às vezes estranha ao próprio conceito de crítica – jamais se ocupou como devia desse imenso poeta que é Mario Quintana”. A frase, aliás, é citada logo na abertura de um importante ensaio, Mario Quintana: As faces do feiticeiro, de Paulo Becker, numa co-edição PUC/Editora da UFRGS (1996, comemorando os 90 anos do poeta, se vivo fosse, morto dois anos antes). O volume mapeia propositadamente apenas os cinco livros iniciais do poeta. A tese de Becker, poeta também, é que nesse quinteto original residem essência, forma, gênese, evolução e cristalização da obra de Quintana.
O ensaio, por sua consistência, por suas qualidades tanto de percuciência crítica quanto de método, não só deve ser recomendado, mas sobretudo torna-se inadiável exatamente pelo panorama hoje desenhado – o de um leviano comodismo diante das possibilidades de discussão que os livros do poeta propõem.
Exigido pela pressão de uma lírica apressadamente modernista, cujo valor dos versos pagava tributo (e caro) aos ventos provocadores da época (década de 30), Quintana estreou noutro tom: com A rua dos cataventos, por exemplo, escolheu o soneto, praticamente aposentado desde a virada do século; enveredou para um tipo de simbolismo tardio, só que nada tardio, já que a ele (ritmos lânguidos, intimismo, imagens de uma rica espiritualidade) somou conquistas estéticas posteriores, num claro sincretismo lírico, costurando duas ou mais escolas.
A vida toda tentaram dar-lhe um rótulo, em vão. Não era possível. Extemporâneo, jamais prestou-se ao papel de epígono ou de clone de uma literatura acostumada a ecos e pouco mais que eles. Este o motivo, talvez, do silêncio crítico, da preguiça de análise, da paupérrima bibliografia sobre sua obra. Como classificar Quintana sem lê-lo com a atenção devida, suficiente para se saber que a partir dele uma nova – e única – trilha na poesia brasileira começa?
Num registro clássico, de aparente passadismo, ele incorporou cores, temas, ritmos novos, logrando versos únicos, pessoais (não no plano do restrito, e sim do estilo único). Somou humor, filosofia (sua poesia é basicamente epigramática) e uma melancolia piedosa com o mundo todo e consigo mesmo. Mas, poeta maior, convida a cada linha a desconfiarmos, a reinaugurarmos o mundo, a viajarmos incessantemente ainda que sem armas e bagagens.
Poeta ao desabrigo, se dispõe, naturalmente vestido de ironia. A maior de todas seria ser lembrado, mas não por seus poemas. Evitemos esse crime lendo-o de fato. (03/09/2008)
A REPÚBLICA DE OMBROS LARGOS
Você conhece Arístocles, famoso atleta? Não? Então o apelido dele – que significa “ombros largos” – lhe deve ser bem familiar: Platão (428-348 a.C.). Pois é do autor dos Diálogos (26 capítulos, suma de sua obra) que se fala aqui, no caso de um dos mais célebres deles, A República.
O livro, dividido em dez partes, é uma pequena utopia, escrita entre 384 e 377 a. C. Na construção de um sistema ideal, Platão traça um paralelo político-moral. Para a classe à qual ele destina o poder supremo (magistrados e filósofos), a razão é a palavra-chave; para os que garantirão a segurança dessa república (os guerreiros), a coragem é a marca moral; para aqueles cujas atividades envolvem a produção e o comércio (artesãos, homens de negócios) são destinados os instintos básicos: a sensualidade, os apetites.
Essa utopia é severa. Sisuda, bem-comportada e exige que a educação encaminhe-nos para a bravura antes de tudo. Cuidado com os poetas, como Homero e Hesíodo. Poesia e música devem ser fiscalizadas. É um regime pesado, que oprime os ombros dos cidadãos que acaso sonharem com alguma liberdade (a utopia platônica é no mínimo polêmica, abolindo propriedade, casamento, os filhos sendo afastados das mães e educados pela comunidade; o Estado é o pai e todos os cidadãos formam uma única família).
No quesito educação, o que seria ensinado aos jovens, até os vinte anos, são a agilidade e o brio de um soldado e, por exemplo, em música, marchas militares estimulando a emoção patriótica.
Há contradições nessa utopia. Se os poetas dela foram banidos, Platão escreve como um poeta, e sua filosofia constrói antes por imagens do que por argumentos (sem falar da forma adotada, o diálogo, deliciosamente eficaz num gênero em regra sem sabor). Um dos momentos altos de A República é o livro VII, "A alegoria da caverna", onde prisioneiros numa gruta ignoram o mundo lá fora, confundindo as sombras projetadas no fundo com fatos e coisas reais.
Mas o tema central da obra é a justiça, como chegar a ela, sem a qual todo julgamento é falho e toda realidade fica sob suspeição. (30/08/2008)
O livro, dividido em dez partes, é uma pequena utopia, escrita entre 384 e 377 a. C. Na construção de um sistema ideal, Platão traça um paralelo político-moral. Para a classe à qual ele destina o poder supremo (magistrados e filósofos), a razão é a palavra-chave; para os que garantirão a segurança dessa república (os guerreiros), a coragem é a marca moral; para aqueles cujas atividades envolvem a produção e o comércio (artesãos, homens de negócios) são destinados os instintos básicos: a sensualidade, os apetites.
Essa utopia é severa. Sisuda, bem-comportada e exige que a educação encaminhe-nos para a bravura antes de tudo. Cuidado com os poetas, como Homero e Hesíodo. Poesia e música devem ser fiscalizadas. É um regime pesado, que oprime os ombros dos cidadãos que acaso sonharem com alguma liberdade (a utopia platônica é no mínimo polêmica, abolindo propriedade, casamento, os filhos sendo afastados das mães e educados pela comunidade; o Estado é o pai e todos os cidadãos formam uma única família).
No quesito educação, o que seria ensinado aos jovens, até os vinte anos, são a agilidade e o brio de um soldado e, por exemplo, em música, marchas militares estimulando a emoção patriótica.
Há contradições nessa utopia. Se os poetas dela foram banidos, Platão escreve como um poeta, e sua filosofia constrói antes por imagens do que por argumentos (sem falar da forma adotada, o diálogo, deliciosamente eficaz num gênero em regra sem sabor). Um dos momentos altos de A República é o livro VII, "A alegoria da caverna", onde prisioneiros numa gruta ignoram o mundo lá fora, confundindo as sombras projetadas no fundo com fatos e coisas reais.
Mas o tema central da obra é a justiça, como chegar a ela, sem a qual todo julgamento é falho e toda realidade fica sob suspeição. (30/08/2008)
A FILOSOFIA DEPOIS DA FILOSOFIA
A obra de Luc Ferry, em seu conjunto, aponta para uma nova filosofia
porque para uma nova função filosófica: não apenas descrever o sentido da vida,
mas achar na existência a sabedoria de melhor aproveitá-la, livre de dogmas.
Luc Ferry não matou Deus. (Quantos já o haviam matado antes!) Menos, ainda, o ressuscitou. Ressuscitou, sim, ao homem, que sempre aspirou ao sagrado. Sempre. Mesmo aqueles, numeroso contingente, que resistiam à idéia de qualquer religião. Religião envolve culto, imagem externa à consciência. O sagrado é um estado pleno no qual mesmo o ateu mais convicto deseja experimentar. O Budismo mostra isso. Luc Ferry recupera tais momentos no pensamento através dos séculos, e, levando questões vitais da filosofia, transfere-as para a vida cotidiana.
Se não se aplicam à vida, são questões meramente retóricas. Evidente: a vida de que fala Ferry é uma vida acima do que tem recebido tal nome, sem merecê-lo. O presente merece – e precisa – da transcendência sem para isso jogar fora conceitos que, aparentemente inoculados de um moralismo vicioso, mereciam apenas uma nova oportunidade. Um novo olhar. Luc Ferry examina, sem nenhuma espécie de a priori, isto é, sem pagar pedágio (o mais caro: o da nossa liberdade) aos que o antecederam pensando as mesmas questões.
Em A sabedoria dos Modernos, que escreveu em conjunto com André Comte-Sponville, em 1997, num sistema ágil de perguntas e respostas que povoam capítulos onde estão setorizadas dez questões para o nosso tempo, Luc Ferry e seu interlocutor exploram a fundo, sem hesitação – e, muito menos, sem retórica desviante –, questões decisivas, diagnosticando nessas questões dois caminhos para a filosofia contemporânea: como ser materialista e como ser humanista, simultaneamente. Óbvio: de tal indagação nascem e se multiplicam, sem cessar (filosofar é a permanência dessa transformação que avança à medida que cada ilusão se esboroa), aspectos elementares que envolvem ética, moral, a liberdade como um mistério, um bem, uma libertação para se chegar aonde a ausência dela não chega: o território multifacetado da vontade, as duas racionalidades, os paradoxos de uma humanização que inclui, inclusive, a crueldade.
Esse livro é o mais amplo e aprofundado estudo (independente da decisiva, quase antagônica – embora convergente –, mediação de Comte-Sponville. Mediação não. Nem Luc nem André se prestam para fazer eco um ao outro. Antes, ao buscar completar o pensamento do co-autor, ampliando-no, provocam-no, tornam o que foi resposta em uma nova pergunta. A sabedoria dos modernos é trabalhar, enfim, com a presença invisível do Absoluto até mesmo no homem precário, e, claro, no nada precário.
Ferry alerta: a filosofia está na moda. Cuidado. Pensar por si mesmo é uma condição que não existe; ou que só vem depois de muita prática e exercício (como em qualquer área) através dos principais pensadores dos últimos 2.000 anos. Não se trata de erudição. 90% pode ser deixado de lado. Mas a amplitude desses 10% constitui uma bibliografia sem a qual nossa voz não domina o idioma que poderia nos traduzir.
Sucesso para mais de 15 minutos
O que é uma vida bem-sucedida? – Ensaio, publicado cinco anos depois, ainda mostra um Luc Ferry que, embora se aproxime aos poucos do diálogo com uma maioria, não dispensa os referenciais filosóficos que tornam o pensar como gênero obra para poucos. Os temas não são áridos. Dizem respeito a qualquer um, intelectual ou vendedor de sapatos. A diferença entre “vida boa” e “vida bem-sucedida”. Um passeio, em linguagem condutora, isto é, sem o peso excessivo de uma redação que parece mais de compêndio (e que Ferry tanto critica) do que de um homem falando a outro. Naturalmente, de forma profunda, com exigências de um texto bem-escrito e alguma leitura anterior, a fortalecer a recepção.
Sucesso para mais de 15 minutos
O que é uma vida bem-sucedida? – Ensaio, publicado cinco anos depois, ainda mostra um Luc Ferry que, embora se aproxime aos poucos do diálogo com uma maioria, não dispensa os referenciais filosóficos que tornam o pensar como gênero obra para poucos. Os temas não são áridos. Dizem respeito a qualquer um, intelectual ou vendedor de sapatos. A diferença entre “vida boa” e “vida bem-sucedida”. Um passeio, em linguagem condutora, isto é, sem o peso excessivo de uma redação que parece mais de compêndio (e que Ferry tanto critica) do que de um homem falando a outro. Naturalmente, de forma profunda, com exigências de um texto bem-escrito e alguma leitura anterior, a fortalecer a recepção.
Mas isso é o mínimo. E desse mínimo o autor parte para, não o máximo (quantitativo), mas o melhor possível. A confusão entre a performance (exigência social permanente, já instituída no coração da família) e a sabedoria em viver bem. Muito além do êxito, reflexo externo de ações, e provisório, o homem deseja, no fundo inconfessável “tão-somente” o bem-estar – difícil de definir, uma vez que é composto de inúmeros condicionantes, internos e externos. Luc Ferry o define, como filósofo do presente: uma frágil felicidade, que vem e vai, a confirmar, em frações separadas no tempo (nos diversos ciclos que ao homem é dado enfrentar), uma trajetória pessoal que não tem razão alguma para afundar.
Deus à nossa imagem e semelhança
Talvez o livro mais radical de Ferry seja O Homem-Deus ou O sentido da vida, lançado há um ano. A religião não perdeu por esperar. Se houve, através da história da Igreja, a humanização do divino, através de um Cristo misturado à multidão, morto entre ladrões, como um qualquer, há agora a imperiosa necessidade de divinizar o humano. O homem vive, desta forma, a confusão do novo estágio, onde o amor é sua experiência concreta de transcendência. Onde a morte é a presença do não-sentido. O sagrado até então conhecido se esvai. A vida tem prazo curto, e pede, então, mais do homem. E o confuso território dessas duas imagens – um Deus já cansado e um Homem que se instaura, enfim, como entidade suprema de si mesmo – é o espaço aberto onde uma nova humanização pode florescer e um sentido para a vida pode ser revelado: um sentido onde o principal incluído seja o próprio homem. Talvez o único.
Sucesso de vendas na França (terra dos filósofos, principalmente após a II Grande Guerra), Aprender a viver – Filosofia para os novos tempos (best-seller no Brasil por seis meses em 2007) é uma pequena e grande história do pensamento. Pequena por eleger apenas cinco momentos culminantes na história das idéias; grande porque Ferry traduz o que parecia intraduzível. Aos apressados é bom avisar: não se trata de um O mundo de Sofia (Jostein Garder) para adultos. A começar, pelo texto-síntese de Ferry, ao contrário do de Garder, que é arrastado. Depois, o dinamarquês fez ficção; Ferry faz ensaio.
E por quê, perguntarão muitos, ensaio de fundo filosófico terá tido tal êxito comercial? Porque 1) a filosofia hoje é uma resposta eficaz a apelos lamentáveis de fundo místico ou de auto-ajuda; 2) Luc Ferry mostra que filosofar não necessita de ferramentas inacessíveis ao dia-a-dia. Pelo contrário: o francês convence público em geral e críticos mais exigentes de que o pensamento acerca das questões mais cruciais e milenares, sobretudo se acompanhadas da parceria de gênios que em vinte séculos se debruçaram com método e paciência sobre elas, nos ajudam a compreender os temas mais comezinhos e os mais espinhosos de nossa vida. Tanto um caso (o do apelo místico) como outro (o da linguagem inacessível) serão desmentidos. Para melhoria – pela iluminação sem dogmas nem rigores insustentáveis – da existência do homem. (27/08/2008)
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Obras de Luc Ferry lançadas no Brasil
A nova ordem ecológica: a árvore, o animal e o homem. Tradução de Álvaro Cabral. São Paulo: Editora Ensaio, 1994.
A sabedoria dos modernos, em parceria com André Comte-Sponville. Tradução de Eduardo Brandão. São Paulo: Livraria e Editora Martins Fontes, 1999.
O que é uma vida bem-sucedida? – Ensaios. Tradução de Karina Jannini. Difel, 2004.
Aprender a viver – Filosofia para os novos tempos. Tradução de Vera Lúcia dos Reis. Editora objetiva, 2007.
O Homem-Deus ou O sentido da vida. Tradução de Jorge Bastos. Difel, 2007.
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