sábado, 23 de agosto de 2008

A MORTE QUE SALVA

Morre fisicamente o escritor, célebre pela qualidade de sua obra. Imagina-se que a posteridade lhe será grata, reconhecendo seus méritos e povoando as décadas vindouras de ecos do aplauso que ele conheceu em vida. Entretanto, um professor de literatura mais afoito burla a vigilância precária da viúva e arranca das mãos hesitantes da mulher páginas que o autor desejaria enterrar consigo. Está feito o crime.

Um mês depois de morto, sai em edição de luxo a primeira besteira no conjunto da obra do autor, até então cuidadíssima. Quer o tal professor, a exemplo do mau-exemplo Max Brod, impedir que caia no esquecimento o que o autor quis assim. Max Brod teve sorte, o Kafka inédito de fato valia a pena, mas foi uma exceção, a regra é o defunto ter razão, e o que deixou sem a luz do público de fato merecer tal escuridão. Fizeram isso com Fernando Pessoa depois de morto, cujo “baú inesgotável” de obras-primas efetivamente deu obras-primas, mas também muita bobagem, como O Livro do desassossego, que nunca deveria receber a atenção que a maioria do material escondido mereceu. Com Pessoa tinha um atenuante, como com Kafka: o autor foi exigente além da sensatez, e realmente escondeu o ouro. Mas o normal é o autor esconder aquilo que não desejaria mesmo que lessem.

Feito este prólogo, um pedido: respeitem a memória do morto – ele pede silêncio além do que disse em vida. Toda palavra nova, trazida ao palco postumamente, é som distorcido, é sentido extraviado, é um homem empalhado forçado a pular o carnaval. Cinco anos depois do funeral, um leitor menos informado acerca do ocorrido com nosso impotente e infeliz defunto, depois de ler cinco livros póstumos (a média com o coitado foi de uma exumação por ano), exclamará, desconsolado: “mas esse cara não é grande coisa! Engraçado, quando vivo festejavam-no com tanto empenho...”

O morto quer que o lembrem de quando era vivo, e escrevia. E, ao escrever, escolhia o que era melhor, o que funcionava, e isso ele tornava público; o resto, ele deletava o arquivo, queimava os
papéis, rasgava (e até aí salvava-se, quase sem saber), ou simplesmente (ó imprudência!) deixa adormecido numa gaveta. Este último procedimento – delicadeza do autor com a imperfeição de seu trabalho – revelava um método simples, cômodo, e, enquanto vivo, eficaz. Alguma parcela daquele equívoco talvez servisse para ser aproveitada adiante. Só que adiante estava também a morte, e, morto, ele não poderia arbitrar sobre o percentual aproveitável. Ficava 100% do insuficiente, quando não do fiasco, para cair nas mãos das carpideiras de plantão. Chorando sua morte, insistem em revivê-lo pelo que não pretendeu dizer, pelo que, em última instância, não disse, esfregando ante nossos olhos o texto arrependido.

Agora o desfecho deste reconhecimento e deste restabelecimento da justiça: evitemos de imputar ao autor, hoje sem chance de interferir sobre os desígnios de sua obra, a responsabilidade por um crime cujo impulso ele reconheceu porém cuja realização ele não autorizou. Paremos de acrescentar aos seus títulos – momentos que ele julgou raros, extraordinários, e, por isso, exemplares – quaisquer pedaços de experiências que o próprio ato de experimentar esgotou, trechos ordinários que o todo da obra selecionada dispensa, momentos menos felizes cuja derrota de execução já basta, quanto mais estender essa derrota aos pósteros.

Morte feliz a daquele escritor cujo último livro publicado em vida é, sim, o último livro de sua bibliografia. E os seguintes não passem de homenagens de terceiros, clubes de leitores, associação de críticos, enfim, essa outra espécie de desdobramento – cá pra nós, na maioria lamentável –, mas pelo menos com a honestidade de ostentar a assinatura de gente viva que pode ser responsabilizada pelos próprios erros. Morto o autor, leva para o túmulo a paz de enfim ter descansado. Isso quer dizer simplesmente que agora não escreverá mais. Nunca mais. E não publicará mais. Nunca mais. O que já estava, ficou. O que não aconteceu com ele, não pode mais
acontecer. A obra precisa ser dele para depois ser nossa. (23/08/2008)

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

ONZE PASSOS PARA PAIS INCENTIVAREM SEUS FILHOS A LER

Tudo começa, naturalmente, na infância. É preciso ler, ler muito, para poder escrever.
A seguir, alguns passos para o incentivo à leitura, quando o leitor ainda está verde
e recém dá seus primeiros passos.


1. A faixa etária adequada para o contato inicial com livros se dá entre os dois e os cinco anos.

2. É importante que o professor indique o livro correspondente à idade e à capacidade de concentração da criança ou que os pais avaliem a adequação desse material.

3. A leitura deve transcorrer em um ambiente calmo, sem interferências ou ruídos (rádio, televisão etc.). O adulto deve assumir o papel do narrador da história, familiarizando assim o pequeno “leitor” com o autor que apresenta a narrativa.

4. É fundamental que o adulto que está apresentando o livro à criança faça comentários sobre a aparência do volume, sobre as figuras, o formato, talvez até contando algum fato da vida do autor. Enfim, é decisivo mostrar à criança interesse em folhear o livro, demonstrando que ali, naquelas páginas, muita coisa se pode descobrir e se quer descobrir. E na hora de ler, faça-o dramatizando, com emoção escancarada. Tudo para que jamais o ato da leitura pareça algo chato ou desinteressante.

5. Se a criança quiser tomar o livro de suas mãos e folheá-lo devagar, de qualquer jeito, “erradamente”, nenhum problema. Deixe. Não se deve ter pressa, e esse processo de convivência com o livro, no início, vai ser assim mesmo.

6. Cada ilustração e cada palavra devem ser mostradas. Uma dúvida, uma hesitação? Pare, explique, volte atrás. É decisivo não perder o fio da meada. Compreender direitinho a história para gostar dela.

7. A criatividade da criança deve ser encorajada. Antes de cada cena seria interessante perguntar o que ela acha que vai acontecer.

8. O ato da leitura – nessa fase inicial – deve ser em conjunto. É uma ótima oportunidade para pais e filhos se sentirem juntos, unidos. Manifestando carinho, calor, o adulto envolve afetivamente a criança e a faz lembrar desse momento – a leitura – como um instante prazeroso.

9. Se a criança reagir negativamente ou não quiser terminar o livro, é importante deixar que isso aconteça. O livro não pode ser uma obrigação, uma sentença, um castigo.

10. Terminado o livro, deve-se conversar com a criança sobre a história lida. Pede-se que a criança conte o que acabou de ser lido. Pode-se ir escrevendo a história, agora contada pela criança, observando o nexo entre as partes, a correta ligação entre as diversas cenas do enredo. Com isso, a criança vai aprendendo que o pensamento tem uma estrutura com começo, meio e fim.

11. Não é raro a criança solicitar que se leia mais de uma vez a mesma história. Satisfaça-a, sem maiores preocupações quanto ao retorno, repetidas vezes, ao mesmo livro. Isso serve para fixar uma identificação com determinada trama, determinado estilo, determinado assunto. Não esquecer, entretanto, de oferecer livros bem diferentes, comparando-os, indicando assim a diversidade de opções de leitura. (20/08/2008)

domingo, 17 de agosto de 2008

ANIVERSARIANTES

Hoje, 17 de agosto, é uma data e tanto. Ao menos para mim. Nascidos neste dia. Para começar, um herói bem ao estilo épico, David Crokett (1786), a leste do Tennessee, EUA, soldado, caçador e político do Velho Oeste. O poeta Fagundes Varela (1841), na Fazenda Santa Rita, Rio Claro, Rio de Janeiro. Simplesmente escreveu um dos poemas da língua, “Cântico do calvário”. Do trágico ao cômico (a demonstrar que os signos nada sabem): May West (1893), em Nova York. Atriz e cantora, supra-sumo da irreverência, uma das mulheres com mais humor que a história registrou (junto com outra norte-americana, Dorothy Parker). Pensando em cinema, que tal um dos maiores atores de todos os tempos (para o meu gosto, Taxi driver, Touro indomável, Cabo do medo e Tempo de despertar, cá pra nós!), Robert de Niro, em 1943, em Nova York, o primeiro vivo da lista. Tem um monte aí que eu poderia pôr só para constar. Mas o derradeiro nome não merece: é gente que só é citável pela vi-si-bi-li-da-de, os conhecidos bergamota-de-amostra, e não exatamente por algum talento que lhes conceda a imposição gerada por alguma importância que possam ter (Hélio Costa, Elba Ramalho, Zezé de Camargo... socorro!). Mas tem mais, gente que é gente além da conta, pelo que contam e cantam: Ed Motta (1971), das mais inacreditáveis vozes surgidas nos últimos 25 anos no País (desde os 19 anos dele). E uma voz mais jovem ainda que, sem precisar emitir notas em concentrada busca por uma melodia, hoje completa 24 anos. Voz que me embala num simples telefonema: a de minha filha Maria. Tá na história, pra quem me lê, e que sabe que a história é muito descuidada. Será comigo também. Mas eu não serei. E coloco o nome de Maria Bentancur ao lado de todos esses nomes citados, sem nenhuma pieguice, e com todo o compromisso do mundo. Os melhores. O acaso, de alguma forma, os reúne. E a mim bastaria May West contando piadas sacanas na festa de Maria, e De Niro fazendo uma performance para ela. Não vai dar, tá certo. Então vou eu lá, com aquela precariedade de todo pai, querendo ser desbravador, ator, cantor, poeta, para tentar dizer do seu amor. Mas o pai não é tudo isso. Não é nada disso. E, nessa hora, somente, e essencialmente, é pai. Mas o afeto – essa forma imprevisível de expressão –, ainda bem, acaba sempre dando o seu recado. (17/08/2008)

PS.: Na quarta-feira, dia 13, tivemos o aniversário de um dos grande escritores infanto-juvenis do Brasil (embora pratique outros gêneros), Ernani Ssó. Não saiu nenhuma nota na imprensa, claro. O cara é pra lá de bom e não faz média, principalmente com a arte que pratica e com os críticos que poderiam lê-lo com muito proveito. No dia seguinte, 14, guria ainda, pouco mais crescida que minha filha, aniversariou uma das jornalistas mais inquietas e criativas que conheço, um tanto extraviada pelo mercado acomodado, isto é, sem informação alguma de onde de fato está o ouro. Seu nome: Bela Figueiredo. Bom nome, ótimo texto, péssimo mercado. Abração com o carinho nascido de tanto admirá-los, gente! Já quanto às editorias (de editoras de livro, imprensa etc.), que reaprendam a ler, inclusive currículos.

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

O BRASIL CORRE PARA TRÁS

Vicente Lenilson, nosso maior atleta nos 100m rasos, a mais nobre das modalidades olímpicas, neste 15 de agosto, numa das eliminatórias – que o derrubou– para classificação à prova final (que assistirá de algum lugar longe da pista), levou 10 segundos e 26 décimos para percorrer a distância que já baixou dos 10 segundos para os 9 há exatos 40 anos. O atual recorde mundial pertence ao jamaicano Usain Bolt, com 9seg e 72 décimos, marca atingida no começo de junho último. Nesta prova em que Lenilson correu como um Gordini ou voou como um 14-Bis, 7o colocado ao final, o mesmo Bolt, mais lento desta vez (9segundos e 92 décimos), fez o melhor tempo.

Lenilson, natural de Currais Novos, RN, 31 anos, 1,66m (baixinho o moço), com a velocidade conquistada hoje – o melhor dos brasileiros na modalidade, nestes jogos olímpicos –, superaria com folgados 14 décimos de segundo ao alemão Armin Hary e seu modesto tempo de10”30 na Olimpíada de Roma, em 1960, há 48 anos. Faltavam ainda 17 anos para o futuro atleta potiguar nascer. Nascimento demorado esse. (16/08/2008)

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

"CATATAU" EM CATUÍPE

Qual era a liberdade criadora com que nos deparávamos naqueles idos de 1975, quando não havia liberdade política e a arte não podia dialogar à vontade? Quase nenhuma, embora ao artista a liberdade seja um bem comum inalienável e ele a use de todas as formas, sobretudo as imperceptíveis pelo vigia da hora. Assim, a vanguarda, mais que um experimento, era uma obrigação. E nesse ambiente vigiado as mentes experenciavam viagens mais longas, bem mais longas, que nossos rotos sapatos de Carlitos.
A estrada empoeirada por bombas de gás lacrimogênio quando muito jovem com cara de protesto se reunia precisava ser asfaltada por uma civilidade construída sobre cultura e liberdade. Gente com longas barbas de pose de hippie trilhava esse caminho, mas era necessário mais que uma performática pose de Walt Whitman; era fundamental dar munição verbal a si mesmo, saltando sobre os muros de um discurso vigiado. Paulo Leminski foi um sujeito que teve essa cara e essa coragem alimentadas por dois milênios de poética, desde a de Aristóteles.
Daí que o rebelde não se fez de fúria pura e juvenil e sim transgrediu autorizado pela própria tradição que, enciclopédica, vence o que usa seu nome mas é apenas cânone constituinte da hora política severa.
Não faz muito tempo perdemos esse transgressor, o Leminski, 45 aninhos ainda, na flor da idade, mas com uma produção de quem passou dos 60. Foi em 1989 e muita birita derrubou o poeta-contista-ensaísta multimídia paranaense. Uns 15 volumes desaforados foram seu testamento, sobretudo sua obra-prima, Catatau, uma prosa experimental com cara de romance, mas corpo de poema em prosa. Leminski se foi mas ficou uma legião de leitores formada às margens de seu texto coleante, humorado, inventivo.
Falar em invenção parece obviedade quando se trata de arte, mas em Leminski isso era o ponto de partida e de chegada. Homem da publicidade, vivia de antena ligada no que o mercado pedia sem trair o que ele próprio, Leminski, pedia a si mesmo, e afora o Catatau, nenhum texto seu ia fechar a cara para o público. Assim, promoveu a convergência entre o complexo das idéias e o simples da forma, em textos que iam da piada à crônica, transitando em meio à região afável de uma espécie de circo das letras (“A palmeira estremece / palmas pra ela, / que ela merece”).


O começo

Mas isso foi o fim. Carreira interrompida pela doença (tinha tantos planos, conforme me contou ao telefone 15 dias antes de morrer: “vou partir pro conto, mas com calma, que tu estás na terra do Scliar”; “ainda estou me devendo um romance”), cada vez mais ia aproximando uma curiosidade insaciável que o fazia flertar com meia dúzia de línguas – consta que até egípcio ele andava estudando – com um registro verbal dessa curiosidade capaz de traduzir o mais remoto e o mais transcendental para a fala mais cotidiana possível.
Leminski queria o difícil tornado em fácil. Queria o mais profundo boiando na superfície, a nossa espera, leitores de sorte, alfabetizados no idioma desse paranaense.
Embora seu começo tenha pegado o monstro a unha. Catatau (1975) “refaz” o percurso dos holandeses no Brasil, que trazem René Descartes na bagagem e o filósofo do mais supremo racionalismo mergulha na febre da selva tropical (uma hipótese, claro), na selvageria de um povoamento que não se fez com a liberdade essencial que se respirava na Holanda de então (país mais livre da Europa no século XVII, e para onde Descartes e Spinoza, por exemplo, tinham se mudado).
Catatau é – hoje cabe chamá-lo assim, devido à fluidez dos gêneros literários – um romance, um monólogo, num ritmo alucinante de fluxo de consciência, de um Descartes perdido e achando um país que poderia ter ido por outro caminho. Mas é também o “espírito” do texto se manifestando, evocado pelas inúmeras entidades que o proclamam e por uma força suprema em ressurgir, ou melhor, permanecer enquanto sente que vai – sua chama, sua alma, sua força, sua luz, sua palavra – apagando-se ou confundindo-se já sem nenhuma identidade.
Foram duas décadas e meia em que a parte mais desenvolvida do Brasil esteve nas mãos da Companhia das Índias Ocidentais, capitaneadas por Maurício de Nassau, que para cá trouxe (desta vez, historicamente falando, de verdade) sábios, pintores, matemáticos, cientistas, gente capaz de conviver com alemães, polacos, índios, negros e brancos em paz e em liberdade de credo, não importando que houvesse entre eles católicos, protestantes, judeus etc.
Recife/Olinda foi a primeira experiência (exitosa) cosmopolita do País. Isso é História. Depois os holandeses, que viam no Brasil não apenas um paraíso físico a se explorar com fins econômicos, mas um mundo de fato novo, com fauna e flora exóticas, uma terra adequadamente chamada por eles de Vrijburg (pronúncia: “fraiberg”, cidade livre), foram derrotados pelos senhores de engenho luso-brasileiros que preferiram o feudo ao capitalismo e à liberdade. “Em Guararapes, o Brasil selou seu destino de ser nação periférica, dependente, lusitanamente condenada a viver o passado dos outros” escreveu Leminski num artigo póstumo, publicado no já extinto Nicolau.
No livro, um “catatau” de coisas (idiomas e dialetos, civilização e barbárie, conceitos, imagens, fatos da história, da ciência, das artes, plantas, reais e imaginárias, bichos, reais e imaginários, pessoas, reais e imaginárias, palavras, reais e imaginárias, muitas se entredevorando, num recurso usado por Guimarães Rosa entre nós e por James Joyce na Irlanda) é apresentado num esforço entre lírico e épico de tomar um território, habitá-lo e, por fim, compreendê-lo.
A última intenção é a que não fica.
Descartes/Nassau/a Voz que Fala (e que falha) com os ouvidos livres a todos os sons que se encontram numa pororoca lingüística naufraga no próprio discurso que monta. Monta? O discurso é que monta nele e em nós, leitores, atordoados da primeira à última página, levados pela correnteza, talvez em pleno mar já, longe do Brasil que não achamos.
Do Brasil que não se achou.
Leminski soube achá-lo. Precisou de um Catatau, esforço hercúleo.


PS.: Catuípe é uma cidadezinha do interior do RS onde, durante uma semana, revisei as últimas provas da edição até agora definitiva do livro, que saiu pela Sulina dois meses após a morte do autor. Leminski já tinha feito duas revisões e me pediu: “lê mais uma vez, sempre aparece uma besteira, ainda mais nesse aí.” Peguei o livro e fui me esconder numa cidade de 20.000 mil habitantes a 300 quilômetros da sede da editora. Voltei sete dias depois sem nada anotado. Queria logo que os fotolitos ficassem prontos. Ficaram em três dias. Que fossem pra gráfica. Foram no dia seguinte. E que o livro ficasse pronto. Ficou mas o autor foi embora antes. (13/08/2008)

sábado, 9 de agosto de 2008

MISTÉRIOS DA CRIAÇÃO LITERÁRIA 10


Quem não gosta de descobrir? Quem pode descobrir se não vê? Quem pode ver se não escuta? Quem pode escutar se não fala? Quem pode falar se não lê?
Na leitura está o caminho de uma série de mistérios. Continuamos aqui uma série sobre os mistérios da escrita criativa, da criação literária. Criação que nos ajuda a criarmo-nos enquanto seres cheios de mistérios.

X

A seguir uma pequena morfologia do artista. O que o constitui. O que o nega. O que o insinua. O que o anuncia. O que o ameaça. O que o salva.

O que é um artista? Alguém que tenta ser uma espécie de espelho do mundo, espelho no qual se refletem a vida e os seres que a vivem ou tentam vivê-la.
O que é um artista? Alguém que busca, por meio de tintas e telas (se é pintor), instrumentos musicais (se é compositor), palavras (se é escritor) recompor a existência humana e seus significados.
O que é um artista, afinal de contas? Para explicar isso direito milhares de livros foram escritos, milhares de artistas deram seu depoimento, e no entanto a resposta não é fácil nem é uma só.
É necessário, em primeiro lugar, saber que tipo de artista estamos falando. Por exemplo, um pintor: deve ter olhos. Um músico: deve ter ouvidos. E um escritor: um ator. Isso mesmo, um ator.
Um escritor é um homem que deseja “pintar” com palavras o que vê. Um homem que “canta” (se é um poeta) com palavras o que escuta. Um homem que procura, como se fosse um ator, vestir a pele da humanidade inteira (de um macho adulto, de uma mulher, de uma criança, de um velho) e com essa multidão de papéis que interpreta, atingir a voz e as verdades que servem para ele e para os que o lêem.
Um escritor sabe que uma boa história necessita de bons personagens. Bons personagens são marcantes, têm personalidade, falam de uma forma especial, como se o que dizem formasse um desenho único, irrepetível: o desenho de sua alma. Bons personagens possuem um modo original e próprio de falar. Suas frases, suas expressões, seu vocabulário, e também seus gestos, seu comportamento, suas roupas, suas manias, muitas de suas características, enfim, somam-se para compor um perfil que deixa fundas marcas no leitor, que impressiona, que vale como uma espécie de modelo humano exemplar.
Mesmo que esse modelo não seja exemplar, mesmo que se trate de um ser comum, de uma pessoa vulgar, sem qualidades, sem beleza, sem importância. A miséria – o drama – de sua desimportância constituem ótimo material literário.
Grande é o escritor que saiba “repetir” de forma convincente alguém que o leitor identifique (como a um vizinho, um parente, ou mesmo um desconhecido), alguém que o leitor reconheça como plausível, ou seja, verossímil. “Esse tipo de pessoa eu conheço” diria o leitor diante da personagem criada. Êxito do autor.Ou então, “que tipo mais extraordinário!” Isso nos casos de exceção, que combina mais com aqueles escritores capazes de criar gente que sintetiza o drama do homem diante dos mistérios da existência. Figuras cujo modelo não faz parte da nossa família (se fizesse, já tinha sido expulso). Figuras que julgamos únicas porque não lhes conhecemos a síntese senão ali mesmo, na obra.

Criar um indivíduo, tomando todos os cuidados, observando cada mínimo detalhe na descrição, nos diálogos, fixar um tipo de pessoa a partir de seus hábitos, do tom de sua voz, do jeito neurótico como passa a mão repetidas vezes pelo cabelo, ou como grita desnecessariamente, ou como pensa, sim, principalmente como pensa.
Um homem são suas idéias.
E, antes de que as examinemos, um homem é a coragem de pensar ou o medo de pensar. Um homem que tema tanto viver, um fraco, e que por isso não ouse elevar seu espírito tão alto, ainda assim é um homem – uma vítima de si mesmo –, e interpretá-lo é um trabalho rigoroso, complexo, e tanto o ator quanto o escritor são chamados a fazê-lo.
O escritor apresenta-se, muitas vezes – a maioria delas, inclusive –, sem ter sido chamado. Um viciado cometendo excesso, mas excessos que revelam nossa verdade humana (portanto, nossa humanidade), e um vício que se apóia em duas dependências: a beleza e a verdade.
O escritor denuncia. Transforma (sempre em algo maior). Cria, onde antes havia, se não o vazio, ao menos o insuficiente.
Ele é o fruto dourado de uma terra (quando sem arte) estéril. E brota. Ou faz brotar.
Sem ele, sem sua obra, é o mundo cego, surdo, mudo.
É o mundo uma dimensão plana, exígua, sem fundo.
É mundo, sim, mas não habitável.
O artista, qualquer que seja sua ferramenta (neste caso estamos falando do escritor), torna o mundo real mais legível. É como se, sem ele, a realidade fosse intraduzível, e, de alguma forma, invisível a si mesma.
Nesse sentido, o escritor, é sem dúvida, um deus. Só depois dele o mundo, enfim totalmente criado, está pronto para a confissão.
Como um deus, porém, solitário, essa confissão só pode vir dele. Os homens que ele tenta salvar estão calados. Ou perderam-se na babel de palavras. Por isso mesmo ele fala por eles. (09/08/2008)

MISTÉRIOS DA CRIAÇÃO LITERÁRIA 9


Quem não gosta de descobrir? Quem pode descobrir se não vê? Quem pode ver se não escuta? Quem pode escutar se não fala? Quem pode falar se não lê?
Na leitura está o caminho de uma série de mistérios. Continuamos aqui uma série sobre os mistérios da escrita criativa, da criação literária. Criação que nos ajuda a criarmo-nos enquanto seres cheios de mistérios.

IX


A arte é uma das tantas respostas para a dúvida. E não só para a dúvida. Mas todo artista é, antes de tudo, ou simultaneamente, um filósofo. O que é um filósofo?

Uma brevíssima história do espírito

Entre as milhares de formas de vida animal no planeta, o homem é a única com inteligência capaz de prodígios. Um desses prodígios é pensar o universo à sua volta. O homem é o único animal que pensa.
Os demais animais aceitam o mundo como ele é, sem procurar alterar nada. A sua atividade, mesmo intelectual (a formiga, a abelha ou o castor são hábeis artesões, engenheiros e matemáticos) é essencialmente prática. O homem não restringe seu raciocínio somente à função utilitária deste. Vai além: constrói mentalmente obras cujo destino é apenas mental, ou seja, com utilidade teórica e não, prática.
Se o reino da matéria é o único reino que as demais formas vivas reconhecem, o do espírito oferece uma porta que só o homem pode abrir.
Há homens que, infelizmente, raramente abrem essa porta. Por medo. Por insegurança. Por hipocrisia. Por ignorância. Por falta de liberdade. Por pobreza.
Outros a abrem, mas só um pouquinho, deixando ver através da fresta uma pálida noção do espetáculo que há lá dentro.
A inteligência humana não tem limites, e abrir a porta do espírito é apostar tudo na extraordinária força de nossa mente.
Essa aposta, como toda aposta, incorre em riscos, em erros, mas provavelmente acabará encontrando o maior dos tesouros: a verdade.
Pensar é uma aventura inenarrável. Pensar é viver em dobro. Pensar é provar por que somos superiores ao gato, ao cachorro, ao cavalo.
Pensar é descobrir.
Pensar é ver além dos olhos. Pensar é escutar além dos ouvidos. Pensar é falar além da boca. Pensar é multiplicar.
Pensar é enriquecer.
Pensar é ganhar confiança. Pensar é amadurecer. Pensar é conquistar.
Pensar é viver, viver mesmo.
Um homem que não pensa de fato não é um homem por inteiro, é um homem pela metade. E de um homem pela metade não se pode dizer que viva.
O pensamento conduz às respostas que precisamos para entender tudo o que acontece.
O pensamento também conduz a novas perguntas, que com mais pensamento nos levarão a novas respostas.
Quanto mais perguntas, melhores respostas. Isso porque se as dúvidas se multiplicaram, satisfazê-las exigiu mais e melhores argumentos.
É uma ilusão pensar-se que a criança é um eterno inocente.
Com três, quatro aninhos de idade é comum fazerem indagações, cobrando-nos a toda hora uma resposta satisfatória acerca da origem das coisas, do porquê de tudo ser como é.
Ou seja: já nascemos filósofos.
A curiosidade é inerente ao homem. O ser humano é o único animal da face da Terra que se faz perguntas.
Que se admira. Que se espanta.
Que não consegue dormir com uma dúvida martelando em sua cabeça.
Mas a atividade do espírito não é privilégio dos filósofos. É do homem em geral, embora nem todos os homens possam ser chamados de pensadores.
A origem da palavra filosofia vem do grego, e quer dizer “amor à sabedoria”.
Mas amor à sabedoria têm também os cientistas e os inventores, que buscam através do raciocínio lógico não uma construção puramente mental, como os filósofos, mas de aplicação imediatamente prática. Se os filósofos vivem à procura de propor questões e respondê-las, os cientistas e inventores vivem à procura de soluções concretas para problemas concretos.

E os artistas, eles não têm amor à sabedoria?
Evidente que sim.
Os escritores, os músicos e os pintores vêm a sabedoria por outro ângulo, não exatamente o da verdade, mas o da beleza.
Para eles a verdade não é nada sem a beleza.
É na apaixonada satisfação do gosto através da criação estética que eles atingem o ponto mais alto de suas vidas: a conquista do belo.
O belo é um conceito complicado, difícil de se traduzir, e para chegar a ele é necessário muita transpiração e muita inspiração.
A obra de arte anseia tocar a perfeição, como um amante quer tocar o ser amado. Mas o artista teme fazer o papel exatamente de um amante, apaixonado por algo que só ele reconhece como belo.
O amante tem todas as desculpas do mundo. Sobretudo porque seu objeto desejado tem um só propósito: satisfazê-lo e fazer-lhe companhia.
Já o artista, ao contrário, quer compartilhar com o mundo sua experiência de maravilhamento, e para isso deve fazer com que o mundo também se apaixone.

Assim, filósofos, cientistas, inventores, artistas – todos fazem do pensamento o que um atleta faz do corpo: seu instrumento incansável.
A um corpo – já que falamos em atleta numa época em que o culto ao corpo está muito popularizado – é fundamental cultivar, isto é, malhar, alimentar, cuidar. Por que com um cérebro seria diferente?
Uma mente que não se exija o máximo é uma espécie de corpo indolente, sedentário. Um cérebro que não se exercite, não faz com que as ligações entre os bilhões de neurônios se desdobrem em novos milhões de ligações, nunca chegando a conclusões – e dúvidas – novas, originais, fortes.
Somos uma máquina, sem nenhuma dúvida, e uma máquina precisa de reparos e de manutenção.
Parada, ela estraga.
Em movimento, pode então mostrar toda sua serventia e poder.
Nossa cabeça necessita, exige combustível. Trocando em miúdos, informação. Com mais dados informados, melhor ela processa os que possui. Seu percurso vai além, acelera e cresce em fôlego, em alcance. Chega a lugares – a idéias – que nem sonhou antes, quando ignorava o que agora sabe. (09/08/2008)