domingo, 3 de novembro de 2013

MAR DE POEMAS

 


BOAS INTENÇÕES

Meu coração está cheio delas
Pulsa lateja gane com suas palavras
Feitas da memória do melhor

Ele diz o que vivi, o que vivo, o que vejo
A luz cambiante, as árvores testemunhas
Para isso preciso edificar discurso

Não desenho, não toco um mísero instrumento
Resta então esse tom quase afogado
A desejar contar o que é bom

Homem e não anjo, carne sem asas,
Eu juro a verdade: que a amargura, na metamorfose,
Seja tão doce quanto a voz de minha avó

E então não seja amargura, nunca mais. Seja fé
Na vontade compartilhada, no prazer dado com prazer
De uma pessoa a outra. Construa-se a favor daquele que busca.

Minha intenção só condena o que condena
E eu, que já condenei, sei que era de medo
Mas agora falo sem parar na procura do perdão florescendo

Não aceito minhas antigas desculpas, minha preguiça
(Essa doença grave). Só aceito o que tiver de ser,
O que a vida me mostrar. Não fecharei os olhos

Não emudecerei, usarei todas as palavras, sim,
Mas só as indispensáveis, as que podem ajudar o outro
A ouvir. E a falar. Jamais voltarei a calar a voz alheia

Com o verbo gorduroso, pesado, escuro
Que eu destilava como se estivesse me vingando por estar vivo,
Quando vivo mesmo é que não estava.

Não estou cheio delas, as boas intenções. Estive vazio, esses anos todos.
Agora as boas intenções brotam, olham para tudo
E para todos. E contam, sem cansar, o que pretendem fazer.


A PÁGINA

A página não foi encontrada.
Juram: estava lá,
Para quem quisesse.
Busquei-a, sugiram tantas.
Uma até com o meu olhar.
Mas sei: não estava lá.
Testemunhas confirmam
E eu desconfio.
Era a minha, a minha.
Mas não estava lá
No exato lugar
(que lugar é esse?)
Em que neste momento transito
E os óculos tão cansados
Não me ajudam.
A página está
E não foi encontrada. Continuo
Como debaixo de uma chuvarada.
Atrás da página não encontrada.


ESTOU BEM DOS OLHOS?
                 Pensar é estar doente dos olhos
                                     Fernando Pessoa

Verdade, não estou pensando em nada. Nada
Me inunda a mente, absolutamente nada.
E no entanto, como é intenso esse
Instante em que estou sendo eu, esse
Agora em que meu corpo tremeria se eu
Não o agarrasse com força. Sim, não
Estou pensando em coisa alguma.
Mas o que sinto, essa emoção que não deixa
Nenhuma forma parada, ah, o que eu sinto
É tão enorme, possui uma força de derrubar
O que eu nem suporia pôr abaixo.
Mas venho, tudo que me faz, até a vazia mente,
E vou caindo todo eu e até a ausência do
Meu pensamento cai, caiu. Porque sinto, sinto muito.

QUEM PODE SER POETA

Eu é que não. Impossível
Ser aquele que quase canta,
Sem cantar,
Algo que nem é música e
Tampouco a prosa aprovaria.
Ao contrário do homem, o mundo
É que vive no poeta. E eu,
Não fosse a química, o expediente,
Eu estaria condenado até como simples
Homem que nunca ousaria um poema.
Ouso-os, os poemas?
Então é porque sou um homem que sabe,
Muito bem,
Sua impossibilidade. Com ela
Cria sua questão essencial
(Da qual amaria fazer parte):
Quem pode ser poeta?


EU EM MIM

Neste âmbito
Homem transido
Trazendo tanta memória
Tanto esquecimento
Habito
O incalculável espaço de um corpo
O coração bate tanto quanto
A cabeça dói. Ela,
Bate-se evitando a vizinhança
Da parede.
A parede é de ossos, músculos, carne
A parte mais frágil
Mas preciso desse amparo
Por isso paro, me escoro
No que em mim pede
Procuro dar-me e receber-me
Estou sempre à espera
Do homem que me espelha
E me espera também
Somos dois elementos
Dois seres, água e fogo
Para não queimar de todo
Para não afogar-me
Transito na estrada, pequena estrada
Que sou desde nascido
Assim aprendo com o tempo
E meu olhar enfim
Acompanha as horas.


CAFÉ DA MANHÃ

Um quase interminável bocejo
Depois os ossos estalando,
Um a um - todos.

Estou completo, mas é preciso
Escovar os dentes, reescovar
Lavar o rosto como se o redesenhasse
E sinto a pele me conhecendo
A cada manhã.

Penteio os cabelos, calculo
Que devo deixar libertos
Os movimentos que me levam
Até a rua, até a tua
Oferta
- incluindo alguma ameaça -,
mundo.


PRESO

Não posso sair
Do espesso texto
Balão de oxigênio.

É aqui, nele,
Nesta sintaxe ágora
Que me expando
Seguro-me ainda respirando
E me protejo.

Chamam de poema
Deem o nome que quiserem
A mim vem
como o ar, chega
Completamente aberto, espaço
Nele me deito
Nele posso caminhar.


POR AMOR À FICÇÃO

E não havia Paraíso nem Purgatório nem Inferno
Não existiram Adão, Eva, menos ainda um irmão assassino
De outro irmão. Ninguém levaria a sério Noé e sua barca
Menos ainda o superespetáculo de um dilúvio
De tal forma que eu, habitante desse território onde cresce
Um tal imaginário capaz até de pai sacrificar o filho
Por amor a um deus que o substituiu por um carneiro
Ah, eu, tendo de escutar todas essas histórias, incluída
A de um poderoso demônio a fazer gárgulas parecerem pombos,
Tornei-me, inevitavelmente, um fervoroso crédulo, um fiel
Seguidor de todas as literaturas, da argentina à russa. E
Nem poderia ser diferente.


A CABEÇA ABAIXO DAS NUVENS

Claro que não ando com a cabeça nas nuvens
Nem raspo o rosto ao rés do chão.
Subo escadas, desço até o porão,
Nada que gere vertigens nem me soterre.

Minha ossatura experimenta o equilíbrio
Permitido pelo que é natural, nada de
Corda-bamba que não nasci para equilibrista.
Andar sem o bambo ritmo dos bêbados,
Avançar à frente na certeza de não tropeçar.


Que mais eu quereria, numa hora em que espocam
Carnavais, torcidas organizadas e sua violência como uma efígie,
O trânsito de carros alarmado em suas buzinas, o de gente
Se debatendo nas feiras de liquidação?

Não. Não ando com a cabeça nas nuvens. Cada passo
Merece de mim o atento olhar antes de mover-me. Assim,
Não caio do prédio. Tão simples como o vento da primavera,
Conquisto metro a metro, vida a vida, esse tempo que é meu.


E NO ENTANTO SE MOVE

Tente escutar esses galhos,
Seus tímidos braços, e as folhas.
Calados, os pássaros
Dão saltos de um ramo a outro.
Indiscreta brisa não esconde
Que move a relva.

Mais abaixo, o murmúrio
Do córrego, cascalho se movendo
Sob a água.
Ninguém por perto.
Nuvens cobrem o sol
Num denso manto.

Uma aranha perde o equilíbrio,
A tempo agarra-se
À última linha da teia.
Ramos esparsos no chão,
Crestados e murchos
Pela luz de ontem e anteontem
E a umidade de alguns dias.

Os galhos nervosos buscam
Algum contato.
Não há estrada por perto, não
Existe sequer um cão perdido.
As aves movem a cabeça
E voam para longe.

Também o fio d’água segue
O rumo de algum encontro.
Talvez o sono reparador
Da densa voz da neblina.


DORMINDO

Ainda é o sono, embora
Lá fora me cheguem todos os sons,
Os movimentos acordaram
Dentro desse sonho de aqui estar
Pleno na vigília que impede
O sono de ir embora.

Ainda é o sono. Escrevo
Tudo que meus dedos podem.
A casa é a mesma
De ontem, quando fui deitar?
Não! Transmutada, ela ajeita-se
Debaixo do silencioso céu.

Durmo, os olhos minguados,
A mente aberta vendo imagens
Que o real não pode nem lhe cabe
E ao sono todas elas pertencem.
O sono: finalmente dou corda para ele,
E o sonho, despertado, acontece.


PROSA

Destilo esse verso, como se
Verso fosse, sendo prosa.
Ele posa de poema. Faz-se assim
E me chega sem ser leve, sem
Me trazer essa incansável música
Que eu queria escutar no corpo todo.

Só a cabeça, no entanto, vai segui-lo,
A um tão discreto ritmo sem batida.
Não são horas, dir-se-ia para o corvo.
Não são horas, mas o verso quer-se aqui.
Ele se ajeita como um desses mendigos
Na calçada apinhada, tantas coisas.
Impossível o descanso, a doçura
De uma imagem que abra uma porta
E permita desta forma o jeito solto
De um poema tão tisnado, tanta prosa.

Bem que existe esse esforço de levar
O que precisa ser dito, e tem de ser
De um modo muito mais que particular
Feito boneco alegre de ventríloquo.
O prosaico, insistente, vai se impondo.
Chega antes e diz por que tem de haver
Esse quando, essa malha a cobrir
Uma prosa desde o começo destilada.


LEITURA

Leio com atenção
Teus olhos piscando antes
De ficarem vermelhos. Leio
Teu distraído olhar
Entre as estantes do café
No fundo da livraria.
Vês tua crença no que enxergo
Se não lesse, se
Apenas visse
Um vendedor se aproximando.
Andam quase que por todo lado
Os frequentadores, tão fiéis.
Isso me faz bem, como o café
Que aqui, próximo a lombadas,
Beberico.
Leio a tua boca, entreaberta,
Buscando algo rápido a dizer.
Entanto, permaneces calada
E mesmo assim eu leio, leio.
Não poderia deixar de ler.
Leio teu nariz se entregando
A fruir todos os aromas que chegam,
Tuas pequenas orelhas de ratinho,
Tuas longas sobrancelhas de cigana.
Leio mais, porque é, lendo,
Que sentado posso lento assistir
Com concentração os movimentos
Daqueles que às mesas já folheiam
O título escolhido. E entre goles
Entregam-se a frases quase secas.
Eu sempre inverto e vejo só depois
Os livros. Antes gosto desse cheiro,
Do pó, da água quente, misturados
Ao açúcar que me chega com o sabor
De quem daqui a pouco erguer-se-á
E, de estante em estante, vai olhar
Sem gula e sede e já tendo lido muito.


NA BOCA

Língua com língua
se tocam, se batem
quase abatidas
o coração aos saltos
os lábios roçam
uma carne macia
como na noite
agora é dia
a saliva unta
de um ser único
o outro a ser
em si, afinal,
dono de
seu momento.


POSTAR-SE

Posto-me disposto
E quase ereto
Certo de que irei
Reto, feito
Um lobo avançando
A lento passo
Na direção
Da presa
E mostrar-lhe
Já sem tempo de fuga
Minhas presas.


DEITAR-SE

Agora posso entregar completamente
Meu corpo depois de um dia inteiro
Pensando, correndo, pensando,
Assustado sobretudo consigo mesmo
E então eu permito que ele se renda!
Dou-me, quase, mas dou-me –
Não que seja como no amor –
Há algo de morte lenta nesse relaxar
E o prazer, que poderia vir, se esconde
Debaixo das cobertas, e onde mais?
Sei que é hora de guardar todas as armas
Dar repouso às ásperas batalhas
E desejar um sono impossível, sempre,
No seu início, impossível, sempre.
E essa palavra tão eterna me distrai,
Não embala, não conduz ao sonho, não
Faz com que eu caia no fundo do poço
Tão desejado. Ali mergulharia,
Pescaria os peixes mais azuis,
Dormiria como dormem aquelas pedras
Tão ovais que a manhã me ofertou.
Guardei-as num cesto sobre a estante
Que tenho aqui no quarto entre outros quadros
E livros e cds lá do barroco. Já um ronco
Me acorda e me vejo dormir por meia hora.
Mas é o grande sinal, é o primeiro de todos
Os avisos de que o dia terminou.


O AMOR E SEU SILÊNCIO

Sabe o amor calar, mesmo
Quando sua força de amar
É daquelas de dar urros
Distribuir murros
Juntar o Pacífico e o Atlântico
Nos olhos mais fundos
Que as crateras do mar lá no meio.
Sabe ficar quieto, embora
Inquieto a toda hora, demonstre
Que algo não vai bem.

Mas as pessoas acreditam em discurso,
Nas declarações, nos exageros.
E ainda que o amor jamais tenha sossego,
Age como se soubesse toda a calma
Que habita a planície lunar.
O amor não conta, se não quer contar.
Mantém seu segredo com uma força
De titã, uma decisão que nem o experiente deus
Poderia tirar. O amor não consente que digam
Seu santo nome em vão.


NÃO SEI RIR

O humor salva, sempre soube.
Rir é remédio, impulso. Mas o que me coube
É esta cara séria, expressão grave,
Um modo de ver em tudo o risco,
A ameaça disposta a cumprir-se,
Em vez de flores e borboletas, o cisco.
Não é mau-humor. Meu temperamento
Conduz à ansiedade, e então avanço
Através das calçadas em si difíceis,
E seus tão renovados obstáculos.
Olho os rosto e ali procuro
Um olhar que me avise “salve-se!”.
Mas riem, estão distantes enquanto eu
Enxergo o metal da tarde cada vez mais denso.


O MORTO

Puseram-no tão firme como nunca estivera
No caixão ladeado de velas,
No centro da sala onde flores não respiravam.
E dava pena ver seu cabelo como se fosse
Uma peruca. O rosto, outro rosto.
A pele estriava as veias vazias.
As mãos traziam o gelo de agosto.
Quase ninguém chorava e isso era
O que mais comovia: olhavam-no
Mas já não estava ali.
Quando tamparam tudo e enfim
O féretro seguiu até baixar à terra,
Alguns amigos suspiraram de alívio.
Assumia agora a sua real ausência.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

DEFEITOS DA FORMA


O escritor Alaor é sério pra burro. Não quer conversa fiada. Passa as madrugadas na internet, as manhãs na biblioteca do pai, desembargador aposentado, e durante a tarde ele debulha para uma página em branco impotente todos os dados que acumulou. Cruza-os, relaciona-os, uma informação levando a outra, e outra a outra, e assim por diante. Alaor não quer conversa fiada, por isso pratica o alterofilismo mental, sustentando um conhecimento cada vez mais concreto, com fatos, figuras, teses mais do que respeitáveis. O diabo é que um crítico, de quem sempre falaram bem a Alor, e ao qual Alaor pediu socorro acerca de seu mais recente romance, perguntou: “romance? Cadê as personagens?”
Alor apressou-se: “mas e o deputado, e o senador, e a mulher do senador, e o cientista, e o professor, e?” O crítico o interrompeu: “personagens se movem, gesticulam, suam, vagam, mais perdidos que encontrados dentro de um romance. O que você faz é listar uns nomes, umas ocupações, e mencionar situações em que essas figurinhas carimbadas se pronunciariam. Isso é só tema, pretexto, ponto de partida. Você não chegou a começar a fazer arte, Alaor, parou antes.”
Alaor é um sujeito do qual se pode dizer tudo, menos que não seja sério. “Tem um monte de ideias interessantes na história.”
“Mas não tem história”, devolveu o crítico.
“Mas e o enredo que montei?”
“Montou, Alaor, montou. E enredo é um troço pra lá de complicado. Deve ser a parte mais invisível da ficção, aquela que, quando o leitor foi ver, já aconteceu. Tudo, aliás, deve ser invisível, os personagens sendo o que são sem o autor gritar para mostrá-los. A trama se desenrolando sem trama alguma, uma cena levando a outra, com suavidade. Ou com sobressalto, que se há de fazer, mas um sobressalto do qual até o autor se ressente.”
“Mas tem tanta frase inteligente no meu livro.”
“Ficção não tem nada a ver com isso.”
“Mas a confusão...”
“Nada melhor que a confusão para revelar um caráter, um drama.”
“O perigo, caro crítico, é o escritor cometer muita conversa fiada.”
“Literatura é conversa fiada.”
“Eu sou sério demais”, advertiu-o Alaor, ofendido já, e orgulhoso da própria seriedade.
“A diferença é que arte é forma; e você, que só vive das ideias, é formal.”
“Não, não, não!”, horrorizou-se Alaor. “A literatura não pode ser tão superficial...”
“Num certo sentido, é bastante. Vive de olhar demoradamente a superfície, onde boiam sinais remotos de algo que se agita no fundo – e nunca será revelado.” (26/04/2013)


domingo, 7 de abril de 2013

TALENTOS



O sujeito, afinal de contas, era medíocre porque, sendo talentoso, deu vez a um medíocre em sacrifício da própria genialidade, posta de lado pela dúvida sempre cruel da autocrítica, a princípio uma virtude, a seguir, um vício. Não acreditava no outro, claro, porém, incapacitado de crer em suas virtudes e engenho, preferiu render-se ao movimento contínuo, talvez monótono, da necessidade de afirmação do colega, sem talento algum, sim, entretanto tornado mais forte que ele diante da indiferença do mundo.
Por outro lado, que talento o do sujeito que, sendo medíocre, sentiu a hora única na brecha mínima que foi a dor atroz da profunda insatisfação do amigo talentoso, e naquele segundo de hesitação deixou-o para trás, permitindo que ficasse inédita uma novela lancinante do outro, e que as portas se abrissem ao vazio fútil e fácil que foi então sua ascensão imposta pelo simples desejo de subir. Desejo que ninguém segura. E que o universo, feito de matéria escura, aplaude. (07/04/2013)

domingo, 24 de março de 2013

ADVERTÊNCIA



Obra que é obra não tem espelho. 1) Não pode ser imitada; 2) O próprio autor, ao buscar repeti-la, fracassa. E só lhe resta então partir para algo inteiramente novo. Aliás, por fazer exatamente isto é que ele destrói qualquer possibilidade de espelho e constrói a obra. Abandona-se a cada livro, órfão de si mesmo; e diante do espelho desejado (fácil e resumidor) nada o reflete, condenado como um vampiro que deve beber o sangue de todos, mas jamais o seu. (24/03/2013)

domingo, 17 de março de 2013

UM AMOR SIMPLES



            A namorada pobre não veio ao encontro porque choveu e ela não tinha sombrinha, porque fez frio e ela não tinha casaco, porque dormiu demais e não havia celular nem sequer relógio-despertador em sua casa. A namorada pobre não tem casa.
Um dia dorme numa amiga, outro, numa tia. Como localizá-la?
A namorada pobre aparece poucas vezes, e tem mais fome do que desejo. (17/03/2013)

segunda-feira, 11 de março de 2013

A TESTEMUNHA


Neste mês eu vi 678 acidentes de motos, carros, ônibus, caminhões. Eu vi 439 traficantes e policiais trocando tiros, 202 assaltantes trocando tiros com seguranças de banco, 198 pais espancando filhos pequenos, 112 homens agredindo suas parceiras, os mais pacíficos verbalmente, 93 empresários desviando dinheiro alheio para contas que de fantasma só têm o nome porque são concretamente suas, 76 erros médicos gerando morte ou graves sequelas, 62 homens estuprando de meninas a velhinhas, 51 suicídios, 38 mães abandonando recém-nascidos em portas de hospitais, condomínios ou mesmo em lixões. E, numa tarde onde o sol custava a se pôr, testemunhei um homem grisalho lendo um livro de poemas, tão distraído – transportado eu diria! –, que fiquei ali, um tempo enorme, acompanhando a cena, e ele mergulhado naquilo num banco de praça, em plena rua à luz do dia. Confesso que o fato me deixou completamente consternado. (11/03/2013)

quarta-feira, 6 de março de 2013

OBRIGAÇÃO




Entro na empresa para mais um expediente. Poderia chamá-lo de “pausa de ser”, mas não se deixa de ser nunca, e no entanto a pausa é necessária, vital, porque imposta uma vez que vem a um preço alto quando quebrada (as hierarquias, o mirrado cânone constituinte). Interrompo-me por fora sem me interromper por dentro. Só assim para evitar constrangimentos, conflitos e até violências coletivas. Tudo isso ocorre de qualquer jeito, mas em segredo, em mim mesmo. Somos dois agora: eu e... – vá lá! – o eu que os colegas me supõem. Esse eu sobrevive por mim e, de certa forma, sou-lhe grato. Mas a verdade é que um não suporta o outro. (06/03/2013)

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

VOLTAR A ESCREVER

Um dia, uma hora, após um evento quase imperceptível, ou uma soma deles, e o tão alentador ritmo da criação constante escoa pelo ralo. E ficamos em silêncio, mudos e, se mudos (escritores que somos), sem interlocução, sem gente que também nos fale. O leitor não perdoando nosso silêncio. Então é preciso voltar a escrever para voltar a ler o que recebemos como resposta, o que acontece do outro lado da tela, da linha, da vida que em nós ameaça se encolher e se expande se escrevemos.
Andei parando. As demandas a se somarem e eu com olhos e ouvidos para outras vozes que não a minha. E calei-me, sem calar no entanto o calor do que eu próprio me dizia e das coisas que lia, diariamente, e que reverberavam em mim. Torturante silêncio. Uma hora rebentaria, explodiria, libertar-se-ia e iria em direção a quem faz o favor de me ler. E a roda-viva retomando então seus movimentos, a Terra voltando a seu mecanismo na relação com os demais astros e seu satélite e sua estrela de quinta, sim, mas que grandeza! Agora me sinto restituído a mim mesmo, dono outra vez das minhas ações, estas palavras que me vestem e com as quais vou tateando a realidade para que ela me reconheça e, desta forma, me aceite, me receba inteiro. E aqui estou. Audível, legível. Homem sem cujas palavras ele será apenas um nome à espera de uma lápide. E sem nenhum leitor, nenhuma testemunha, morto antes da hora. (24/01/2012)

sábado, 31 de dezembro de 2011

Uma lágrima para Daniel Piza

2011 acabou mesmo! O Daniel Piza morreu, gente... O melhor jornalista cultural em atividade até então. E autor de livros de ficção, ensaios (sobretudo ensaios e reportagens, além da excepcional biografia de Machado), sem contar a sua página-coluna dominical n'O ESTADÃO, leitura semanal inadiável. Ele pensava todas as áreas, herdeiro legítimo de Paulo Francis, sem criar um personagem para si, coisa na qual o Francis investiu demais. O Brasil fica menos atento, menos sensível. Ou mais: a ausência de Piza nos paralisa antes de prosseguirmos a caminhada e adentrarmos 2012 decididos a continuar a enorme tarefa, desafiadora e fascinante, que ele realizava como ninguém. Agora, é tudo conosco. Obrigado, Daniel, pelas dicas, pela lição, pela energia, pela cultura imensa sem nenhuma afetação. A demonstrar que para enfrentarmos a batalha das ideias não podemos entrar nela apenas municiados por um canhestro canivete e uma só literatura. Piza conhecia, a fundo, a literatura universal em sua essência, artes plásticas, música, história, política, futebol. Não era simplesmente onívoro. Estava mais do que bem preparado. "Shopenhauer aos 26", dele disse Paulo Francis assim que o conheceu, quando Piza tinha essa idade. Morreu vítima de um AVC aos... 41 anos! Eu o lia desde que surgiu no começo dos anos 1990. Traduziu alguns livros importantes, como uma seleção de Bernard Shaw, e A ARTE DA FICÇÃO, de Henry James. E um livro infantojuvenil que merecia ser adotado em tudo que é escola, AS GAROTAS DE NOVA YORK, trazendo à cena LES DEMOISELLES D'AVIGNON, a tela de Picasso, que um dos protagonistas admira e traduz a arte do gênio para o leitor - no Brasil - mais que necessitado de temas assim, raramente enfrentados, ainda mais no gênero. O tamanho desse necrológico é o mesmo da figura de Daniel Piza: grande. Achar interlocução assim é mais que raro, um evento. E a perdemos. Tomara o jornalismo faça escola a partir de sua obra. (31/12/2011)

quarta-feira, 2 de março de 2011

FILHO DE QUEM

Conduziu-me pela mão
o som de membro tão hábil.

Levou-me na direção,
as minha pernas cantando
pedras, tropeços, recantos.

Sentou-me no colo do chão,
desenhou-me a cor da grama,
coloriu-me a terra densa
e suas raízes músculos.

Ergueu-me o rosto pro céu,
a cegar o sol e as nuvens.

Baixou-me o olhar até
o leito onde escorriam
as palavras a criar
o menino já crescido.

Minha mãe com seu vestido,
puído, escondendo os joelhos;
meu pai tropeçando vinho,
gargalhando com os vizinhos.

Eu já era cuidado
ao ponto de cuidadoso
com o que dizia a todos.

Os livros ali tão perto.
Os livros me sussurrando.
Os livros: conselho, relho,
Os livros, sérios, brincando.

Os livros, pais a me dar
um rumo, martelo, murros
necessários no recreio
quando colegas cravavam
receio em quem pensavam
ser filho de pais ausentes.

Literatura, a bênção,
senhora, minha mãe de sempre. (02/03/2011)

domingo, 27 de fevereiro de 2011

GRATIDÃO AO ARTISTA MORTO

Querido Scliar,

eu poderia escrever para a tua família, tua esposa, teu filho, contando-lhes do meu imenso carinho por ti, da minha admiração incondicional, como artista e (o que é mais difícil) como o ser humano que foste. Mas preciso te dizer alguma coisa. Se não alcançares essas palavras, estarei, como consolo (embora nesta hora inconsolável) dizendo-as a mim mesmo. Tive as duas convivências contigo. Foste o escritor que a partir dos meus 17 (portanto, há 36 anos) passou a acompanhar a minha carreira, me estimulando sempre, me sugerindo, me aconselhando, me alertando, arregaçando as mangas (que energia, exército de um homem só!), ao ponto de escreveres dois generosíssimos prefácios em dois livros meus, ao ponto de eu ter a alegria de ter editado três livros teus, sem falar nas vezes em que nos cruzamos para dar palestras juntos, como em Santo André, SP, sobre o centenário de Erico Verissimo, em 2005, e tu te mostravas mais preocupado com a minha ansiedade do que com a palestra em si, tão generoso, meu amigo, meu irmão, quase um pai (dá licença, Beto!). Estamos órfãos, eu e a literatura. (27/02/2011)

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

TERRÍVEIS TARADOS E A REAÇÃO COMUM DAS MULHERES

Um homem, 35 anos, passa por uma mulher bonita, lá pelos seus 28, 30. Encanta-se. Controla-se até onde pode. E não vai além de cantarolar, emparelhando o passo quase ao lado dela, num trecho da calçada em que estão apenas ambos, e mais nenhuma testemunha para envergonhá-lo: "Você é linda, / linda demais. / Você é linda sim. / Esta canção / é só pra dizer / e diz..." Nem a observa, tenso, talvez. Embora com o encanto inquebrável. Até que... A mulher apressa o passo, como se corresse de um assassino e, cinco metros adiante, olha para trás, encara-o, pura fúria, encolhe os dedos e estica o indicador, dando o troco socialmente merecido: "vai tomar no teu cu!"

Outro homem, mais jovem, rapaz ainda, passa por uma adolescente de uns 16, 17 anos, e mais murmura que exclama, olhando sempre em frente: "Meeeeeeuuuuu Deuuuuussssss!" A jovem vira-se, como se abalroada por um búfalo, e vocifera: "Não te enxerga, ô meu?!"

Um homem de meia-idade, fazendo sua habitual caminhada, para próximo a uma dama distinta, idade similar, colar de pérolas e palavras secretas que ele supõe jamais um dia escutar. Comenta com a parceira na espera do demorado semáforo: "este cruzamento é chato mesmo..." Ela não responde, como se se fosse fazê-lo acabasse de assinar a própria sentença de morte. Ele ainda acrescenta, assim que o sinal abre e ela dispara: "Boa taaaaarde!". Ela segue quase correndo, tropeça, vira-se na direção dele e o olhar de puro desgosto acompanha a boca vomitando um "filho da puta, não respeita ninguém? Não se olha no espelho?" Ele, chocado, tem vontade de perguntar-lhe se ela tem alguma intimidade com a língua portuguesa. Mas sabe que a palavra "intimidade" poderia não pegar bem.

Um senhor septuagenário observa com indisfarçável alegria os movimentos de uma senhora sexagenária, vestido florido, coque no cabelo cinza mas tão docemente moderno. Ela dá o flagrante no olhar e sacode a cabeça, comentando com uma outra que passa: "esses velhos não respeitam ninguém...".

Um menino de uns dez anos examina artigos esportivos numa loja especializada. Uma menina da mesma idade gruda o olho nele e não desgruda. Ele não vê nada mais belo que o par de tênis, a caneleira, as luvas. Quando está saindo do estabelcimento com o pai, a menina arrisca: "Tchau!" E ele, sem saber que é a coisa mais natural do mundo, responde: "Tchau!". (23/02/2011)

terça-feira, 7 de setembro de 2010

("Autor convidado") A GRAVE PREOCUPAÇÃO DE JOÃO BATISTA MELO E A TERRÍVEL QUESTÃO DOS DIREITOS AUTORAIS

2 de setembro de 2010 às 01:32

Assunto: Direitos autorais

Não costumo enviar este tipo de mensagem, mas diante da minha indignação, e como atuamos na mesma área, não resisti a compartilhar com você estas reflexões sobre a proposta da lei de direitos autorais: Deixará de ser crime ou uma infração legal reproduzir obras fora de catálogo. Essa é uma das aberrações que estão na proposta da lei de direitos autorais cujo prazo de consulta pública terminou no final de agosto (31). Deixei para a última hora dar uma olhada e o que vi é preocupante.

Por exemplo, estará agindo legalmente quem reproduzir um livro, um dvd ou um cd que saiu de catálogo, e que o autor está suadamente buscando lançar por outra editora ou selo fonográfico ou outra forma de distribuição. É o fim por decreto dos direitos autorais em terras brasileiras. A proposta não está mais disponível para comentários, mas pode ser lida em http://www.facebook.com/l/b7d53vNg8FDbRvin6D24wE6uRGQ;www.cultura.gov.br/consultadireitoautoral/wp-content/uploads/2010/06/Lei9610_Consolidada_Consulta_Publica.pdf.

Tem muita coisa boa, mas tem muitos itens inquietantes (considerando-se a perspectiva de artistas e autores que acham justo terem algum retorno financeiro, por menor que seja, assim como o tem qualquer profissional de qualquer área). Ainda é um projeto de lei. O que será aprovado dependerá agora da eventual mobilização dos envolvidos, individualmente, em grupos, via organizações, etc.

Segue um dos trechos que, na minha humilde visão, é um disparatado absurdo: Art. 46. Não constitui ofensa aos direitos autorais a utilização de obras protegidas, dispensando-se, inclusive, a prévia e expressa autorização do titular e a necessidade de remuneração por parte de quem as utiliza, nos seguintes casos: XVII – a reprodução, sem finalidade comercial, de obra literária, fonográfica ou obra audiovisual, cuja última publicação não estiver mais disponível para venda, pelo responsável por sua exploração econômica, em quantidade suficiente para atender à demanda de mercado, bem como não tenha uma publicação mais recente disponível e, tampouco, não exista estoque disponível da obra ou (...) para venda.

E é importante observar que um percentual expressivo da população não vê com maus olhos esse tipo de proposta. Pois a perspectiva do "consumidor" de arte não é a mesma do produtor e do criador, inclusive porque aquele desconhece a prática do mercado de cultura no país. Um escritor não reedita seus livros que estão fora de catálogo porque não deseja fazê-lo, por descaso com o leitor, mas porque atua num mercado complexo, em que o acesso às editoras não é exatamente fácil. Além disso, é claro, ele deveria ter o direito de decidir sobre sua obra voltar ou não a circular. Porém, pela proposta da lei, essa "incapacidade" do autor para conseguir ser reeditado, ou a sua decisão pessoal de não reeditar alguma obra fora de catálogo, será "socialmente punida".

Um abraço

João Batista Melo

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

ROMANCE PARA O LEITOR ESCUTAR


Todas as histórias de amor terminam mal, quando terminam, com ou sem consenso das duas partes, mas pior é quando uma relação, que se revela obsessiva através da linguagem (não dos eventos), mostra de diversas maneiras que ambos os protagonistas não amam ninguém. Este é o desconcertante paradoxo que Carola Saavedra, em seu quarto livro e terceiro romance, Paisagem com dromedário (Companhia das Letras,168 páginas, R$ 38,00), monta numa estrutura narrativa que tanto inova quanto é eficaz.


Os 22 capítulos nada mais são que 22 fitas gravadas que Érika, artista plástica envolvida com Alex, ele também artista plástico, só que, ao contrário dela, dedicado à carreira e consagrado, deixa para o ex-parceiro após afastar-se para uma ilha remota (pelas características, deve tratar-se de Lanzarote), região vulcânica, com uma natureza única e cuja fauna inclui a presença até mesmo de dromedários. Metáfora talvez de um mundo onde não cabe qualquer identidade.


Karen, ex-aluna de Alex, ocupa um papel aparentemente passivo nesse estranho triângulo amoroso, onde emoções básicas como ciúme, disputa, agressões – esperáveis – não acontecem nem sequer são sugeridas. A explicação talvez seja a natureza da liberdade e da influência de Alex, do temperamento quase indiferente de Érika (padecendo de um câncer terminal, do qual virá a morrer, Karen deixa sucessivos recados na secretária eletrônica da amiga, mas Érika não responde).


Embora Carola seja uma escritora que, no ápice de sua trajetória, atinja uma qualidade verbal extraordinária, embalando com suas palavras harmonizadas uma atmosfera propícia para a expressão de grandes ideias acerca da busca do afeto e das verdades humanas que envolvem o precário de todos nós e as ambições naufragadas, o aparente papel secundário da trama vai mostrando que há uma história forte por trás daquela inusitada estratégia de mostrar um mundo novo a um artista plástico por meio de sons e não de traços. Antes, tal discurso, ao qual a narradora se entrega com intensidade, destaca mais ainda a história a ser contada. A cada depoimento – deixado para Alex, cujas mensagens na secretária eletrônica Érika também não responde –, a força das reflexões aumenta e, ao mesmo tempo, conflito e personagens ganham mais em humanidade.


Sem análises morais, geralmente à mão, e inevitavelmente previsíveis, que Carola supera, indo muito além, Paisagem com dromedário parte do amor mas busca, em meio a esta espécie de rito de passagem (o desejo renovado em outras formas de relação), chegar a um sentido mais convincente para a eterna separação entre viver e criar. Alex escolheu a criação. Na dúvida, buscando a distância para ver melhor, Érika talvez opte por uma terceira saída. (06/08/2010)

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Três vezes na Feira

A 55ª Feira do Livro de Porto Alegre, que abre nesta sexta-feira, 30 de outubro, e vai até o segundo domingo, dia 15 de novembro, é o espaço por excelência da visibilidade do livro. A gente curte tanto o evento que, quando vai ver, quase sem sentir, prepara um livro, dois, três – e eles convergem todos para aquele espaço de convivência que, não à toa, é chamado de "a maior feira de livros a céu aberto da América Latina". Este ano todos os meus títulos são no gênero infantojuvenil. Mas literatura de verdade (se eu tiver sorte de ter chegado a ela) não tem idade, e é para todos os públicos. Em resumo, para quem gosta de ler, preparado a entregar-se a toda natureza de surpresas. São três sessões de autógrafos com três editoras diferentes, de três estados.

31/10, sábado – 19h30min: O morto que não encontrava o céu (WS Editor); terror com humor. Especificamente, para leitores entre 9 e 12 anos, mas pais, tios e avós são bem-vindos. Praça de Autógrafos.




05/11, quinta-feira – 17h: Três pais (Saraiva – Selo Atual); três livros em um: duas adaptações de clássicos – Shakespeare e Kafka – e mais uma novela inédita do autor, Pai embrulhado para presente. Série temática Três por três: este volume toma como ponto de partida a delicada condição paterna, e de chegada, torço, a condição humana. No deck dos autógrafos – Pórtico Central do Cais do Porto, Área Infantil.




(Entrevista a Melissa Stranieri)

- Há mais de 20 anos você é crítico literário, julgando outras obras e escritores. Qual o critério que utiliza para avaliar as próprias publicações? Diria que se procuro ser justo com os outros autores que comento, comigo prefiro (claro, exagerando um pouco) até mesmo ser injusto. Exijo ao máximo de mim (e nem seria bom que exigisse menos que isso). Um bom livro deve ser criativo na trama, ter personagens interessantes e uma linguagem saborosa, com ritmo, quase musical, e ao mesmo tempo fácil de ler. Não posso, como crítico, abrir mão de encontrar isso em qualquer livro que analiso. A diferença é que quando se trata de um livro meu, bom, aí então eu levo essa exigência a um nível extremo. Procuro, em resumo, escrever o livro que eu, como leitor, sonho um dia encontrar para ler. Difícil chegar a tanto, mas não custa tentar (risos).

- Você já escreveu para o público adulto e também para o infantojuvenil. Qual a diferença entre eles? Toda e nenhuma. Nenhuma porque quando se escreve, busca-se uma doação sem a qual o artista não é artista, mas mero prestidigitador. Entregando-se inteiro ao que conta, vai junto como ser, e acontece junto de sua história, entregando aos leitores um livro que vale uma pessoa inteira e suas obsessões e encantamentos. E também, nos aspectos externos, há toda uma diferença. Isto porque o público adulto, bem, a gente nunca fica sabendo quem é. O infantojuvenil é que faz com que você, como autor, seja convidado a ir nas escolas, e é entrevistado daquela forma livre e espontânea, típica das crianças e adolescentes: perguntam de tudo. A garotada não se intimida na hora da curiosidade. Os leitores adultos já são mais dados a uma reserva compreensível, o que é raro quando se trata de jovens. Quando publico para adultos, acontece uma sessão de autógrafos, sai crítica na imprensa, com sorte ganho algum prêmio, e o resto é um enigma só. Quando publico infantojuvenil, fazem encenações sobre os meus livros, cartazes, me escrevem cartinhas manuscritas lá do interior, mandam recado até pelo Orkut – é uma festa!

- Já são cerca de 30 obras publicadas e sempre com uma história diferente. Como surgem as ideias para escrever os livros? Como surgem todas as idéias em todas as cabeças de qualquer pessoa. Imprevisivelmente (a gente deve estar sempre de “portas” e “janelas” abertas; no sentido figurado, claro), ao acaso, como quem sai para brincar no parque e nem sabe o que vai acontecer e então se depara com muitos fatos. A vida nos apronta muitas surpresas. Basta não ter medo de imaginar. No fundo, bem lá no fundo, todos nós já temos, como quando estamos sonhando, histórias prontas à espera de que a gente as descubra e as traga para fora de nossa mente e as coloque no papel. Eu sempre sento na frente no computador quase que não tendo a mínima ideia do que vou escrever. Eu disse "quase". Evidentemente, há um projeto básico, um desejo forte que me impele para a frente mas não se mostra visível enquanto não escrevo as primeiras frases. Começo então a escrever, inevitavelmente. De acordo como está o meu espírito nesse dia. E as coisas vão rolando (como uma bola que eu fosse chutando)... e a história tranca aqui, destranca ali, tranca de novo, mas, de repente, acontece! Quando termino um livro, surpreendo-me e digo para mim mesmo: “mas então era isso que eu tinha para contar?!”

- No livro “Três pais” você associa Hamlet com o livro. Como isso acontece? Desconfio que muitas das histórias já escritas no mundo de alguma forma dialogam umas com as outras. No caso do Hamlet, o príncipe é visitado pelo fantasma de seu pai que foi assassinado, pai que pede vingança ao filho, e Hamlet sofre com a presença paterna a exigir dele a difícil justiça e, ao mesmo tempo, o príncipe também sofre com a ausência desse pai, que já não pode se defender. Na outra história, “Carta ao Pai”, do Kafka, o filho acusa o pai de ter sido muito duro, exigente, e aí invertem-se os papéis: é o filho que deseja justiça. E na terceira história, criada por mim, “Pai embrulhado para presente”, eu narro a história de um pai que é desafiado a ficar longe das duas filhas para vencer na carreira, no trabalho. Mas a realização profissional, nesse caso, quase arrisca colocar o afeto pra escanteio. Bom seria ter os dois em seu ponto máximo... Mas é o caso de buscar equilibrar as prioridades, a afetiva e a material – obviamente não excludentes. Naturalmente, esse pai jamais vai parar de trabalhar, ele prefere enfrentar alguns sacrifícios porém sua escolha principal, ali, é ficar sempre perto das filhas. Entre a glória e a fortuna ou o afeto (na verdade uma questão que não podemos aceitar que seja posta assim), ele escolhe o afeto como glória e fortuna legítimas. Dele, do amor paterno, tirará a energia para construir o resto. E aí, voltando ao Hamlet da pergunta, a angústia que se apodera do príncipe que precisa denunciar o assassino de seu pai – o tio! –, é o afeto a força decisiva para que ele crie a coragem nunca antes demonstrada. Afinal, sem afeto de que adiantaria existirem pais e filhos? Que sentido e sabor teria, enfim, a vida?


12/11, quinta-feira – 17h: Tem vampiro no hospital (Editora Positivo); terror com humor. Leitores entre 9 e 12 anos, mas todos os curiosos, entre 9 e 400 anos (idade estimada de Drácula) são leitores-alvo. No deck dos autógrafos – Pórtico Central do Cais do Porto, Área Infantil.




Bem, amigos, é isso. Como as agendas andam lotadas, vocês têm três chances para comparecer ao menos a uma das sessões. E considerando que minha última sessão foi em 2006, eu já estava com saudades deste clima que só a Feira possui. Daí porque neste ano resolvi exagerar, e parti para comparecer em dose tripla. Não dá para facilitar... (27/10/2009)

sábado, 24 de outubro de 2009

ALÉM E AQUÉM DO VERSO ("Versilêncios", de Gerusa Leal)




Não é todo dia que surge um bom livro de poemas. Culpa dos poetas. Em parte, em pequena parte. Em grande parte a culpa é mesmo dos editores, que acusam o mercado dentro de cuja barriga os livreiros, famintos, bradam: “não há leitores de poesia!”. Não? Somos então uma espécie em extinção. Eu e mais uns cinco mil que certamente leem o gênero no Brasil. Parece que o problema não está só com a poesia mas com a indústria editorial, que opta pelo mais fácil como uma criança fazendo o dever de casa. Movida pela pior das obrigações – e por isso não deslancha. Culturalmente não.

Mas esta é uma discussão longa. Vender, vender mesmo (esgotar edições), claro que a poesia não fará isso. Mas pagar seus custos ao menos, dando, em contrapartida, uma valorização no catálogo das editoras, deixando-os mais nobres, pagando ao editor com a “quota prestígio” – que parece que o Departamento Editorial ignora –, isso ela tem feito sempre que um herói invista em versos: naturalmente, de qualidade.

Pois Versilêncios, de Gerusa Leal (nascida em Recife e residindo atualmente em Olinda), é desses livros dos quais as editoras não correm atrás. Azar o nosso, leitores dependentes químicos de Literatura com L maiúscula. Não fosse o prêmio Edmir Domingues de Poesia 2007, da Academia Pernambucana de Letras, que a obra merecidamente ganhou, e o apoio viabilizador da edição, através da lei do sistema de incentivo à cultura, e o livro não viria à luz. Permaneceria inédito, provavelmente, apesar de seus incontáveis méritos, ou dependeria daquelas infrutíferas iniciativas de poetas que, corajosos ou impacientes, pagam do próprio bolso uma edição destinada a não ser profissional mas, literalmente, independente (isto é: independente do mercado, onde não se insere, independente de distribuição, de comercialização e, assim, de recepção, condenada a permanecer à margem).

O primeiro a torcer o nariz diante do produto é o livreiro, que deseja ver na capa um selo importante. Diante de tal ausência, não dá a atenção devida, não o expõe, e o frequentador da livraria não tem como adivinhar que a obra existe. Obra destinada, portanto, a não existir mesmo.

Uma vez declarei num programa de tevê de grande audiência, em cadeia nacional: “pior que ficar inédito é publicar mal.” E não publicar mal, só por editoras profissionais, sólidas, e que, lamentavelmente, estão dando às costas à poesia. Mas esta, como escrevi linhas atrás, é outra discussão.

A pauta aqui é Gerusa Leal, poeta e ficcionista. E, mais especificamente, Versilêncios, que acaba de ser lançado, porém sem a necessária distribuição. De Pernambuco, de onde vem, até chegar ao RS, mais que a enorme distância, separa-o o milagre. Milagre que pôs o livro em minhas mãos por essas atalhos especiais que só os vínculos estéticos somados aos humanos propiciam.

Tenho lido pouca poesia (porque pouca poesia tem sido publicada) e relido muita, os clássicos (porque estes, adotados, são os únicos diante dos quais o editor não arrisca).

Versilêncios abre-se já a partir do título, multifacetado, com a tripla carga semântica do neologismo que a poeta criou para batizar seu filho, ufa!, não enjeitado (bendito prêmio...). “Ver silêncios” (poesia, afinal, é imagem, embora também música, e se até o silêncio fala ao poeta, este o desenha em suas metáforas-traço). “Ver” soma-se à primeira sílaba, “si”, de “silêncios”, numa junção que dá em “versi”, “verso” em italiano, e basta pensar em Dante, não exatamente no livro lembrado, mas inevitável quando se pensa em poesia e em italiano, para ver a intensa riqueza significadora do título. E ainda: “Versos” e “silêncios”, isto é, “versos silenciosos” – melhor tradução para o projeto de extremo rigor e de pleno acerto que Gerusa atinge como poeta.

Eis a tripla encruzilhada que, antes de obstáculo, é abertura para um caminho mais amplo à procura de uma leitura de fato entregue a esses cinquenta poemas singulares.

A poética de Versilêncios é construção rigorosa, com versos esculpidos, talhados, não tivesse, pela força do ritmo, uma fluência cuja harmonia atinge em cheio sua cadência nunca dura, nunca seca, mas, sim, quase sussurrada e, desta forma, buscando lírica rara: a marcar exatamente porque escolheu entremostrar-se e não o contrário, que é exibir-se com os excessos comuns de uma poesia que não passa de prosa ritmada ao extremo.

A edição, evento a ser saudado, sobretudo pelas dificuldades que sempre cercam tal fato, está à altura, com introdução e posfácio críticos, ambos de fôlego e com leituras que não causam eco, que não chovem no molhado. Um pouco pela qualidade dos ensaístas, André Cervinskis e Stéphane Chao, um pouco pela própria poeta, que não descuida de um único verso, que escreve silabando. E que, ainda que chegue ao zelo infinito de medir cada som, não se exila do discurso próprio da poesia, o do paradoxo, o da permanente refundação do mundo e da inacabável instauração do real. Um real que é sempre outro, não este, no qual escrevo.

Citar um poema? Cito um inteiro, o primeiro, no qual a poeta, sem demora, já mostra ao que veio: “não escrevo o que não sinto / amadora que sou / sinto o que não escrevo / jeito de amar a dor // escrevo o que não sinto / salvo a vida / não sinto o que não escrevo / nem percebo que vivi”. Dividido em doze seções, Versilêncios nos leva para um território onde tudo o que lemos-escutamos só grita nos instantes (muitos) em que a beleza é tanta que nos impõe uma resposta: a da emoção estética forte, manifestada em geral quando diante de um livro muito acima da média.
É o caso.
Gerusa Leal. Anotaram o nome? Procurem no blog (olhem que belo nome) Flor de Gelo, endereço: http://flor-de-gelo.blogspot.com/ e tudo que eu não disse aqui alguém terá dito por lá. (24/10/2009)

domingo, 28 de junho de 2009

UM POEMA PARA SEMPRE (e um aniversário)

Tenho cruzado muito eventualmente com Paulo Seben, saio pouco de casa, não sei dos passos do meu xará, mas sou mesmo um bicho-do-mato, não bastasse o Seben ser gremista e eu, colorado. Mas vamos ao que interessa.

Seben está de aniversário hoje, faz 49 anos, um guri! Bem, ainda não é a pauta, que bichos-do-mato não freqüentam festas de aniversários, sobretudo as de 49. Ainda se fossem as de 25, 30 anos, podia rolar alguma coisa...

Professor de literatura na UFRGS e – atenção! – poeta. Sim, o Seben, que 90% da gurizada conhece, é um professor daqueles, fodões, exigente, mas aplicado e generoso na clareza com que expõe os conteúdos do programa que herdou e que, inteligente, renova. Mas e o poeta?

Aliás, bota poeta nisso. Qualquer dúvida, busquem ler e reler seu livro Tango da Independência (Unidade Editorial da SMC-POA, 1995). Há outros, poucos, que o poeta e ensaísta Seben, também fodão, e, assim, criterioso ao máximo, publicou. Pouco (e bem). Hayde e o Homem-Tronco (fevereiro de 1988, disponível desde 2004 no site www.lojadosubsolo.com), Poemas podres (parcialmente escrito na década de 1980), O Uraguai, de Basílio da Gama (Ed. Feevale, 2001, e reescrito e reeditado agora para a Leitura XXI), Caderno Globo 33 (Instituto Estadual do Livro, 2002), A Escrava Isaura (adaptação para neoleitores, L&PM, 2003), além de ter participado de algumas antologias legitimamente antológicas e não meras coletâneas.

Bem, a melhor forma de comemorar o aniversário de um homem, se ele é um poeta, é mostrando o poeta que ele é. E há um poema de Paulo Seben que resume o que é a trajetória de quase todos nós, homens, e dos poetas incluídos, “Caminho”. Leiam esse poema, façam-me o favor. Eis toda a odisséia possível, a do precário, flagrada num instante de travessia de um ser com o qual é impossível não nos indentificar. Além do que, falando em poesia, identificações à parte, o poema, por si só, vale mais que isso. É um mundo novo, instaurado. No caso da obra-prima de Seben, sem favor algum um dos dez melhores poemas já produzidos ao extremo sul do País, um novo mundo na medida que nos restaura o mundo de sempre, perdido no cotidiano sem voz para expressá-lo. E que Seben expressa como raros.


CAMINHO


Paulo Seben



Um homem de mãos nos bolsos
cruzando a praça vazia.
Talvez em meio à garoa
ou restos de cerração.
O fato é que está sozinho
e tem nos bolsos vazios
as duas mãos impotentes.
O fato é que está vazio,
e as suas mãos tão sozinhas
cerradas nos bolsos vão
sem poder nem ir à toa.
Caminha rumo ao patíbulo.

As mãos seguram a vida
que tenta fugir dali.
Os dentes cerrados cortam
a língua que quer sair.
Os lábios cerrados calam
a voz que iria gritar.
Caminha rumo ao patíbulo
no frio da antemanhã.

Se houvesse sol, se ele abrisse
os braços pra perguntar
por que caminha sozinho,
por que um bolso é algema,
por que há neblina sempre
e praças que atravessar...

O sol não há. Não há gente
a quem fizesse a pergunta.
Caminha trôpego e chuta
pedrinhas em gol nenhum.
Caminha rumo ao patíbulo
e não deseja chegar.



do Caderno Globo 33 (IEL – Instituto Estadual do Livro, 2002)


Acho que chega. Não tenho mais nada a escrever. Só a ler. E a reler. Como vocês. O aniversariante de hoje merece. (28/06/2009).

sábado, 2 de maio de 2009

A REINVENÇÃO DA LITERATURA


Autores brasileiros contemporâneos provam a vocação
que a literatura possui para jamais ser estática,
mesmo quando busca o reconhecimento





O escritor argentino Julio Cortázar (1914-1984) declarou certa vez que quando se sentava para escrever era como se a literatura não existisse e ele tivesse de reinventá-la. Estávamos em época de ditadura militar, e a saída para o discurso possível era o realismo mágico, que pela própria natureza – sem ser, necessariamente, gigante – gerou alguns gigantes: o próprio Cortázar, García Márquez, Juan Rulfo, Carlos Fuentes etc. No Brasil de então brotava o primeiro – e melhor – Moacyr Scliar (o dos contos de Carnaval dos animais e das novelas A Guerra no Bonfim, O exército de um homem só e Os deuses de Raquel) e um clássico pouco falado atualmente, José J. Veiga (de Goiás, mas bem editado e aceito no centro do País).
Era uma reação estética saudável a uma situação política doentia. Mas e hoje? Hoje, a pressão é outra. Deixou de ser especificamente opressiva no sentido de que deixou de ser política. Mas passou a ser multiplicada opressivamente porque é de ordem econômica e gerada pelos estragos que a sociedade de consumo causa, tendo atingido, pelo visto, seu apogeu.
Tenho uma filha de nove anos que, grande leitora, no entanto não escapa impune à obrigação de consumir modismos incontáveis e caríssimos, sem os quais ela estará fatalmente marginalizada dentro do grupo escolar que frequenta. Seus únicos pares. A literatura não escapou dessa armadilha, e procura – como um pai procura na equação filha = mundo – achar uma linguagem que dialogue com a dança referencial de um real que encontre legitimidade na fantasia que escraviza, não na fantasia que liberte.

Saturado de tanto emplastro para escamotear as dores seculares do mundo (emplastros que agora nascem do enterro sistemático do que a tradição criou como ponte para atravessarmos com um mínimo de segurança o nosso próprio tempo), o escritor ou revida – com uma bem-fornida mimese – essa profusão de referenciais cuja hegemonia dura um ano e cuja eficácia e profundidade não duram mais que os primeiros parágrafos, ou a pega no contrapé através de um movimento com o qual ela não contava: o da linguagem.

No primeiro caso, o da mimese, encontramos na obra do mineiro radicado em São Paulo Luiz Ruffato a resposta renovadora. O que poderia ser anacrônico ou assopro cansativo sobre as cinzas da História de fundo social emana brasa viva a revivificar sobrevivência, violência, migração para a grande cidade do centro do País, o ruidoso e caótico movimento de descendentes de italianos saídos de uma Cataguazes de portas fechadas para uma São Paulo que os joga direto na garoa mais noturna e fria. Grupos que há 30 anos eram chamados de lumpemproletariado, de rebotalhos da classe média baixa, de classe trabalhadora em áreas onde a modernização recém chegava para roubar empregos, não para muni-los de novas e eficientes ferramentas. Famílias dizimadas, luta e luto, e impunes ficam apenas o que se engessam num território onde o passado, mesmo enferrujado, ainda dá as cartas, bocejando.

Em Ruffato, você confere tudo isso na sua série de cinco romances, Inferno provisório, que abriu com Mamma, son tanto felice (176 pág., R$ 27,00), continuou com O mundo inimigo (208 págs., R$ 27,00), depois com Vista parcial da noite (160 págs, R$ 31,00) e da qual saiu não faz muito O Livro das impossibilidades (160 páginas, R$ 31,00), todos editados pela Record. Trata-se de meio século de transposição de um mundo vocacionado para o decomposto. O poder fraudulento, uma comunidade à deriva agarrada pelos intensos medos que alimenta, a carroça desgovernada da crônica dos fatos oficiais, carroça sobrecarregada de gente sem rumo – sem rumo herdado e sem rumo construído.

O mimetismo em Ruffato é total, sem os arranjos que se faz no mundo aí fora em busca da ilusão de que ele pressupostamente funcione. Não há truque no ficcionista. Tudo é exuberância na voragem de um caleidoscópio do precário. Narração e diálogos se misturam. As mais marcantes aventuras são as desventuras que ninguém contaria, por horror ou vergonha. As figuras que Ruffato faz reencarnar, reencarnam mesmo, e tem o peso de fantasmas de carne e osso. Inferno provisório é um ciclo romanesco, e só essa arquitetura ambiciosa (paradoxalmente construída com resíduos: de memória, de descrições no limite dos gêneros, num alucinado ritmo elíptico) já garante para o escritor a singularidade própria dos que, mesmo olhando para trás, reinventam a literatura.


A literatura como personagem

Não é de hoje que o artista ou a obra são convocados a dar as caras, a emprestar suas vozes à personagem principal. A atuar. A copista de Kafka, de Wilson Bueno (Planeta, 200 págs., R$ 35,00) faz de Felice Bauer, noiva de Franz Kafka (1883-1924), a copista que recebe do grande escritor textos para transcrever. Textos que nunca chegarão às mãos de Max Brod, o amigo que o traiu quanto à vontade do escritor, no leito de morte, de que sua obra fosse queimada. Bueno cria uma “recriação” de ambiente e de papéis suspeitos. A fidelidade de Felice, paradoxalmente, destrói obras de que até então nunca ouvíramos falar, como um bestiário (tipicamente kafkiano: o inseto em Gregor Samsa, o tatu em “A construção”, o abutre afogado no sangue da própria vítima...), enquanto nos revela, no livro que Bueno organizada, intercalando trechos cronologicamente ascendentes dos diários da copista com narrativas que incorporam na trama, no estilo, nas referências, na ótica diagonal sobre o mundo opressivo, o universo ficcional de Kafka, obras que estariam para sempre perdidas, não houvesse sido escrito este livro. Todos os textos, menos as cartas, ela queimou. Não o traiu. Mas traiu-se. Irônica comparação a Brod, que traiu descaradamente, e legou o bem que nos legou. Somos o abutre?

Alexandre Plosk, em As confissões do homem invisível (Bertrand Brasil, 392 págs., R$ 49,00), convoca os modelos de O Homem Invisível, de H. G. Wells, O Horla, de Guy de Maupassant (L&PM Editores, esgotado), O Homem de Areia, de E T. A Hoffmann (esgotado), e traz para a contemporaneidade carioca um modelo aterrador e uma brecha metafísica permanentemente aberta: a da diluição do eu.

É com tal ambição de olhar que a literatura permite e, mais, pressiona os escritores a que achem novos modelos, atalhos, arquiteturas. Não os deixará em paz nunca, como não deixou a um outro argentino, Jorge Luis Borges (1899-1986), que passou a vida toda anunciando-se mais como leitor que como escritor, e que inventou (enquanto personagens e temas) obras, autores, estilos, literaturas, um novo cânone a partir do qual – mesmo irreal e mágico – podemos guiarmo-nos na direção garantida de uma literatura comprovadamente nova. (02/05/2009)