<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-7659575339957537112</id><updated>2012-01-24T03:16:11.257-08:00</updated><title type='text'>BENTANCUR</title><subtitle type='html'></subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://bentancur.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bentancur.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><link rel='next' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default?start-index=101&amp;max-results=100'/><author><name>BENTANCUR</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17397945706691195345</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp2.blogger.com/_296zOjIvu2c/R_F9H73wKyI/AAAAAAAAAAs/Mx_DoNV9suo/S220/Paulo5.jpg'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>106</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7659575339957537112.post-6994798863586725900</id><published>2012-01-24T03:01:00.000-08:00</published><updated>2012-01-24T03:16:11.269-08:00</updated><title type='text'>VOLTAR A ESCREVER</title><content type='html'>Um dia, uma hora, após um evento quase imperceptível, ou uma soma deles, e o tão alentador ritmo da criação constante escoa pelo ralo. E ficamos em silêncio, mudos e, se mudos (escritores que somos), sem interlocução, sem gente que também nos fale. O leitor não perdoando nosso silêncio. Então é preciso voltar a escrever para voltar a ler o que recebemos como resposta, o que acontece do outro lado da tela, da linha, da vida que em nós ameaça se encolher e se expande se escrevemos.&lt;br /&gt;Andei parando. As demandas a se somarem e eu com olhos e ouvidos para outras vozes que não a minha. E calei-me, sem calar no entanto o calor do que eu próprio me dizia e das coisas que lia, diariamente, e que reverberavam em mim. Torturante silêncio. Uma hora rebentaria, explodiria, libertar-se-ia e iria em direção a quem faz o favor de me ler. E a roda-viva retomando então seus movimentos, a Terra voltando a seu mecanismo na relação com os demais astros e seu satélite e sua estrela de quinta, sim, mas que grandeza! Agora me sinto restituído a mim mesmo, dono outra vez das minhas ações, estas palavras que me vestem e com as quais vou tateando a realidade para que ela me reconheça e, desta forma, me aceite, me receba inteiro. E aqui estou. Audível, legível. Homem sem cujas palavras ele será apenas um nome à espera de uma lápide. E sem nenhum leitor, nenhuma testemunha, morto antes da hora. (24/01/2012)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7659575339957537112-6994798863586725900?l=bentancur.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bentancur.blogspot.com/feeds/6994798863586725900/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7659575339957537112&amp;postID=6994798863586725900' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/6994798863586725900'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/6994798863586725900'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bentancur.blogspot.com/2012/01/voltar-escrever.html' title='VOLTAR A ESCREVER'/><author><name>BENTANCUR</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17397945706691195345</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp2.blogger.com/_296zOjIvu2c/R_F9H73wKyI/AAAAAAAAAAs/Mx_DoNV9suo/S220/Paulo5.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7659575339957537112.post-7015492228765817153</id><published>2011-12-31T05:32:00.000-08:00</published><updated>2011-12-31T05:34:17.278-08:00</updated><title type='text'>Uma lágrima para Daniel Piza</title><content type='html'>2011 acabou mesmo! O Daniel Piza morreu, gente... O melhor jornalista cultural em atividade até então. E autor de livros de ficção, ensaios (sobretudo ensaios e reportagens, além da excepcional biografia de Machado), sem contar a sua página-coluna dominical n'O ESTADÃO, leitura semanal inadiável. Ele pensava todas as áreas, herdeiro legítimo de Paulo Francis, sem criar um personagem para si, coisa na qual o Francis investiu demais. O Brasil fica menos atento, menos sensível. Ou mais: a ausência de Piza nos paralisa antes de prosseguirmos a caminhada e adentrarmos 2012 decididos a continuar a enorme tarefa, desafiadora e fascinante, que ele realizava como ninguém. Agora, é tudo conosco. Obrigado, Daniel, pelas dicas, pela lição, pela energia, pela cultura imensa sem nenhuma afetação. A demonstrar que para enfrentarmos a batalha das ideias não podemos entrar nela apenas municiados por um canhestro canivete e uma só literatura. Piza conhecia, a fundo, a literatura universal em sua essência, artes plásticas, música, história, política, futebol. Não era simplesmente onívoro. Estava mais do que bem preparado. "Shopenhauer aos 26", dele disse Paulo Francis assim que o conheceu, quando Piza tinha essa idade. Morreu vítima de um AVC aos... 41 anos! Eu o lia desde que surgiu no começo dos anos 1990. Traduziu alguns livros importantes, como uma seleção de Bernard Shaw, e A ARTE DA FICÇÃO, de Henry James. E um livro infantojuvenil que merecia ser adotado em tudo que é escola, AS GAROTAS DE NOVA YORK, trazendo à cena LES DEMOISELLES D'AVIGNON, a tela de Picasso, que um dos protagonistas admira e traduz a arte do gênio para o leitor - no Brasil - mais que necessitado de temas assim, raramente enfrentados, ainda mais no gênero. O tamanho desse necrológico é o mesmo da figura de Daniel Piza: grande. Achar interlocução assim é mais que raro, um evento. E a perdemos. Tomara o jornalismo faça escola a partir de sua obra. (31/12/2011)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7659575339957537112-7015492228765817153?l=bentancur.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bentancur.blogspot.com/feeds/7015492228765817153/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7659575339957537112&amp;postID=7015492228765817153' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/7015492228765817153'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/7015492228765817153'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bentancur.blogspot.com/2011/12/uma-lagrima-para-daniel-piza.html' title='Uma lágrima para Daniel Piza'/><author><name>BENTANCUR</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17397945706691195345</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp2.blogger.com/_296zOjIvu2c/R_F9H73wKyI/AAAAAAAAAAs/Mx_DoNV9suo/S220/Paulo5.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7659575339957537112.post-5221824284316258738</id><published>2011-03-02T17:42:00.000-08:00</published><updated>2011-03-02T17:43:21.393-08:00</updated><title type='text'>FILHO DE QUEM</title><content type='html'>Conduziu-me pela mão&lt;br /&gt;o som de membro tão hábil.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Levou-me na direção,&lt;br /&gt;as minha pernas cantando&lt;br /&gt;pedras, tropeços, recantos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sentou-me no colo do chão,&lt;br /&gt;desenhou-me a cor da grama,&lt;br /&gt;coloriu-me a terra densa&lt;br /&gt;e suas raízes músculos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ergueu-me o rosto pro céu,&lt;br /&gt;a cegar o sol e as nuvens.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Baixou-me o olhar até&lt;br /&gt;o leito onde escorriam&lt;br /&gt;as palavras a criar&lt;br /&gt;o menino já crescido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minha mãe com seu vestido,&lt;br /&gt;puído, escondendo os joelhos;&lt;br /&gt;meu pai tropeçando vinho,&lt;br /&gt;gargalhando com os vizinhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu já era cuidado&lt;br /&gt;ao ponto de cuidadoso&lt;br /&gt;com o que dizia a todos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os livros ali tão perto.&lt;br /&gt;Os livros me sussurrando.&lt;br /&gt;Os livros: conselho, relho,&lt;br /&gt;Os livros, sérios, brincando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os livros, pais a me dar&lt;br /&gt;um rumo, martelo, murros&lt;br /&gt;necessários no recreio&lt;br /&gt;quando colegas cravavam&lt;br /&gt;receio em quem pensavam&lt;br /&gt;ser filho de pais ausentes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Literatura, a bênção,&lt;br /&gt;senhora, minha mãe de sempre. (02/03/2011)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7659575339957537112-5221824284316258738?l=bentancur.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bentancur.blogspot.com/feeds/5221824284316258738/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7659575339957537112&amp;postID=5221824284316258738' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/5221824284316258738'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/5221824284316258738'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bentancur.blogspot.com/2011/03/filho-de-quem.html' title='FILHO DE QUEM'/><author><name>BENTANCUR</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17397945706691195345</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp2.blogger.com/_296zOjIvu2c/R_F9H73wKyI/AAAAAAAAAAs/Mx_DoNV9suo/S220/Paulo5.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7659575339957537112.post-2735875112427188924</id><published>2011-02-27T04:25:00.000-08:00</published><updated>2011-02-27T04:29:46.635-08:00</updated><title type='text'>GRATIDÃO AO ARTISTA MORTO</title><content type='html'>Querido Scliar,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;eu poderia escrever para a tua família, tua esposa, teu filho, contando-lhes do meu imenso carinho por ti, da minha admiração incondicional, como artista e (o que é mais difícil) como o ser humano que foste. Mas preciso te dizer alguma coisa. Se não alcançares essas palavras, estarei, como consolo (embora nesta hora inconsolável) dizendo-as a mim mesmo. Tive as duas convivências contigo. Foste o escritor que a partir dos meus 17 (portanto, há 36 anos) passou a acompanhar a minha carreira, me estimulando sempre, me sugerindo, me aconselhando, me alertando, arregaçando as mangas (que energia, exército de um homem só!), ao ponto de escreveres dois generosíssimos prefácios em dois livros meus, ao ponto de eu ter a alegria de ter editado três livros teus, sem falar nas vezes em que nos cruzamos para dar palestras juntos, como em Santo André, SP, sobre o centenário de Erico Verissimo, em 2005, e tu te mostravas mais preocupado com a minha ansiedade do que com a palestra em si, tão generoso, meu amigo, meu irmão, quase um pai (dá licença, Beto!). Estamos órfãos, eu e a literatura. (27/02/2011)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7659575339957537112-2735875112427188924?l=bentancur.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bentancur.blogspot.com/feeds/2735875112427188924/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7659575339957537112&amp;postID=2735875112427188924' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/2735875112427188924'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/2735875112427188924'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bentancur.blogspot.com/2011/02/gratidao-ao-artista-morto.html' title='GRATIDÃO AO ARTISTA MORTO'/><author><name>BENTANCUR</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17397945706691195345</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp2.blogger.com/_296zOjIvu2c/R_F9H73wKyI/AAAAAAAAAAs/Mx_DoNV9suo/S220/Paulo5.jpg'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7659575339957537112.post-4440536491806191965</id><published>2011-02-23T16:01:00.000-08:00</published><updated>2011-02-24T05:55:47.331-08:00</updated><title type='text'>TERRÍVEIS TARADOS E A REAÇÃO COMUM DAS MULHERES</title><content type='html'>Um homem, 35 anos, passa por uma mulher bonita, lá pelos seus 28, 30. Encanta-se. Controla-se até onde pode. E não vai além de cantarolar, emparelhando o passo quase ao lado dela, num trecho da calçada em que estão apenas ambos, e mais nenhuma testemunha para envergonhá-lo: "Você é linda, / linda demais. / Você é linda sim. / Esta canção / é só pra dizer / e diz..." Nem a observa, tenso, talvez. Embora com o encanto inquebrável. Até que... A mulher apressa o passo, como se corresse de um assassino e, cinco metros adiante, olha para trás, encara-o, pura fúria, encolhe os dedos e estica o indicador, dando o troco socialmente merecido: "vai tomar no teu cu!"&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outro homem, mais jovem, rapaz ainda, passa por uma adolescente de uns 16, 17 anos, e mais murmura que exclama, olhando sempre em frente: "Meeeeeeuuuuu Deuuuuussssss!" A jovem vira-se, como se abalroada por um búfalo, e vocifera: "Não te enxerga, ô meu?!"&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um homem de meia-idade, fazendo sua habitual caminhada, para próximo a uma dama distinta, idade similar, colar de pérolas e palavras secretas que ele supõe jamais um dia escutar. Comenta com a parceira na espera do demorado semáforo: "este cruzamento é chato mesmo..." Ela não responde, como se se fosse fazê-lo acabasse de assinar a própria sentença de morte. Ele ainda acrescenta, assim que o sinal abre e ela dispara: "Boa taaaaarde!". Ela segue quase correndo, tropeça, vira-se na direção dele e o olhar de puro desgosto acompanha a boca vomitando um "filho da puta, não respeita ninguém? Não se olha no espelho?" Ele, chocado, tem vontade de perguntar-lhe se ela tem alguma intimidade com a língua portuguesa. Mas sabe que a palavra "intimidade" poderia não pegar bem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um senhor septuagenário observa com indisfarçável alegria os movimentos de uma senhora sexagenária, vestido florido, coque no cabelo cinza mas tão docemente moderno. Ela dá o flagrante no olhar e sacode a cabeça, comentando com uma outra que passa: "esses velhos não respeitam ninguém...".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um menino de uns dez anos examina artigos esportivos numa loja especializada. Uma menina da mesma idade gruda o olho nele e não desgruda. Ele não vê nada mais belo que o par de tênis, a caneleira, as luvas. Quando está saindo do estabelcimento com o pai, a menina arrisca: "Tchau!" E ele, sem saber que é a coisa mais natural do mundo, responde: "Tchau!". (23/02/2011)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7659575339957537112-4440536491806191965?l=bentancur.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bentancur.blogspot.com/feeds/4440536491806191965/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7659575339957537112&amp;postID=4440536491806191965' title='10 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/4440536491806191965'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/4440536491806191965'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bentancur.blogspot.com/2011/02/terriveis-tarados-e-reacao-comum-das.html' title='TERRÍVEIS TARADOS E A REAÇÃO COMUM DAS MULHERES'/><author><name>BENTANCUR</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17397945706691195345</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp2.blogger.com/_296zOjIvu2c/R_F9H73wKyI/AAAAAAAAAAs/Mx_DoNV9suo/S220/Paulo5.jpg'/></author><thr:total>10</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7659575339957537112.post-2749239878083562789</id><published>2010-09-07T19:40:00.000-07:00</published><updated>2010-09-07T19:47:41.221-07:00</updated><title type='text'>("Autor convidado") A GRAVE PREOCUPAÇÃO DE JOÃO BATISTA MELO E A TERRÍVEL QUESTÃO DOS DIREITOS AUTORAIS</title><content type='html'>2 de setembro de 2010 às 01:32&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assunto: Direitos autorais&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não costumo enviar este tipo de mensagem, mas diante da minha indignação, e como atuamos na mesma área, não resisti a compartilhar com você estas reflexões sobre a proposta da lei de direitos autorais: Deixará de ser crime ou uma infração legal reproduzir obras fora de catálogo. Essa é uma das aberrações que estão na proposta da lei de direitos autorais cujo prazo de consulta pública terminou no final de agosto (31). Deixei para a última hora dar uma olhada e o que vi é preocupante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por exemplo, estará agindo legalmente quem reproduzir um livro, um dvd ou um cd que saiu de catálogo, e que o autor está suadamente buscando lançar por outra editora ou selo fonográfico ou outra forma de distribuição. É o fim por decreto dos direitos autorais em terras brasileiras. A proposta não está mais disponível para comentários, mas pode ser lida em &lt;a href="http://www.facebook.com/l/b7d53vNg8FDbRvin6D24wE6uRGQ;www.cultura.gov.br/consultadireitoautoral/wp-content/uploads/2010/06/Lei9610_Consolidada_Consulta_Publica.pdf"&gt;http://www.facebook.com/l/b7d53vNg8FDbRvin6D24wE6uRGQ;www.cultura.gov.br/consultadireitoautoral/wp-content/uploads/2010/06/Lei9610_Consolidada_Consulta_Publica.pdf&lt;/a&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tem muita coisa boa, mas tem muitos itens inquietantes (considerando-se a perspectiva de artistas e autores que acham justo terem algum retorno financeiro, por menor que seja, assim como o tem qualquer profissional de qualquer área). Ainda é um projeto de lei. O que será aprovado dependerá agora da eventual mobilização dos envolvidos, individualmente, em grupos, via organizações, etc.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Segue um dos trechos que, na minha humilde visão, é um disparatado absurdo: Art. 46. Não constitui ofensa aos direitos autorais a utilização de obras protegidas, dispensando-se, inclusive, a prévia e expressa autorização do titular e a necessidade de remuneração por parte de quem as utiliza, nos seguintes casos: XVII – a reprodução, sem finalidade comercial, de obra literária, fonográfica ou obra audiovisual, cuja última publicação não estiver mais disponível para venda, pelo responsável por sua exploração econômica, em quantidade suficiente para atender à demanda de mercado, bem como não tenha uma publicação mais recente disponível e, tampouco, não exista estoque disponível da obra ou (...) para venda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E é importante observar que um percentual expressivo da população não vê com maus olhos esse tipo de proposta. Pois a perspectiva do "consumidor" de arte não é a mesma do produtor e do criador, inclusive porque aquele desconhece a prática do mercado de cultura no país. Um escritor não reedita seus livros que estão fora de catálogo porque não deseja fazê-lo, por descaso com o leitor, mas porque atua num mercado complexo, em que o acesso às editoras não é exatamente fácil. Além disso, é claro, ele deveria ter o direito de decidir sobre sua obra voltar ou não a circular. Porém, pela proposta da lei, essa "incapacidade" do autor para conseguir ser reeditado, ou a sua decisão pessoal de não reeditar alguma obra fora de catálogo, será "socialmente punida".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um abraço&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;João Batista Melo&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7659575339957537112-2749239878083562789?l=bentancur.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bentancur.blogspot.com/feeds/2749239878083562789/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7659575339957537112&amp;postID=2749239878083562789' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/2749239878083562789'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/2749239878083562789'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bentancur.blogspot.com/2010/09/autor-convidado-grave-preocupacao-de.html' title='(&quot;Autor convidado&quot;) A GRAVE PREOCUPAÇÃO DE JOÃO BATISTA MELO E A TERRÍVEL QUESTÃO DOS DIREITOS AUTORAIS'/><author><name>BENTANCUR</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17397945706691195345</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp2.blogger.com/_296zOjIvu2c/R_F9H73wKyI/AAAAAAAAAAs/Mx_DoNV9suo/S220/Paulo5.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7659575339957537112.post-2409389458114365478</id><published>2010-08-06T15:16:00.000-07:00</published><updated>2010-08-06T15:34:54.592-07:00</updated><title type='text'>ROMANCE PARA O LEITOR ESCUTAR</title><content type='html'>&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_296zOjIvu2c/TFyN3D3S4uI/AAAAAAAAACk/syKXszEsiHk/s1600/PAISAGEM+COM+DROMED%C3%81RIO.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5502428821809455842" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; WIDTH: 261px; CURSOR: hand; HEIGHT: 400px" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_296zOjIvu2c/TFyN3D3S4uI/AAAAAAAAACk/syKXszEsiHk/s400/PAISAGEM+COM+DROMED%C3%81RIO.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Todas as histórias de amor terminam mal, quando terminam, com ou sem consenso das duas partes, mas pior é quando uma relação, que se revela obsessiva através da linguagem (não dos eventos), mostra de diversas maneiras que ambos os protagonistas não amam ninguém. Este é o desconcertante paradoxo que Carola Saavedra, em seu quarto livro e terceiro romance, &lt;em&gt;Paisagem com dromedário &lt;/em&gt;(Companhia das Letras,168 páginas, R$ 38,00), monta numa estrutura narrativa que tanto inova quanto é eficaz.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Os 22 capítulos nada mais são que 22 fitas gravadas que Érika, artista plástica envolvida com Alex, ele também artista plástico, só que, ao contrário dela, dedicado à carreira e consagrado, deixa para o ex-parceiro após afastar-se para uma ilha remota (pelas características, deve tratar-se de Lanzarote), região vulcânica, com uma natureza única e cuja fauna inclui a presença até mesmo de dromedários. Metáfora talvez de um mundo onde não cabe qualquer identidade. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Karen, ex-aluna de Alex, ocupa um papel aparentemente passivo nesse estranho triângulo amoroso, onde emoções básicas como ciúme, disputa, agressões – esperáveis – não acontecem nem sequer são sugeridas. A explicação talvez seja a natureza da liberdade e da influência de Alex, do temperamento quase indiferente de Érika (padecendo de um câncer terminal, do qual virá a morrer, Karen deixa sucessivos recados na secretária eletrônica da amiga, mas Érika não responde).&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Embora Carola seja uma escritora que, no ápice de sua trajetória, atinja uma qualidade verbal extraordinária, embalando com suas palavras harmonizadas uma atmosfera propícia para a expressão de grandes ideias acerca da busca do afeto e das verdades humanas que envolvem o precário de todos nós e as ambições naufragadas, o aparente papel secundário da trama vai mostrando que há uma história forte por trás daquela inusitada estratégia de mostrar um mundo novo a um artista plástico por meio de sons e não de traços. Antes, tal discurso, ao qual a narradora se entrega com intensidade, destaca mais ainda a história a ser contada. A cada depoimento – deixado para Alex, cujas mensagens na secretária eletrônica Érika também não responde –, a força das reflexões aumenta e, ao mesmo tempo, conflito e personagens ganham mais em humanidade.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Sem análises morais, geralmente à mão, e inevitavelmente previsíveis, que Carola supera, indo muito além, &lt;em&gt;Paisagem com dromedário&lt;/em&gt; parte do amor mas busca, em meio a esta espécie de rito de passagem (o desejo renovado em outras formas de relação), chegar a um sentido mais convincente para a eterna separação entre viver e criar. Alex escolheu a criação. Na dúvida, buscando a distância para ver melhor, Érika talvez opte por uma terceira saída. (06/08/2010)&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7659575339957537112-2409389458114365478?l=bentancur.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bentancur.blogspot.com/feeds/2409389458114365478/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7659575339957537112&amp;postID=2409389458114365478' title='8 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/2409389458114365478'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/2409389458114365478'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bentancur.blogspot.com/2010/08/romance-para-o-leitor-escutar.html' title='ROMANCE PARA O LEITOR ESCUTAR'/><author><name>BENTANCUR</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17397945706691195345</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp2.blogger.com/_296zOjIvu2c/R_F9H73wKyI/AAAAAAAAAAs/Mx_DoNV9suo/S220/Paulo5.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_296zOjIvu2c/TFyN3D3S4uI/AAAAAAAAACk/syKXszEsiHk/s72-c/PAISAGEM+COM+DROMED%C3%81RIO.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>8</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7659575339957537112.post-7909776565924848185</id><published>2009-10-27T17:17:00.000-07:00</published><updated>2009-10-30T11:58:36.774-07:00</updated><title type='text'>Três vezes na Feira</title><content type='html'>&lt;div align="left"&gt;&lt;div align="left"&gt;A 55ª Feira do Livro de Porto Alegre, que abre nesta sexta-feira, 30 de outubro, e vai até o segundo domingo, dia 15 de novembro, é o espaço por excelência da visibilidade do livro. A gente curte tanto o evento que, quando vai ver, quase sem sentir, prepara um livro, dois, três – e eles convergem todos para aquele espaço de convivência que, não à toa, é chamado de "a maior feira de livros a céu aberto da América Latina". Este ano todos os meus títulos são no gênero infantojuvenil. Mas literatura de verdade (se eu tiver sorte de ter chegado a ela) não tem idade, e é para todos os públicos. Em resumo, para quem gosta de ler, preparado a entregar-se a toda natureza de surpresas. São três sessões de autógrafos com três editoras diferentes, de três estados.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;31/10, sábado – 19h30min&lt;/strong&gt;: &lt;em&gt;O morto que não encontrava o céu&lt;/em&gt; (WS Editor); terror com humor. Especificamente, para leitores entre 9 e 12 anos, mas pais, tios e avós são bem-vindos. Praça de Autógrafos.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5397439572208418642" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 274px; CURSOR: hand; HEIGHT: 400px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_296zOjIvu2c/SueOsa4ef1I/AAAAAAAAACM/_w_Xt4FTOvw/s400/O+MORTO+QUE+N%C3%83O+ENCONTRAVA+O+C%C3%89U.jpg" border="0" /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;05/11, quinta-feira – 17h&lt;/strong&gt;: &lt;em&gt;Três pais&lt;/em&gt; (Saraiva – Selo Atual); três livros em um: duas adaptações de clássicos – Shakespeare e Kafka – e mais uma novela inédita do autor, &lt;em&gt;Pai embrulhado para presente&lt;/em&gt;. Série temática &lt;em&gt;Três por três&lt;/em&gt;: este volume toma como ponto de partida a delicada condição paterna, e de chegada, torço, a condição humana. No deck dos autógrafos – Pórtico Central do Cais do Porto, Área Infantil.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5397441257186629090" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 273px; CURSOR: hand; HEIGHT: 400px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_296zOjIvu2c/SueQOf6lleI/AAAAAAAAACU/F928l5PoFf4/s400/TR%C3%8AS+PAIS.jpg" border="0" /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;br /&gt;(&lt;em&gt;Entrevista a Melissa Stranieri&lt;/em&gt;)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;- Há mais de 20 anos você é crítico literário, julgando outras obras e escritores. Qual o critério que utiliza para avaliar as próprias publicações?&lt;/em&gt; Diria que se procuro ser justo com os outros autores que comento, comigo prefiro (claro, exagerando um pouco) até mesmo ser injusto. Exijo ao máximo de mim (e nem seria bom que exigisse menos que isso). Um bom livro deve ser criativo na trama, ter personagens interessantes e uma linguagem saborosa, com ritmo, quase musical, e ao mesmo tempo fácil de ler. Não posso, como crítico, abrir mão de encontrar isso em qualquer livro que analiso. A diferença é que quando se trata de um livro meu, bom, aí então eu levo essa exigência a um nível extremo. Procuro, em resumo, escrever o livro que eu, como leitor, sonho um dia encontrar para ler. Difícil chegar a tanto, mas não custa tentar (&lt;em&gt;risos&lt;/em&gt;).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;- Você já escreveu para o público adulto e também para o infantojuvenil. Qual a diferença entre eles?&lt;/em&gt; Toda e nenhuma. Nenhuma porque quando se escreve, busca-se uma doação sem a qual o artista não é artista, mas mero prestidigitador. Entregando-se inteiro ao que conta, vai junto como ser, e acontece junto de sua história, entregando aos leitores um livro que vale uma pessoa inteira e suas obsessões e encantamentos. E também, nos aspectos externos, há toda uma diferença. Isto porque o público adulto, bem, a gente nunca fica sabendo quem é. O infantojuvenil é que faz com que você, como autor, seja convidado a ir nas escolas, e é entrevistado daquela forma livre e espontânea, típica das crianças e adolescentes: perguntam de tudo. A garotada não se intimida na hora da curiosidade. Os leitores adultos já são mais dados a uma reserva compreensível, o que é raro quando se trata de jovens. Quando publico para adultos, acontece uma sessão de autógrafos, sai crítica na imprensa, com sorte ganho algum prêmio, e o resto é um enigma só. Quando publico infantojuvenil, fazem encenações sobre os meus livros, cartazes, me escrevem cartinhas manuscritas lá do interior, mandam recado até pelo &lt;em&gt;Orkut&lt;/em&gt; – é uma festa!&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;- Já são cerca de 30 obras publicadas e sempre com uma história diferente. Como surgem as ideias para escrever os livros?&lt;/em&gt; Como surgem todas as idéias em todas as cabeças de qualquer pessoa. Imprevisivelmente (a gente deve estar sempre de “portas” e “janelas” abertas; no sentido figurado, claro), ao acaso, como quem sai para brincar no parque e nem sabe o que vai acontecer e então se depara com muitos fatos. A vida nos apronta muitas surpresas. Basta não ter medo de imaginar. No fundo, bem lá no fundo, todos nós já temos, como quando estamos sonhando, histórias prontas à espera de que a gente as descubra e as traga para fora de nossa mente e as coloque no papel. Eu sempre sento na frente no computador quase que não tendo a mínima ideia do que vou escrever. Eu disse "quase". Evidentemente, há um projeto básico, um desejo forte que me impele para a frente mas não se mostra visível enquanto não escrevo as primeiras frases. Começo então a escrever, inevitavelmente. De acordo como está o meu espírito nesse dia. E as coisas vão rolando (como uma bola que eu fosse chutando)... e a história tranca aqui, destranca ali, tranca de novo, mas, de repente, acontece! Quando termino um livro, surpreendo-me e digo para mim mesmo: “mas então era isso que eu tinha para contar?!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;- No livro “Três pais” você associa Hamlet com o livro. Como isso acontece?&lt;/em&gt; Desconfio que muitas das histórias já escritas no mundo de alguma forma dialogam umas com as outras. No caso do Hamlet, o príncipe é visitado pelo fantasma de seu pai que foi assassinado, pai que pede vingança ao filho, e Hamlet sofre com a presença paterna a exigir dele a difícil justiça e, ao mesmo tempo, o príncipe também sofre com a ausência desse pai, que já não pode se defender. Na outra história, “Carta ao Pai”, do Kafka, o filho acusa o pai de ter sido muito duro, exigente, e aí invertem-se os papéis: é o filho que deseja justiça. E na terceira história, criada por mim, “Pai embrulhado para presente”, eu narro a história de um pai que é desafiado a ficar longe das duas filhas para vencer na carreira, no trabalho. Mas a realização profissional, nesse caso, quase arrisca colocar o afeto pra escanteio. Bom seria ter os dois em seu ponto máximo... Mas é o caso de buscar equilibrar as prioridades, a afetiva e a material – obviamente não excludentes. Naturalmente, esse pai jamais vai parar de trabalhar, ele prefere enfrentar alguns sacrifícios porém sua escolha principal, ali, é ficar sempre perto das filhas. Entre a glória e a fortuna ou o afeto (na verdade uma questão que não podemos aceitar que seja posta assim), ele escolhe o afeto como glória e fortuna legítimas. Dele, do amor paterno, tirará a energia para construir o resto. E aí, voltando ao Hamlet da pergunta, a angústia que se apodera do príncipe que precisa denunciar o assassino de seu pai – o tio! –, é o afeto a força decisiva para que ele crie a coragem nunca antes demonstrada. Afinal, sem afeto de que adiantaria existirem pais e filhos? Que sentido e sabor teria, enfim, a vida?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;12/11, quinta-feira – 17h&lt;/strong&gt;: &lt;em&gt;Tem vampiro no hospital&lt;/em&gt; (Editora Positivo); terror com humor. Leitores entre 9 e 12 anos, mas todos os curiosos, entre 9 e 400 anos (idade estimada de Drácula) são leitores-alvo. No deck dos autógrafos – Pórtico Central do Cais do Porto, Área Infantil.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5397442364563650370" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 275px; CURSOR: hand; HEIGHT: 400px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_296zOjIvu2c/SueRO9N190I/AAAAAAAAACc/ngUdAxAYfNU/s400/TEM+VAMPIRO+NO+HOSPITAL.jpg" border="0" /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bem, amigos, é isso. Como as agendas andam lotadas, vocês têm três chances para comparecer ao menos a uma das sessões. E considerando que minha última sessão foi em 2006, eu já estava com saudades deste clima que só a Feira possui. Daí porque neste ano resolvi exagerar, e parti para comparecer em dose tripla. Não dá para facilitar... (27/10/2009)&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7659575339957537112-7909776565924848185?l=bentancur.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bentancur.blogspot.com/feeds/7909776565924848185/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7659575339957537112&amp;postID=7909776565924848185' title='7 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/7909776565924848185'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/7909776565924848185'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bentancur.blogspot.com/2009/10/tres-vezes-na-feira.html' title='Três vezes na Feira'/><author><name>BENTANCUR</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17397945706691195345</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp2.blogger.com/_296zOjIvu2c/R_F9H73wKyI/AAAAAAAAAAs/Mx_DoNV9suo/S220/Paulo5.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_296zOjIvu2c/SueOsa4ef1I/AAAAAAAAACM/_w_Xt4FTOvw/s72-c/O+MORTO+QUE+N%C3%83O+ENCONTRAVA+O+C%C3%89U.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>7</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7659575339957537112.post-18063619165992181</id><published>2009-10-24T13:53:00.000-07:00</published><updated>2009-10-24T14:14:06.033-07:00</updated><title type='text'>ALÉM E AQUÉM DO VERSO ("Versilêncios", de Gerusa Leal)</title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_296zOjIvu2c/SuNp5phMx9I/AAAAAAAAAB8/-9WmvMhXnrI/s1600-h/Capa_Versilencios.JPG"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5396273217638549458" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 276px; CURSOR: hand; HEIGHT: 400px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_296zOjIvu2c/SuNp5phMx9I/AAAAAAAAAB8/-9WmvMhXnrI/s400/Capa_Versilencios.JPG" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não é todo dia que surge um bom livro de poemas. Culpa dos poetas. Em parte, em pequena parte. Em grande parte a culpa é mesmo dos editores, que acusam o mercado dentro de cuja barriga os livreiros, famintos, bradam: “não há leitores de poesia!”. Não? Somos então uma espécie em extinção. Eu e mais uns cinco mil que certamente leem o gênero no Brasil. Parece que o problema não está só com a poesia mas com a indústria editorial, que opta pelo mais fácil como uma criança fazendo o dever de casa. Movida pela pior das obrigações – e por isso não deslancha. Culturalmente não. &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;Mas esta é uma discussão longa. Vender, vender mesmo (esgotar edições), claro que a poesia não fará isso. Mas pagar seus custos ao menos, dando, em contrapartida, uma valorização no catálogo das editoras, deixando-os mais nobres, pagando ao editor com a “quota prestígio” – que parece que o Departamento Editorial ignora –, isso ela tem feito sempre que um herói invista em versos: naturalmente, de qualidade. &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;Pois &lt;em&gt;Versilêncios&lt;/em&gt;, de Gerusa Leal (nascida em Recife e residindo atualmente em Olinda), é desses livros dos quais as editoras não correm atrás. Azar o nosso, leitores dependentes químicos de Literatura com L maiúscula. Não fosse o prêmio Edmir Domingues de Poesia 2007, da Academia Pernambucana de Letras, que a obra merecidamente ganhou, e o apoio viabilizador da edição, através da lei do sistema de incentivo à cultura, e o livro não viria à luz. Permaneceria inédito, provavelmente, apesar de seus incontáveis méritos, ou dependeria daquelas infrutíferas iniciativas de poetas que, corajosos ou impacientes, pagam do próprio bolso uma edição destinada a não ser profissional mas, literalmente, independente (isto é: independente do mercado, onde não se insere, independente de distribuição, de comercialização e, assim, de recepção, condenada a permanecer à margem). &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;O primeiro a torcer o nariz diante do produto é o livreiro, que deseja ver na capa um selo importante. Diante de tal ausência, não dá a atenção devida, não o expõe, e o frequentador da livraria não tem como adivinhar que a obra existe. Obra destinada, portanto, a não existir mesmo. &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;Uma vez declarei num programa de tevê de grande audiência, em cadeia nacional: “pior que ficar inédito é publicar mal.” E não publicar mal, só por editoras profissionais, sólidas, e que, lamentavelmente, estão dando às costas à poesia. Mas esta, como escrevi linhas atrás, é outra discussão. &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;A pauta aqui é Gerusa Leal, poeta e ficcionista. E, mais especificamente, &lt;em&gt;Versilêncios&lt;/em&gt;, que acaba de ser lançado, porém sem a necessária distribuição. De Pernambuco, de onde vem, até chegar ao RS, mais que a enorme distância, separa-o o milagre. Milagre que pôs o livro em minhas mãos por essas atalhos especiais que só os vínculos estéticos somados aos humanos propiciam. &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;Tenho lido pouca poesia (porque pouca poesia tem sido publicada) e relido muita, os clássicos (porque estes, adotados, são os únicos diante dos quais o editor não arrisca). &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Versilêncios&lt;/em&gt; abre-se já a partir do título, multifacetado, com a tripla carga semântica do neologismo que a poeta criou para batizar seu filho, ufa!, não enjeitado (bendito prêmio...). “Ver silêncios” (poesia, afinal, é imagem, embora também música, e se até o silêncio fala ao poeta, este o desenha em suas metáforas-traço). “Ver” soma-se à primeira sílaba, “si”, de “silêncios”, numa junção que dá em “versi”, “verso” em italiano, e basta pensar em Dante, não exatamente no livro lembrado, mas inevitável quando se pensa em poesia e em italiano, para ver a intensa riqueza significadora do título. E ainda: “Versos” e “silêncios”, isto é, “versos silenciosos” – melhor tradução para o projeto de extremo rigor e de pleno acerto que Gerusa atinge como poeta. &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;Eis a tripla encruzilhada que, antes de obstáculo, é abertura para um caminho mais amplo à procura de uma leitura de fato entregue a esses cinquenta poemas singulares. &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;A poética de &lt;em&gt;Versilêncios&lt;/em&gt; é construção rigorosa, com versos esculpidos, talhados, não tivesse, pela força do ritmo, uma fluência cuja harmonia atinge em cheio sua cadência nunca dura, nunca seca, mas, sim, quase sussurrada e, desta forma, buscando lírica rara: a marcar exatamente porque escolheu entremostrar-se e não o contrário, que é exibir-se com os excessos comuns de uma poesia que não passa de prosa ritmada ao extremo. &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;A edição, evento a ser saudado, sobretudo pelas dificuldades que sempre cercam tal fato, está à altura, com introdução e posfácio críticos, ambos de fôlego e com leituras que não causam eco, que não chovem no molhado. Um pouco pela qualidade dos ensaístas, André Cervinskis e Stéphane Chao, um pouco pela própria poeta, que não descuida de um único verso, que escreve silabando. E que, ainda que chegue ao zelo infinito de medir cada som, não se exila do discurso próprio da poesia, o do paradoxo, o da permanente refundação do mundo e da inacabável instauração do real. Um real que é sempre outro, não este, no qual escrevo. &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;Citar um poema? Cito um inteiro, o primeiro, no qual a poeta, sem demora, já mostra ao que veio: “não escrevo o que não sinto / amadora que sou / sinto o que não escrevo / jeito de amar a dor // escrevo o que não sinto / salvo a vida / não sinto o que não escrevo / nem percebo que vivi”. Dividido em doze seções, &lt;em&gt;Versilêncios&lt;/em&gt; nos leva para um território onde tudo o que lemos-escutamos só grita nos instantes (muitos) em que a beleza é tanta que nos impõe uma resposta: a da emoção estética forte, manifestada em geral quando diante de um livro muito acima da média.&lt;br /&gt;É o caso.&lt;/div&gt;&lt;div&gt; &lt;/div&gt;&lt;div&gt;Gerusa Leal. Anotaram o nome? Procurem no blog (olhem que belo nome) &lt;em&gt;Flor de Gelo&lt;/em&gt;, endereço: &lt;a href="http://flor-de-gelo.blogspot.com/"&gt;&lt;strong&gt;http://flor-de-gelo.blogspot.com/&lt;/strong&gt;&lt;/a&gt; e tudo que eu não disse aqui alguém terá dito por lá. (24/10/2009)&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7659575339957537112-18063619165992181?l=bentancur.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bentancur.blogspot.com/feeds/18063619165992181/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7659575339957537112&amp;postID=18063619165992181' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/18063619165992181'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/18063619165992181'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bentancur.blogspot.com/2009/10/alem-e-aquem-do-verso-versilencios-de.html' title='ALÉM E AQUÉM DO VERSO (&quot;Versilêncios&quot;, de Gerusa Leal)'/><author><name>BENTANCUR</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17397945706691195345</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp2.blogger.com/_296zOjIvu2c/R_F9H73wKyI/AAAAAAAAAAs/Mx_DoNV9suo/S220/Paulo5.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_296zOjIvu2c/SuNp5phMx9I/AAAAAAAAAB8/-9WmvMhXnrI/s72-c/Capa_Versilencios.JPG' height='72' width='72'/><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7659575339957537112.post-3919009791276823621</id><published>2009-06-28T04:50:00.000-07:00</published><updated>2009-06-28T10:27:19.520-07:00</updated><title type='text'>UM POEMA PARA SEMPRE (e um aniversário)</title><content type='html'>&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;          &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;          &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;          &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Tenho cruzado muito eventualmente com Paulo Seben, saio pouco de casa, não sei dos passos do meu xará, mas sou mesmo um bicho-do-mato, não bastasse o Seben ser gremista e eu, colorado. Mas vamos ao que interessa. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Seben está de aniversário hoje, faz 49 anos, um guri! Bem, ainda não é a pauta, que bichos-do-mato não freqüentam festas de aniversários, sobretudo as de 49. Ainda se fossem as de 25, 30 anos, podia rolar alguma coisa...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Professor de literatura na UFRGS e – atenção! – poeta. Sim, o Seben, que 90% da gurizada conhece, é um professor daqueles, fodões, exigente, mas aplicado e generoso na clareza com que expõe os conteúdos do programa que herdou e que, inteligente, renova. Mas e o poeta?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aliás, bota poeta nisso. Qualquer dúvida, busquem ler e reler seu livro &lt;em&gt;Tango da Independência&lt;/em&gt; (Unidade Editorial da SMC-POA, 1995). Há outros, poucos, que o poeta e ensaísta Seben, também fodão, e, assim, criterioso ao máximo, publicou. Pouco (e bem). &lt;em&gt;Hayde e o Homem-Tronco&lt;/em&gt; (fevereiro de 1988, disponível desde 2004 no site &lt;em&gt;www.lojadosubsolo.com&lt;/em&gt;), &lt;em&gt;Poemas podres&lt;/em&gt; (parcialmente escrito na década de 1980), &lt;em&gt;O Uraguai&lt;/em&gt;,&lt;em&gt; de Basílio da Gama&lt;/em&gt; (Ed. Feevale, 2001, e reescrito e reeditado agora para a Leitura XXI), &lt;em&gt;Caderno Globo 33&lt;/em&gt; (Instituto Estadual do Livro, 2002), &lt;em&gt;A Escrava Isaura&lt;/em&gt; (adaptação para neoleitores, L&amp;amp;PM, 2003), além de ter participado de algumas antologias legitimamente antológicas e não meras coletâneas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bem, a melhor forma de comemorar o aniversário de um homem, se ele é um poeta, é mostrando o poeta que ele é. E há um poema de Paulo Seben que resume o que é a trajetória de quase todos nós, homens, e dos poetas incluídos, “Caminho”. Leiam esse poema, façam-me o favor. Eis toda a odisséia possível, a do precário, flagrada num instante de travessia de um ser com o qual é impossível não nos indentificar. Além do que, falando em poesia, identificações à parte, o poema, por si só, vale mais que isso. É um mundo novo, instaurado. No caso da obra-prima de Seben, sem favor algum um dos dez melhores poemas já produzidos ao extremo sul do País, um novo mundo na medida que nos restaura o mundo de sempre, perdido no cotidiano sem voz para expressá-lo. E que Seben expressa como raros.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;a name="_Toc524126757"&gt;&lt;/a&gt;&lt;a name="_Toc2930182"&gt;&lt;/a&gt;&lt;a name="_Toc2929183"&gt;&lt;/a&gt;&lt;a name="_Toc524727820"&gt;&lt;/a&gt;&lt;em&gt;CAMINHO&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;em&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;em&gt;              Paulo Seben &lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um homem de mãos nos bolsos&lt;br /&gt;cruzando a praça vazia.&lt;br /&gt;Talvez em meio à garoa&lt;br /&gt;ou restos de cerração.&lt;br /&gt;O fato é que está sozinho&lt;br /&gt;e tem nos bolsos vazios&lt;br /&gt;as duas mãos impotentes.&lt;br /&gt;O fato é que está vazio,&lt;br /&gt;e as suas mãos tão sozinhas&lt;br /&gt;cerradas nos bolsos vão&lt;br /&gt;sem poder nem ir à toa.&lt;br /&gt;Caminha rumo ao patíbulo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As mãos seguram a vida&lt;br /&gt;que tenta fugir dali.&lt;br /&gt;Os dentes cerrados cortam&lt;br /&gt;a língua que quer sair.&lt;br /&gt;Os lábios cerrados calam&lt;br /&gt;a voz que iria gritar.&lt;br /&gt;Caminha rumo ao patíbulo&lt;br /&gt;no frio da antemanhã.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se houvesse sol, se ele abrisse&lt;br /&gt;os braços pra perguntar&lt;br /&gt;por que caminha sozinho,&lt;br /&gt;por que um bolso é algema,&lt;br /&gt;por que há neblina sempre&lt;br /&gt;e praças que atravessar...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O sol não há. Não há gente&lt;br /&gt;a quem fizesse a pergunta.&lt;br /&gt;Caminha trôpego e chuta&lt;br /&gt;pedrinhas em gol nenhum.&lt;br /&gt;Caminha rumo ao patíbulo&lt;br /&gt;e não deseja chegar.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;do&lt;em&gt; Caderno Globo 33 (IEL – Instituto Estadual do Livro, 2002)&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Acho que chega. Não tenho mais nada a escrever. Só a ler. E a reler. Como vocês. O aniversariante de hoje merece. (28/06/2009).&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7659575339957537112-3919009791276823621?l=bentancur.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bentancur.blogspot.com/feeds/3919009791276823621/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7659575339957537112&amp;postID=3919009791276823621' title='9 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/3919009791276823621'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/3919009791276823621'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bentancur.blogspot.com/2009/06/um-poema-para-presente-e-um-aniversario.html' title='UM POEMA PARA SEMPRE (e um aniversário)'/><author><name>BENTANCUR</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17397945706691195345</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp2.blogger.com/_296zOjIvu2c/R_F9H73wKyI/AAAAAAAAAAs/Mx_DoNV9suo/S220/Paulo5.jpg'/></author><thr:total>9</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7659575339957537112.post-7722494418241154782</id><published>2009-05-02T13:50:00.000-07:00</published><updated>2009-05-02T14:07:13.869-07:00</updated><title type='text'>A REINVENÇÃO DA LITERATURA</title><content type='html'>&lt;div align="center"&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Autores brasileiros contemporâneos provam a vocação&lt;br /&gt;que a literatura possui para jamais ser estática,&lt;br /&gt;mesmo quando busca o reconhecimento&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O escritor argentino Julio Cortázar (1914-1984) declarou certa vez que quando se sentava para escrever era como se a literatura não existisse e ele tivesse de reinventá-la. Estávamos em época de ditadura militar, e a saída para o discurso possível era o realismo mágico, que pela própria natureza – sem ser, necessariamente, gigante – gerou alguns gigantes: o próprio Cortázar, García Márquez, Juan Rulfo, Carlos Fuentes etc. No Brasil de então brotava o primeiro – e melhor – Moacyr Scliar (o dos contos de &lt;em&gt;Carnaval dos animais&lt;/em&gt; e das novelas &lt;em&gt;A Guerra no Bonfim&lt;/em&gt;, &lt;em&gt;O exército de um homem só&lt;/em&gt; e &lt;em&gt;Os deuses de Raquel&lt;/em&gt;) e um clássico pouco falado atualmente, José J. Veiga (de Goiás, mas bem editado e aceito no centro do País).&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;Era uma reação estética saudável a uma situação política doentia. Mas e hoje? Hoje, a pressão é outra. Deixou de ser especificamente opressiva no sentido de que deixou de ser política. Mas passou a ser multiplicada opressivamente porque é de ordem econômica e gerada pelos estragos que a sociedade de consumo causa, tendo atingido, pelo visto, seu apogeu.&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;Tenho uma filha de nove anos que, grande leitora, no entanto não escapa impune à obrigação de consumir modismos incontáveis e caríssimos, sem os quais ela estará fatalmente marginalizada dentro do grupo escolar que frequenta. Seus únicos pares. A literatura não escapou dessa armadilha, e procura – como um pai procura na equação filha = mundo – achar uma linguagem que dialogue com a dança referencial de um real que encontre legitimidade na fantasia que escraviza, não na fantasia que liberte.&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;br /&gt;Saturado de tanto emplastro para escamotear as dores seculares do mundo (emplastros que agora nascem do enterro sistemático do que a tradição criou como ponte para atravessarmos com um mínimo de segurança o nosso próprio tempo), o escritor ou revida – com uma bem-fornida mimese – essa profusão de referenciais cuja hegemonia dura um ano e cuja eficácia e profundidade não duram mais que os primeiros parágrafos, ou a pega no contrapé através de um movimento com o qual ela não contava: o da linguagem.&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;br /&gt;No primeiro caso, o da mimese, encontramos na obra do mineiro radicado em São Paulo Luiz Ruffato a resposta renovadora. O que poderia ser anacrônico ou assopro cansativo sobre as cinzas da História de fundo social emana brasa viva a revivificar sobrevivência, violência, migração para a grande cidade do centro do País, o ruidoso e caótico movimento de descendentes de italianos saídos de uma Cataguazes de portas fechadas para uma São Paulo que os joga direto na garoa mais noturna e fria. Grupos que há 30 anos eram chamados de lumpemproletariado, de rebotalhos da classe média baixa, de classe trabalhadora em áreas onde a modernização recém chegava para roubar empregos, não para muni-los de novas e eficientes ferramentas. Famílias dizimadas, luta e luto, e impunes ficam apenas o que se engessam num território onde o passado, mesmo enferrujado, ainda dá as cartas, bocejando.&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;br /&gt;Em Ruffato, você confere tudo isso na sua série de cinco romances, &lt;em&gt;Inferno provisório&lt;/em&gt;, que abriu com &lt;em&gt;Mamma, son tanto felice&lt;/em&gt; (176 pág., R$ 27,00), continuou com &lt;em&gt;O mundo inimigo&lt;/em&gt; (208 págs., R$ 27,00), depois com &lt;em&gt;Vista parcial da noite&lt;/em&gt; (160 págs, R$ 31,00) e da qual saiu não faz muito &lt;em&gt;O Livro das impossibilidades&lt;/em&gt; (160 páginas, R$ 31,00), todos editados pela Record. Trata-se de meio século de transposição de um mundo vocacionado para o decomposto. O poder fraudulento, uma comunidade à deriva agarrada pelos intensos medos que alimenta, a carroça desgovernada da crônica dos fatos oficiais, carroça sobrecarregada de gente sem rumo – sem rumo herdado e sem rumo construído.&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;br /&gt;O mimetismo em Ruffato é total, sem os arranjos que se faz no mundo aí fora em busca da ilusão de que ele pressupostamente funcione. Não há truque no ficcionista. Tudo é exuberância na voragem de um caleidoscópio do precário. Narração e diálogos se misturam. As mais marcantes aventuras são as desventuras que ninguém contaria, por horror ou vergonha. As figuras que Ruffato faz reencarnar, reencarnam mesmo, e tem o peso de fantasmas de carne e osso. &lt;em&gt;Inferno provisório&lt;/em&gt; é um ciclo romanesco, e só essa arquitetura ambiciosa (paradoxalmente construída com resíduos: de memória, de descrições no limite dos gêneros, num alucinado ritmo elíptico) já garante para o escritor a singularidade própria dos que, mesmo olhando para trás, reinventam a literatura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A literatura como personagem&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não é de hoje que o artista ou a obra são convocados a dar as caras, a emprestar suas vozes à personagem principal. A atuar. &lt;em&gt;A copista de Kafka&lt;/em&gt;, de Wilson Bueno (Planeta, 200 págs., R$ 35,00) faz de Felice Bauer, noiva de Franz Kafka (1883-1924), a copista que recebe do grande escritor textos para transcrever. Textos que nunca chegarão às mãos de Max Brod, o amigo que o traiu quanto à vontade do escritor, no leito de morte, de que sua obra fosse queimada. Bueno cria uma “recriação” de ambiente e de papéis suspeitos. A fidelidade de Felice, paradoxalmente, destrói obras de que até então nunca ouvíramos falar, como um bestiário (tipicamente kafkiano: o inseto em Gregor Samsa, o tatu em “A construção”, o abutre afogado no sangue da própria vítima...), enquanto nos revela, no livro que Bueno organizada, intercalando trechos cronologicamente ascendentes dos diários da copista com narrativas que incorporam na trama, no estilo, nas referências, na ótica diagonal sobre o mundo opressivo, o universo ficcional de Kafka, obras que estariam para sempre perdidas, não houvesse sido escrito este livro. Todos os textos, menos as cartas, ela queimou. Não o traiu. Mas traiu-se. Irônica comparação a Brod, que traiu descaradamente, e legou o bem que nos legou. Somos o abutre?&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;br /&gt;Alexandre Plosk, em As confissões do homem invisível (Bertrand Brasil, 392 págs., R$ 49,00), convoca os modelos de &lt;em&gt;O Homem Invisível&lt;/em&gt;, de H. G. Wells, &lt;em&gt;O Horla&lt;/em&gt;, de Guy de Maupassant (L&amp;amp;PM Editores, esgotado), &lt;em&gt;O Homem de Areia&lt;/em&gt;, de E T. A Hoffmann (esgotado), e traz para a contemporaneidade carioca um modelo aterrador e uma brecha metafísica permanentemente aberta: a da diluição do eu.&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;br /&gt;É com tal ambição de olhar que a literatura permite e, mais, pressiona os escritores a que achem novos modelos, atalhos, arquiteturas. Não os deixará em paz nunca, como não deixou a um outro argentino, Jorge Luis Borges (1899-1986), que passou a vida toda anunciando-se mais como leitor que como escritor, e que inventou (enquanto personagens e temas) obras, autores, estilos, literaturas, um novo cânone a partir do qual – mesmo irreal e mágico – podemos guiarmo-nos na direção garantida de uma literatura comprovadamente nova. (02/05/2009)&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7659575339957537112-7722494418241154782?l=bentancur.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bentancur.blogspot.com/feeds/7722494418241154782/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7659575339957537112&amp;postID=7722494418241154782' title='12 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/7722494418241154782'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/7722494418241154782'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bentancur.blogspot.com/2009/05/reinvencao-da-literatura.html' title='A REINVENÇÃO DA LITERATURA'/><author><name>BENTANCUR</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17397945706691195345</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp2.blogger.com/_296zOjIvu2c/R_F9H73wKyI/AAAAAAAAAAs/Mx_DoNV9suo/S220/Paulo5.jpg'/></author><thr:total>12</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7659575339957537112.post-1009770061623250770</id><published>2009-04-26T09:20:00.000-07:00</published><updated>2009-04-26T11:16:43.521-07:00</updated><title type='text'>O ATELIER DA PALAVRA</title><content type='html'>&lt;div align="center"&gt;&lt;em&gt;A poeta e artista plástica Sandra Ling, à luz do post anterior,&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;em&gt;cria em cima do decálogo proposto e faz outro percurso, amplia as direções,&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;em&gt;vasculha as possíveis liberdades. O que era “oficina” vira “atelier”,&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;em&gt;mais próximo da casa, e o que era “escritor” vira “palavra”,&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;em&gt;conceito mais amplo.&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;     Só vivendo para ter palavras.&lt;br /&gt;     Escrever não tem hora para começar, e cabe a cada um ser fiel a seus impulsos, sabendo-se ouvir para poder falar.&lt;br /&gt;     Deixe a criança descobrir o mundo através de seus próprios olhos, próprios pensamentos, próprios desenhos, deixe-a principalmente brincar, deixa-a ser criança.&lt;br /&gt;     Uma criança depois que aprende a desenhar nunca mais consegue fazer aqueles traços espontâneos de grande beleza e vivacidade da infância, depois será um desenhista que a gente olha, vê que faz um desenho maravilhoso, mas é de adulto. Para escrever também acho que a frescura das palavras e das idéias é como a mente de uma criança, original; portanto, diria aos pais (que sempre se antecipam para que o filho tenha o que eles não tiveram), não se precipite em nada, principalmente com a leitura. Ter livros na casa, os seus, os seus prediletos, é a melhor forma de um dia seus filhos se interessarem pela leitura, mais do que comprar para eles ainda muito cedo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;     Com um adolescente acredito que a palavra &lt;em&gt;brincar&lt;/em&gt; troca de nome e vira &lt;em&gt;namorar&lt;/em&gt;, namorar o outro, a vida, a natureza, descobrir mais, estar presente, olhar, observar, sentir, sofrer, errar, passear, viajar, e, sobretudo, pensar – para depois ter o que escrever.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;     Ao adulto é preciso que não perca nunca sua criança para conseguir criar, escrever, sim, escrever – este ato que será desenvolvido lendo, lendo, lendo por toda a vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;     Cada pessoa tem a sua hora para se iniciar na escrita. Alguns iniciam bem cedo, como um forte chamado. Porém para muitos é um processo que se instala nas mais diversas fases.&lt;br /&gt;     Pode se iniciar com frases lidas, frases das quais gostamos bastante, copiando-as; pode ser escrevendo pensamentos que nos marcaram e que tenham forte significado para nós, ou, mesmo, algo que precisamos pensar acerca de, ou qualquer coisa que nos abrace num certo momento. Não existe um jeito único de começar, nem do que escrever e nem um tempo que seja o adequado ou o melhor para isso. Simplesmente escreva se tiver vontade e mesmo necessidade, mas, insisto, não tenha pressa de nada: a pressa atrasa, pois tira você do caminho de achar sua essência, e isto leva tempo, principalmente para achar um gênero. A busca é de encontrar o que você tem a dizer, e o modo aparecerá pela repetição, uma vez que quando gostamos de algo, fazemos várias e várias vezes. Com a repetição, o tal gênero irá certamente revelar-se.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;     E quando você tiver em sua gaveta, bem escondido, escritos seus, muitos, olhe o conjunto, que é o mesmo que olhar para você mesmo, e sinta o que mais lhe agrada, que pode ser o som, o significado, a forma. Você vai descobrir ali a semente para desenvolvê-la ao longo da vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;     Selecione o que mais tenha significado para você e nesta hora acho positivo então procurar uma oficina do gênero escolhido no momento (que poderá mudar ainda ao longo do processo), e ouvir alguém mais experiente para lhe mostrar caminhos, abrir mais seus olhos, lhe indicar leituras – de alguma forma, tudo isso pode ser decisivo. Mas também não esqueça que qualquer coisa que você escreve é importante. Pode não ser para os outros, para o crítico, mas para você é você naquela hora em que você criava, é o seu melhor naquele instante. Então guarde para si, não joque fora, não precisa mostrar para ninguém suas primeiras escritas, mas guarde.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;     Depois, a cada texto, acostume-se a deixá-lo dormir um pouco para retomá-lo com outro olhar num outro dia, num outro estado emocional, com outro ritmo, pois assim como as tintas de uma pintura de um dia para outro mudam de cor ao secarem, as palavras não mudam, mas nós mudamos, e este outro olhar sempre verá coisas novas, se necessário coisas a mudar ou não.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;     Mostre-as a algum crítico competente, que será um ajudante, um alerta, mas não deixe também de mostrar ao seu amor, a seu melhor amigo, a seus filhos, mostrar apenas como se lhes estivesse dando um beijo, dando um pouco de si e, assim, conseguindo ouvir a crítica caseira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;     Quando o seu texto ou poema ou seja qual for o gênero escolhido estiver pronto, um livro já montado, seja exigente na hora de publicá-lo.&lt;br /&gt;     Seja exigente na mesma proporção que você se exigiu ao fazê-lo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;     Saiba ouvir os elogios como um aditivo, uma motivação, sem nunca esquecer que o elogio é para o que já está escrito. O que virá vai depender do foco que você continuar a manter. Escrever será sempre um desafio para consigo próprio, a cada texto novo.&lt;br /&gt;     Entre no desafio, entre na vida. (26/04/2009)&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7659575339957537112-1009770061623250770?l=bentancur.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bentancur.blogspot.com/feeds/1009770061623250770/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7659575339957537112&amp;postID=1009770061623250770' title='13 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/1009770061623250770'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/1009770061623250770'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bentancur.blogspot.com/2009/04/o-atelier-da-palavra.html' title='O ATELIER DA PALAVRA'/><author><name>BENTANCUR</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17397945706691195345</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp2.blogger.com/_296zOjIvu2c/R_F9H73wKyI/AAAAAAAAAAs/Mx_DoNV9suo/S220/Paulo5.jpg'/></author><thr:total>13</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7659575339957537112.post-6658165143444777219</id><published>2009-04-20T18:31:00.000-07:00</published><updated>2009-04-20T18:37:06.347-07:00</updated><title type='text'>A OFICINA DO ESCRITOR</title><content type='html'>Depois de quarenta anos lutando com palavras (a luta menos vã) dá para afirmar: escrever é um ajuste de contas com a verdade que ficou oculta e ameaçava não ser descoberta nunca mais. Uma isca para pescarmos a emoção que ameaçava ficar trancafiada porque sem ter uma voz que a traduzisse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A literatura é essa voz forte o suficiente, expressiva o suficiente para dizer o tamanho todo dessa emoção.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E aí, se não escrevermos, trairemos a nós mesmos. Trairemos a todos que poderiam saber de nós o quanto estamos vivos. Trairemos a vida, se não escrevermos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E se escrevermos, a vida tornar-se-á ainda mais viva, mais bela, mais legítima porque melhor desenhada – em palavras. Os que leem poderão escutar a vida como ela nunca foi escutada antes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os que desejam escrever – se desejarem de fato – escreverão. E se hesitarem aqui e ali, um dia ou outro, insistam, briguem consigo mesmos, mas... escrevam!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DEZ MANDAMENTOS PARA ESCREVER O MELHOR QUE FORMOS CAPAZES DE FAZER E, ASSIM, O MELHOR...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1) &lt;strong&gt;Leia, leia, leia&lt;/strong&gt;. Só lendo muito entraremos em sintonia fina com a prosa do mundo, com a poesia do mundo, com as ideias do mundo, com a música verbal, o ritmo sonoro dos animaizinhos que se escondem nos dicionários ou que saltam caoticamente da boca das pessoas, sem um cuidado maior. Lendo, lendo bastante, quando sentarmos para escrever, estaremos tão contaminados de um ruído saudável e rico, de um cinema feito só de palavras mas tão vasto e múltiplo, que na hora de colocarmos nossas ideias no papel, elas naturalmente sairão fortalecidas pelas ideais dos demais, os que publicaram e a quem lemos, e pela forma como eles escreveram, e então nossa forma será mais plena, mais contagiante porque contagiada. Não se pode amar sozinho. Não se pode escrever sem encontrar correspondência nessa fonte viva que é a literatura de todos os tempos. Só mergulhando nela seremos capazes de escrever como escritores de fato, como seres amadurecidos dentro de uma região que é exatamente aquela onde nosso texto deseja habitar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2) &lt;strong&gt;Escreva, escreva, escreva&lt;/strong&gt;. Escrever não é escrever. Escrever é REescrever. O exercício contínuo da criação nos torna – assim como um ginasta que treina todos os dias – capazes de atingir plenamente o que planejamos criar. Não basta querer, desejar, ou, até mesmo, estar inspirados. É preciso, como um jogador de futebol que treina quase diariamente, ficar em forma para que nossa vocação e nosso dom encontrem seu ritmo perfeito, adequado, suficiente. Primeiro eu faço um copião, quase – desculpem a palavra – um vômito. Depois eu viro leitor de mim mesmo, mas um leitor o mais distanciado possível, e transformo – numa segunda redação – o que foi uma enxurrada num curso d’água melhor dirigido, e afinado. Mas essa primeira revisão e segunda escritura (ou REescritura) é apenas o segundo passo de, digamos, uns cinco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;3) &lt;strong&gt;Deixe o texto dormir&lt;/strong&gt;. O texto, como o ser humano, se não dorme fica perturbado, imperfeito, precário, doente. O texto precisa de tempo, e depois de um certo tempo, pode ser encarado por seu autor sem as ilusões com que seria encarado na primeira redação, quando o autor ainda está um tanto cego, impelido pelo primeiro empurrão que é a própria ideia ou necessidade de escrevê-lo, ideia quase nunca clara e, sobretudo, em termos de acabamento, nebulosa, com altos e baixos. Depois de dormir o suficiente, o texto se mostra tal como é, e quem o escreveu já consegue um distanciamento maior, melhor, e não se sente tão comprometido assim ao ponto de ter dificuldades de passar-lhe a faca! Nesta hora, passa mesmo. Corta o que está demais. Completa o que está de menos. É a terceira escritura ou a segunda REescritura. Poderão haver mais uma ou duas, nunca se sabe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;4) &lt;strong&gt;Mostrar a quem sabe, a quem deseja e costuma ler&lt;/strong&gt;. Com todo o respeito aos amores e aos amigos e aos familiares, mostre o que você produz em literatura a quem conhece literatura. A outros escritores, críticos, a gente pouco comprometida afetivamente com você e que por isso mesmo saberá lê-lo sem enfrentar dificuldades na hora de apontar alguma insuficiência no seu texto. Gente diante da qual você pode ficar absolutamente confiante quando receber um elogio, porque será um, digamos assim, “elogio a frio”, isto é, ditado tão-somente pelo reconhecimento do seu talento, da qualidade do seu texto. Aliás, o elogio terá sido feito ao que você escreveu, não a você. Você pode ser amado e escrever muito mal. Isso é um perigo. Você pode escrever muito bem e não ser amado, o que é uma desgraça. Convém não confundir as duas condições. Seja amado pelo que é como pessoa (pelas pessoas que o amarem, algo fora da literatura) e seja criticado pelas pessoas vocacionadas para lê-lo e analisarem o que você faz, sem cometerem o equívoco de dizer que você é um gênio só porque é simpático ou dizerem que é um medíocre só porque você não dá bola pra elas. Seu texto tem vida independente de você e é assim que deve ser julgado. Portanto, por pessoas independentes das suas relações. Ou, no mínimo, mesmo sendo das suas relações, com a independência necessária (neste caso, o que não é fácil de encontrar).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;5) &lt;strong&gt;Saiba receber uma crítica. Ou melhor, vibre&lt;/strong&gt;. Diz o “Eclesiastes”, “Vaidade, tudo é vaidade.” Quem legitimamente deseja escrever, imagino eu, deseja escrever bem, fazer o melhor (o que vale para todas as áreas). Ora, se queremos o melhor, não queremos cometer erros, realizar obras frágeis, imperfeitas. Assim, todo senão, toda crítica que nos alerta das nossas limitações, que nos avisa que o que fizemos não está bem, puxa!, é uma bênção. É preciso ter uma qualidade humana admirável – a da autocrítica – para estarmos preparados para receber a verdadeira crítica, aquela que não nos leva para compadres e que têm a honestidade de nos acordar, avisando que as coisas não correram bem dentro do projeto ao qual nos propusemos. É preciso vencer a barreira da vaidade, do orgulho, para só aí compreender de fato o que esta crítica diz e então enxergarmos com clareza as deficiências do que eventualmente cometemos para que não venhamos a repeti-las no futuro e para que consigamos salvar o projeto defeituoso, aperfeiçoando-o a partir dessa crítica aparentemente nada amiga, porém, na verdade, esta sim, crítica amiga, porque produtiva, útil, não enganadora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;6) &lt;strong&gt;Desconfie dos elogios. Ou melhor, preocupe-se&lt;/strong&gt;. Conheço mais injustiças a favor que injustiças contra. Ou seja, gente que não escreve nada mas que, por ter boas relações políticas, acaba sendo “engolida” como se engole sapos. Medíocres considerados existem milhares. Gênios incompreendidos, uma dúzia, se tanto. É preciso ter a força e a coragem de dispensar os elogios cujo único objetivo é manter a “casa em ordem”, ou seja, visando apenas os interesses da boa convivência (que “boa convivência” é essa se ela só esconde a verdade?). Eu aprendi, desde cedo, que a pessoa que me dava um tapinha nas costas e dizia “Paulo, está uma maravilha” não tinha nada para me ensinar e, na verdade, era inconfiável. E que a pessoa que me fazia uma cara de preocupada, ou constrangida, e me comentava, “Olha, Paulo, bem, quer dizer, sabe?, isto que escreveste, até que começa bem, mas, lá pelo meio, eu acho que tu te perdes um pouco, e tem muita informação sobrando, desnecessária, e tu deves centrar o foco da tua narrativa no conflito central das personagens, e não ficar dando tua opinião sobre as coisas” etc., a pessoa que me mostrava que eu tinha uma pedra no sapato, esta estava me fazendo um enorme favor. Melhor ainda, estava me salvando: fazendo com que eu ganhava anos de vida, economizando um tempo incalculável que eu perderia em enganos se ela ficasse, por educação, só me enrolando, dizendo que estava bom e pronto. Se safando socialmente em nome da camaradagem enquanto eu continuaria, enganado, cometendo os mesmos e velhos erros. O elogio é terrível. Até mesmo quando merecido, ele só não é dispensável (afinal, é merecido), mas deve logo, logo ser deixado para lá. Porque se o escritor concentrar-se demais no elogio recebido, grande é a chance de ele vir a relaxar, descuidar de seu processo criativo. Toda criação geralmente brota de desafios e enigmas. E quem se deita na rede dos elogios recebidos, não se sente desafiada e nem enxerga enigma algum a sua frente, só certezas. E de certezas não se constrói nada além do que todos nós já conhecemos. Perde-se a capacidade para abrir novos caminhos e arriscar. E então viramos escritores comuns, previsíveis, desinteressantes. Movidos só a elogios que buscamos satisfazer e não à saudável exigência de nos superarmos a cada novo livro. É essa superação (nascida sempre da autocrítica) que garantirá a cada novo livro um novo – e grande – passo. Ou seja: apenas a insatisfação é capaz de semear o que têm chance de satisfazer de fato.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;7) &lt;strong&gt;Escolha um gênero. E fique nele&lt;/strong&gt;. Dificilmente um único escritor é um bom contista, um bom poeta, um bom romancista, um bom cronista e um bom ensaísta. Isso até existe, mas são exceções, tão raras, que entre 500 nomes que facilmente lembraremos de gente que acertou num único gênero encontraremos somente dois ou três nomes que acertaram em mais de um. Até dois gêneros pode ser, mas gêneros, digamos assim, irmãos. Como prosa de ficção e crônica, vide Luis Fernando Veríssimo. Ou o argentino Julio Cortázar, em narrativa longa (seu romance O JOGO DA AMARELINHA, por exemplo) e os contos, pelos quais ele é mais conhecido (AS ARMAS SECRETAS, OCTAEDRO e mais uns dez títulos). Exceções. A regra é Drummond: poeta, mesmo que tenha escrito um livro de contos e uma meia dúzia de livros de crônicas. Erico Verissimo é romancista, mesmo que tenha escrito livros de viagens, de contos, de memória. Na verdade, muitos autores aventuram-se em mais de um gênero, mas acertam, plenamente, em só um. É normal. Todos nós, afinal, temos uma dicção, um ritmo, um olhar sobre o mundo, os homens, as coisas, a vida. Essa ótica é uma das definições de gênero. Erico Verissimo tinha fôlego de romancista, e seu fôlego contaminava sua imaginação, que convocava várias personagens e várias situações só cabíveis numa narrativa longa, como o romance, nunca como o conto. Uma vez eleito qual o gênero para o qual você se sente vocacionado, aconselho a que leia os melhores autores desse gênero, para que você fique na freqüência certa do gênero que escolheu. Quando dedicar-se a praticá-lo, vai já estar familiarizado com os desafios naturais do gênero que desejava desenvolver. E poderá vencer seus desafios com mais facilidade. Como no futebol, goleiro é goleiro, centroavante é centroavante, na literatura, romancista é romancista, poeta é poeta, autor de literatura infanto-juvenil é autor de literatura infanto-juvenil. Quem não conhece Ziraldo? Quem não conhece O MENINO MALUQUINHO, FLICTS, ABZ? Certo. Mas sabiam que ele escreveu um romance para adultos? Deu tão errado que ninguém lembra nem o título do livro. Nem eu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;8. &lt;strong&gt;Publicar mal é pior que ficar inédito&lt;/strong&gt;. Uma vez escrito seu livro, da melhor forma e com opiniões confiáveis, é hora de publicar. E aqui entra uma revelação que poucos sabem. Publicar bem é tão difícil quanto escrever bem. E publicar por publicar é publicar mal. Nesse caso, melhor ficar inédito. Seu livro ainda tem chance em concursos literários para inéditos e continua a ter chance com uma boa editora, vá lá se saber. Publicar bem é simples, embora complicado. TEM DE SER somente com as boas editoras, que são RARAS, repito, RARAS no Brasil, umas oito ou dez, não mais que isso, entre mais de 300 editoras associadas na Câmara Brasileira do Livro. Só estas oito ou dez farão: 1) uma edição visualmente atrativa e com um acabamento caprichado e seguro, costurado, com capa plastificada; 2) uma boa distribuição e comercialização, o que é fundamental para seu livro circular e, portanto, ganhar visibilidade; 3) uma boa divulgação junto à mídia, proporcionando chances de você ser comentado nos espaços culturais; 4) promoções em Departamentos de Marketing (as boas editoras, RARAS, repito, têm departamentos de marketings). 90% das editoras nunca tiveram, não têm nem terão isso. No Rio Grande do Sul só existem duas editoras que se pode chamar de profissionais. Uma publica literatura, outra, só livros técnicos. Todas as outras estão em Rio e São Paulo. Nenhum outro estado possui uma editora decente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;9) &lt;strong&gt;Antes de publicar, teste seu livro em concursos literários&lt;/strong&gt;. Os concursos literários são a melhor vitrine que existe para o autor ainda não consagrado. Mas existe um importante cuidado que devemos tomar: o mesmo da crítica do compadrismo e o da crítica para valer vale para os concursos. Só vale a pena participar de concursos sérios. Poucos são. A maioria dos concursos são caça-níqueis, cobram inscrição (nunca participe de um concurso que lhe cobre inscrição) e dão de prêmio apenas diplomas, troféus ou publicação numa coletânea com mais uma dúzia de gente que nada tem a ver com a literatura que você faz. Concurso sério SEMPRE tem dotação orçamentária para pagar um prêmio ao vencedor, e isto já é um atestado de seriedade, de acerto em dar a devida valorização ao ganhador. No Rio Grande do Sul, prêmio sério é o Josué Guimarães, da Jornada Nacional de Passo Fundo, por exemplo. No Brasil, o Prêmio Luiz Vilela de Contos, o Ignácio Loyola Brandão, de Araraquara, em São Paulo. Estes todos para contos isolados. Já o Prêmio Minas de Cultura, e o Prêmio Nacional de Ficção da Bahia são para livros inéditos adultos. Para infanto-juvenil, o Barco a Vapor, das edições SM. E ainda tem o Casa de las Américas, em Cuba. A cada ano mudando de gênero (conto, romance, infanto-juvenil, ensaio). Para livros publicados, o Jabuti, o Portugal Telecom, o Cidade de São Paulo, o Biblioteca Nacional e o da Academia Brasileira de Letras. Nos prêmios para livros inéditos, você beliscando um desses, já terá a porta aberta de alguma editora. Os editores consideram um prêmio desses que citei um aval mais que suficiente para eles publicarem você. Vale a pena tentar, não é?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;10) &lt;strong&gt;Não ser premiado não significa nada&lt;/strong&gt;. Insista! Conheço maus livros que ganharam importantes prêmios (às vezes a comissão julgadora é muito heterogênea e não chega a acordo algum nos seus votos, levando a um resultado imprevisto) e conheço ótimos autores que concorreram a, digamos, dez prêmios, não ganharam nenhum, e depois de publicados caíram nas graças da crítica. Portanto, ganhar um prêmio é ótimo, ajuda na sua carreira, mas não ganhar não significa que seu trabalho não tenha valor. (20/04/2009)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7659575339957537112-6658165143444777219?l=bentancur.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bentancur.blogspot.com/feeds/6658165143444777219/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7659575339957537112&amp;postID=6658165143444777219' title='11 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/6658165143444777219'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/6658165143444777219'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bentancur.blogspot.com/2009/04/oficina-do-escritor.html' title='A OFICINA DO ESCRITOR'/><author><name>BENTANCUR</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17397945706691195345</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp2.blogger.com/_296zOjIvu2c/R_F9H73wKyI/AAAAAAAAAAs/Mx_DoNV9suo/S220/Paulo5.jpg'/></author><thr:total>11</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7659575339957537112.post-6229861452636029351</id><published>2009-04-16T05:55:00.001-07:00</published><updated>2009-04-17T14:09:30.608-07:00</updated><title type='text'>O MORTO QUE NÃO ENCONTRAVA O CÉU</title><content type='html'>&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_296zOjIvu2c/SecrN0DW2TI/AAAAAAAAAB0/W3L3Dl6YD4k/s1600-h/Capa+morto+5+fev.JPG"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5325272600699918642" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 400px; CURSOR: hand; HEIGHT: 192px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_296zOjIvu2c/SecrN0DW2TI/AAAAAAAAAB0/W3L3Dl6YD4k/s400/Capa+morto+5+fev.JPG" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="center"&gt;Pessoal, taí a carinha do meu novo livro, já à disposição dos interessados. A seguir, informações sobre o moço.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;strong&gt;O morto que não encontrava o céu&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;de Paulo Bentancur&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;WS Editor&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;em&gt;Série Infanto-Juvenil&lt;/em&gt; – 40 p. – 16 x 23 cm&lt;br /&gt;ISBN 978-85-7599-099-5&lt;br /&gt;R$ 16,00&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;Faixa etária recomendável: 9-12 anos&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Fim de semana. Sábado e domingo com ótimas chances de dar em aventura. Felipe, um menino pra lá de curioso, sai a caminhar pelo bairro, o seu mundo particular e, também, o mundo de tanta gente que mora por ali ou não mora, mas costuma passar pelo lugar. Felipe gosta de um bom papo, não resiste a investigar cada detalhe da realidade. Mas... O que é a realidade? Ora, aquele cara que agora mesmo vem ali! Quem? Aquele sujeito! Rosto estranho. Modos estranhos. E Felipe, sem dar-se conta, foi parar perto demais do cemitério.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Diante de Felipe surge um homem muito difícil de ser descrito. E que busca uma coisa que ninguém busca. Pelo menos ninguém que até aquele dia Felipe tenha conhecido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;História de terror, com todos os sustos imagináveis e inimagináveis. E não bastasse o terror, tem o humor, muito humor. No mínimo para a gente rir de nervoso. Aquele encontro muda a vida de Felipe. Muda para sempre. Ele passa do susto inicial a sustos maiores. Até o susto derradeiro: não ter certeza se está... vivo!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pedidos pelo fone/fax: 0 xx 51 3029 7018 / 7028 / 7038&lt;br /&gt;E-mail: &lt;a href="mailto:wseditor@wseditor.com.br"&gt;wseditor@wseditor.com.br&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;Home-page: http://www.wseditor.com.br&lt;br /&gt;Rua Bernardo Pires, 492 – 90620-010 - Porto Alegre - RS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era isso, por enquanto. A partir deste livro, muita coisa vem por aí. Espero que nada parecido com o que aconteceu a Felipe... (16/04/2009)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7659575339957537112-6229861452636029351?l=bentancur.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bentancur.blogspot.com/feeds/6229861452636029351/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7659575339957537112&amp;postID=6229861452636029351' title='10 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/6229861452636029351'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/6229861452636029351'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bentancur.blogspot.com/2009/04/o-morto-que-nao-encontrava-o-ceu.html' title='O MORTO QUE NÃO ENCONTRAVA O CÉU'/><author><name>BENTANCUR</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17397945706691195345</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp2.blogger.com/_296zOjIvu2c/R_F9H73wKyI/AAAAAAAAAAs/Mx_DoNV9suo/S220/Paulo5.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_296zOjIvu2c/SecrN0DW2TI/AAAAAAAAAB0/W3L3Dl6YD4k/s72-c/Capa+morto+5+fev.JPG' height='72' width='72'/><thr:total>10</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7659575339957537112.post-7232731671083722549</id><published>2009-04-16T05:34:00.000-07:00</published><updated>2009-04-16T05:46:35.804-07:00</updated><title type='text'>TAÍ O NOVO LIVRO</title><content type='html'>Taí o novo livro, &lt;em&gt;O Morto que não Encontrava o Céu&lt;/em&gt;, infanto-juvenil, indicado para a faixa entre 9 e 12 anos. WS Editor, do inquieto e criativo Walmor Santos.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7659575339957537112-7232731671083722549?l=bentancur.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bentancur.blogspot.com/feeds/7232731671083722549/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7659575339957537112&amp;postID=7232731671083722549' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/7232731671083722549'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/7232731671083722549'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bentancur.blogspot.com/2009/04/tai-o-novo-livro.html' title='TAÍ O NOVO LIVRO'/><author><name>BENTANCUR</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17397945706691195345</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp2.blogger.com/_296zOjIvu2c/R_F9H73wKyI/AAAAAAAAAAs/Mx_DoNV9suo/S220/Paulo5.jpg'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7659575339957537112.post-1737414212450393072</id><published>2009-04-16T05:27:00.000-07:00</published><updated>2009-04-16T05:28:57.064-07:00</updated><title type='text'>E O TREM ANDA</title><content type='html'>Bem, uma hora o trem que andar. Os bois desatolarem a carroça. O motor do carro pegar. O fôlego voltar. A roda-viva da vida girar. Uma hora tem. E vem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nos dias 22, 23 e 24 de abril estarei em Santa Rosa, dando a minha oficina &lt;em&gt;Mistérios da Criação&lt;/em&gt; &lt;em&gt;Literária&lt;/em&gt;, isto é, passar umas dicas interessantes para quem deseja ter uma redação mais criativa, mais fiel à sua própria voz, além de visitar quatro escolas e conversar com a gurizada sobre esse bicho estranho: o escritor. Sobre essa coisa maravilhosa que ele é capaz de fazer: livros. Então tomo o trem. Ajeito-me na carroça. Seguro o volante. Solto o corpo. E vou, vou, vou. Voo. (16/04/2009)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7659575339957537112-1737414212450393072?l=bentancur.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bentancur.blogspot.com/feeds/1737414212450393072/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7659575339957537112&amp;postID=1737414212450393072' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/1737414212450393072'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/1737414212450393072'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bentancur.blogspot.com/2009/04/e-o-trem-anda.html' title='E O TREM ANDA'/><author><name>BENTANCUR</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17397945706691195345</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp2.blogger.com/_296zOjIvu2c/R_F9H73wKyI/AAAAAAAAAAs/Mx_DoNV9suo/S220/Paulo5.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7659575339957537112.post-1641495884686713714</id><published>2009-04-04T04:39:00.000-07:00</published><updated>2009-04-04T06:09:08.270-07:00</updated><title type='text'>É HOJE!</title><content type='html'>&lt;p&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Este texto é para Hermes Marengo de Ávila, o colorado mais sério que conheci, para Gilberto Buchmann e Jorge Ritter, os mais espirituosos, para Luis Fernando Verissimo, o mais inspirado. E para o espírito de meu pai, e para milhões de pessoas.&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Conheci o Inter quando, vindo de Livramento, cheguei em Porto Alegre, em 1967. Eu tinha dez anos, idade em que poucas escolhas definitivas se fazem na vida. Talvez só uma seja possível fazer: a do time do coração da gente. E eu fiz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dos grandes clubes da capital, o que atravessava boa fase era o Grêmio. Em 1967 ele era hexacampeão gaúcho e ainda ganharia o campeonato seguinte, sagrando-se hepta, na maior sequência até então já vista por aqui. No imediatismo infantil, eu via colegas meus se agarrando naquela miragem: os títulos do tradicional adversário do Inter que, ao que parece, eu sabia que eram só uma fase. Quando se é criança não existe esse conceito de “fase”. O agora é, sempre, a eternidade. Mas era cedo demais para eu sofrer com o triunfo transitório tricolor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No fundo, tinha tudo para escolher o rival, a não ser o nome: Grêmio. Eu não entendia esse nome. Eu não gostei desse nome: Grêmio. Eu já me embriagava com as palavras, já vivia a vida também a partir delas. Grêmio parecia coisa de preguiçoso. Afinal, eu raciocinava – na minha maturidade dos dez anos, suficiente para tanto –, um clube é uma agremiação, um grêmio. O Inter é (perdão, clube amado, com quem casei há 41 anos) um grêmio que tem nome, e que nome: In-ter-na-cio-nal. O Grêmio era um grêmio que simplesmente abdicara de ser batizado, como se só isso bastasse, chamar-se pelo gênero, sem identidade. Para mim, animal da palavra – e do futebol – não era suficiente. Mais, era imperdoável.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem acompanha futebol sabe tudo o que aconteceu depois. O Internacional respondeu à sequência de títulos regionais do Grêmio com a maior sequência até hoje registrada nos grandes centros de futebol do País: foi octacampeão, de 1969 (eu estava há dois anos esperando para brandir minha primeira resposta) a 1976. Foi o primeiro time gaúcho a ganhar um campeonato nacional. Aliás, a ganhar os três primeiros. O único até hoje, entre os times do Brasil, a ganhar um campeonato inteiro sem perder uma única partida (em 1979). Nos anos 80 e 90 o Grêmio passou por outra fase na qual aprendi a dor dos amantes. Meu Inter, nosso Inter (o time me jogava no mundo, me tornava povo além dessa abstração do conceito, estranhos com a camiseta vermelha falando comigo na rua ao me identificarem colorado), o time de centenas de milhares de pessoas em minha cidade – o Inter me adotou antes que Porto Alegre me adotasse: levei vinte anos para começar a gostar daqui –, de milhões no meu estado, esse Inter amargava a ascensão do rival e – como nesse tipo de pódio só tem lugar para um – crescia à sombra para ver a luz dos fogos de artifício da vitória, nada ilusórios. E a luz veio. E como veio, a partir da entrada do século novo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em 2006, com a Libertadores e o Mundial Interclubes. Em 2007 com a Recopa. Em 2008 com a Sulamericana. Em 2009, sem nem fazer pausa para comemorar (afinal, amanhã tem Grenal, não menos que isso!), realizando a melhor campanha em estaduais de todos os grandes clubes brasileiros, invicto ainda já à beira de uma quarta-de-final e com o maior ataque e a maior goleada (vindo, aliás, da maior goleada registrada em finais da era moderna, os 8 x 1 contra o Juventude em 2008). É uma “fase”? Pode ser, mas nem por isso deixará de empurrar a história do clube (com nome!) para uma biografia com passagens eternas. E isso faz o menino em mim dar um sorriso aberto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, talvez, a coisa mais séria, mais impressionante, mais reveladora. O Inter foi a ponte entre eu e meu pai, o começo, o selo e a história da nossa amizade. O Inter nos pôs juntos para vibrar e para praguejar. E não lembro de nenhuma outro tipo de situação na vida no qual tão repetidamente ficamos lado a lado: ouvido colado no ar, escutando no rádio os 90 minutos que nos levariam da esperança a todas as soluções. Bastava uma vitória.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isso o Inter tem me dado mais que quaisquer outras áreas do que chamamos vida e que o futebol tão bem compreende e tão bem responde às suas absurdas exigências. Na transcendência de amar um time e ser correspondido por ele, quem torce sabe que no dia em que seu clube completa cem anos de vida, alguém muito importante da família está fazendo aniversário. Na verdade, a família inteira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bem, só os parentes colorados. E eles são muitos, ainda bem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hoje é o meu dia, mais que o 20 de agosto, em que nasci. O 20 de agosto foi contingência, o dia de hoje foi escolha. (04/04/2009)&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7659575339957537112-1641495884686713714?l=bentancur.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bentancur.blogspot.com/feeds/1641495884686713714/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7659575339957537112&amp;postID=1641495884686713714' title='13 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/1641495884686713714'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/1641495884686713714'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bentancur.blogspot.com/2009/04/e-hoje.html' title='É HOJE!'/><author><name>BENTANCUR</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17397945706691195345</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp2.blogger.com/_296zOjIvu2c/R_F9H73wKyI/AAAAAAAAAAs/Mx_DoNV9suo/S220/Paulo5.jpg'/></author><thr:total>13</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7659575339957537112.post-3772531432183831023</id><published>2009-03-29T06:38:00.000-07:00</published><updated>2009-03-29T12:42:14.997-07:00</updated><title type='text'>RECRIAR-SE</title><content type='html'>O ser é tão-somente tema da filosofia. Poucos são, raros mesmo. E, no entanto, quem é não basta sê-lo. É fundamental – para sobreviver e, assim, ser – a representação do ser. E é aí que o Carnaval começa. Carnaval com quarta-feira de cinzas. Festa terminada em tragédia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sendo, seria o auge se o mundo fosse apenas espaço para a manifestação e expansão desse ser: eu (você). Mas o mundo é um espaço caro, um outdoor valendo os olhos da cara (e quem enxerga, isto é, tem o mergulho quase suicida de reconhecer as estremeções da vida, a tensa comoção diária da vida, as traições repetidas à vida que produzem a única “vida” admitida por quase todos, quem enxerga a esse ponto não chega a outdoor nenhum). Sem outdoor – e, claro, isto é só uma metáfora, mas uma metáfora próxima demais da realidade –, vamos sumindo, sumindo, até desaparecer por completo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cuidado. A máxima do futebol nunca foi tão válida. “Futebol é momento.” Pois arte – minha frágil moeda de troca – é momento. E passado o momento, a obra-de-arte realizada, o projeto conquistado, a ação cultural efetiva e efetivada, tudo isso tendo chegado a seu termo, sua conclusão, pipocam os reflexos, a visibilidade temporária semeia e acena com frutos logo ali. É regra que eles demorem. Não espere. Se esperar, terá perdido o momento. E a não ser que você tire da manga outra obra-de-arte, outro projeto, sua imagem se dispersará, “polvo de estrellas”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então só vejo saída – todas elas, a emergencial e a saudável saída para um passeio no mundo que pode vê-lo – se apenas você o ver primeiro: o mundo adora fingir-se de distraído, de não vê-lo até mesmo sem fingir, viciado em cobrar – repito – os olhos da cara para que você realize uma trajetória “livremente” em seu ágora claustrofóbico pela pressão do preço que lhe cobra. O mundo é um estúdio de televisão, é uma equipe de produção, é um &lt;em&gt;marchand&lt;/em&gt;, um empresário, um agente literário, um produtor cultural. Sempre às voltas com a inacreditável demora em lhe dar uma resposta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Você é quem tem de ter as respostas. Até as resposta de que precisa, além das que precisam. E o mundo carimba ou não, endossa ou não. E se carimba e se endossa e se diz “sim”, não vibre demais. É só um momento, quem sabe isolado e que nada garante para o próximo lance. Se você demorar, ele nem vai lembrar do que veio antes, não saberá dizer um único item da sua biografia. Você, enquanto está vivo, nunca tem biografia. Precisa morrer para darem por concluído o retrato.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E seu retrato (morto já, sem expectativa alguma mais), e nem ele, seu retrato, pode ficar esperando. Alguém da família, um amigo, um fã, um editor (se você foi escritor), precisam carregá-lo para cima e para baixo. O mundo cobra um aluguel exorbitante até dos mortos.&lt;br /&gt;Vivo, então, nem adianta reclamar. É inútil e até injusto que tantos mortos ainda peçam passagem para viverem a vida atrasada que ficou por ser reconhecida, no que realizaram enquanto o mundo gastava os dias com simplesmente ser, sem precisar provar coisa alguma. Ele tem o espaço e o tempo, ele é o dono do que é mais caro. Ou você paga o preço, tornando o que você é num veículo que sirva como moeda de troca constante, ou você pode ser acusado de um estranho assassinato: o do artista que você passou a vida anunciando e que, segundo as leis do mundo – que é impossível chamar de critérios – nunca deu as caras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não deu mesmo. Deu obras. Mas quem é que está interessado nelas sem uma lendazinha pessoal a tiracolo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Você é tímido? Transforme isso em mercadoria, urgente. Ou então esqueça. Recrie-se, refunda-se, refaça-se. Ou simplesmente adormeça e, quando acordar, aceite a suprema resignação de, depois de ter feito tanto, tornar-se espectador dos que além de produzir, produzem-se. (29/03/2009)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7659575339957537112-3772531432183831023?l=bentancur.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bentancur.blogspot.com/feeds/3772531432183831023/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7659575339957537112&amp;postID=3772531432183831023' title='10 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/3772531432183831023'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/3772531432183831023'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bentancur.blogspot.com/2009/03/recriar-se.html' title='RECRIAR-SE'/><author><name>BENTANCUR</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17397945706691195345</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp2.blogger.com/_296zOjIvu2c/R_F9H73wKyI/AAAAAAAAAAs/Mx_DoNV9suo/S220/Paulo5.jpg'/></author><thr:total>10</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7659575339957537112.post-953533139426488831</id><published>2009-03-08T11:04:00.000-07:00</published><updated>2009-03-08T11:08:46.888-07:00</updated><title type='text'>ESCREVI. E AGORA?</title><content type='html'>Pois é. O mais difícil foi feito. O incalculável desafio da criação. Você superou traumas, obsessões, obteve a necessária autocrítica para domar as ilusões enganadoras. E chegou, incólume, até o fim do livro com que sonhou um dia. Ele está pronto, e você o escreveu todinho, linha a linha. O que pode querer mais?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E quer! Quer publicá-lo. Por necessidade que outros compartilhem essa experiência indescritível de outra forma que não a do próprio livro que você fez. Essa experiência que tem vários nomes: minha obra, meu alívio, minha superação, meu presente para mim mesmo e, quem sabe para a Literatura, essa senhora caprichosa e exigente. Porém, para isso, é preciso achar a visibilidade certa ao produto do seu esforço e talento. E a visibilidade só virá numa boa edição. Começa assim a segunda etapa, tão misteriosa e desafiadora quanto a primeira. Pois é, publicar BEM é tão complicado quanto escrever bem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Trabalhei cerca de 20 anos em meia dúzia de editoras, médias e grandes. Sem contar que tenho amigos escritores já publicados generosamente e escritores recusados tantas vezes que até passaram a se perguntar se não escolheram errado a ferramenta para expressar-se. Não escolheram, pode acreditar em mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acontece que publicar BEM (nem perco meu tempo em comentar a decisão de publicar de qualquer jeito, isto é, pagando do bolso e fazendo uma edição artesanal, amadora, destinada, parece, a garantir que o livro NÃO EXISTA: não vejo sentido nisso), publicar BEM, garanto, é uma batalha incessante, repetida, e que começa a cada livro novo que você escreve, mesmo que já tenha publicado vários.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sério.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Brasil – sabemos – não é um país de leitores. Logo, não se pode afirmar com muita tranquilidade que exista um mercado livreiro. Não para a literatura nacional.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Óbvio, as exceções fora. Luis Fernando Verissimo, Lya Luft, Rubem Fonseca, João Ubaldo Ribeiro, Paulo Coelho, Mario Prata, que vendem muito bem, jamais enfrentarão esse problema. E mais uns 50 nomes que embora não vendam tão bem assim trazem prestígio à editora porque já possuem uma obra consolidada ou mesmo com poucos livros possuem um trânsito favorável no meio. Como em qualquer área, no mercado editorial também o fato de você ser bem relacionado com os nomes certos, de preferência dentro das editoras, garante aquela boa edição básica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todos esses autores mal chegam a 50 nomes, talvez alguns mais, se tanto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas a maciça maioria é de gente que até ganha um prêmio polpudo em dinheiro de alguma instituição séria mas o autor é tão sério que não está aí para brincadeiras. Recluso em seus escritório, faz literatura de primeira porém não tem amiguinhos no meio e depende de que a editora aposte em seu livro. Como não existe mercado e ele, apesar de bom e de recentemente premiado (alías, o diabo é que é “recentemente”), ainda não construiu um público para si. Então, o editor o vê como um risco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Livro é um produto como qualquer outro. Esta é uma lei inviolável para 90% dos editores, dos excelentes aos médios. Os ruins só publicam se você pagar. E sendo um produto como outro qualquer, deve gerar lucro, caso contrário...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como gerar lucro se você tem a favor de si apenas o fato de ter escrito excelente literatura? Por acaso este país sabe lá o que é “excelente literatura”? Soubesse disso, e não comprava Paulo Coelho. Aliás, o mundo todo ignora o que seja, a ignorância não é privilégio no Brasil. Apenas somos um pouquinho mais especializados que a maioria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enfim, escrito o livro, na hora de procurar um editor decente prepare-se também para tomar tantos cuidados e agir com estratégias decisivas, observar detalhes ínfimos, agir com o rigor extremo, com a mesma obsessão que você teve na hora da criação artística. Publicar um livro numa boa editora é igualmente uma grande arte. Ou, no mínimo, tirar na loteria. (08/09/2009)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7659575339957537112-953533139426488831?l=bentancur.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bentancur.blogspot.com/feeds/953533139426488831/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7659575339957537112&amp;postID=953533139426488831' title='9 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/953533139426488831'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/953533139426488831'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bentancur.blogspot.com/2009/03/escrevi-e-agora.html' title='ESCREVI. E AGORA?'/><author><name>BENTANCUR</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17397945706691195345</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp2.blogger.com/_296zOjIvu2c/R_F9H73wKyI/AAAAAAAAAAs/Mx_DoNV9suo/S220/Paulo5.jpg'/></author><thr:total>9</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7659575339957537112.post-7268042538241113812</id><published>2009-03-07T09:55:00.000-08:00</published><updated>2009-03-07T10:15:19.494-08:00</updated><title type='text'>OUTROS INTÉRPRETES DO BRASIL</title><content type='html'>&lt;div align="center"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Que livros de ficção nacional um estrangeiro deveria ler para entender o Brasil e os brasileiros? Aqui um roteiro básico.&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Três maçudos volumes envoltos por uma atraente caixinha (Editora Nova Aguilar, 4.616 páginas, R$ 220,00), organizados e apresentados por Silviano Santiago, mostram-nos como nasceu, cresceu e virou no que virou este país. Uma seleção de títulos onde se pensou gênese, ascensão, crises, choques históricos de uma terra onde parece haver muita cordialidade de fachada em cima de muito drama soterrado. Entretanto, isso seria leitura indispensável, sim, mas dureza de leitura. Problema nosso.&lt;br /&gt;Agora, imagine um estrangeiro, instalado em algumas de nossas capitais, assolada pelas diferenças com que ele se depara. Vai se perguntar em que espécie de lugar, afinal, se meteu.&lt;br /&gt;Tais estudos esclarecem muita coisa, mas não parecem ser o caminho mais adequado – e muito menos o mais prazeroso. Desta forma, é melhor indicar para outro tipo de leitor, ou para nós mesmos, a bela série &lt;em&gt;Intérpretes do Brasil&lt;/em&gt; (a da caixinha), constituída pelos vol. 1: &lt;em&gt;O Abolicionismo&lt;/em&gt;, de Joaquim Nabuco, &lt;em&gt;Os Sertões&lt;/em&gt;, de Euclides da Cunha, &lt;em&gt;A América Latina&lt;/em&gt;, de Manuel Bonfim, &lt;em&gt;Populações Meridionais do Brasil&lt;/em&gt;, de Oliveira Viana, e &lt;em&gt;Vida e Morte do Bandeirante&lt;/em&gt;, de Alcântara Machado; vol. 2: &lt;em&gt;Retrato do Brasil&lt;/em&gt;, de Paulo Prado, “Introdução à História da sociedade patriarcal no Brasil” com &lt;em&gt;Casa-Grande &amp;amp; Senzala&lt;/em&gt; e &lt;em&gt;Sobrados e Mucambos&lt;/em&gt;, de Gilberto Freyre; vol. 3: “Introdução à história da sociedade patriarcal no Brasil” com &lt;em&gt;Ordem e Progresso&lt;/em&gt;, de Gilberto Freyre, &lt;em&gt;Raízes do Brasil&lt;/em&gt;, de Sérgio Buarque de Holanda, &lt;em&gt;Formação do Brasil contemporâneo&lt;/em&gt;, de Caio Prado Júnior, e &lt;em&gt;A revolução burguesa no Brasil&lt;/em&gt;, de Florestan Fernandes. Guarde esse tesouro na tal caixinha para vasculhá-lo durante meses a fio até que o nosso país percorra as suas veias, leitor, num fluxo natural.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto isso, socorra aquele viajante que não tem na alma a superfície leve dos turistas e deseja, de fato, entender o que houve aqui, quem habita essas terras, mas entender com o sabor de uma linguagem que lhe acaricie o ouvido e comova seu coração além de inquietar e iluminar sua mente.&lt;br /&gt;É hora de levar a mão àquela inestimável e sempre refeita listinha dos grandes escritores onde repousam as obras que atravessaram o tempo dando voz a quem tinha e a quem não tinha. Se depender da listinha, o viajante vai concluir que caiu num lugar raro, como poucos no mundo. No mínimo, um lugar capaz de produzir grande literatura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A espinha dorsal de nossa memória&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Esse arranjo de um &lt;em&gt;Intérpretes do Brasil&lt;/em&gt; ficcional tem que ser “reduzido”. (Não esquecer que nosso amigo viajante não teria fôlego nem vontade de ler uns 50 títulos.) Formado por, digamos, dez nomes, a lista deixará de fora coisas boas (Manuel Antônio de Almeida, Machado de Assis, alguns poetas). O consolo é que, aqui, se tratam de dez grandes nomes. Grandes nomes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;O cortiço&lt;/em&gt;, de Aluísio Azevedo (1890). – Primeira década republicana. A vida na periferia do Rio de Janeiro. O embrião do que hoje seria uma favela. Esse romance naturalista fala do dia-a-dia na pobreza extrema disfarçada pelo riso alimentado nos botecos e na inocência do ambiente miserável de quem quer sobreviver a qualquer custo, confundindo essa sobrevivência com vivência. O personagem principal é o próprio povo, no que tem de mais caricato e mais real.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Triste Fim de Policarpo Quaresma&lt;/em&gt; (1911), de Lima Barreto. Espécie de Dom Quixote brasileiro, o protagonista cria planos absurdos para salvar o Brasil. Tenta produzir o ciclo de ouro da agricultura nacional, a que as formigas cortadeiras reduzem a pó. Tenta recuperar a “autêntica” língua nacional, o tupi-gurani, falado pelos índios que aqui moravam, tenta aliar-se às forças do sanguinário Marechal Floriano Peixoto (governo 1891-1894), imaginando estar ajudando a preservar a legitimidade de um poder que irá prendê-lo e executá-lo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Vidas secas&lt;/em&gt; (1938), de Graciliano Ramos. As personagens agem como animais, e o mais humano talvez seja a cachorra da história. No Nordeste assolado pela seca, o caboclo sem teto, sem comida, sem rumo, com família a quem ama sem nem saber dar nome a esse amor, precisa safar-se e safá-los. Como? A terra e seus donos não são fonte nem ouvido para suas queixas num livro onde a seca reside até na forma como foi escrito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Terras do Sem Fim&lt;/em&gt; (1942), de Jorge Amado. A luta pela terra sob os desmandos dos coronéis, reis no sertão embrutecido. A civilização resume-se a cidades onde a modernização é pífia. O ciclo do cacau é tratado de forma implacável. O livro é sangüíneo, erótico, e se localiza numa região litorânea à mercê do comércio internacional, extirpando as riquezas locais e provocando os donos das regiões cacaueiras a ampliarem suas posses sertão adentro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;O tempo e o vento&lt;/em&gt; (1949-1962), de Erico Verissimo. O mais extenso painel ficcional histórico do País. No caso, o da formação e fixação do Rio Grande do Sul. Trilogia dividida em diversas novelas que descreve como um épico a terra fronteiriça eternamente sob disputa, os costumes peculiares na relação com regiões tão distantes do mesmo Brasil, o linguajar contaminado pelo espanhol das fronteiras e um caráter severo do nativo da região, contraído pela permanente tensão dessa disputa (sobretudo na I Parte, &lt;em&gt;O Continente&lt;/em&gt;).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Grande sertão: Veredas&lt;/em&gt; (1956), de Guimarães Rosa. Aqui há problemas. Como um viajante, pouco familiarizado com o português, poderá entender este romance? E não é apenas porque Rosa deitou e rolou com a linguagem. É pelo livro como um todo, a estrutura, de um parágrafo só, um tijolo. Um jagunço, do centro-oeste de Minas, passando pelo sudoeste da Bahia e atingindo o leste de Goiás, enfrenta as piores feras, as humanas e as sobrenaturais. Há batalhas sangrentas onde um mundo primitivo (República Velha, 1889-1930) mostra sua cara e sua voz. Há à fé demoníaca e imprevisível de uma realidade que aos poucos se “acomoda”, isto é, se aceita. Numa mistura de prosa regional e poética com filosofia minando o espaço da ficção. Ou seja, o bruto pensa, além de sentir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;O coronel e o lobisomem&lt;/em&gt; (1964), de José Cândido de Carvalho. A linguagem também exige um pouco. Mas bem menos que no livro anterior. Um coronel da Guarda Nacional, herdeiro de terras no interior do estado do Rio de Janeiro, conta da infância, herança, perdas e recuperações, lutas e disputas de bens contra a canalha como meio social vigente. Sendo ele o narrador, os elementos do fantástico que o escritor elege ganham relevo,  inspirados nos causos do meio rural, cuja oralidade destravada e uma riqueza sintática dão ao texto um raro sabor narrativo. O imaginário é de fato popular: aparição de lobisomem, assombrações, sacanagens sem conta do protagonista, um humor quase puro não fosse alimentado pela força de suas ações. A geografia é mais litorânea e a perspectiva do narrador fica entre o absurdo e o gaiato. Parece outro mundo. E é Brasil.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Quarup&lt;/em&gt; (1967), de Antonio Callado. O romance político que cobre nossa segunda ditadura, a que veio com o Golpe de 64. Comunistas e reacionários, Igreja dividida entre suas dívidas com o Estado e com o homem enquanto ser livre para servir apenas à fé que escolheu, sendo esta a da generosa doação de sua alma ao bem comum – e o bem comum nunca será servir aos poderosos de plantão. Restauradora crônica da alma brasileira, dentro da qual ainda gritam os fantasmas indígenas, ameaçados da morte até mesmo de sua memória (pois é essa alma que deve ir a inquérito, diz um militar a certa altura do livro). Há tortura, há autodilaceramento, há resistência, e há a grave desconfiança de que o País está se perdendo em si mesmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Feliz ano novo&lt;/em&gt; (1975), de Rubem Fonseca. Contos numa prosa imperturbável, num naturalismo que às vezes beira a poesia do imenso poder de sugestão que tem o explícito espetáculo do cruel sem o acompanhamento retórico da dor. Fonseca escreve como um psicopata munido de uma erudição capaz de dar os detalhes de sua terrível operação de extermínio, sem a mínima complacência com o leitor e a emoção que causa. É como se sua prosa fosse filtrada por uma espécie de silenciador a abafar o tiro que as histórias deflagram. Tiro certeiro a denunciar a violência urbana, o pesadelo que se vive em pleno dia nas cidades grandes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;A hora da estrela&lt;/em&gt; (1977), de Clarice Lispector. Embora autora consagrada pela via psicológica, foi dela esse emblemático caso do êxodo rural, tratado por tantos outros autores mas não de forma tão tocante e convincente. A vidinha de Macabéa, a heroína, dá o tom que mergulha o leitor na sufocante atmosfera de vazio daquela existência. O beco sem saída do migrante nordestino na cidade grande, caminhando, na sua desafortunada busca por uma ascensão social mínima, para um fim trágico onde o malfadado acaso parece não ter papel algum além de deixar claro que para destinos assim não há solução favorável.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outros títulos poderiam compor essa lista. Nela, porém, o Brasil já se reflete inteiro num real cuja natureza só é proposta pela ficção que produz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez não seja só o viajante que precise descobrir isso. (07/03/2009)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7659575339957537112-7268042538241113812?l=bentancur.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bentancur.blogspot.com/feeds/7268042538241113812/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7659575339957537112&amp;postID=7268042538241113812' title='74 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/7268042538241113812'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/7268042538241113812'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bentancur.blogspot.com/2009/03/outros-interpretes-do-brasil.html' title='OUTROS INTÉRPRETES DO BRASIL'/><author><name>BENTANCUR</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17397945706691195345</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp2.blogger.com/_296zOjIvu2c/R_F9H73wKyI/AAAAAAAAAAs/Mx_DoNV9suo/S220/Paulo5.jpg'/></author><thr:total>74</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7659575339957537112.post-2093726807088535890</id><published>2009-03-07T09:41:00.000-08:00</published><updated>2009-03-07T09:42:30.168-08:00</updated><title type='text'>AS TRÊS FACES DA PALAVRA</title><content type='html'>Eu não irei falar de Haroldo de Campos, não porque não queira, mas porque não é preciso, sobretudo porque gente muito mais capacitada que eu na matéria pode falar melhor.&lt;br /&gt;Eu não irei falar do poema concreto, do movimento dos irmãos Campos e o amigo deles, o Décio Pignatari, na década de 50, da guinada radical contra o discurso que inundava e fragilizava, com sua gordura verbal, o poema brasileiro naquele tempo.&lt;br /&gt;Não, eu não irei falar de &lt;em&gt;Galáxias&lt;/em&gt;, esse monumento, que me cansa (ante minha frágil prosa) enquanto me encanta e me coa os excessos e as previsibilidades de ritmo.&lt;br /&gt;Eu não irei falar da arte que se desenha com traço – no exercício da plasticidade –, da presença da concretude ainda no mesmo exercício, ou do cotidiano e seus instrumentos aparentemente despretensiosos dando em objetos estéticos que se revelam outra coisa e nos escapam enquanto nos habitam.&lt;br /&gt;Repetidamente surpreso – e daí sempre renovado, o fôlego suplantando o esgotamento anunciado pela falência de formas confortáveis –, eu vivo a experiência diária do verbo que me respira. Dele me nasço e nele ressuscito dos silêncios quando estes representam tão-somente um beco sem saída.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A FALA QUE CALA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu falarei da natureza esquiva e generosa, ao mesmo tempo, da palavra que se esconde em si mesma e se exibe além do seu significado ou do seu som. A palavra como desenho, essa me interessa. A palavra como objeto, essa me interessa. A palavra como convivência, na maioria das vezes rio raso no qual molho os pés para atenuar o cansaço da caminhada.&lt;br /&gt;Disso falarei, disso falo agora. Do falar. Do escrever. Do ato quase cego de ir pondo de um ponto em diante uma palavra atrás da outra até que não possa mais, até que chegue, até que pare porque a soma de sons me pede, porque o sentido se dá por satisfeito, porque o cansaço da mão corresponde ao cansaço da mente e nesse turvo esgar de socorro por paz que a alma reclama brota uma espera ou um fim. Sempre por enquanto.&lt;br /&gt;Eu quero falar do que a frase não pode, podendo. Ela não pode ir atropelando enquanto, aleluia!, corre célere pelo espaço antes em branco agora pulverizado por letras que se aliciam em vocábulos que se olham e se separam ou unem como uma operação comum, única, negando e reafirmando o que outros já teriam dito (claro, outra coisa), e essa operação apenas quer pular essa etapa óbvia do recado e inseminar – sem artifício – o óvulo de temperatura branda do branco que aceita sem receio o recreio sério do vocabulário que se enleia em meio aos sinais comuns de uma sintaxe rotineira.&lt;br /&gt;E nem mesmo – ainda que um pouco – o poundemonium de Júlian Rios, em sua larva babélica de combinações que recuso porque o discurso, se se liberta do diálogo ou do narrar ao ouvido preguiçoso, condena-se à repetição de cair sem parar no fosso colossal onde os sons, se cabem todos, se ocultam também. E já não podem ser vistos.&lt;br /&gt;Eu quero não o que sei e nem o que não sei, eu quero o querer de poder fazer com que o verbo reverbere e reverta em mais verbo sem a verve que sofre não de soberba, mas de assoberbamento, eu quero a palavra que cala aquilo que o que fala consente, entregando-se sem luta. Eu quero a lua da pedra que é fruta sem polpa nem casca nem sumo mas pode tudo e fere todos os rumos dos satélites que crêem possuir uma luz que não é sua.&lt;br /&gt;Eu quero o fm do vale onde não florescem rimas, o cimo da montanha onde tamanha é a ausência e esse vazio vaza tanto o pleno quanto o plano onde se desenha a rua. Eu quero não o jogo, menos ainda o jugo, nem o logro, mas logo o oco do colo onde o calor dança com as moléculas de uma forma sem fôrma, o anonimato sem esconderijo, o brilho sem ruído, o ápice discreto, o fértil corroído pela espera de que qualquer nome brote.&lt;br /&gt;E brota, embora não se nota que o inominado sacuda as asas sem desenho, sem ar que as reconheça, sem atmosfera para abraçar um ser em cujas costas elas se seguram.&lt;br /&gt;Três faces desenham essa palavra. Três caras a anunciam. Três bocas falam por ela.&lt;br /&gt;A que escorre por fora do que é dito por todos, a boca que sugere com o molho que muda o sabor da carne. A que finge acompanhar mas sobrevoa a procissão como um anjo negro ou dourado capaz de ser visto somente quando o autor estiver morto. Esta é uma face.&lt;br /&gt;E a segunda. A que não escorre, mas estanca, e fica, cristal, fixa e pétrea, audível apenas por aquele que aproxima o ouvido (ou o olho) do vocábulo ou um conjunto deles imerso num caldo ralo de palavras saturadas em frases presas fáceis da fome apressada dos que não escrevem como quem descobre nem descortina. Isto é, a face/boca da palavra que se nega a ser o que necessitam, recusa de cura, suicídio verbal diante dos mimos fúteis.&lt;br /&gt;E, também – a terceira –, a face severa da palavra lamentosa de sua própria condição, que se arrasta sem afastar-se da via crucis que lhe é destinada, que não foge um só instante (nem letra) do seu desenho exato de ser mirrado e exato, defunto sólido e desolado.&lt;br /&gt;Escolho, assim, o que representa meu escolho, sobra, resíduo tornado fortuna, exuberância de errar sendo livre por não lhe pertencer nem a fortuna de ser lido, que dirá compreendido. Reescrever é o que cabe, a busca pelo aparente brusco susto que é topar com uma sílaba onde não caibo, nunca palavras nas quais a história se crê redonda como um círculo sem circo, nunca ignorando a música que fala desde o vento antes de mim e nem o desenho que ainda no átomo tirou fotos primeiro, quando nem meu trisavô supunha um soneto, seres, que dirá netos, e isso porque o que em regra é dito é sempre um mundo com palavras de uma só cara, palavras baratas, um mundo que as usa com um fim que o salva enquanto ele as mata. (07/03/2009)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7659575339957537112-2093726807088535890?l=bentancur.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bentancur.blogspot.com/feeds/2093726807088535890/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7659575339957537112&amp;postID=2093726807088535890' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/2093726807088535890'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/2093726807088535890'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bentancur.blogspot.com/2009/03/as-tres-faces-da-palavra.html' title='AS TRÊS FACES DA PALAVRA'/><author><name>BENTANCUR</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17397945706691195345</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp2.blogger.com/_296zOjIvu2c/R_F9H73wKyI/AAAAAAAAAAs/Mx_DoNV9suo/S220/Paulo5.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7659575339957537112.post-5362706779423007906</id><published>2009-03-03T14:39:00.000-08:00</published><updated>2009-03-03T14:42:39.631-08:00</updated><title type='text'>PEQUENO DEBATE SOBRE FACILIDADES DO JULGAMENTO MORAL</title><content type='html'>J. R.:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois foste chorar pitangas no blog através de um personagem aí, clássico, o "cara", e te deram de relho, que tal?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu ri à socapa, naturalmente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;BLOGUEIRO:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois ou eu errei na medida ou os caras não sabem ler. Negócio seguinte: eu não quis mostrar um pobre-coitado do qual todos devessem apiedar-se, nada disso. Eu quis mostrar que quando o cara tá fodido a galera INSISTE em ficar se fresqueando, mandando baboseira, e, o pior!, fazendo julgamento moral de por que o cara chegou àquele ponto. É como se eu, no post, tentasse dizer (inutilmente, vejo agora): "deixem o pobre homem em paz!" Se não for pra ajudar (eu não estava pedindo penico), larguem de mão o sujeito, deixem-no no silêncio do buraco onde se enterrou que uma hora ele sai de lá. Mas os MESMOS "amigos" de quem eu falava (sem citar nomes) continuaram com a mesma postura, que, aliás, é a atual, consagrada: &lt;strong&gt;a apologia dos fortes&lt;/strong&gt;. Tipo: tem que aguentar porrada de instituição financeira (as mais demolidoras) e ficar sorrindo, ainda por cima, e não dizer nada. E quando algum espertalhão vier com gracinha, o cara, atolado, nem pode chiar com a inconveniência deles. Ah, não!...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;J. R.:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois o "cara", no post seguinte, resolveu pentear o cabelo e seguir em frente. Boa! É isso, mais ou menos como o goleiro que busca a bola no fundo da rede e dá um bicão pro meio do campo. Pra recomeçar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;BLOGUEIRO:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É. Acho que me recuperei no post seguinte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;J. R.:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois pra variar hoje estou com a sensação de que não estou rendendo.&lt;br /&gt;Às vezes invejo os manivelas em geral, que descarregam, ou carregam, alguma coisa e era isso. Tá feito, até a próxima.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;BLOGUEIRO:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No mundo atual ("mundo"? NÃO ESTOU CHORANDO AS PITANGAS DERRAMADAS), o cara NUNCA ESTÁ RENDENDO. Só serve se produzir desumanamente. Voltamos ao tempo da febre do ouro no Alaska. E estamos lascados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;J. R.:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois eu acho que tu não andas rendendo, velho, esse é o problema. As pessoas têm toda a razão de grudar um chiclete no teu cabelo quando te vêem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;BLOGUEIRO:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E elas por acaso andam rendendo? E se não, achas que eu ia perder meu tempo grudando chiclete no cabelo delas? Sou tão santo assim?! Não, apenas a civilização me ensinou o mínimo: a fazer silêncio diante das derrotas contingentes (mesmo continuadas) e a não exagerar os méritos dos vencedores (vitória que a História tem mostrado como resultado, digamos, não muito legítimo...). (03/03/2009)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7659575339957537112-5362706779423007906?l=bentancur.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bentancur.blogspot.com/feeds/5362706779423007906/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7659575339957537112&amp;postID=5362706779423007906' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/5362706779423007906'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/5362706779423007906'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bentancur.blogspot.com/2009/03/pequeno-debate-sobre-facilidades-do.html' title='PEQUENO DEBATE SOBRE FACILIDADES DO JULGAMENTO MORAL'/><author><name>BENTANCUR</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17397945706691195345</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp2.blogger.com/_296zOjIvu2c/R_F9H73wKyI/AAAAAAAAAAs/Mx_DoNV9suo/S220/Paulo5.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7659575339957537112.post-1822600510519131103</id><published>2009-03-01T10:34:00.000-08:00</published><updated>2009-03-01T10:35:54.637-08:00</updated><title type='text'>RECOMEÇAR DO FIM</title><content type='html'>A vida tem seus truques, minúsculos milagres que fazem da morte repetida, contida nas contingentes misérias, um engano provisório. Não foi engano, talvez: morreu-se ali. Mas foi provisório, de fato, e a vida – que só cessará sobre o planeta sabe-se lá quando – dá um jeito de reacomodar os destroços.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O vitimado não os esquecerá, é certo. Mas bastam alguns acenos ou o evento certo, aquele acontecimento que faz diferença (e quando menos esperamos por ele, ele vem), e pronto, o ser que se ressentia disposto quase à desistência definitiva percebe que está se precipitando. Que os amigos são tão impotentes como ele mas também tão capazes como ele. E se são amigos, nada como a ponte da palavra para que uns passem para a ilha onde o outro está.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Apocalipse, palavra-de-ordem nas atuais igrejas políticas, convence mais aos crédulos que aos céticos. E se este homem, descrente, cansou-se do baile de máscaras (não intencional) enquanto o ritmo do mundo lhe soava como um terremoto, é hora de lembrá-lo que a Literatura, que tanta vida lhe tem dado, é feita de reescritura mais que de escritura, e de revisões e de cortes, aparas, acréscimos, ajustes. Isso serve perfeitamente à vida, sem cujas medidas seria apenas o tédio dos que nasceram em berço de ouro, ou o fim antecipado dos desistentes de tudo por pura preguiça, palavra vergonhosa cujo sinônimo mais nobre seria niilismo. “Vai lá, rapaz!”, ele diz a si mesmo. Ajeita o cabelo e vai. Tem chance de dar certo. (01/03/2009)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7659575339957537112-1822600510519131103?l=bentancur.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bentancur.blogspot.com/feeds/1822600510519131103/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7659575339957537112&amp;postID=1822600510519131103' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/1822600510519131103'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/1822600510519131103'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bentancur.blogspot.com/2009/03/recomecar-do-fim.html' title='RECOMEÇAR DO FIM'/><author><name>BENTANCUR</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17397945706691195345</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp2.blogger.com/_296zOjIvu2c/R_F9H73wKyI/AAAAAAAAAAs/Mx_DoNV9suo/S220/Paulo5.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7659575339957537112.post-7096198142099834281</id><published>2009-02-27T18:41:00.000-08:00</published><updated>2009-02-27T18:42:09.435-08:00</updated><title type='text'>SEM GRANA E SEM GRAÇA</title><content type='html'>O cara tava devendo para quatro bancos, cinco financeiras. SPC, Serasa, Banco Central. Perdera a fome há dois meses.&lt;br /&gt;O cara tava com quatro meses da escola da filha atrasados. Já havia começado o novo ano e nem a rematrícula fora paga. E era a primeira escola na qual ela se adaptara. O cara não tinha vontade de ver filmes, de escutar música, de parar à janela e olhar a rua lá fora como um ser qualquer.&lt;br /&gt;Sentia-se perseguido, com a pressão – cada vez mais forte – de quem está sendo perseguido, será preso, surrado, algo assim.&lt;br /&gt;Humilhado já estava sendo, há muitos meses. Uma humilhação que ele sentia sobretudo quando via, na escola da filha, a abissal diferença entre o que ela recebia na comparação ao que os colegas recebiam. Tirá-la de lá para pô-la numa pior só porque era mais barato? A obrigação de dar-lhe a melhor educação passava pela consciência em casa mas não evitava o desfecho de proporcionar-lhe que estudasse numa escola de ponta. Essa conta ele TINHA de pagar.&lt;br /&gt;O cara não tinha emprego, e os empregos possíveis pagavam salários que nem chegavam a fazer frente aos juros da dívida que ele contraíra como um tipo de herpes genital. E herpes, como acúmulos de dívidas, não têm cura.&lt;br /&gt;Havia amigos. Havia amigas. Havia admiradores e admiradoras.&lt;br /&gt;Estes lhe diziam: “Pô, cara, vê se te ajeita!” Como se bastasse a consciência e a vontade e a decisão de ajeitar-se.&lt;br /&gt;A cada vez que assaltavam um banco sem ferir ninguém, ele sorria. E pensava: “os verdadeiros assaltantes foram assaltados.”&lt;br /&gt;O cara devia três meses de aluguel e a imobiliária entregara a situação a advogados que ameaçavam entrar com uma ação de despejo em uma semana se ele não conseguisse cumprir com um acordo que o oneraria, além do aluguel no mês seguinte, mais 50% do valor como um acerto durante oito meses pelos três atrasados.&lt;br /&gt;Uma amiga disse-lhe: “entre amigos, dívidas não são nada. O pior são dúvidas.” Perfeito, filosoficamente – mas um conceito tão nobre só brota em quem não afundou no buraco que o cara estava.&lt;br /&gt;Até o pescoço.&lt;br /&gt;Mandavam-lhe fotinhos de um mundo perfeito, colorido, com fundo melodioso e açucarado. Ele assistia aquilo de olho no relógio do computador e sentindo a sudorese nas mãos, prontas a continuar, no teclado, o trabalho que entregue em tempo recorde pagaria uma das três contas da semana.&lt;br /&gt;Mandavam-lhe a alegria estampada num universo de implacável desarmonia como se tudo estivesse bem – e estava, entre os que lhe mandavam isso –, e a intenção era boa, mas o diagnosticado perdera definitivamente o faro para flores e o que o esperava, mais tarde, eram os repetidos terrores noturnos.&lt;br /&gt;Surpreendia, ironicamente, que ainda o notassem.&lt;br /&gt;Na verdade, não o notavam.&lt;br /&gt;Notavam o que ele fora, talvez, o que ele poderia talvez ser, a idéia fantasiosa que uma pessoa – mesmo destruída pela doença mortal da dívida  – passa aos demais porque a distância protege o horror que a engole e a morte que a carrega para longe da vida dos que vivem e não notam o que a cada dia vai desaparecendo.&lt;br /&gt;Era o que o consolava.&lt;br /&gt;“Um dia eu desapareço definitivamente.”&lt;br /&gt;Mas isso ia demorar. O diabo é que ia demorar, e como! Ele estava na meia-idade e sua expectativa de vida era de mais um quarto de século. Teria de aturar o discurso moralista dos exemplares homens que serviam de referência para seu círculo, e também da generosa (e inútil) esperança dos que ainda insistiam em incluí-lo no mesmo círculo quando ele já não dispunha nem mesmo das pegadas que sua trajetória nos últimos 30 anos deixaram em sua vida e que os mais recentes destroços apagaram a tal ponto que nem ele tinha como localizar os lugares certos, as ações adequadas, exemplares, de sua própria autoria, autoria que agora ele era o primeiro a negar – pela impossibilidade de repeti-la.&lt;br /&gt;Corria o risco de ter de morar de favor. De levar a filha para uma escola pública. De completar três anos sem comprar um livro, um CD, de não gastar R$ 10,00 num presente para ninguém, independente da importância que tivesse.&lt;br /&gt;Falido, tornara-se um pesteado que só se aproximaria de alguém para pedir socorro ou um empréstimo pessoal. Empréstimo que não pagaria tão cedo. Um grande contingente, percebendo isso, afastava-se como quem se afasta de alguém com hanseníase.&lt;br /&gt;A sua biografia, diziam alguns, estava sendo rasgada por ele.&lt;br /&gt;Enquanto isso, a cada dois, três meses, ele rasgava um carnê, enfim pago. Mas ainda havia muitos carnês para rasgar.&lt;br /&gt;E também admiradoras que falavam em “saudade”, que o elogiavam (manifestações que, claro, lhe faziam bem), e que só aumentavam a dívida – afinal, isso não era um consolo, era quase um deboche.&lt;br /&gt;Num ponto ele concordava. Também nele a saudade era grande. A de muitos anos atrás, quando ele não devia e não era objeto do julgamento moral dos que não sabem o que é uma grande queda nem o objeto deslocado da admiração dos que se encantam com o que um homem agonizante foi um dia.&lt;br /&gt;Foi. (27/02/2009)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7659575339957537112-7096198142099834281?l=bentancur.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bentancur.blogspot.com/feeds/7096198142099834281/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7659575339957537112&amp;postID=7096198142099834281' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/7096198142099834281'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/7096198142099834281'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bentancur.blogspot.com/2009/02/sem-grana-e-sem-graca.html' title='SEM GRANA E SEM GRAÇA'/><author><name>BENTANCUR</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17397945706691195345</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp2.blogger.com/_296zOjIvu2c/R_F9H73wKyI/AAAAAAAAAAs/Mx_DoNV9suo/S220/Paulo5.jpg'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7659575339957537112.post-7853986178553456228</id><published>2009-02-23T13:27:00.001-08:00</published><updated>2009-02-23T14:15:50.341-08:00</updated><title type='text'>UM SITE QUE VAI ALÉM</title><content type='html'>Certos sites não basta citar. É preciso mencioná-los mais detidamente. Com nome, endereço, e algumas considerações para os mais apressadinhos que talvez só a indicação de um bom lugar para ser visitado não baste. É o caso do site da escritora – mais especificamente contista e poeta – Cida Sepulveda, campineira na geografia mas com um imaginário que transcende, não pela geografia, mas pela contundência de estilo e cenas que podemos comprovar nos livros de poemas &lt;em&gt;Sangue de Romã&lt;/em&gt; (Scortecci, 2004) e &lt;em&gt;Fronteiras &lt;/em&gt;(Pontes, 2008), e no de contos &lt;em&gt;Coração marginal&lt;/em&gt; (&lt;em&gt;Bertrand Brasil&lt;/em&gt;, 2007).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vá direto, sem escalas, a este destino, onde os fracos não têm vez: &lt;a href="http://www.cidasepulveda.com/"&gt;&lt;strong&gt;www.cidasepulveda.com&lt;/strong&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lá você vai encontrar nove entrevistas de arrepiar: com Marcelino Freire (esse boca-suja genial), Fabrício Carpinejar (na rotineira exuberância); Álvaro Alves de Faria (um dos nossos grandes poetas vivos, poeta que se demitiu do Brasil e, fiel à língua, aderiu a Portugal, num gesto desconcertante a deixar leitores e – devia – editores de sobreaviso); José Castello, um raríssimo exemplo de rigor e generosidade aliados à melhor crítica possível e constante no país (uma espécie de leitor ideal); Moacyr Scliar, que, depois de dezenas de entrevistas, dá nesse site um de seus mais completos depoimentos; Gonçalo M. Tavares, o português acima de qualquer classificação, provando que Portugal é prodigioso: além de Saramago e Lobo Antunes, tem Gonçalo; Maurício Melo Jr., o homem-livro do Brasil, um militante da divulgação desse produto bastardo e desses personagens definitivamente marginalizados não fosse a resistência e inventividade de Maurício, a dar visibilidade ao autor nacional até mesmo na televisão; Suzi Sperber, oxigênio na academia, visão crítica aguda e democrática para além dos muros universitários; e, claro, eu, numa entrevistas sem contemplações que Mario Goulart orquestrou e que Cida, com muita coragem e competência, editou. Autor exposto, sem pose ou abrandamentos. Como é do jeito de Cida. A generosidade da coragem e, a partir dela, o atalho até a verdade onde ela nasce com a forma e as idéias mais densas e mais incômodas. O leitor não deseja adormecer. O site de Cida Sepulveda, dando voz a outros autores, além da própria e intensa voz da autora, sacode-nos do disfarçado sono eterno. É ir correndo conferir. E depois retornar bem devagar, saindo desse site pensativos, transformados, transtornados, quase claudicantes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://www.cidasepulveda.com/"&gt;http://www.cidasepulveda.com/&lt;/a&gt; é Tarantino ou os Irmãos Coen a serviço da literatura, para quem gosta de referências cinematográficas. Para quem quer referências literárias mesmo, os nomes dos convidados dizem tudo, a começar pelo de Cida, a responsável pela saudável carnificina. "Carnificina"?! Acho que exagerei. Reflexo de tanta sensibilidade e talento revelados através de uma força que o ambiente do site propicia, sem espaço para a retórica beletrista. (23/02/2009)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7659575339957537112-7853986178553456228?l=bentancur.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bentancur.blogspot.com/feeds/7853986178553456228/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7659575339957537112&amp;postID=7853986178553456228' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/7853986178553456228'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/7853986178553456228'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bentancur.blogspot.com/2009/02/um-site-que-vai-alem.html' title='UM SITE QUE VAI ALÉM'/><author><name>BENTANCUR</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17397945706691195345</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp2.blogger.com/_296zOjIvu2c/R_F9H73wKyI/AAAAAAAAAAs/Mx_DoNV9suo/S220/Paulo5.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7659575339957537112.post-4143277010168509831</id><published>2009-02-21T10:04:00.000-08:00</published><updated>2009-02-23T13:27:06.064-08:00</updated><title type='text'>O PREÇO DA AMBIÇÃO</title><content type='html'>O empresário (palavra que neste caso exigiria um adjetivo mortal, que por decoro declino aqui de utilizá-lo) e ex-deputado Sérgio Maya, 66 anos, responsabilizado pelo desabamento de um condomínio – o Palace II, na Barra da Tijuca, Rio, em 1998 –, com a morte de 8 pessoas e 150 famílias (quantas pessoas?) jogadas ao desabrigo (não é outra forma de morte, sem nenhum exagero retórico aqui?), acaba de falecer, causa: infarto agudo. Isso ocorreu na madrugada de sexta-feira, dia 20, antes que sol raiasse como ainda não raiou para muitas dessas vítimas que esperam há onze anos – data da tragédia do Palace – indenizações que em sua maioria não ocorreram por alegação do sentenciado de que não possuía mais bens – arrestados – para pagar os estragos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Maya morreu e isso nada representa. De bom, talvez, só o caso de que em Ilhéus, BA, onde se encontrava, não prosseguirá com seus planos de novas construções. Nesse tempo que passou, andou preso apenas alguns meses, foi solto, pagou algumas indenizações, teve bens leiloados (processo que se arrasta até hoje) para fazer frente às reposições de 120 famílias com ganho de causa. O percentual que viu a cor do dinheiro até agora foi ínfimo. O sujeito continuou a agir, inocentado diversas vezes e julgado outras tantas das irregularidades da construção (material de categoria inferior ao anunciado, para começo de conversa).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A saúde acusou o baque, claro. Se a justiça funciona mais ou menos (menos que mais), a do corpo é mais incisiva, e não quer nem saber. Ele carregava na alma esse peso de toneladas que acabaram por fim em derrubá-lo. Se por acaso não foi a consciência culpando-o, foi a própria ambição buscando salvaguardá-lo do que não podia salvá-lo jamais: ele próprio, destinado, pela trajetória, a implodir-se.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O velório é grande. Não de Sérgio Maya, onde palavras como dor, perda, lágrimas etc. nem passam pela cabeça de quem se debruça sobre a notícia, mas o de provavelmente mil pessoas ou mais, atingidas pela construção de um prédio que a Sersan – também com bens leiloados –, empresa que ele dirigia, como uma entidade abstrata perpetrou um dos grandes genocídios do final do século XX no País. Aquele tipo de genocídio que os responsáveis podem chamar de acidente, acaso, tragédia imprevista ou que expressão quiserem. Os únicos que estarão velando o corpo de Sérgio Maya. E, claro, algum familiar, com o mesmo sangue mas, espero, com outra noção de justiça e com uma ambição que não se alimente de vítimas mas das iniciativas responsáveis, cada vez mais raras, quase um milagre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As vítimas do Palace II nada ganham com essa morte. Mas desconfio que ganham, e muito, prováveis futuras vítimas, uma vez que recentemente foram apontadas irregularidades até mesmo num projeto que Maya havia, duas isquemias depois, apresentado em Ilhéus para um Centro de Convivência para idosos na Praia de Cururupe. Mesmo à sombra da morte (que talvez ele não pressentisse), a ambição suplantava o passado, comprometia o presente e impedia o futuro. Que se foi embora mesmo. (21/02/2009)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7659575339957537112-4143277010168509831?l=bentancur.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bentancur.blogspot.com/feeds/4143277010168509831/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7659575339957537112&amp;postID=4143277010168509831' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/4143277010168509831'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/4143277010168509831'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bentancur.blogspot.com/2009/02/o-preco-da-ambicao.html' title='O PREÇO DA AMBIÇÃO'/><author><name>BENTANCUR</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17397945706691195345</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp2.blogger.com/_296zOjIvu2c/R_F9H73wKyI/AAAAAAAAAAs/Mx_DoNV9suo/S220/Paulo5.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7659575339957537112.post-347528745549184728</id><published>2009-02-15T08:56:00.000-08:00</published><updated>2009-02-15T09:32:34.407-08:00</updated><title type='text'>TURISMO LITERÁRIO: A CIDADE NA LITERATURA, A LITERATURA NA CIDADE</title><content type='html'>A ficção enfim chega ao mundo real. Não é verdade. Chegou há muito tempo, nós é que não nos dávamos conta. Assim como percebíamos que o mundo real chegava na ficção, mas, distraídos, acabávamos separando-os e, assim, empobrecendo o mundo real – porque o mundo imaginário, dele resultante, direta ou indiretamente, o recriava, o potencializava, o embelezava, o engrandecia, o enriquecia, o reconhecia.&lt;br /&gt;Aceitando esse obstáculo (nosso olhar viciado) a impedir cidades e seus artistas de se misturarem nas ruas, nas praças, na geografia, enquanto de fato retratavam-se mutuamente, perdemos muito dos escritores, no caso específico da literatura, naquele aspecto de sua obra onde o cenário acaba fatalmente personagem.&lt;br /&gt;Perdemos demais na cidade pela qual circulamos, cegos ao que a literatura dela já mereceu que a cidade mesma trouxesse para fora dos livros o que nos livros não podia ficar escondido, sugerido. E a cidade – em pedra, em bronze, em traços, em logradouros, em feições físicas – concretiza o que um imaginário edificou em palavras mas ali está ao alcance de nossos olhos, mais que miragem: presença táctil.&lt;br /&gt;A literatura é uma via ampla demais para ser descartada na hora de conhecermos um lugar, uma cidade, um país. E na cidade, convém lembrar, a literatura não está apenas nas bibliotecas, nas livrarias, nas editoras, nas academias, nas casas dos escritores – ou nalguma sala onde um leitor concentrado mergulha fundo em um lugar, local, prédio, escada, janela de um último vandar vertiginoso, sítio, espaço, mato, lagoa, mar, vila, estrada.&lt;br /&gt;Porto Alegre, de onde escrevo, não está apenas na Porto Alegre propriamente dita. Às vezes nem está nela mesma, mas em páginas da primeira fase de Erico Verissimo, como em &lt;em&gt;Caminhos cruzados&lt;/em&gt;, em &lt;em&gt;A Guerra no Bom Fim&lt;/em&gt; e &lt;em&gt;Os Voluntários&lt;/em&gt;, de Moacyr Scliar, em &lt;em&gt;Cães da Província&lt;/em&gt;, de Luiz Antonio de Assis Brasil. O Rio de Janeiro reside nuns cinqüenta textos de Machado de Assis, ou em &lt;em&gt;O triste fim de Policarpo Quaresma&lt;/em&gt;, de Lima Barreto. São Paulo nas &lt;em&gt;Novelas paulistanas,&lt;/em&gt; de Antônio de Alcântara Machado, ou no romance-rio &lt;em&gt;Balada da última cidade&lt;/em&gt;, de Renato Modernell. Alguns monumentos específicos, como a ponte Rio-Niterói, no conto "A maior ponte do mundo", de Domingos Pellegrini, autor que redesenha o interior do Paraná e suas sagas em &lt;em&gt;Terra vermelha&lt;/em&gt;. Leia Miltom Hatoum e Manaus, esse milagre irônico, aparece como jamais se mostraria em Manaus mesmo.&lt;br /&gt;Dá para fazer turismo sem sair de casa. E até mesmo atingir regiões fora do planeta (sem deixar de fazer parte dele), como a Macondo imaginária de Gabriel García Márquez. As sugestões são muitas. Só não cito aqui uma centena porque a dica foi dada e o resto é com vocês, leitores-turistas, capazes de encontrar com facilidade livros-lugares para visitar. (15/02/2009)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7659575339957537112-347528745549184728?l=bentancur.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bentancur.blogspot.com/feeds/347528745549184728/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7659575339957537112&amp;postID=347528745549184728' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/347528745549184728'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/347528745549184728'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bentancur.blogspot.com/2009/02/turismo-literario-cidade-na-literatura.html' title='TURISMO LITERÁRIO: A CIDADE NA LITERATURA, A LITERATURA NA CIDADE'/><author><name>BENTANCUR</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17397945706691195345</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp2.blogger.com/_296zOjIvu2c/R_F9H73wKyI/AAAAAAAAAAs/Mx_DoNV9suo/S220/Paulo5.jpg'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7659575339957537112.post-6482307899278229049</id><published>2009-02-14T04:53:00.000-08:00</published><updated>2009-02-14T05:09:44.067-08:00</updated><title type='text'>UM MILHÃO E MEIO DE LIVROS NA ESTACIÓN MAPOCHO</title><content type='html'>&lt;em&gt;Há dois anos eu visitava uma feira e um país que me impressionaram. Nada escrevi na época. Faço-o agora, dois anos atrasados, mas o tempo para os textos é benéfico. Quase sempre. Espero que seja este o caso.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outubro de 2007. Sou convidado para ir a 27ª Feira Internacional do Livro de Santiago, no Chile. Já estive em 50 feiras no interior do Rio Grande do Sul, desde a maior, a da capital, Porto Alegre, com 170 estantes, até uma em Cachoeira do Sul, com nove barracas que o sol tornava umas fornalhas. Já estive em feiras mais nobres, sim, no formato de bienais, como a de São Paulo e do Rio de Janeiro, onde Xuxa e Malu Mader (cujo marido, Toni Belotto, lançava um romance policial) arrastam multidões e só encontram rivais à altura num Pedro Bandeira ou num Paulo Coelho. Já um escritor sério, com rigor no projeto a que se propôs, autor de obra sólida, mexe com as atenções apenas por quinze minutos, meia hora se tanto.&lt;br /&gt;Além do meio do caminho de minha vida, vejo-me então perdido em selva obscura. Chile! Um outro país. Feira internacional. Quem sabe, o papo será outro. Feira de livro é feira de livro. Já vi tantas. Já li sobre tantas. A de Guadalajara, concorrida. A “mais importante”, em Frankfurt, aonde fui em 2006, não vale. É um centro luxuoso de negócios. Desinteressante sobre todos os aspectos, exceto os econômicos.&lt;br /&gt;A 8.000m de altura, com a velocidade média de 750km, o avião que me leva de Porto Alegre a Santiago parece parado no ar. Olho para baixo e vejo o Vale da Lua e, logo, o Deserto do Atacama. Legítimo tabuleiro, desenhado com as manchas regulares e tão liso como um mármore. Dessa distância, o céu sem nuvens, o ar limpo pela luz, o cenário é absolutamente irreal. Sinto piedade das centenas de fotos que vi até então. Estou entrando em outro planeta. O mundo é maior do que eu pensava e em cerca de 2.000km saio de uma paisagem afável para um quadro de Paul Klee pintado em tons de um cobre acinzentado.&lt;br /&gt;Depois a Cordilheira dos Andes. Meia hora de cumes de montanhas que sobrevoamos transversalmente e que parecem desbastadas a canivete; a neve mais se assemelha a uma cal ressecada, pintalgando aqui e ali. Tudo é menos impressionante no sentido de menos majestoso; paradoxalmente, desconcerta – tem a face da geografia de um mundo tirado do computador ou de uma dimensão remota ou futura demais para o nosso presente inoculado por uma topografia modesta.&lt;br /&gt;Descemos em Santiago e a cidade só aparece – suas construções, vias, pessoas ocasionais – no último minuto, como se, ultrapassada a cordilheira, visível de qualquer canto da capital, escondesse o território dos santiaguinos até o momento extremo, quando já perdi todas as referências, menos a da gravidade.&lt;br /&gt;Um taxista, gordo e risonho, que por isso mesmo me distrai e então me assalta em U$ 35.00 até o hotel localizado a 20km do Aeroporto de Santiago, fala bem do Brasil e diz que no futebol a bronca deles é com a Argentina. Claro, é em outras áreas também. Primeiro habitante com quem travo alguma intimidade, percebo, apesar de seu esforço de atenção, o formalismo. (No século XVI, antes da conquista dos espanhóis, parte do Chile era governada pelos Incas, daí a herança dessa postura de uma nobreza quase arrogante.)&lt;br /&gt;Chego no hotel. O cheiro de inseticida impregna tudo. Pergunto o que é. Tão acostumados ao cheiro, não sabem do que, afinal, reclamo. Outro problema: ligação interurbana internacional e a cobrar (preciso ligar para casa) nem pensar. Foi a Cordilheira que lhes deixou as telecomunicações comprometidas ou eles investem mal no setor? Ao contrário do Brasil, onde basta entrarmos em qualquer orelhão (no remoto universo andino a gente encontra um a cada 300 metros, e olhe lá) e ligar para Nova Yorque, Paris, Roma, Freiburg, no Chile no máximo você liga interurbano somente dentro do país. Passo alguns dias lá e vou embora sem saber se existe alguma forma de fazer a tal ligação. A cobrar (chamam de “cobro revertido”: fiquei com a expressão cravada como um trauma), a cobrar, meu caro, nem pensar. Pague (e o peso deles está bem pesado em comparação ao dólar: 2 U$ valem um peso chileno) e aí sim vencerá a Cordilheira e falará com a sua casa.&lt;br /&gt;Da sacada do hotel olho o horizonte em torno. Poucas casas, muitos prédios, cada um com uma solução arquitetônica diferente. A rua tapada de árvores que parecem transplantadas de outra região e ali postas para impedir que eu enxergue qualquer coisa. Só mulheres, vizinhas, esfregando febrilmente os vidros das janelas. E o cheiro de um spray que me recorda as matas brasileiras onde a gente leva preparados para defender-se de mosquitos, borrachudos. E em Santiago não há mosquitos. Meu nariz, definitivamente, não se adaptou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Santiago está distante 1.500km de Buenos Aires e 3.400km de São Paulo. Apresenta temperaturas máximas de 23º e mínimas de 0º. A luz acobreada do sol revela toda a condensação atmosférica, a poluição concentrada (contra a qual é preciso lutar com sprays que empestam qualquer ambiente e mesmo em lugares abertos, a levar o estrangeiro a espirrar como se sofresse de rinite). No 14o andar de um hotel de luxo, vejo incontáveis edifícios à minha volta. Sempre que observo com atenção um prédio das vizinhanças, há alguém limpando uma vidraça. É como se o vento, que sopra o tempo inteiro, deixasse sua marca nas janelas, não bastasse nas almas quase sisudas, graves, no mínimo formais dos santiaguinos.&lt;br /&gt;As avenidas e ruas são largas, limpas, e desertas. O trânsito com poucos automóveis, ordenado. Raro ocorre uma batida, um atropelamento. Acidentes são mais comuns nas minas de cobre. O índice de desemprego é baixíssimo (3%). A economia é estável há mais de uma década. Pensemos em Brasília. Penaliza-me imaginar uma criança morando aqui. De dentro de um táxi vejo os parques vazios, dois ou três casais caminhando sem pressa. Meia dúzia de jovens conversando. Um cão ali, outra lá. Onde estão, afinal, os seis milhões de habitantes que constituem a população? Estarão quase todos empregados, trabalhando? Não há economia informal, a levá-los às ruas? E as crianças, e os velhos? A maioria dos lares é tão sólida que os habitam famílias capazes de dar o essencial para que seus moradores não necessitem passear?&lt;br /&gt;Ou estarão todos na centenária estação de trens Mapocho – deixou de funcionar em 1987 e foi transformada no Centro Cultural Estación Mapocho –, onde de 23 de outubro a 4 de novembro ocorreu a 27ª Feira Internacional Do Livro de Santiago? (Mapocho é o riacho, mais estreito e menos poluído que o Tietê, que corta toda a cidade.)&lt;br /&gt;A Câmara Chilena do Livro se esmera no evento, elegendo o Brasil como país homenageado (daí o slogan, um tanto previsível, de “O carnaval da cultura”), trazendo 15 escritores, dos mais consagrados e já com laços estreitos com a terra de Pablo Neruda, como Thiago de Mello, Augusto Boal, passando por autores conhecidíssimos como Moacyr Scliar e chegando à novíssima geração: Luiz Ruffatto e seu caleidoscópico registro social de meio século de imigrantes, Bernardo Carvalho e seu jogo infernalmente disfarçado de identidades e protagonismos, Cíntia Moscovich e sua ficção impiedosamente expiando as fendas doídas entre os afetos. Todos os gêneros são contemplados: da narrativa transgressora (André Sant’Anna, tímido no trato mas ousado na criação, com sua escolha por uma prosa coloquial num registro extremo onde o discurso parece engolir a si mesmo) aos infanto-juvenis (Marcelo Carneiro da Cunha, bem-falante, irônico sem ser ferino, um dos raros praticantes do diálogo entre nós, debatendo sua novela &lt;em&gt;Ímpar&lt;/em&gt;, que tinha tudo para ser piegas, tratando de adolescentes com alguma deficiência, e que encara até com humor essa diferença).&lt;br /&gt;No dia seguinte à chegada componho uma mesa-redonda junto com duas chilenas. Uma é a escritora e editora Carmen Lucía Benavides, especialista do Centro Lector Lo Barnechea, de uma simpatia equilibrada, sem exagerar no sorriso que lhe sai natural e sem jamais buscar controlar o que nela brota simples e acena fácil, ainda que na direção de pessoas com dificuldades capazes de as tornarem – ao menos aparentemente – hostis. A outra é Karen Plath, estudiosa do gênero de que trataremos. Nosso tema: o desafio de criar ficção para crianças.&lt;br /&gt;Karen é filha de um ilustre da terra – Oreste Plath (1907-1996), folclorista, espécie de Luís da Câmara Cascudo chileno – e parece carregar isso com uma pompa que a mim me soa não só dispensável como prejudicial a ela. Esquecesse um pouco o orgulho que sente pelo pai e se tornaria mais visível.&lt;br /&gt;Não resisto a dar uma sacudida num debate que corre o risco, como muitos “debates” promovidos para irmanar povos e idiomas, de acabar morno. Proponho a incorporação da filosofia à literatura destinada aos jovens leitores. Falo de minha coleção &lt;em&gt;Brincando de Pensar&lt;/em&gt;, onde antecipo Platão e Aristóteles, por exemplo, para uma faixa etária entre os 9 e 12 anos. E provoco, lembrando a tese de Ernani Ssó: &lt;em&gt;Os Irmãos Karamazov&lt;/em&gt;, de Dostoiévski, e João e Maria, que dupla marcante de livros onde irmãos protagonistas dão o que falar. É preciso deitar por terra a preguiça mental que subestima a grandeza simbolizada e o poder de sugestão da história, no caso, dos Irmãos Grimm.&lt;br /&gt;O auditório onde falo, com 70 lugares, está praticamente cheio. Arrisco ir de espanhol mesmo, e o tradutor-intérprete intervém apenas três vezes em uma hora e meia. Estamos, idiomaticamente, mais próximos do que imaginamos. Ou, de forma isolada, o meu caso pessoal – o de ter possuído três avós uruguaios.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Feira, feirantes, autores&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passo as roletas mostrando meu crachá de convidado. A entrada, única, é um hall de 500m2 de largura e, dez metros à frente, uma escada de mármore desce para o que parece ser o único piso, três metros abaixo. Nas laterais, como sacadas interligadas, algumas entradas para bares, salas de reunião, auditórios, escadas que conduzem a antigos escritórios agora desativados. Aí, nesse solo de pedras esmaltadas sobre as quais o toc-toc dos calçados não se escuta, onde antes devia ser a plataforma de espera, a Feira – fria, sem o afeto impetuoso e às vezes desastrado dos brasileiros, nela tudo funciona direitinho. Na abertura há show de Elza Soares. Muito samba. O Brasil sendo homenageado, não foi à toa que Bernardo Carvalho confessou que quando está no estrangeiro o país é um rótulo que ele tenta arrancar para que entendam um mínimo da literatura que faz.&lt;br /&gt;Muita venda. Os chilenos, que se vestem a rigor entretanto com gosto duvidoso (as roupas bem cortadas e passadas até com vinco mostram um excesso de cores em tom pastel e camisas xadrez), compram. Não vibram no fervor esperável do consumismo, mas compram. Devem ler, não sei, mas vi encherem sacolas e numa atitude decidida de quem sabe o que está levando para casa. Vi cerca de uma centena de estandes com sessões de autógrafos que se multiplicavam sem abrir mão, jamais!, da seriedade. E, óbvio, as indispensáveis atrações paralelas – aproximadamente 300.&lt;br /&gt;Do que pude acompanhar, uma platéia comportada em demasia. Ou eu é que me acostumei aos brasileiros – que cochicham, cochilam, olham pros lados enquanto os conferencistas suam sangue para dar seu espetáculo nunca suficiente para paralisá-los nas poltronas.&lt;br /&gt;Em Santiago, por pouco que se faça numa palestra, a platéia colabora. Faz perguntas pertinentes, pensadas, amplia o debate. E sorri, não para fazer graça, mas agradecer à resposta que o autor lhes dá.&lt;br /&gt;Minhas parceiras vestem-se com floreadas saias e blusas de seda. Os cabelos não ousam mais que um penteado alto impondo o respeito devido a cortes que não arriscam nenhuma transgressão visual. Falam de forma controlada, macia, afável sem ser melosa mas nem inflexível. São mulheres comentando literatura para “niños”. Hay que tener ternura en la voz. Com um detalhe a dar elegância e evitar derramamentos nessa ternura: no estilo chileno, contido.&lt;br /&gt;Não que sua literatura o seja. Repassemos seus clássicos mais e menos recentes, muitos deles traduzidos no Brasil. O primeiro nome que nos vem (favor não citar o inevitável e, por isso, óbvio Neruda), é Gabriela Mistral (1889-1957), primeira mulher latino-americana a ganhar um Nobel, em 1945. O primeiro desses pioneiros na transgressão foi Vicente Huidobro (1893-1947), com seu Criacionismo, depois aliando-se, em Paris, aos modernistas e, logo, na Espanha, aos futuristas de Marinetti. Grande parte da poesia de Huidobro foi originalmente escrita em francês. Há no Chile quem reclame o Nobel a ele ou ao poeta Nicanor Parra (1914-), que, vivo, tornou-se nonagenário e não perdeu a indignação. Os grandes criadores, com exceção de Donoso, de quem adianto falo, eram vocacionados à poesia. A partir da geração de 50, a prosa, imantada de luminescência pelos poetas, emerge. Em seguida há o apagão cultural. A literatura, claustrofóbica, vê durante cerca de uma década, do golpe com Pinochet em 1973 a 1983, minguarem ou se exilarem os talentos.&lt;br /&gt;Logo surge Antonio Skármeta, um escritor de alguns méritos, sobretudo em &lt;em&gt;O Carteiro e o Poeta&lt;/em&gt;, e Isabel Allende, único sucesso indiscutível de público mas diante da qual a crítica, em sua maioria, se cala. Exceção para a estréia da moça com &lt;em&gt;A Casa dos Espíritos&lt;/em&gt;. E a razão talvez seja mais política que literária. Em seguida Isabel (que nasceu em Lima, criou-se no Chile e hoje mora nos EUA) deriva para duas tendências tão caras ao gosto popular: entretenimento ou temas indisfarçavelmente pessoais.&lt;br /&gt;Skármeta tem sete livros traduzidos no Brasil e é, bem depois de Neruda e Isabel, o autor chileno mais lido entre nós.&lt;br /&gt;O nome do momento no Brasil é Roberto Bolaño (Santiago, 1953-Barcelona, 2003), que morreu cedo, passou como um cometa, e, por isso, escreveu tão vertiginosamente no estilo e na quantidade sabendo, sim, que tinha os dias contados. Sofria de uma grave doença hepática. Esperou, em vão, por um transplante de fígado de 2000 a 2003. Antes desse duro desfecho, outras durezas o acompanharam. Nasceu filho de motorista e professora. Recém entrado na casa dos vinte anos, foi com a família para o México, onde encontrou sua vocação. Voltou ao Chile, ficou oito dias preso, foi libertado por detetives ex-colegas de escola, voltou ao México, depois andou por El Salvador, alguns países da Europa, onde trabalhou de cobrador de ônibus, lavador de pratos, camareiro, vigia noturno, na limpeza pública urbana, descarregando barcos, colhendo uvas em fazendas. Por fim, estabeleceu-se na Espanha. E embora ainda trabalhasse em serviços que não lhe davam o conforto material necessário, começou a inscrever-se em diversos e importantes concursos literários. E a ganhar muitos.&lt;br /&gt;Em 1984, Bolaño publicou, em colaboração com Antoni García Porta, sua primeira novela (até então só havia escrito poemas), &lt;em&gt;Consejos de un discípulo de Morrison a un fanático de Joyce&lt;/em&gt;, com que obteve o prêmio Ámbito Literario. Nesse mesmo ano lançou &lt;em&gt;La senda de los elefantes&lt;/em&gt;, que abocanhou o prêmio Félix Urabayen. Em 1993, com 40 anos, os médicos diagnosticaram a doença que iria matá-lo. Bolaño fica obcecado: quer deixar um legado, uma obra que faça a diferença dentro de um contexto onde o passado grita e o presente tenta, timidamente, protestar. Nesse ano saem &lt;em&gt;Los perros románticos&lt;/em&gt;, uma reunião de sua poesia, produzida entre 1977 e 1990, e a novela &lt;em&gt;La pista de hielo&lt;/em&gt; (&lt;em&gt;A Pista de Gelo&lt;/em&gt;, Cia. das Letras, que o publicou quase todo até agora no Brasil, saído em 2007). Em 1997 lança seus contos completos, &lt;em&gt;Llamadas telefónicas&lt;/em&gt;, que mereceram o prêmio Municipal de Santiago de Chile, o mais importante no país.&lt;br /&gt;1998 trata-se do ano da explosão internacional de Bolaño. Começa a publicar numa grande editora, Anagrama. Lança &lt;em&gt;Os Detetives Selvagens&lt;/em&gt; (no Brasil sai em 2006, sempre pelo mesmo tradutor, Eduardo Brandão). Sua prosa caudalosa mas conduzida por uma corrente de força devastadora, seus protagonistas espocando diante do leitor uma polifonia alucinante, seu tema que consegue – sem deixar de ser o de sua geração – superá-la na ótica e, sobretudo, na estrutura sinfônica, de um cuidado estilístico, perdoem, doente (neste caso, saudável para a literatura). Sua narrativa vertiginosa, com um fôlego de assombrar, e, no entanto, táctil sem perder a sugestão, a poesia, e nem por isso resultar em obscuridades ou gorduras verbais, leva-o, com &lt;em&gt;Os Detetives...&lt;/em&gt;, a receber duas importantes distinções: o prêmio Herralde de novela e o – pelos brasileiros, conhecidíssimo, por que tem em sua lista gente como Vargas Llosa, para começar – prêmio Internacional de Novela Rómulo Gallegos: “por la calidad de la obra y su novedosa apuesta narrativa”. O humor concentrado, ferino, irônico, não muito comum na literatura de língua espanhola (exceção de Borges, concentradíssimo), é um dos elementos a fazer de &lt;em&gt;Os Detetives Selvagens&lt;/em&gt; um livro cuja edição original eu comprei em Santiago. Seu livro mais recente, &lt;em&gt;Noturno do Chile&lt;/em&gt; (2004 no Brasil), foi escrito quanto ele havia visitado o país depois de duas décadas de ausência. Segundo o crítico Jorge Herralde, trata-se de uma “pequeña obra de arte escalofriante”. Deixou coisas póstumas. Em breve saberemos.&lt;br /&gt;Em tom menor, mas disposto a derrubar o que surgisse pela frente, Alberto Fuguet (&lt;em&gt;Baixo Astral, ed. Record, 2001&lt;/em&gt;), da novíssima geração, dispara contra a hipocrisia e o medo da sociedade chilena que em plebiscito manteve o poder de Pinochet. Em 2005 sai no Brasil seu segundo livro, &lt;em&gt;Os Filmes de Minha Vida&lt;/em&gt; (Agir). Um sismólogo (a piada é quase óbvia, mas não perde a graça) estremece a cada terremoto pessoal – afetivo, financeiro, político etc. – enquanto repassa os filmes que marcaram sua vida, como uma espécie de caminho prometido e impossível. E as relações que ligam tais filmes a passagens da vida da personagem principal. Fuguet não tem a profundidade nem o virtuosismo de Bolaño, mas é, depois deste, um dos mais interessantes autores do Chile atual.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Mas e a Feira?&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Se Bolaño ocupou tanto espaço neste texto, e, menos que ele, outros nomes, é porque afinal o “onde” se impõe e com ele o “quem”. E é preciso saber um tanto do Chile e do que andaram e andam produzindo por lá para entender o impacto que isso pode produzir e que tipo de dimensão tal literatura consegue levar à sua feira. Falando dos escritores chilenos, todos eles, mesmo os mortos, presentes nas prateleiras e no olhar e na boca (quando audível) dos chilenos e visitantes, configuram uma arte multifacetada, eternamente em crise e em desafio. E, por isso, capaz de dar respostas desconcertantes (como Bolaño, claro). A Feira não difere radicalmente de nada que eu já tenha visto, exceto das mal organizadas. O principal estava lá: todas as boas editoras, seus principais títulos, atendimento profissional (com um certo pudor, indisfarçável). Quinze países se fizeram presentes, com destaque para a Espanha e a Argentina, naturalmente.&lt;br /&gt;Não é cansativa como as nossas bienais. Tem um tamanho que eu não saberia precisar, mas é adequado. Um único andar, o térreo, onde os mais de cem estandes se estendem, através dos quais em meia hora de caminhada a nossa vista e o nosso interesse alcançam. Mais, como costuma acontecer em feiras internacionais, seria cansativo e um desperdício. Menos, como em feiras locais, seria talvez frustrante.&lt;br /&gt;Agradou-me um detalhe a permear tudo: uma espécie de neutralidade em que nem o Brasil era edulcorado nem o Chile infestava o espaço com algum tipo de nacionalismo tardio, nem mesmo a inevitável latino-americanização do conjunto dos catálogos. O mundo todo estava lá, afinal de contas. São grandes selos editando grandes nomes, de todos os continentes.&lt;br /&gt;Numa das palestras (e em conversas paralelas, entre colegas escritores, jornalistas chilenos e educadores santiaguinos) fiquei sabendo que o grande feito deles é a Biblioteca Nacional, um novo conceito de biblioteca, autêntico ambiente a dessacralizar o livro e a oferecer a todo tipo de público quase todo tipo de ambiente num prédio adaptado para a biblioteca. Lá, o silêncio é quase proibido. Tem sala de jogos pela Internet. Tem sala para bandas de rock se apresentarem. Tem gibiteca. Tem uma multiplicidade de ambientes (cada um de alguma forma dialogando com o outro), de tal jeito que não nos sentimos nas seculares “igrejas das bibliotecas” mas num novo lugar, para o qual, por enquanto, o único nome conhecido é “biblioteca”. Mas nem parece, tão interessante e democrático e efervescente e LOTADO que é. É isso mesmo: lotado. Movimentado. Nem parece uma biblioteca. Ou todas as demais no mundo é que não parecem?&lt;br /&gt;Mas e a Feira? Autores lançando livros: mais de cem. Vendas: os números são polêmicos, como costumam ser nesse tipo de evento. Mas não é exagero dizer que chegam a 200.000.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A volta&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Não sou assaltado no retorno. Um motorista da Câmara Chilena do Livro vai ao hotel e me leva ao aeroporto. Não guardo boa impressão de Santiago. É um lugar ideal para adultos dispostos a não passar fome, não terem contas atrasadas, morarem com segurança... e só. Simplificação, claro, mas não distorção. Chego no aeroporto e penso nos editores com quem deixei meus cinco livros com mais potencial para o continente. Situação delicada essas negociações. E recordo as editoras entusiasmadas com a produção brasileira em geral, críticas com a sensatez necessária ao que se faz no Chile e orgulhosas dentro da dignidade de gabar-se sem ser ridículo.&lt;br /&gt;Compreensivelmente, houve homenagens (merecidíssimas), à irada lira de Gabriela Mistral. Atenho-me à Feira e ela, compreensivelmente, expõe com energia as novidades mas dá destaque, quase estande por estande, aos protagonistas da história literária do país. Um deles, José Donoso (1924-1996), de quem publicaram no Brasil seu romance mais ambicioso e bem-realizado, &lt;em&gt;O Obsceno Pássaro da Noite&lt;/em&gt; (Francisco Alves Editora, esgotado), tomado de um clima de loucura no qual o gótico lembra as moderníssimas graphics novels quadrinizadas (de um Neil Gaiman, por exemplo) e não o Realismo Mágico que dominava a Americana Latina quando o livro foi lançado, na virada nos anos 1970 para os 80.&lt;br /&gt;A novidade mais impactante ficou por conta de um boliviano, Edmundo Paz Soldán, que autografou &lt;em&gt;Palacio Quemado&lt;/em&gt; (Editorial Alfaguara) no dia do encerramento. Tinham mesmo que encerrar o evento de forma exemplar. Esses chilenos são muito sérios, e não arriscam. Não num evento desses&lt;br /&gt;Não vejo a Cordilheira na volta, não testemunho o cenário de um outro mundo. Mal embarco, adormeço. Outra feira que ficou para trás. Acordo quando o avião dá o aviso: “tripulação: preparar para aterrissagem. O Aeroporto Salgado Filho...” Olho o relógio. A companhia aérea é a mesma porém estamos quase uma hora atrasados. Estou de volta ao Brasil. (14/02/2009)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7659575339957537112-6482307899278229049?l=bentancur.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bentancur.blogspot.com/feeds/6482307899278229049/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7659575339957537112&amp;postID=6482307899278229049' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/6482307899278229049'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/6482307899278229049'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bentancur.blogspot.com/2009/02/um-milhao-e-meio-de-livros-na-estacion.html' title='UM MILHÃO E MEIO DE LIVROS NA ESTACIÓN MAPOCHO'/><author><name>BENTANCUR</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17397945706691195345</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp2.blogger.com/_296zOjIvu2c/R_F9H73wKyI/AAAAAAAAAAs/Mx_DoNV9suo/S220/Paulo5.jpg'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7659575339957537112.post-1448600130665168089</id><published>2009-02-03T07:39:00.000-08:00</published><updated>2009-02-03T07:41:58.326-08:00</updated><title type='text'>DEPOIS DA LOIRINHA</title><content type='html'>Cabelos castanho-escuros, lisos e macios como a pele mais embaixo. Os olhos amendoados acompanhando o sorriso confiante sem afetação e simpático sem pedir a esmola do nosso olhar. (Nós é que pedimos esmola.) A pele – até Olavo Bilac ergueu-se do túmulo – de níveo palor. Os lábios carnudos até um certo limite, além do qual seriam obscenos. Rosto de mulher sem perder o intenso frescor da idade que não mente, nem para menos, nem para mais. Scarlett Johansson, 24 anos, aparece em quatro imagens divulgadas hoje pelos promotores da pre-estreia mundial da comédia &lt;em&gt;He's Just Not That Into You&lt;/em&gt;, no Grauman's Chinese Theatre, em Hollywood, Califórnia. Olhei-a quatro vezes quatro. Depois virei pedra. Antes, tive tempo de me perguntar, como um personagem do meu conto “Depois da loirinha”, do livro &lt;em&gt;A solidão do Diabo&lt;/em&gt;, de 2006: “O que faço agora da minha vida?” Infelizmente, já tinha virado estátua, cujo futuro é virar ruína. Este &lt;em&gt;post&lt;/em&gt; é dedicado a um amigo que sofre da mesma gravíssima doença, Jorge Ritter. (03/02/2009)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7659575339957537112-1448600130665168089?l=bentancur.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bentancur.blogspot.com/feeds/1448600130665168089/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7659575339957537112&amp;postID=1448600130665168089' title='13 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/1448600130665168089'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/1448600130665168089'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bentancur.blogspot.com/2009/02/depois-da-loirinha.html' title='DEPOIS DA LOIRINHA'/><author><name>BENTANCUR</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17397945706691195345</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp2.blogger.com/_296zOjIvu2c/R_F9H73wKyI/AAAAAAAAAAs/Mx_DoNV9suo/S220/Paulo5.jpg'/></author><thr:total>13</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7659575339957537112.post-5494040989654547908</id><published>2009-02-01T06:01:00.000-08:00</published><updated>2009-02-01T06:39:08.349-08:00</updated><title type='text'>AS LÁGRIMAS DE FEDERER</title><content type='html'>Sou fã de Roger Federer, ex-número 1 do tênis mundial durante quatro anos (2004-2008), quando perdeu o posto para o espanhol Rafael Nadal, uma máquina de bater. Federer joga um tênis mais refinado. Nadal, não à toa apelidado de "Touro Miúra", tem um bíceps de dar invehja a muito peso pesado e, além disso, é quatro anos mais moço que Federer, o que num esporte que tira o fôlego e o sangue (perde-se em média uns 4 quilos por partida), pode ser decisivo. Depende de o cara também ter técnica. E Nadal tem. Sua bola é funda, bate na linha, ou quase na linha, e é pesada, tal a força. Não gosto de seu estilo. Nem Federer gosta. Em 19 partidas que disputaram, Nadal ganhou 13 com a decisão de hoje no Aberto da Austrália, primeiro Grande Slam do ano, contra 6 vitórias do meu ídolo. 68% contra 32%: muita diferença para um nível de tênis que não deveria ser assim, tratando-se dos dois melhores ranqueados da ATP. E já é a quinta vitória consecutiva do espanhol sobre seu maior adversário. Não há hoje maior rivalidade no tênis mundial do que esta: o atual número 1 contra o número 2, ex-número 1. O resultado foi digno do "equilíbrio", 3 x 2, com parciais de 7-5; 3-6; 7-6; 3-6; e 6-2. Federer dominou a maior parte do jogo exceto no set decisivo quando, provavelmente, o elemento psicológico – este grande fator no tênis, ignorado por muitos – resolveu o embate a favor de Nadal. Na cerimônia, o suíço não conseguiu concluir seu discurso, chorando copiosamente. Para alguém que estás prestes a se tornar (pela quantidade de Grandes Slams conquistados) um dos maiores jogadores da história, senão o maior, reagir assim parecerá um despropósito. Não foi. Tanto não foi que Nadal, que finalmente ganhou minha simpatia, perdeu a graça e nem conseguiu sorrir para as câmeras na hora de receber a taça. Estava constrangido, talvez até se sentisse mal em derrotar (e configurando uma série alarmante de vitórias contra um rival que, tênis por tênis, não deve nada a ele e, se deve, pauta a ser muito discutida, deve pouco) um jogador que certamente já causou admiração em Nadal e quem sabe até mesmo a boa inveja. Suíço não chora? Bem, nunca vi Federer reagir assim, como um novato ou um sujeito com a suto-estima abaixo do fufu do cachorro. Fácil: antes ele não tinha motivos para tanto. Até surgir Nadal, essa força atormentadora contra o gênio Federer (continua a ser um gênio, sim – exigiu de Nadal, o demolidor, 4h22min de batalha), o ganhador de 13 Grandes Slams, de 27 anos, era um êxito atrás do outro. Mas em 2008 tudo começou a mudar. Para pior. No entanto, ele tinha conquistado quase tudo, de tal forma que sua vantagem sobre os demais parecia impossível de ser ameaçada. No final do ano passado foi mais que ameaça: depois de repetidas derrotas para Nadal, perdeu o posto de número 1 e começou 2009 sob desconfiança dos críticos. Mas começou bem. Fez uma ótima campanha na Austrália. Parecia recuperado. E talvez esteja. Mas não contra Nadal. É bem provável que o efeito psicológico, mais que o estilo (embora haja estilos de jogos que não encaixam bem com certos estilos opostos, e este deve ser o caso Federer-Nadal, com vantagem para o segundo), deve estar fazendo um estrago violento. Não aconselho Federer a treinar mais, mas sim a frequentar um analista, urgente. Suas lágrimas não foram as de um mero lamento pela derrota (está maduro demais para isso), mas as da impotência frente a alguém que parece incólume, indestrutível, a prova viva – e jovem! – de que o grande tênis de Federer possui um limite. E intransponível. Como torcedor, emocionei-me também. E espero que o paredão um dia desses seja vencido pela autoconfiança recuperada, já que talento Roger Federer tem de sobra. O diabo é que talento só não é tudo. Não é mesmo. (01/02/2009)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7659575339957537112-5494040989654547908?l=bentancur.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bentancur.blogspot.com/feeds/5494040989654547908/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7659575339957537112&amp;postID=5494040989654547908' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/5494040989654547908'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/5494040989654547908'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bentancur.blogspot.com/2009/02/as-lagrimas-de-federer.html' title='AS LÁGRIMAS DE FEDERER'/><author><name>BENTANCUR</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17397945706691195345</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp2.blogger.com/_296zOjIvu2c/R_F9H73wKyI/AAAAAAAAAAs/Mx_DoNV9suo/S220/Paulo5.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7659575339957537112.post-5171090337491148446</id><published>2009-01-19T06:25:00.000-08:00</published><updated>2009-01-19T06:33:15.485-08:00</updated><title type='text'>CONSPIRAÇÃO DO SILÊNCIO</title><content type='html'>Quem não fala consente. Quem cala é porque sente o que não cala, aquilo que, gritando além de toda literatura, impede o texto, como a um homem, de caminhar. Desculpem, amigos, o silêncio que desde outubro tenho mantido, regularmente, como se fosse uma escolha. Não é. O silêncio tem me dito coisas cabeludas. Nem ouso contar-lhes. Mas o ano é outro e, embora a cronologia seja apenas uma miragem, do que afinal somos feitos (Berkeley) senão delas mesmo, do nosso entendimento para além e aquém dos "fatos", nesse deserto de almas?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Edgar Allan Poe completaria, nesta segunda-feira, 19 de janeiro, 200 anos. Troco não ser lembrado como ele é hoje por não ter uma vida como a dele.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7659575339957537112-5171090337491148446?l=bentancur.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bentancur.blogspot.com/feeds/5171090337491148446/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7659575339957537112&amp;postID=5171090337491148446' title='7 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/5171090337491148446'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/5171090337491148446'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bentancur.blogspot.com/2009/01/conspirao-do-silncio.html' title='CONSPIRAÇÃO DO SILÊNCIO'/><author><name>BENTANCUR</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17397945706691195345</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp2.blogger.com/_296zOjIvu2c/R_F9H73wKyI/AAAAAAAAAAs/Mx_DoNV9suo/S220/Paulo5.jpg'/></author><thr:total>7</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7659575339957537112.post-6880016283876969203</id><published>2008-10-14T08:50:00.000-07:00</published><updated>2008-10-14T08:51:05.893-07:00</updated><title type='text'>CONSELHOS PARA UM JOVEM LEITOR</title><content type='html'>A leitura é uma ação delicada, difícil – só na aparência simples. Pega-se um livro que se elegeu, com certa incerteza (como ter certeza acerca do que vamos encontrar no miolo do volume?), e abre-se, como abrimos uma porta para entrar numa casa, num auditório, em algum espaço no qual coisas acontecerão. Não sabemos o que vai acontecer. E isso nos deixa curiosos, às vezes ansiosos, às vezes pressionados pela atenção que é preciso colocar durante o ato da leitura, essa visita a esse espaço onde muita ação e muitas personagens surgirão diante de nossos olhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A ação pode ser pouca lenta, complicada (mais psicológica que movimento externo) – e nos aborrecer.&lt;br /&gt;Pode ser vertiginosa, cheia de detalhes, e nos deixar sem fôlego, emocionados pelos acontecimentos.&lt;br /&gt;Pode ser uma ação delicada, uma única trama sem grandes lances acrobáticos ou perigosos, mas no entanto repletos de riqueza humana no que os protagonistas realizam. E isso pode nos tocar fundo. Fixar raiz em nossa memória.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando se fala em ação, pensa-se logo em diversão, distração. Isso faz parte, sem dúvida, porém (e que ótimo “porém” esse) uma obra literária sonha geralmente com algo maior: comover o leitor, deixar-lhe sinais de que a vida é mais rica ainda do que aparenta. E é fundamental estarmos alertas para captar esses sinais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As personagens. Pode-se dizer “os” personagens ou “as” personagens. É substantivo comum de dois gêneros. Alguns estranharão: por que “a” personagem? Porque uma de suas fontes vem da palavra latina “persona”, que quer dizer máscara. E ser uma personagem é vestir uma máscara, cumprir à risca um papel. O autor não perdoa. Mas a personagem também não. Muitas vezes, enquanto estou escrevendo, a personagem resolve fazer coisas que eu nem imaginaria ela fazendo. A personagem tem, sim, a sua independência. Controlada por mim, mas ainda independência. Sob esse aspecto, a personagem nunca é um “túmulo”, expressão que utilizamos para definir pessoas tímidas, discretas, que não dizem nada sobre si e sobre os outros ou dizem quase nada. Num livro, as personagens são expostas cruamente, impiedosamente pelo escritor. E o leitor tem a afortunada oportunidade de (como um espião) descobrir tudo, os segredos mais invioláveis, na vida jamais mostrados, na literatura sempre, de um jeito ou de outro, exibidos. Sem, claro, que a personagem saiba.&lt;br /&gt;Você, leitor, fica a par de tudo. E a personagem não irá persegui-lo, fique tranqüilo. Ela ignora o quanto você sabe.&lt;br /&gt;Basta ler como se espiasse por uma fresta que o levasse a um mundo paralelo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sim, a literatura é um mundo paralelo. E um mundo – uau! – com a ambição saudável de examinar quase microscopicamente tudo o que neste mundo, o real, de onde escrevo, não se examina, exceto os cientistas (descobertas que só ficam entre eles no momento em que ocorrem, e que só são divulgadas tempos depois, já de uma forma um tanto simplificada). A literatura não, a literatura é um mundo secreto mas o mais democrático dos mundos secretos. O mais popular.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por isso peço-lhe, jovem amigo que ainda está treinando olhar a página impressa pelo menos uma vez a cada dois dias: aguce os ouvidos. Ouça as palavras que o autor utiliza, o seu vocabulário. Socorra-se no dicionário se alguma delas lhe soar estranha. Escute a harmonia das frases, o ritmo dos parágrafos. A música do texto todo. A linguagem de que se utiliza um autor é como o modo de falar de uma pessoa. E uma pessoa mostra muito quem é pelo jeito como se expressa, mesmo que minta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ler com todas as antenas ligadas ajuda-nos a flagrar a mentira, a achar a verdade até em lugares que ela parecia nem existir, de tão singelos que são (uma estrela cabe num grão de areia, é uma idéia e uma imagem a se pensar). E, mais que tudo, a beleza. A beleza é a verdadeira verdade, a verdadeira bondade, a arte expressa com toda sua musculatura à mostra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, por fim, leia procurando, não só ao autor, à história que ele conta, aos personagens que ele pinta, aos cenários que descreve, à linguagem com a qual ele conversa com você. Leia procurando a si mesmo. Em algum trecho, no meio do caminho, ou até no fim, quando menos esperar, você poderá se deparar com algum fragmento do livro que diz tudo aquilo que você sempre desejou dizer ou precisou dizer e não sabia como. Agora sabe. Agora pode.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porque leu, e, lendo, pode escrever-dizer a voz que se somou à sua e, desta forma, ajudou a sua voz a então poder, a partir da leitura, começar a desenhar o rosto que você de fato tem (até então ilegível para você), a história que é sua (e que você nem sabia que havia uma história possível de ser contada). O jovem leitor em geral não descobriu ainda que somente com a leitura ele conquista não apenas o conhecimento “externo” do que muitos escritores quiseram dizer e incontáveis histórias e as figuraças que vivem essas histórias, conquista não apenas uma “cultura”, a permitir-lhe ser, inclusive, um bom falante e um bom ouvinte. Mais que isso, conquista a si e começa enfim a infinita aventura de desvendar os mistérios que ele próprio carrega, há anos. (14/10/2008)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7659575339957537112-6880016283876969203?l=bentancur.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bentancur.blogspot.com/feeds/6880016283876969203/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7659575339957537112&amp;postID=6880016283876969203' title='7 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/6880016283876969203'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/6880016283876969203'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bentancur.blogspot.com/2008/10/conselhos-para-um-jovem-leitor.html' title='CONSELHOS PARA UM JOVEM LEITOR'/><author><name>BENTANCUR</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17397945706691195345</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp2.blogger.com/_296zOjIvu2c/R_F9H73wKyI/AAAAAAAAAAs/Mx_DoNV9suo/S220/Paulo5.jpg'/></author><thr:total>7</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7659575339957537112.post-1007545851112518236</id><published>2008-10-11T06:54:00.000-07:00</published><updated>2008-10-11T06:58:20.434-07:00</updated><title type='text'>O DELICADO EXERCÍCIO DA FORÇA</title><content type='html'>Você deseja, como todos, se dar bem.&lt;br /&gt;Mas “se dar bem” não pega bem, sobretudo dito assim, a seco.&lt;br /&gt;Na verdade, você quer mais. Você deseja ter alegrias com algumas constância e paz ao máximo. A paz acariciada pelo prazer de, inundado de oxigênio por todos os lados, não ser uma ilha, não, e sim alguém que habita sensorialmente e – sempre se quer mais – intelectualmente uma região imensa, inesgotável.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Você quer demais essa experiência. Não, você não quer “uma” experiência, mas várias, sem-conta, você almeja a soma e o predomínio do que faz seu corpo, sua mente, você de forma inteira.&lt;br /&gt;É preciso persistência. Por incrível que pareça (e a idéia até nos faz rir), ser você mesmo necessita de cuidados, de diários reconhecimentos. Como se existisse um espelho especial feito exclusivamente para você. E a passagem frente a ele (e o postar-se diante dele) é obrigatória. Salvadora.&lt;br /&gt;O melhor de tudo é que esse espelho é só uma idéia que humildemente se coloca diante de você. Uma idéia que enxerga você.&lt;br /&gt;Sim, você é visto por ela, a idéia, por ele, o espelho, que, pensando bem, só existe multiplicado: são muitos espelhos, em todo lugar, em casa, na rua, na hora da diversão, na hora do trabalho – até na hora do repouso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Delicado exercício de ser (porque “ser” significa “ser alguém”, o que é muito mais que “ser algo”), como é fundamental esse permanente estado de alerta mesmo no alheamento. Um alheamento que, segundo Drummond, é “porosidade”. Isto é, nunca se ausentar tão plenamente para não se perder a música do mundo e, junto com ela, a voz que se herdou alimentada pela voz que se construiu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cave, fuce, procure, afaste as cortinas, observe, leia, ouça, fale, toque, seja tocado – encare o desafio e a provocação (deliciosa e grave) de identificar o que é força em você e o convoca a construir mas também a fruir, a fazer – e sua recompensa –, a receber o que se move na mesma discreta ação que é gêmea da sua.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todos nos procuramos. Nós, você, a humanidade, o mundo, as coisas.&lt;br /&gt;E se se repelem, muitas vezes, é porque não compreendem o choque inevitável causado pela paralisação da procura. Alguma força sempre esbarra conosco no caminho. E nos derruba, se não estivermos fortes.&lt;br /&gt;Interessante: pode nos levantar, essa força outra, se estivermos fortes – mesmo frágeis – para ser erguidos. Ajuda externa que nunca é isolada. Nós, decisivamente, a ajudamos. (11/10/2008)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7659575339957537112-1007545851112518236?l=bentancur.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bentancur.blogspot.com/feeds/1007545851112518236/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7659575339957537112&amp;postID=1007545851112518236' title='8 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/1007545851112518236'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/1007545851112518236'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bentancur.blogspot.com/2008/10/o-delicado-exerccio-da-fora.html' title='O DELICADO EXERCÍCIO DA FORÇA'/><author><name>BENTANCUR</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17397945706691195345</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp2.blogger.com/_296zOjIvu2c/R_F9H73wKyI/AAAAAAAAAAs/Mx_DoNV9suo/S220/Paulo5.jpg'/></author><thr:total>8</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7659575339957537112.post-6217097303083493536</id><published>2008-10-04T18:17:00.000-07:00</published><updated>2008-10-04T18:34:35.735-07:00</updated><title type='text'>UM POUCO MAIS SOBRE "WHISKY"</title><content type='html'>Terminou agora na tevê a cabo a exibição do filme que recomendei. São 22h15min quando escrevo este post sobre &lt;em&gt;Whisky&lt;/em&gt;, recomendado a mim por Roberto Silva, que tenta, inutilmente, esconder-se em João Pessoa. Pobre Jacobo, o dono da fabriqueta de meias (de discutível qualidade e gosto) e de um carro que sempre custa a pegar. Filhos da puta esses dois diretores, um deles, Juan Pablo Rebella, de apenas 32 anos, morto dois anos depois de lançado o filme. Como o Uruguai é um país triste...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na vidinha precária da fábrica de meias de Jacobo não cabe um único discurso. Nem meio. Com a chegada do irmão, Herman, vindo do Brasil (eta país de falastrões), o sujeito, contaminado e bem-sucedido, é a única promessa de vínculo, mesmo que provisório. Aliás, nem se trata de vínculo (o irmão vem para os dez anos de morte da mãe, a cujo enterro nem compareceu), mas do ato do sorriso como um evento isolado. Fazer cara (puro mecanismo) de quem diz "uísque" e, assim, mostrar os dentes para o fotógrafo. É o que passam a fazer Jacobo e sua principal funcionária, Marta, que combina com ele, durante a estadia do irmão, cumprir o papel de esposa do desencantado patrão. Nota: não há confissão de desencanto. É desencanto puro, em estado bruto, para além das autocomiserações.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A alegria advinda das discretas demonstrações à visita familiar é no máximo uma declaração de boas-vindas e, depois, com o passar dos dias e da convivência, sob o peso das diferenças entre o anfitrião sem ilusões nem bens e o visitante com charme e dinheiro, o que é drama vira comédia e o que poderia ser comédia vira incômodo, insuportável silêncio. Detalhe: como o silêncio é enfático nessa história! As  imagens são quase singelas e, no entanto, impossível resumir a trama, que aponta em tantas direções. Uma das razões é a solidão atroz das duas personagens principais, Jacobo e Marta, e a carência nunca assumida de um e sempre assumida – embora calada – da outra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O roteiro é uma obra-prima, ainda que a palavra o desmereça, por ser uma expressão gasta e absolutista. Os atores são daquela rara espécie que prova que interpretar não é nem um pouco menos que criar. A sensação, nítida, que me ficou, é que &lt;em&gt;Whisky&lt;/em&gt; é um fragmento poderoso das minhas memórias, e que estarei sempre lembrando-o misturado à minha vida, acerca da qual sempre surgem novas dúvidas que poderiam transformá-la, não estivesse ela fechada para a transformação, e iluminadoras certezas sombrias. (04/10/2008)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7659575339957537112-6217097303083493536?l=bentancur.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bentancur.blogspot.com/feeds/6217097303083493536/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7659575339957537112&amp;postID=6217097303083493536' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/6217097303083493536'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/6217097303083493536'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bentancur.blogspot.com/2008/10/um-pouco-mais-sobre-whisky.html' title='UM POUCO MAIS SOBRE &quot;WHISKY&quot;'/><author><name>BENTANCUR</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17397945706691195345</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp2.blogger.com/_296zOjIvu2c/R_F9H73wKyI/AAAAAAAAAAs/Mx_DoNV9suo/S220/Paulo5.jpg'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7659575339957537112.post-8922006488748766740</id><published>2008-10-04T09:52:00.000-07:00</published><updated>2008-10-04T10:18:40.572-07:00</updated><title type='text'>WHISKY</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Hoje, às 20h15min (jante cedo ou – é sábado – jante tarde), na tevê por assinatura, canal 65 da operadora NET, Telecine Cult, um filme uruguaio, &lt;em&gt;Whisky&lt;/em&gt;. Nós, que somos vizinhos de Uruguai e Argentina, estamos com o faro mais atento ao bom nível de sua cinematografia, sobetudo a argentina. Bem, quem me lê aqui, sobretudo os não-gaúchos, fiquem ligados. &lt;em&gt;Whisky&lt;/em&gt; é uma comédia comovente, aquela espécie de história que reúne o auge das potencialidades narrativas, onde o que é drama humano converte-se em lágrima seca, engolida em favor de sorrisos a costurar um humor raro. Humor alimentado na base de uma melancolia difusa. Solidão e orgulho se unem, uma para dar a profundidade da condição do protagonista, o outro para resgatar sua dignidade e mostrar o quanto o irmão representa para ele. A trama? Morta a esposa há anos (fato que o viúvo encobre), o personagem encarnado por Andrés Pazos, Jacobo, possui uma mulher que trabalha para ele em sua fábrica de meias e que, além de funcionária, é sua única amiga. Recebe a notícia da iminente visita do irmão, Herman, a quem deseja causar boa impressão. Combina com a amiga, Marta, que represente a atual esposa. Os afetos sublimados e as perdas caladas dão um show de contida e, por isso mesmo, tensa e densa emoção a nos arrancar reações que poucos filmes merecem de nós. &lt;em&gt;Whisky&lt;/em&gt; é desses poucos filmes, a ser visto e revisto. Ainda bem que tevê por assinatura, em geral, costuma repetir diversas vezes, durante um ano inteiro, praticamente toda a sua programação. Tenho esperanças de ver e rever o filme. dirigido pelos uruguaios Juan Pablo Rebella e Pablo Stoll em 2004, umas três vezes no mínimo, até meados do ano que vem. Mas não facilitem. Programem-se para hoje. Se não acharem o máximo, me cobrem. Prometo me retratar. E, francamente, duvido que o faça. Não por orgulho. (04/10/2008)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7659575339957537112-8922006488748766740?l=bentancur.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bentancur.blogspot.com/feeds/8922006488748766740/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7659575339957537112&amp;postID=8922006488748766740' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/8922006488748766740'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/8922006488748766740'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bentancur.blogspot.com/2008/10/whisky.html' title='WHISKY'/><author><name>BENTANCUR</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17397945706691195345</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp2.blogger.com/_296zOjIvu2c/R_F9H73wKyI/AAAAAAAAAAs/Mx_DoNV9suo/S220/Paulo5.jpg'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7659575339957537112.post-6105972776291466864</id><published>2008-09-29T06:12:00.000-07:00</published><updated>2008-09-29T08:00:07.812-07:00</updated><title type='text'>HÁ CEM ANOS MORRIA MACHADO DE ASSIS</title><content type='html'>&lt;em&gt;“A vida é boa” ele disse, em alto e bom som, para quem o pudesse ouvir no sobrado da Rua Cosme Velho, 18, enquanto suas forças iam se extinguindo.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Cronologia comentada&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;21/06/1839 – Nasce no Morro do Livramento, no Rio de Janeiro, filho de agregados, o pai era filho de escravos recém libertos. Pintor de paredes. A mãe, branca, era lavadeira. No mesmo ano, seis meses antes, nascera Casimiro de Abreu, futuro autor de &lt;em&gt;As Primaveras&lt;/em&gt;, e nelas, o poema “Meus Oito Anos”: “Oh! que saudades que eu tenho/ Da aurora da minha vida,/ Da minha infância querida/ Que os anos não trazem mais !”, publicado quando Machado faria 20 anos e trabalhava para Paula Brito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1845 – Perde a irmã, Maria, de quatro anos. E, talvez perda maior: a madrinha e protetora, Maria José de Mendonça Barroso. Aqui há controvérsias. Morta tão cedo, como se pode inferir que o papel da madrinha teria sido decisivo na salvação material e intelectual do menino. Não foi à toa que ele vendeu balas fabricadas pela madrasta e aprendeu francês numa padaria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1849 – Morre-lhe a mãe. As raízes se soltam. Com ela, o pai morre um pouco, ou se desvia, o que dá no mesmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1854 – Primeira produção que pode ver impressa. O poema “Soneto”, no &lt;em&gt;Periódico dos Pobres&lt;/em&gt;, a 3 de outubro. Quase nunca citado. Três meses depois, a 15 de janeiro de 55, num periódico de reputação, &lt;em&gt;Marmota Fluminense&lt;/em&gt;, sai o poema “Ela”, tido como sua real estréia. Não foi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1856 – Ingressa na Imprensa Nacional, como aprendiz de tipógrafo. Lá conhecerá Manuel Antônio de Almeida, que o ajudará muito. Almeida é autor de um livro que não faz grande sucesso num ambiente de românticos sem humor, mas sem dúvida é, daquele período, das poucas coisas que sobreviveram. Certamente isso terá causado algum impacto positivo em Machado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1860 – Entra em cena o jornalista. E o comediógrafo. Que não pararão, com idas e vindas, entre a imposição do contista – a produzir até o apagar das luzes – e a cada vez maior consistência na carreira do romancista. Mas deve ao jornalista a prática e um público e ao comediógrafo a reputação de vôos mais altos no início. Promessa que cumpriu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1861 – Morre Manuel Antônio de Almeida. Sai de cena o segundo protetor. Mas logo não precisará mais deles. Machado de Assis, escrevendo sem parar e, paradoxalmente, rigoroso no projeto e na execução, com uma obra que é, mais que sólida, renovadora porque não se ancora no já feito, arrojada nas proposições temáticas e formais, terá apenas na esposa outros braços estendidos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1860-63 – O comediógrafo mostra as unhas. Aparadas. Sua primeira peça: &lt;em&gt;Hoje Avental, Amanhã Luva&lt;/em&gt;. E logo: &lt;em&gt;Desencantos&lt;/em&gt;, &lt;em&gt;O Caminho da Porta&lt;/em&gt; e &lt;em&gt;O Protocolo&lt;/em&gt; (saem num volume, &lt;em&gt;O Teatro de Machado de Assis&lt;/em&gt;, no mesmo ano). &lt;em&gt;Quase Ministro&lt;/em&gt;, também de 63, sai em separado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1864 – Inicia colaboração que marcará época. No &lt;em&gt;Jornal das Famílias&lt;/em&gt;, muitos de seus contos saírão durante mais de uma década. O que lembra a fase do argentino Jorge Luis Borges em &lt;em&gt;El Hogar&lt;/em&gt;, nos anos 1930.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1864 – Sai seu primeiro livro. &lt;em&gt;Crisálidas&lt;/em&gt;, poemas. A crítica vasculhou em vão, nesses poemas derramados (mesmo com versos regulares), alguma pista do Machado que sobreviveu à própria morte. Ficasse só nos poemas, e não o teríamos lembrado. Não deixa, no entanto, de configurar, essa observação, uma injustiça. O processo do artista é longo e irregular, como o de maciça maioria dos artistas, mesmo os grandes. Aos 25 anos era praticamente impossível estabelecer autonomia estética num meio onde criadores fadados a serem esquecidos antes de morrer ditavam as regras. Ele não as seguiria em breve. Mas era preciso esperar&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1866 – Desembarca do navio, que a trouxe de Portugal, Carolina Augusta Xavier de Novais, quatro anos mais velha que ele e amiga de Camilo castelo Branco e de outros escritores portugueses.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1869 – Casamento com Carolina. Residem, primeiramente, na Rua dos Andradas. Cinco anos depois, muda-se para a Rua da Lapa. Em 1875, para a Rua das Laranjeiras. O casal busca o abrigo que os fortaleça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1870 – Edição de &lt;em&gt;Contos Fluminenses&lt;/em&gt; e &lt;em&gt;Falenas&lt;/em&gt; (poemas). Nos contos, uma evolução na prosa que se fazia então. Na poesia, nada de novo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1872 – Realiza seu romance inicial, &lt;em&gt;Ressurreição&lt;/em&gt;. Já traindo a tradição romântica, coloca o casal, dois protagonistas, num jogo contido onde há mais embate que a exaltação das certezas do desejo mútuo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1873 – Entra para o funcionalismo público, no Ministério da Agricultura, Comércio e Obras Públicas, e lança &lt;em&gt;Histórias da Meia-Noite&lt;/em&gt;, segunda incursão no conto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1874 – Segundo romance, &lt;em&gt;A Mão e a Luva&lt;/em&gt;. Estréia como folhetinista. Depois, no mesmo ano, o romance sai em livro. Guiomar, moça segura de si, de origem humilde, vê a chance de ascensão social pelo casamento. Três são os pretendentes. O fiel Estevão, tratado no entanto com certo desdém pelo narrador. O óbvio, oco e desimportante Jorge, o mais parecido com Guiomar, mas sem charme, naturalmente. E o ambicioso Luis Alves, determinado, com planos políticos e sociais. Apesar desse cenário que a escola romântica não aprovaria, fica evidente a escolha de Guiomar por Luis Alves. A união dos dois é tão certa como a mão e a luva. O cético Machado já dá as cartas em sua fase “romântica”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1875 – O poeta dá mais um passo. Sai &lt;em&gt;Americanas&lt;/em&gt;, seu terceiro livro no gênero. Antecipando uma pausa lírica que durará 26 anos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1876 – &lt;em&gt;Helena&lt;/em&gt;, terceiro romance da primeira fase do autor, vem a público. Talvez o mais frágil porque Machado nele não se detém – como, ao contrário, sempre foi sua marca – no detalhamento psicológico das personagens. É a menos machadiana de suas ficções: o enredo domina tudo. Desde o forte início, com a morte de um homem poderoso, o surgimento de uma suposta filha, Helena, que ele tivera com uma amante, a paixão – recíproca – entre Helena e Estácio, o irmão da moça, até o desfecho surpreendente. O que parece uma ameaça de incesto terá uma reviravolta. Amores paralelos (por Helena, da parte de Mendonça, e por Eugênio, suposto irmão da moça, da parte de Eugênia, prometida desde a infância ao filho do homem poderoso, rico) e interesses de ascensão social, esses sim marca recorrente no universo ficcional de Machado fazem de Helena um roteiro que se insere no corpus de sua obra, mas o tom com que tal roteiro se mostra abre mão das nuances características do escritor, sempre a criar armadilhas e dissolver qualquer possibilidade de evidência. O enigma de Capitu não é um capítulo isolado em sua criação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1878 – Encerra o ciclo romântico com &lt;em&gt;Iaiá Garcia&lt;/em&gt;. Não à toa nesse mesmo ano publica seu célebre ensaio contra o naturalismo de Eça de Queirós em &lt;em&gt;O Primo Basílio&lt;/em&gt;. Talvez o mais bem acabado romance da primeira fase. Como se fosse a fronteira entre os jogos afetivos infindáveis e as questões morais e suas derivações a apontar outra concepção de literatura, que se dará dali a dois anos. Em &lt;em&gt;Iaiá Garcia&lt;/em&gt; temos a sombra constante do amor entre Jorge, moço rico, e Estela, de origem pobre. A mãe do rapaz, viúva rica amiga do também viúvo Luís Garcia, pai de Iaiá – na verdade Lina –, sabe do interesse do amigo maduro pela moça. Trata de afastar o filho, convencendo-o a alistar-se na Guerra do Paraguai. Depois dá um dote à Estela e a convence que Luís Garcia, um bom partido, pacato e caseiro, é o melhor rumo para a vida da moça. Jorge também era amigo do pai de Iaiá, e confidencia-lhe, quando Luís Garcia já está casado com Estela, dos verdadeiros motivos de sua ida ao Paraguai. Omitindo, por respeito, a identidade da moça que a mãe não queria que ele desposasse. Antes do retorno do rapaz, morre-lhe a mãe. Jorge retorna. Passa freqüentar a casa de Luís Garcia e naturalmente cruzam-se ele e Estela, sempre havendo tensão no encontro entre ambos. Iaiá, muito próxima do pai, conhece-lhe a fundo e percebe a perturbação de Estela nessas horas. Sobretudo quando o pai mostra à esposa as cartas do amigo confessando seus amores proibidos pela mãe, sem citar o nome da pretendida. Na volta Jorge trouxe um amigo, Procópio, que logo se interessa por Iaiá. Faz de Jorge seu confidente, na busca de alguma chance com a filha de Luís Garcia. No entanto, querendo resguardar o pai de uma grande decepção, Iaiá decide-se casar-se com Jorge e, para isto, tenta conquistá-lo, apesar do sentimento de repulsa que o rapaz lhe causava até então. Contando com seus dotes, acaba por noivar com o moço. Entretanto, antes do casamento, morre o velho Luís Garcia. O plano da heroína perde o significado, e Iaiá desmancha o noivado. Mas os dias mostram que, de fato, ela agora está apaixonada por Jorge. Procópio Dias, o pretendente rejeitado, fortalece as suspeitas da moça, insinuando relações amorosas entre Jorge e Estela. Esta, descobrindo o que levou Iaiá a romper o noivado, convence-a de que suas suspeitas não têm fundamento: tudo há muito se resumia às lembranças do passado. Reaproximam-se os noivos e Estela serve-lhes de madrinha no casamento. Após isso, muda-se para São Paulo, onde vai trabalhar na escola de uma amiga. Ainda o Romantismo exige de Machado de Assis respostas, mas a resposta, cada vez mais, é tipicamente machadiana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1878/79 – Séria enfermidade nos olhos. Passa longa temporada em Nova Friburgo, RJ, em busca de recuperação. Tempo de renovar-se. Muitos biógrafos apontam esse episódio de sua vida como a fronteira entre a primeira fase e a segunda, que vem logo em seguida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1880 – &lt;em&gt;Tu, só tu, puro amor&lt;/em&gt;, peça em homenagem ao terceiro centenário da morte de Camões (1525?-1580). Resume-se ao papel de homenagem. O excessivo psicologismo, no caso, não se adéqua à cena e menos ainda à odisséia relacionada ao episódio camoniano. O teatro é o gênero onde Machado menos acertou. Não à toa só voltará a publicar duas peças, as derradeiras, 26 anos mais tarde.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1881 – Ano-marco na vida do autor. Sai &lt;em&gt;Memórias póstumas de Brás Cubas&lt;/em&gt;, seu romance mais original, difícil de definir. Espécie de rapsódia, à qual o autor não voltará nos livros seguintes, mesmo atingindo em alguns nível semelhante de excelência. Algo impossível de se extrair do livro, para começar: uma sinopse. Basta dizer que quem narra é um defunto, que começa o livro no dia de sua morte e a narra, num resumo simplificado, de trás para diante. A literatura brasileira nunca mais seria a mesma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1882 – Sai mais uma coletânea de contos, já com marcas inconfundíveis da maturidade: &lt;em&gt;Papéis avulsos&lt;/em&gt;. O volume abre com "O Alienista", uma novela de 90 páginas que muitos chamam de conto, e que está entre as criações máximas do autor. Para coroar o livro, destacam-se ainda "Teoria do medalhão", "A sereníssima república" e "O espelho", um dos contos mais estudados de Machado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1884 – Machado e Carolina mudam-se para a casa definitiva, o sobrado na rua Cosme Velho, 18. Nesse mesmo ano sai &lt;em&gt;Histórias sem data&lt;/em&gt;. O contista consagra em definitivo o escritor: só neste volume encontram-se "A igreja do Diabo", "Cantiga de esponsais", "Singular ocorrência", "Galeria póstuma", "Capítulo dos chapéus", "Noite de almirante" e "As academias de Sião".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1888 – É nomeado Oficial da Ordem da Rosa por Dom Pedro II. Uma semana após a proclamação da Leia Áurea, libertando os escravos, Machado, avesso a “excessos” públicos, desfila em carro aberto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1891 – Sai &lt;em&gt;Quincas Borba&lt;/em&gt;, segundo romance do seu trio maior (completado com &lt;em&gt;Dom Casmurro&lt;/em&gt;) de narrativas longas do autor. O livro dialoga com o &lt;em&gt;Memórias póstumas...&lt;/em&gt; A começar pelo personagem homônimo, amigo de Brás Cubas e a quem este seguia como um exemplo de saber, sobretudo por sua filosofia, no &lt;em&gt;Quincas Borba&lt;/em&gt; explicada: o Humanitismo. Além disso, o “pensador” – a ironia machadiana nos leva a desconfiar de que sua filosofia seja mero pretexto para nos passar a perna ou, mesmo, que ele seja um alucinado – tem um cão a quem deu seu próprio nome. Quando morre, deixa uma herança em dinheiro para o amigo Rubião, desde que este cuide do cão. O título alude ao filósofo “louco” ou ao animal de estimação? É do pensamento de Quincas Borba, o homem, a frase famosa: “Ao vencedor, as batatas.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1896 – Sai um de seus mais importantes livros de contos, &lt;em&gt;Várias histórias&lt;/em&gt;. Basta que se diga que nesse volume reúnem-se "A cartomante", "Uns braços", "Um homem célebre", "A causa secreta", "Conto de escola" e "Um apólogo". Funda a ABL – Academia Brasileira de Letras e é eleito seu primeiro presidente a 15 de dezembro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1897 – Sílvio Romero publica o mais notável – pela infelicidade – estudo sobre um grande autor na história da crítica brasileira. Chama-se Machado de Assis, simplesmente, e é a primeira e, ao mesmo tempo, mais enfática resistência à obra machadiana. Acusa aos demais críticos de superestimarem o autor, em quem vê apenas “O estilo de Machado de Assis, sem ser notado por um forte cunho pessoal, é a fotografia exata do seu espírito, de sua índole psicológica indecisa. (...) Vê-se que ele apalpa e tropeça, que sofre de uma perturbação qualquer nos órgãos da linguagem. Machado de Assis repisa, repete, torce e retorce tanto suas idéias e as palavras que as vestem, que deixa-nos a impressão dum tal tartamudear. Esse vezo, esse sestro, tomado por uma cousa conscienciosamente praticada, elevado a uma manifestação de graça e humour, era o resultado de uma lacuna do romancista nos órgãos da palavra”. Diversos trechos revelam o tom preconceituoso de Romero, levando em conta a origem pobre do autor, a gagueira, a timidez, e o fato de ser mulato, como determinantes de uma impossibilidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1899 – Outro ano que marca a vida de Machado. Sai &lt;em&gt;Dom Casmurro&lt;/em&gt;, romance que, na forma, retoma a narrativa até certo ponto linear de antes de &lt;em&gt;Memórias póstumas...&lt;/em&gt; Trata-se de um dos três livros mais estudados das letras nacionais. Só sobre &lt;em&gt;Dom Casmurro&lt;/em&gt;, ambígua história de uma aparentemente evidenciada traição, pode-se formar uma biblioteca média de produção crítica nos quase 110 anos de seu surgimento. Também publicado nesse ano, &lt;em&gt;Páginas recolhidas&lt;/em&gt; confirma que o contista chegou ao auge há duas décadas. No volume, não bastassem "O caso da vara", "Idéias de canário" e "Filosofia de um par de botas", integra o conjunto "Missa do Galo", seu conto mais discutido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1901 – Talvez sob o impacto do novo século, Machado faz um balanço de sua poética. Publica seu quarto e último volume de poemas, &lt;em&gt;Ocidentais&lt;/em&gt;, e igualmente reúne toda sua produção no gênero, em &lt;em&gt;Poesias completas&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1904 – Sai seu penúltimo romance, &lt;em&gt;Esaú e Jacó&lt;/em&gt;, considerado, junto com o próximo, obra crepuscular, uma espécie de queda no projeto estético machadiano. Inevitável. Já tinha feito mais do que todos os que o tinham antecedido – e talvez do que os pósteros. E era um ano que se adivinhava amargo. Em outubro, morria Carolina, que durante 35 anos o acompanhara em tudo, sendo até mesmo sua secretária e revisora. Fortes dores no estômago, agravadas por uma receita equivocada de um farmacêutico, precipitaram o fim por causas que, então, não eram diagnosticadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1906 – Publica seu último livro de contos, &lt;em&gt;Relíquias de casa velha&lt;/em&gt;, sendo que ali promove uma miscelânea, abrindo o volume com seu melhor poema, “A Carolina”, e logo em seguida com uma narrativa breve que também se inclui entre suas melhores: "Pai contra mãe". Os outros 41 textos, alguns pendendo à crônica, a maioria contos mesmo, recolhem o que ficou pelo caminho, textos esparsos na imprensa, saídos entre 1874 a 1894, reunidos em ordem cronológica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1908 – Vem à luz seu derradeiro romance, &lt;em&gt;Memorial de Aires&lt;/em&gt;. Em 29 de setembro, uma grave infecção intestinal e uma úlcera na língua debilitam seu estado de saúde a ponto de fazê-lo fechar os olhos pela última vez, já madrugada. Muita gente o acompanhava em casa. Não aceitou quando lhe ofereceram um padre para a extrema-unção. “Seria muita hipocrisia.” (29/09/2008)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7659575339957537112-6105972776291466864?l=bentancur.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bentancur.blogspot.com/feeds/6105972776291466864/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7659575339957537112&amp;postID=6105972776291466864' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/6105972776291466864'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/6105972776291466864'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bentancur.blogspot.com/2008/09/h-cem-anos-morria-machado-de-assis.html' title='HÁ CEM ANOS MORRIA MACHADO DE ASSIS'/><author><name>BENTANCUR</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17397945706691195345</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp2.blogger.com/_296zOjIvu2c/R_F9H73wKyI/AAAAAAAAAAs/Mx_DoNV9suo/S220/Paulo5.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7659575339957537112.post-4564139008566234831</id><published>2008-09-27T08:16:00.000-07:00</published><updated>2008-09-27T08:18:43.993-07:00</updated><title type='text'>PITACOS</title><content type='html'>O título geral desta seleção de breves textos foi surrupiado de meu primo Alexandre Ribeiro, que escreve bem pra caralho (como mais um primo meu, aliás, e que, como ele, faz questão de esconder o próprio talento). Mal de família, vocês entendem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Faltam 2 dias!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Na segunda-feira, 29/09, completa-se um século inteirinho que o Sr. Machado de Assis abandonou o próprio corpo à sorte dos vermes que logo, logo roeriam as frias carnes de seu cadáver. Enquanto seus contemporâneos sobreviventes e as gerações futuras teriam para sempre uma literatura pra lá de viva, à disposição deles, leitores, aferrados a uma arte verbal capaz de roer – como quem não quer nada – também a nossa moral e os nossos péssimos costumes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Dica de leitura urgente&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;As confissões do homem invisível&lt;/em&gt;, de Alexandre Plosk, é um caudaloso romance recém-lançado pela Bertrand Brasil (391 páginas, R$ 49,00). Nem parece literatura brasileira. Está tudo lá: Maupassant, H. G. Wells, alguns cientificismo que lembram a vigília dos obsessivos protagonistas de Edgar Allan Poe, e, principalmente, o estilo Plosk, único, sem antecessores e – duvido! – continuadores na tímida literatura nacional. Escrevemos bem, sim; mas pensamos com muito medo, indo pouco além da sobrevivência dos nossos umbigos. Não sabemos contar histórias e, muito menos, pesadelos intermináveis nos quais o real suplanta o quase naturalismo da má-consciência burguesa. Plosk nos livra de tudo isso: oferece diversão, angústia, assombro, novidade, viagem no tempo, no espaço, sem psicologismos previsíveis, e com narradores decididos e atormentados num nível acima da média, o que daria ótimos filmes. Não pelo (muito bom, sim) Fernando Meirelles, mas por gente de Hollywood, como os Irmãos Cohen ou até o Woody Allen. Brasileiros sofrem de cegueira para tamanha imaginação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Dica de filme&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Como a última vez em que fui ao cinema o chato do Glauber Rocha ainda estava na onda (é... só vejo tevê a cabo. Não é preferência, é falta de tempo mesmo para enfrentar uma saída, o tempo de espera no cinema, e o retorno: escrevo a Odisséia nesse intervalo todo), indico no canal 81, MGM (Metro-Goldwyn-Mayer), o longa de 1994 &lt;em&gt;Romance entre amigos&lt;/em&gt; (“&lt;em&gt;What Happened Was&lt;/em&gt;”, literalmente &lt;em&gt;O que aconteceu foi&lt;/em&gt;...), dirigido e estrelado pelo Tom Noonan, que contracena com Karen Sillas, e que entre quinta-feira e sexta, ontem, passou três vezes. Passará outras, é só ficar de olho.&lt;br /&gt;O filme são os dois atores, e só. O mais impactante (aliás, uma peça de teatro filmada) é o ritmo marcadamente arrastado, truncado, em que palavras, emoções e ações parecem travar na hora H. Se é que existe alguma hora H nos 91 minutos de duração da história. Que história? Jackie (Karen Sillas, que está ótima, como o parceiro e diretor), solteira além de “uma certa idade” – mas ainda atraente –, é uma secretária em um escritório de advocacia. Vive uma profissão e uma vida medíocres. Convida Michael (Noonan), colega de trabalho, numa sexta-feira, para jantar no apartamento dela. Quem sabe role algum clima… Pois a absoluta ausência de clima (estampada na atuação impecavelmente inexpressiva dos dois) revela, paradoxalmente (a desesperança é o avesso do desespero pela esperança), que tudo pode acontecer. Quase ao final de um jantar monótono, tenso diante das supostas possibilidades que jamais decolam, Jackie revela que fará aniversário dali a dois dias, e que resolveu antecipar a festinha. Só para os dois. Ele se sente pressionado. Mas, no fundo, é um homem pressionado – independente daquela situação. Trata de se mandar. Quando ela começa a recolher o bolo que nem comeram, as bebidas que nem chegaram a abrir, Michael, já na porta, começa a falar (enfim!) e o que fala nada revela além de seu cotidiano tão precário quanto o dela, esvaziado de qualquer chance. Nessas horas em que a fala de um cala a do outro (jamais ocorre a interação do estilo pingue-pongue), emerge da vastidão deserta e (nunca gélida) morna de um mar onde jazem afogados, à espera, sempre à espera, a solidão mais crua que já presenciei encenada.&lt;br /&gt;Por fim, o desabafo do parceiro é apenas o monólogo elíptico de um estranho. Jackie ousou ainda revelar: “gosto de você”. É pouco para tanto isolamento, instaurado em cada um. Michael, tendo revelado sua existência sem-graça, vai embora. Jackie começa a apagar as luzes. Eu aplaudi. Na frente da tevê, comovido, inquieto, aplaudi. (27/09/2008)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7659575339957537112-4564139008566234831?l=bentancur.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bentancur.blogspot.com/feeds/4564139008566234831/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7659575339957537112&amp;postID=4564139008566234831' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/4564139008566234831'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/4564139008566234831'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bentancur.blogspot.com/2008/09/pitacos.html' title='PITACOS'/><author><name>BENTANCUR</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17397945706691195345</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp2.blogger.com/_296zOjIvu2c/R_F9H73wKyI/AAAAAAAAAAs/Mx_DoNV9suo/S220/Paulo5.jpg'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7659575339957537112.post-7685625817650857616</id><published>2008-09-25T04:00:00.000-07:00</published><updated>2008-09-25T04:42:55.476-07:00</updated><title type='text'>ENQUANTO O TEMPO TENTA PASSAR INCÓLUME</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;E já que ninguém gava...&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Zeca gava. Domingo, 28/09, sai na revista &lt;em&gt;Época&lt;/em&gt;, na seção "Mente aberta", um artigo-relâmpago meu sobre dois livros do meu autor de cabeceira, o argentino Julio Cortázar: &lt;em&gt;A volta ao dia em 80 mundos&lt;/em&gt; e &lt;em&gt;Último round&lt;/em&gt;, ambos editados pela Civilização Brasileira (que no Brasil edita toda a obra de Cortázar), cada um deles em dois voluminhos de se levar apertados contra o peito, feito uma colegial apaixonada. São contos, artigos, ensaios, poemas, e centenas de imagens. O que o autor chamava de "livro-almanaque". Não seria uma forma antecipada de blog? Originalmente saíram em 1967 e 69, respectivamente. Cortázar, que amava Júlio Verne, era um visionário mesmo, a exemplo de seu mestre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Faltam 4 dias!&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Contagem regressiva para se marcar (relendo os livros, claro, e não com fogos de artifício) os cem anos, não da morte do cidadão Joaquim Maria Machado de Assis (21/06/1839–29/09/1908), mas um centenário que uma obra de qualidade quase inexplicável foi sua herança, deixada a quem estiver disposto a conferir – e bem tratada, diga-se de passagem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Legítima efeméride&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Efeméride" é uma palavra pra lá de anacrônica. Bem... A Academia Paulista de Letras andou homenageando Paulo Bonfim, lembram (os mais velhos, digo) de &lt;em&gt;Praia de sonetos&lt;/em&gt; e outros ós e ôs que um distraído como o Guilherme de Almeida andou incensando? Pois Bonfim é o atual Príncipe dos Poetas Brasileiros (apelo de novo à vossa memória: lembram do Olavo Bilac, o primeiro de todos a receber nobiliárquico título?), ocupa a cadeira 35 da dita academia, completará 82 anos um dia depois do Machadão completar 100 anos de morto, e, sim, está vivo, o homem, vivo! E eu achando que Paulo Bonfim, Paulo Setúbal e outros Paulos cujo sobrenome agora me foge à memória estivessem mortos. É possível que estejam. Na literatura, obviamente. Mas não era disso que falávamos?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Personagem não chora, não gargalha&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Semana estranha. De repente me vejo, em oficinas de redação criativa, debatendo até a exaustão o fato de que há um excesso de personagens se desfazendo em lágrimas, gargalhando até não poder mais. Alertei aos autores de semelhantes excessos: na vida, que não tem o menor senso estético, chorar pode ser fundamental (além de inevitável), livrando, sobretudo aos homens, de possíveis ataques cardíacos; gargalhar é uma das coisas mais contagiantes – supondo-se que a piada seja boa mesmo. Porém, na literatura, o diabo sempre se apresentando nos detalhes, chorar tem 83,6% de chances de esvaziar o efeito dramático de uma situação que, sim, levaria qualquer um ou a maioria às lágrimas, mas, uma vez omitidas no texto, criam a tensão emocional decisiva para que o leitor, este liberado para tais excessos, reaja como reagir. Imagine-se um personagem às gargalhadas. O motivo de tal reação, ficcionalmente falando, tem de ser muito bem justificado, criado de forma irretocável. Sem uma atmofesra extremamente propícia, tais gargalhadas nos deixarão, frente às páginas, sem-graça, achando aquilo tudo, senão gratuito, exagerado, constrangidos talvez. Em suma: os personagens que pintem e bordem, e aos leitores que sobre toda a histeria do mundo. Observação: claro, personagens choram e riem, está mais do que óbvio. Mas em situações ante as quais o leitor nem discute, fica inclusive pensando: "puta que o pariu..." Última observação: o tema é amplo, naturalmente, e não é numa nota que irei esgotá-lo. (25/09/2008)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7659575339957537112-7685625817650857616?l=bentancur.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bentancur.blogspot.com/feeds/7685625817650857616/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7659575339957537112&amp;postID=7685625817650857616' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/7685625817650857616'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/7685625817650857616'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bentancur.blogspot.com/2008/09/enquanto-o-tempo-tenta-passar-inclume.html' title='ENQUANTO O TEMPO TENTA PASSAR INCÓLUME'/><author><name>BENTANCUR</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17397945706691195345</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp2.blogger.com/_296zOjIvu2c/R_F9H73wKyI/AAAAAAAAAAs/Mx_DoNV9suo/S220/Paulo5.jpg'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7659575339957537112.post-1580054447426839150</id><published>2008-09-20T13:47:00.000-07:00</published><updated>2008-09-20T13:48:45.075-07:00</updated><title type='text'>A MULHER QUE NOS DEU AS COSTAS</title><content type='html'>Flagrada na intimidade mais doce, aquela que parece anteceder uma posse (a sonhada posse masculina), a fêmea figura freqüenta a mente e a paleta de muita gente – Rafael, Goya, Renoir, e esses três são apenas alguns nomes centrais de uma prática de séculos e de centenas de artistas. O ítalo-brasileiro Eliseu Visconti (Villa di Santa Caterina, Giffoni Valle Piana/Itália, 1866 – Rio de Janeiro/RJ, 1944), em &lt;em&gt;Dorso de mulher&lt;/em&gt; (68cmx41cm, sem data), trai sua predileção pelo esteticismo de Degas, diluindo aí a antiga poesia vaporosa de Renoir, poesia ausente nesta tela, mas marca fundamental do impressionismo em cujas luzes muito da pintura de Visconti se banha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estávamos na passagem do século XIX para o XX (não sabemos em que ano a tela foi pintada), entre o umbral do novo (agora velho) século e a década de 20, os ares da art nouveau lavando a pesada, densa luz do impressionismo que ficara para trás. O pontilhismo acenava de perto. O divisionismo dos neo-impressionistas, típico daquele tempo, fazia com que a cor estivesse sendo definitivamente perturbada, perdendo para sempre a rígida placidez dos tons clássicos.&lt;br /&gt;Mas Visconti não trai a altiva intimidade dessa mulher que nos dá as costas. Ou melhor, que não nos nota, imersa na sua serena nudez, sem o langor renoireano, sem o movimento elegante de quem pede um espelho, tocada por uma luz que morre nela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acostumamo-nos a ser levados por essa displicente apresentação do corpo feminino: a lassidão de quem se estende, levemente erguida, levemente deitada. Convite e impedimento. A diferença, claro, não está nas mulheres, nem mesmo nas épocas (cuja nudez sempre antecipa o futuro), mas no estilo dos pintores, isto é, nos pintores, e seu olhar de macho, num primeiro momento amestrado, e num segundo, vitorioso pela mão civilizadora da arte. Todos – e não é preciso ser Fragonar ou Rubens – estacam ante a visão e ali ficam, mortificados, incapazes de dar um passo à frente sem antes gravar para sempre a imagem que os feriu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O impressionismo briga com o fotográfico, afasta-se levemente do figurativo e, de certa forma, antecipa o abstrato, mergulhando na sede de luz, no susto ante o fulgor do mundo, ante a auréola nem santa nem demoníaca, mas pretensamente natural, num exagero que banha as formas e nos fecha um pouco os olhos como se um sol acendesse tudo. Num corpo não seria de se esperar esse facho, esse clarão, essa cor móvel, cheia de cintilações, que corusca com um calor úmido e ameaça falsear o que se vê. A luz então conhece a sombra e mais tarde busca um equilíbrio onde ela não é o elemento principal, ou melhor, ainda é, mas discretamente utilizado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Visconti recupera em seu tempo a cena doméstica, a verdade sem o excesso lírico, a pele iluminada até onde somos capazes de ver, sem as ilusões pictóricas, visualmente retóricas. Como se uma toalha tivesse enxugado aquelas costas. Toalha que a própria mulher usou, sem a nossa miserável ajuda. (20/09/2008)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7659575339957537112-1580054447426839150?l=bentancur.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bentancur.blogspot.com/feeds/1580054447426839150/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7659575339957537112&amp;postID=1580054447426839150' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/1580054447426839150'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/1580054447426839150'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bentancur.blogspot.com/2008/09/mulher-que-nos-deu-as-costas.html' title='A MULHER QUE NOS DEU AS COSTAS'/><author><name>BENTANCUR</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17397945706691195345</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp2.blogger.com/_296zOjIvu2c/R_F9H73wKyI/AAAAAAAAAAs/Mx_DoNV9suo/S220/Paulo5.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7659575339957537112.post-9007974392714465922</id><published>2008-09-17T15:15:00.000-07:00</published><updated>2008-09-17T15:17:27.525-07:00</updated><title type='text'>ARESTAS, APARAS, ARTE 3</title><content type='html'>&lt;strong&gt;O homem condenado&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;             A inteligência cria tantas armadilhas quanto a mediocridade.&lt;br /&gt;             A mediocridade leva o homem ao deserto espiritual. A inteligência, ao inferno espiritual.&lt;br /&gt;A mediocridade causa dependência, mas compensa com o fácil convívio social. A inteligência vive da surpresa, cria todo o tempo, mas torna-se impotente num mundo que se transforma só por fora. O medíocre corre todo o tempo, alimenta o mundo que o aceita sem queixas, mas ele, medíocre, mergulhado nesse êxito sem sobressaltos, acorda de um sono limpo para uma vigília onde uma sombra que nunca se deixa entrever vai aumentando cada vez mais, até mostrar sua verdadeira cara apenas no dia de sua morte. Mas aí é tarde para acordar.&lt;br /&gt;             A inteligência, ao contrário, é derrotada diariamente (pelo conformismo e pela preguiça e pelo obscurantismo), que não atrapalham a administração do progresso e os jogos de poder, e quando desiste de lutar, e cala-se dentro de um corpo murcho e doente, fatalmente condenado, ouve enfim – mas tarde demais – o reconhecimento hipócrita de que estava certa antes, o tempo todo. Mas já não lhe resta nem oportunidade para o alívio, que dirá para o sorriso.&lt;br /&gt;            A inteligência que fica é uma inteligência estuprada. Olha para o lado: vê então uma nova inteligência, inteligência porque nova. Que monta armadilhas. A maior delas: retira uma pedra do castelo, depois outra, e através do buraco espia o outro lado. Os condenados a não chegar até o lugar onde a consciência vigia são os primeiros a denunciá-la. A inteligência constrói seus próprios obstáculos: cada pedra que retira cai sobre sua cabeça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Prazos&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;            O tempo nunca chega na hora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O cavador de poços&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;             Fui eu quem cavou o poço do qual alguns tiraram água boa, outros água benta, e no qual ainda outros se afogaram.&lt;br /&gt;             Será minha obra benfazeja ou maléfica? Será minha essa obra?&lt;br /&gt;             Se o poço restasse só, sem nenhuma boca ávida, sem nenhum olho curioso, só poço sem testemunha, de que adiantaria tê-lo cavado?&lt;br /&gt;             Meus protegidos e meus exploradores completam o que fiz e o que deixei de fazer. Cavo poços, não sei fazer outra coisa. Nem eles, a não ser esperarem.&lt;br /&gt;             E há também os que me ignoram. Esses, cavam seus próprios poços.&lt;br /&gt;             Ainda bem: precisamos de poços.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Verdade sobre a colheita&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;            A melhor flor do Paraíso, é preciso ir ao Inferno para buscá-la. (17/09/2008)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7659575339957537112-9007974392714465922?l=bentancur.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bentancur.blogspot.com/feeds/9007974392714465922/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7659575339957537112&amp;postID=9007974392714465922' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/9007974392714465922'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/9007974392714465922'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bentancur.blogspot.com/2008/09/arestas-aparas-arte-3.html' title='ARESTAS, APARAS, ARTE 3'/><author><name>BENTANCUR</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17397945706691195345</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp2.blogger.com/_296zOjIvu2c/R_F9H73wKyI/AAAAAAAAAAs/Mx_DoNV9suo/S220/Paulo5.jpg'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7659575339957537112.post-6100720987435871454</id><published>2008-09-14T12:33:00.000-07:00</published><updated>2008-09-14T12:36:45.955-07:00</updated><title type='text'>ARESTAS, APARAS, ARTE 2</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Autocrítica&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;            Shakespeare sabia tudo de Ben Johnson e nada de William Shakespeare.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Os cachorros&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;            A obra, como um carro, corta a estrada, vêm os cachorros – o público –, e latem, como se fossem morder o metal blindado contra sua curiosidade de gengivas escuras.&lt;br /&gt;A obra, como um carro, corta a estrada, estaciona nas livrarias, há latidos nos jornais, há rosnares, babas de fome por outra coisa, e logo desistência, a comprida língua de fora pelo fôlego curto, o rabo entre as pernas, o carro longe, esquecido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Não perguntem ao autor&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;            O homem termina mais uma de suas peças. Lê novamente o que acabou de escrever, francamente incomodado. Mais que as dúvidas habituais que assaltam os que pensam e produzem, em regra pressionados por prazos, o espírito do homem é tomado de um tormento já rotineiro: novamente vê no que criou a marca do excesso, do imperfeito.&lt;br /&gt;Relê tudo com uma atenção desconsolada. Lá estão, bem claros, o enredo improvável, cheio de episódios de exceção, os personagens descontrolados, neuróticos a um passo do inverossímil, e suas falas então, literárias em demasia, de uma profundidade só cabível a um artista, não a um homem ao qual a arte não elegeu.&lt;br /&gt;Sente-se incoerente esse homem que escreve. E, mais que incoerente, falho. Aceita a incoerência (não é ela moeda corrente em suas obras?), assim como aceita o descontrole emocional, o ridículo nos atos das criaturas que põe em cena, o despropósito de suas decisões, a natureza quase bestial de algumas, quase divina de outras. Aceita isso, sim, mas aceita como aceitamos um ritmo cego que nos toma e nos carrega e logo que ele acaba saímos em outra direção.&lt;br /&gt;E tudo isso que o homem escreve é feito numa linguagem que pinga, ressuma, reverbera. Muita música, muita imagem, muita ação, muita legenda. O homem sente-se francamente cansado. Cansado de tudo. Sabe que errou miseravelmente em seu projeto estético. Perdeu desde a primeira linha a possibilidade do equilíbrio. Qual seu destino?&lt;br /&gt;Evidente: cair. Cair do mais alto sonho até a mais baixa realidade. O mundo é impiedoso, disso ele sabe. Que glória poderá esperar? Nenhuma. Claro que nenhuma. O consolo é o relativo sucesso mais imediato – por enquanto ele está vivo e é isso o que mais importa – que seu trabalho faz junto ao público, vulgar, como se sabe.&lt;br /&gt;Quando acaba o espetáculo, ele volta para casa, e logo já bola outra peça descabelada, outro exagero, outro conjunto de vilanias, ridículos, incongruências, únicos sinais que lhe acenam e depois dos quais ele duvida que tenha chegado ao ponto certo.&lt;br /&gt;Um dia morrerá, não se ilude, tudo terá acabado, mas as dívidas não se acumularão, alguma herança material restará, e se seu nome – William Shakespeare – tiver sido varrido da face da Terra, ele não estará presente para lamentar esse resto de silêncio. Até porque concordaria com ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O grande consolo&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;            Shakespeare, como a maioria de nós, não sabia o que estava fazendo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O necessário&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;            É preciso fazer para saber o quanto falta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O prêmio&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;            Se a coragem é insensata, se o risco é suicida, levam consigo a vida (este prêmio) e a entregam à morte, esta sim sem sentido.&lt;br /&gt;            Se o medo é seguro, se o recuo nos mantém na sobrevida, quando a morte chegar – mesmo que demore –, só aí trará um sentido para o que antes não tinha nenhum.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Pensar, esta indelicadeza&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;            Filosofar nada mais é do que enfim esticar os pés da inteligência herdada no berço, herdada mas que não pode ser exercitada em convívio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Trabalho&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;            O trabalho nos trabalha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Rotina&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;            Há um enigma enorme na obstinação da rotina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Tempo mínimo&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;            Leitura é tarefa mais infinita que o amor. Um dia o amor esgota. Um dia o amor aplaca. Um dia o amor desama. E custa a se renovar. E quem amou duas vezes na vida, ou três, já amou muito e pode dar-se por satisfeito. Mas ler...&lt;br /&gt;Imagino três coleções apenas, três súmulas do conhecimento humano e da arte: a enciclopédia espanhola &lt;em&gt;Espasa-Calpe&lt;/em&gt; (em mais de cem volumes), a &lt;em&gt;Biblioteca universal de obras célebres&lt;/em&gt; (em cerca de 50 volumes) e &lt;em&gt;Vidas ilustres&lt;/em&gt;, de Plutarco, que chega a uns 30 tomos. Só esses três monumentos (após cuja leitura poderíamos nos dar por satisfeitos e prontos para olhar o mundo com um mínimo de consciência) levariam mais de trinta anos para serem lidos. Só três coleções! Imagine-se os 200 autores inevitáveis, obrigatórios, os dicionários a serem consultados com vagar, os idiomas necessários para que não acabemos tristemente monoglotas, ilhados numa só língua. Eis o cálculo para um homem passar por esta vida sem ter sido cego diante do supremo prazer, o saber: 300 anos para ler o básico. (14/09/2008)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7659575339957537112-6100720987435871454?l=bentancur.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bentancur.blogspot.com/feeds/6100720987435871454/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7659575339957537112&amp;postID=6100720987435871454' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/6100720987435871454'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/6100720987435871454'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bentancur.blogspot.com/2008/09/arestas-aparas-arte-2.html' title='ARESTAS, APARAS, ARTE 2'/><author><name>BENTANCUR</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17397945706691195345</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp2.blogger.com/_296zOjIvu2c/R_F9H73wKyI/AAAAAAAAAAs/Mx_DoNV9suo/S220/Paulo5.jpg'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7659575339957537112.post-3628426922827226852</id><published>2008-09-14T12:12:00.000-07:00</published><updated>2008-09-14T12:16:49.590-07:00</updated><title type='text'>ARESTAS, APARAS, ARTE</title><content type='html'>&lt;strong&gt;Cuidado com certas modéstias&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;            Modéstia, em alguns casos, é talento modesto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Advertência&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;            Obra que é obra não tem espelho. 1) Não pode ser imitada; 2) O próprio autor, ao buscar repeti-la, fracassa. E só lhe resta então partir para algo inteiramente novo. Aliás, por fazer exatamente isto é que ele destrói qualquer possibilidade de espelho e constrói a obra. Abandona-se a cada livro, órfão de si mesmo; e diante do espelho desejado (fácil e resumidor) nada o reflete, condenado como um vampiro que deve beber o sangue de todos, mas jamais o seu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Legado&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;            Anos e anos tentando, e fracassando como um miserável sem sol. A obra não lhe vinha, não de forma aceitável. Aliás, vinha-lhe a obra, sim, mas em forma de condenação: sua derrota cotidiana, o peso terrível de acumular fracassos. Faltava-lhe, talvez menos que engenho, paciência. Sua vida tinha sido até então aquela marca inapagável do insuficiente. E perto dele só ficavam os que não desejam obra alguma, os que aceitavam o silêncio vazio.&lt;br /&gt;Até o dia em que de repente ele achou a direção certa, e fez o que sempre sonhou, e acertou, ah, acertou, sem nenhuma dúvida acertou. E quis ficar quieto, quando terminou de criar, abraçado a um resto de rancor feliz por enfim ter acertado. Imaginou finalmente pertencer-se.&lt;br /&gt;Porém, o primeiro homem que passou por perto teve a atenção despertada pela obra, e interessou-se, e logo outro, e outro, e outro. E em pouco tempo muitos estavam querendo aquilo para eles. E pegaram o que ele achava que lhe pertencia. E, antes mesmo de transformarem a obra em outra coisa (ele já o pressentia), levaram-na para bem longe. E só lhe restou começar tudo de novo, órfão do que criara, reiniciando o doloroso ritual para que nascesse outro filho ou obra, que também lhe seria arrancado, se se fizesse atraente, e deformado bem longe dos seus braços.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Consagrados tentam (em vão) ler os novos&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;            Os jovens escritores, inseguros, carentes, afoitos, não desejam ler os mais velhos, experientes e consagrados escritores. Não desejam mas deveriam. Ao contrário, querem que os maduros empreguem seu pouco tempo em ler suas experiências, suas tentativas, suas promessas. Os escritores maduros, por sua vez, esforçam-se para achar tempo para ler os que estão começando. Os jovens deveriam poupar-lhes tempo, ao invés de roubar-lhes a preciosa e rara disponibilidade. E deveriam, eles sim, jovens, passar a maior parte do seu tempo lendo aqueles que deixaram de ser jovens há muito. Mas quem está começando quer mesmo é mostrar-se, ao invés de ver. E quem é visto não precisa mostrar-se.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Problemas de geografia&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;            Melhor ser um escritor brasileiro mais ou menos do que um maravilhoso escritor sul-rio-grandense. (10/09/2008)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7659575339957537112-3628426922827226852?l=bentancur.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bentancur.blogspot.com/feeds/3628426922827226852/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7659575339957537112&amp;postID=3628426922827226852' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/3628426922827226852'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/3628426922827226852'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bentancur.blogspot.com/2008/09/arestas-aparas-arte.html' title='ARESTAS, APARAS, ARTE'/><author><name>BENTANCUR</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17397945706691195345</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp2.blogger.com/_296zOjIvu2c/R_F9H73wKyI/AAAAAAAAAAs/Mx_DoNV9suo/S220/Paulo5.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7659575339957537112.post-4082696048133880885</id><published>2008-09-06T08:22:00.000-07:00</published><updated>2008-09-08T12:01:28.503-07:00</updated><title type='text'>ATÉ OS LOBOS SE ABATEM</title><content type='html'>Fausto Wolff, nascido em Santo Ângelo, em 8 de julho de 1940, morreu nesta sexta-feira, 5 de setembro (seria ridículo, por sua trajetória, cair numa data cívica: safou-se por dois dias), no Hospital São Lucas, em Copacabana. Dizem algumas agências que às 20h05min, outras, que às 21h (fica mais redondinho, né?). Falando em versões, atenção, internautas, alguns sites dão a data de nascimento como 17 de outubro, vá lá se saber por quê. Está no site do próprio Fausto, 8 de julho! Fora internado no último domingo – setembro tinha chegado, nada prometedor –, com hemorragia intestinal. O resultado é que entrou em estado comatoso e daí não saiu. Em cinco dias o grave quadro de insuficiência respiratória minou-lhe todas as resistências, se é que alguma havia. Os obituários falam da companheira, a psicanalista Monica Tolipan e de duas filhas, que deixa. A crítica, que nunca lhe deu muita bola, uma hora vai ter de se deparar com três maçudos referenciais não só de nossa época, a de Fausto, mas de várias épocas, uma vez que ele fez uma costura da história do mundo em &lt;em&gt;A 1002ª noite&lt;/em&gt; (Bertrand Brasil, 2005). Os outros dois, são, primeiro, &lt;em&gt;À mão esquerda&lt;/em&gt; (lançado em 1996, pela Ed. Civilização Brasileira, foi saudado à época como legítimo “romance de geração”, a geração que atravessou os anos 60-70). O terceiro volume a cutucar a fingida (duvido: a ignorância do establismenth, seja ele de que ordem for, inclusive cultural, pela natureza cínica, o faz cego e, assim, amplia-lhe o grau de desconhecimento, sem precisar fingir) é &lt;em&gt;Olympia&lt;/em&gt; (Ed. Leitura, 2007), onde ele repete a estrutura cronística-aforística-fabular-colcha de retalhos de &lt;em&gt;A 1002ª noite&lt;/em&gt;. Não é fácil acompanhar tais livros tanto pela erudição destilada sem alarde (vire-se, leitor!) quanto pela linguagem sem modos e, ao mesmo tempo, sem forçar a barra para impressionar. Fausto nunca cometeu literatices e nunca fez apenas jornalismo em sua ficção. Soube elevar o jornalismo à categoria de gênero de reflexão e a literatura que praticou sempre fez questão de esfregar sua cara na lama da história da civilização. Passou 40 anos escrevendo loucamente, publicando loucamente, mas como isso se deu a léguas do mundo acadêmico, e, além disso, produzindo ficção um tanto híbrida, tornou-se um lobo uivante (imagem, aliás, de seu blog), cujo saudável perigo – o de expor-nos e às nossas pusilanimidades e preguiças – parecia residir longe de nosso confortável condomínio, de onde saem as páginas que vão compondo a história da literatura que ficará para os futuros estudantes do curso de Letras. Fausto Wolff ainda não está nestas páginas por razões óbvias, extra-literárias. Mas às vezes a morte tem esse paradoxal poder de, mais que ressuscitar, fazer nascer (como a Lima Barreto, entre tantos exemplos) artistas que atingiram a plenitude estética em vida e o reconhecimento, só após a última pá de cimento úmido na catacumba de um cemitério. (06/09/2008)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7659575339957537112-4082696048133880885?l=bentancur.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bentancur.blogspot.com/feeds/4082696048133880885/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7659575339957537112&amp;postID=4082696048133880885' title='8 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/4082696048133880885'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/4082696048133880885'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bentancur.blogspot.com/2008/09/at-os-lobos-se-abatem.html' title='ATÉ OS LOBOS SE ABATEM'/><author><name>BENTANCUR</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17397945706691195345</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp2.blogger.com/_296zOjIvu2c/R_F9H73wKyI/AAAAAAAAAAs/Mx_DoNV9suo/S220/Paulo5.jpg'/></author><thr:total>8</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7659575339957537112.post-5042088933663071803</id><published>2008-09-01T19:14:00.000-07:00</published><updated>2008-09-01T19:23:07.025-07:00</updated><title type='text'>AFAGOS NUM TEMA BONITO E GRAVE</title><content type='html'>&lt;strong&gt;Uma outra ciência&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;            Todavia, o amor – essa verdade que dispensa verdades –, dobra a inteligência, torna-a novamente criança, constrói-se pela paciência, pelo perdão, pela espera, por uma aparente inocência que na verdade é a coragem de avançar pela oferta sem a garantia de receber. Quem ama admite, deserdado, deixar uma herança.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Cuidados&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;            Te conhecer foi o primeiro segundo; te perder foi o segundo segundo; e no terceiro a história começou. Riso fácil, lágrima fácil, perguntas fáceis, respostas fáceis – viver, a teu lado, ficou fácil. Mas viver é difícil – amar num mundo sem amor mais ainda –, e aos poucos uma dúvida, duas dúvidas, dúvidas dúvidas dúvidas: pousaram corvos no nosso colo. Como espantá-los? O amor luta e se perturba, perturbação maior porque amorosa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Um assunto pra lá de batido&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;            O amor não é assunto que se contente em receber legendas, em ser apenas fruto de comentário. O amor quer realizar-se, e cada ser humano clama por amor como clama de fome e sede.&lt;br /&gt;            O amor, como toda grande paixão, convive em si o pecado e o perdão. E possui muitas faces, todas elas intensas e capazes de vestir a máscara da deformação. Portanto, cuidado com o amor! Quando parece amor, muitas vezes não é; quando não parece, é. E estes são apenas dois de seus momentos paradoxais. O amor adora imitar a si mesmo também, posando de ser amor por sê-lo, porém sendo sempre um pouco (e este pouco é muito) diferente.&lt;br /&gt;            Às vezes monstro imperturbável, a exigir do amante toda espécie de fogo para alimentá-lo. Às vezes ternura infinita, espécie de comoção dadivosa diante do filho gerado. Às vezes olhar fraterno a ver um espelho frente ao amigo. Às vezes saudade que arranca lágrimas e com elas molha a planta amarga que cresce na distância. Amor... Nos torna corajosos, ridículos, heróis, condenados.&lt;br /&gt;            Um perigoso limite separa as várias formas de amar. E é lenta a arte de aprender a ultrapassar esses limites. Como lento é o caminhar por essa vereda tortuosa, cheia de sinais e enganos. O amor ao próximo multiplica-se em tantas variações, que chamar de desejo é certo; chamar de irmandade é certo; chamar de piedade é certo; chamar de elevação do ser, embora pareça uma demasia, também é certo. Incertos são somente os acenos amorosos, que em regra falam uma linguagem que só o amor em sua plenitude sabe decifrar, e o homem sob a força do amor observa perplexo, sem saber se existe uma resposta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Continuando...&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;            Amor é quando enfim os homens se comunicam plenamente, e as palavras e os gestos agitam-se entre eles mais como espectadores do que tradutores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Pergunta&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;            Você não passar por aqui? É como se o caminhão do gás, o lixeiro, o carteiro não passassem. É como se essa dor não passasse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Perseverar&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;            Perseverar é, em última instância, crer. Espécie de fé posta em ação, perseverar é somar a espera de quem acredita com a obra de quem insiste porque sabe que um só dia nem a Deus bastou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Ascensão&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;            O corpo de Matilde, estendido, rompe com a vazia planura do lençol. Surpreende-me, e a tudo, e o vento soca a vidraça, querendo entrar. Mas sou só eu quem está ali e pode ver. E vejo. Meu pau reage de imediato, feliz. E digo para ele, para mim mesmo, atônito, deslumbrado, e orgulhoso: “Levanta-te, glória minha, levanta-te, saltério e cítara” (Salmos, 56, 9).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Fanatismo&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;            Há uma grave seriedade, uma concentração de fanáticos na hora do sexo. Mesmo não acreditando no parceiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Condenação do belo&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;            Livre de toda rejeição, perdeu-se em definitivo.&lt;br /&gt;            Escolhido, não pôde escolher-se. E só lhe restava então, paciente – sem nem a desculpa do grito da revolta por ter sido esquecido (ó suprema oportunidade) –, engolir calado o beijo de todos, surdos para as palavras que ele parecia não possuir. (06/09/2008)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7659575339957537112-5042088933663071803?l=bentancur.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bentancur.blogspot.com/feeds/5042088933663071803/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7659575339957537112&amp;postID=5042088933663071803' title='10 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/5042088933663071803'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/5042088933663071803'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bentancur.blogspot.com/2008/09/afagos-num-tema-bonito-e-grave.html' title='AFAGOS NUM TEMA BONITO E GRAVE'/><author><name>BENTANCUR</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17397945706691195345</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp2.blogger.com/_296zOjIvu2c/R_F9H73wKyI/AAAAAAAAAAs/Mx_DoNV9suo/S220/Paulo5.jpg'/></author><thr:total>10</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7659575339957537112.post-6121078577318401944</id><published>2008-09-01T15:26:00.000-07:00</published><updated>2008-09-01T15:36:54.855-07:00</updated><title type='text'>VAMOS LER QUINTANA?</title><content type='html'>Mario Quintana é daqueles nomes que, uma vez transformados em símbolo de uma cultura, dificilmente recuperam para o trânsito habitual das discussões o registro inaugural que gerou tal símbolo. Traduzindo: obra produzida, o artista consagra-se pela via mais fácil da caricatura, e a obra mesma fica à espera de uma leitura que nunca vem.&lt;br /&gt;            Quintana virou poema de Manuel Bandeira, de Drummond, de dezenas de outros poetas menos importantes. Virou personagem de si mesmo (todos somos, mas ele mais do que todos), Anjo Malaquias, tríade de poeta-humorista-filósofo, vivendo sempre na remota região das nuvens, parente daquela espécie definida por Julio Cortázar como &lt;em&gt;el gran comedor de mosca&lt;/em&gt;, modesta imagem a descrever a distração a serviço da genialidade.&lt;br /&gt;            Mas, e a obra? Foi dela que isso tudo veio, e pouco se vai a ela, contentando-se o público a relações amistosas e tímidas tipo “que simpático e divertido velhinho língua-de-trapo!” Lá longe, no tempo, vão se distanciando de nós &lt;em&gt;A rua dos cataventos&lt;/em&gt;, &lt;em&gt;Canções&lt;/em&gt;, &lt;em&gt;Sapato florido&lt;/em&gt;, &lt;em&gt;Espelho mágico&lt;/em&gt; e &lt;em&gt;O aprendiz de feiticeiro&lt;/em&gt;, seus cinco primeiros livros, pedra inaugural e última de um conjunto lírico que mais tarde ainda daria irretocáveis momentos como &lt;em&gt;Apontamentos de história sobrenatural&lt;/em&gt; (1976), porém já totalmente solidificado e auto-suficiente desde 1951 (data da publicação de &lt;em&gt;Espelho mágico&lt;/em&gt;).&lt;br /&gt;            Prova desse “esquecimento” de leitura efetiva é a afirmação, já em 1978, de Ivan Junqueira, em seu livro &lt;em&gt;À sombra de Orfeu&lt;/em&gt;: “A crítica literária brasileira – às vezes estranha ao próprio conceito de crítica – jamais se ocupou como devia desse imenso poeta que é Mario Quintana”. A frase, aliás, é citada logo na abertura de um importante ensaio, &lt;em&gt;Mario Quintana: As faces do feiticeiro&lt;/em&gt;, de Paulo Becker, numa co-edição PUC/Editora da UFRGS (1996, comemorando os 90 anos do poeta, se vivo fosse, morto dois anos antes). O volume mapeia propositadamente apenas os cinco livros iniciais do poeta. A tese de Becker, poeta também, é que nesse quinteto original residem essência, forma, gênese, evolução e cristalização da obra de Quintana.&lt;br /&gt;            O ensaio, por sua consistência, por suas qualidades tanto de percuciência crítica quanto de método, não só deve ser recomendado, mas sobretudo torna-se inadiável exatamente pelo panorama hoje desenhado – o de um leviano comodismo diante das possibilidades de discussão que os livros do poeta propõem.&lt;br /&gt;            Exigido pela pressão de uma lírica apressadamente modernista, cujo valor dos versos pagava tributo (e caro) aos ventos provocadores da época (década de 30), Quintana estreou noutro tom: com &lt;em&gt;A rua dos cataventos&lt;/em&gt;, por exemplo, escolheu o soneto, praticamente aposentado desde a virada do século; enveredou para um tipo de simbolismo tardio, só que nada tardio, já que a ele (ritmos lânguidos, intimismo, imagens de uma rica espiritualidade) somou conquistas estéticas posteriores, num claro sincretismo lírico, costurando duas ou mais escolas.&lt;br /&gt;            A vida toda tentaram dar-lhe um rótulo, em vão. Não era possível. Extemporâneo, jamais prestou-se ao papel de epígono ou de clone de uma literatura acostumada a ecos e pouco mais que eles. Este o motivo, talvez, do silêncio crítico, da preguiça de análise, da paupérrima bibliografia sobre sua obra. Como classificar Quintana sem lê-lo com a atenção devida, suficiente para se saber que a partir dele uma nova – e única – trilha na poesia brasileira começa?&lt;br /&gt;            Num registro clássico, de aparente passadismo, ele incorporou cores, temas, ritmos novos, logrando versos únicos, pessoais (não no plano do restrito, e sim do estilo único). Somou humor, filosofia (sua poesia é basicamente epigramática) e uma melancolia piedosa com o mundo todo e consigo mesmo. Mas, poeta maior, convida a cada linha a desconfiarmos, a reinaugurarmos o mundo, a viajarmos incessantemente ainda que sem armas e bagagens.&lt;br /&gt;            Poeta ao desabrigo, se dispõe, naturalmente vestido de ironia. A maior de todas seria ser lembrado, mas não por seus poemas. Evitemos esse crime lendo-o de fato. (03/09/2008)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7659575339957537112-6121078577318401944?l=bentancur.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bentancur.blogspot.com/feeds/6121078577318401944/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7659575339957537112&amp;postID=6121078577318401944' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/6121078577318401944'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/6121078577318401944'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bentancur.blogspot.com/2008/09/vamos-ler-quintana.html' title='VAMOS LER QUINTANA?'/><author><name>BENTANCUR</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17397945706691195345</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp2.blogger.com/_296zOjIvu2c/R_F9H73wKyI/AAAAAAAAAAs/Mx_DoNV9suo/S220/Paulo5.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7659575339957537112.post-6290471680808139177</id><published>2008-09-01T15:14:00.000-07:00</published><updated>2008-09-01T15:17:14.588-07:00</updated><title type='text'>A REPÚBLICA DE OMBROS LARGOS</title><content type='html'>Você conhece Arístocles, famoso atleta? Não? Então o apelido dele – que significa “ombros largos” – lhe deve ser bem familiar: Platão (428-348 a.C.). Pois é do autor dos &lt;em&gt;Diálogos&lt;/em&gt; (26 capítulos, suma de sua obra) que se fala aqui, no caso de um dos mais célebres deles, &lt;em&gt;A República&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O livro, dividido em dez partes, é uma pequena utopia, escrita entre 384 e 377 a. C. Na construção de um sistema ideal, Platão traça um paralelo político-moral. Para a classe à qual ele destina o poder supremo (magistrados e filósofos), a razão é a palavra-chave; para os que garantirão a segurança dessa república (os guerreiros), a coragem é a marca moral; para aqueles cujas atividades envolvem a produção e o comércio (artesãos, homens de negócios) são destinados os instintos básicos: a sensualidade, os apetites.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Essa utopia é severa. Sisuda, bem-comportada e exige que a educação encaminhe-nos para a bravura antes de tudo. Cuidado com os poetas, como Homero e Hesíodo. Poesia e música devem ser fiscalizadas. É um regime pesado, que oprime os ombros dos cidadãos que acaso sonharem com alguma liberdade (a utopia platônica é no mínimo polêmica, abolindo propriedade, casamento, os filhos sendo afastados das mães e educados pela comunidade; o Estado é o pai e todos os cidadãos formam uma única família).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No quesito educação, o que seria ensinado aos jovens, até os vinte anos, são a agilidade e o brio de um soldado e, por exemplo, em música, marchas militares estimulando a emoção patriótica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há contradições nessa utopia. Se os poetas dela foram banidos, Platão escreve como um poeta, e sua filosofia constrói antes por imagens do que por argumentos (sem falar da forma adotada, o diálogo, deliciosamente eficaz num gênero em regra sem sabor). Um dos momentos altos de &lt;em&gt;A República&lt;/em&gt; é o livro VII, "A alegoria da caverna", onde prisioneiros numa gruta ignoram o mundo lá fora, confundindo as sombras projetadas no fundo com fatos e coisas reais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas o tema central da obra é a justiça, como chegar a ela, sem a qual todo julgamento é falho e toda realidade fica sob suspeição. (30/08/2008)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7659575339957537112-6290471680808139177?l=bentancur.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bentancur.blogspot.com/feeds/6290471680808139177/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7659575339957537112&amp;postID=6290471680808139177' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/6290471680808139177'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/6290471680808139177'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bentancur.blogspot.com/2008/09/repblica-de-ombros-largos.html' title='A REPÚBLICA DE OMBROS LARGOS'/><author><name>BENTANCUR</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17397945706691195345</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp2.blogger.com/_296zOjIvu2c/R_F9H73wKyI/AAAAAAAAAAs/Mx_DoNV9suo/S220/Paulo5.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7659575339957537112.post-5357665451634233741</id><published>2008-09-01T14:53:00.000-07:00</published><updated>2008-09-01T15:11:57.527-07:00</updated><title type='text'>A FILOSOFIA DEPOIS DA FILOSOFIA</title><content type='html'>&lt;div align="center"&gt;&lt;em&gt;A obra de Luc Ferry, em seu conjunto, aponta para uma nova filosofia&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;em&gt;porque para uma nova função filosófica: não apenas descrever o sentido da vida,&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;em&gt;mas achar na existência a sabedoria de melhor aproveitá-la, livre de dogmas.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;Luc Ferry não matou Deus. (Quantos já o haviam matado antes!) Menos, ainda, o ressuscitou. Ressuscitou, sim, ao homem, que sempre aspirou ao sagrado. Sempre. Mesmo aqueles, numeroso contingente, que resistiam à idéia de qualquer religião. Religião envolve culto, imagem externa à consciência. O sagrado é um estado pleno no qual mesmo o ateu mais convicto deseja experimentar. O Budismo mostra isso. Luc Ferry recupera tais momentos no pensamento através dos séculos, e, levando questões vitais da filosofia, transfere-as para a vida cotidiana.&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;Se não se aplicam à vida, são questões meramente retóricas. Evidente: a vida de que fala Ferry é uma vida acima do que tem recebido tal nome, sem merecê-lo. O presente merece – e precisa – da transcendência sem para isso jogar fora conceitos que, aparentemente inoculados de um moralismo vicioso, mereciam apenas uma nova oportunidade. Um novo olhar. Luc Ferry examina, sem nenhuma espécie de a priori, isto é, sem pagar pedágio (o mais caro: o da nossa liberdade) aos que o antecederam pensando as mesmas questões.&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;br /&gt;Em &lt;em&gt;A sabedoria dos Modernos&lt;/em&gt;, que escreveu em conjunto com André Comte-Sponville, em 1997, num sistema ágil de perguntas e respostas que povoam capítulos onde estão setorizadas dez questões para o nosso tempo, Luc Ferry e seu interlocutor exploram a fundo, sem hesitação –  e, muito menos, sem retórica desviante –, questões decisivas, diagnosticando nessas questões dois caminhos para a filosofia contemporânea: como ser materialista e como ser humanista, simultaneamente. Óbvio: de tal indagação nascem e se multiplicam, sem cessar (filosofar é a permanência dessa transformação que avança à medida que cada ilusão se esboroa), aspectos elementares que envolvem ética, moral, a liberdade como um mistério, um bem, uma libertação para se chegar aonde a ausência dela não chega: o território multifacetado da vontade, as duas racionalidades, os paradoxos de uma humanização que inclui, inclusive, a crueldade.&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;br /&gt;Esse livro é o mais amplo e aprofundado estudo (independente da decisiva, quase antagônica – embora convergente –, mediação de Comte-Sponville. Mediação não. Nem Luc nem André se prestam para fazer eco um ao outro. Antes, ao buscar completar o pensamento do co-autor, ampliando-no, provocam-no, tornam o que foi resposta em uma nova pergunta. A sabedoria dos modernos é trabalhar, enfim, com a presença invisível do Absoluto até mesmo no homem precário, e, claro, no nada precário.&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;Ferry alerta: a filosofia está na moda. Cuidado. Pensar por si mesmo é uma condição que não existe; ou que só vem depois de muita prática e exercício (como em qualquer área) através dos principais pensadores dos últimos 2.000 anos. Não se trata de erudição. 90% pode ser deixado de lado. Mas a amplitude desses 10% constitui uma bibliografia sem a qual nossa voz não domina o idioma que poderia nos traduzir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Sucesso para mais de 15 minutos&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;O que é uma vida bem-sucedida? – Ensaio&lt;/em&gt;, publicado cinco anos depois, ainda mostra um Luc Ferry que, embora se aproxime aos poucos do diálogo com uma maioria, não dispensa os referenciais filosóficos que tornam o pensar como gênero obra para poucos. Os temas não são áridos. Dizem respeito a qualquer um, intelectual ou vendedor de sapatos. A diferença entre “vida boa” e “vida bem-sucedida”. Um passeio, em linguagem condutora, isto é, sem o peso excessivo de uma redação que parece mais de compêndio (e que Ferry tanto critica) do que de um homem falando a outro. Naturalmente, de forma profunda, com exigências de um texto bem-escrito e alguma leitura anterior, a fortalecer a recepção.&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;br /&gt;Mas isso é o mínimo. E desse mínimo o autor parte para, não o máximo (quantitativo), mas o melhor possível. A confusão entre a performance (exigência social permanente, já instituída no coração da família) e a sabedoria em viver bem. Muito além do êxito, reflexo externo de ações, e provisório, o homem deseja, no fundo inconfessável “tão-somente” o bem-estar – difícil de definir, uma vez que é composto de inúmeros condicionantes, internos e externos. Luc Ferry o define, como filósofo do presente: uma frágil felicidade, que vem e vai, a confirmar, em frações separadas no tempo (nos diversos ciclos que ao homem é dado enfrentar), uma trajetória pessoal que não tem razão alguma para afundar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Deus à nossa imagem e semelhança&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Talvez o livro mais radical de Ferry seja &lt;em&gt;O Homem-Deus ou O sentido da vida&lt;/em&gt;, lançado há um ano. A religião não perdeu por esperar. Se houve, através da história da Igreja, a humanização do divino, através de um Cristo misturado à multidão, morto entre ladrões, como um qualquer, há agora a imperiosa necessidade de divinizar o humano. O homem vive, desta forma, a confusão do novo estágio, onde o amor é sua experiência concreta de transcendência. Onde a morte é a presença do não-sentido. O sagrado até então conhecido se esvai. A vida tem prazo curto, e pede, então, mais do homem. E o confuso território dessas duas imagens – um Deus já cansado e um Homem que se instaura, enfim, como entidade suprema de si mesmo – é o espaço aberto onde uma nova humanização pode florescer e um sentido para a vida pode ser revelado: um sentido onde o principal incluído seja o próprio homem. Talvez o único.&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;br /&gt;Sucesso de vendas na França (terra dos filósofos, principalmente após a II Grande Guerra), &lt;em&gt;Aprender a viver – Filosofia para os novos tempos &lt;/em&gt;(best-seller no Brasil por seis meses em 2007) é uma pequena e grande história do pensamento. Pequena por eleger apenas cinco momentos culminantes na história das idéias; grande porque Ferry traduz o que parecia intraduzível. Aos apressados é bom avisar: não se trata de um &lt;em&gt;O mundo de Sofia&lt;/em&gt; (Jostein Garder) para adultos. A começar, pelo texto-síntese de Ferry, ao contrário do de Garder, que é arrastado. Depois, o dinamarquês fez ficção; Ferry faz ensaio.&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;br /&gt;E por quê, perguntarão muitos, ensaio de fundo filosófico terá tido tal êxito comercial? Porque 1) a filosofia hoje é uma resposta eficaz a apelos lamentáveis de fundo místico ou de auto-ajuda; 2) Luc Ferry mostra que filosofar não necessita de ferramentas inacessíveis ao dia-a-dia. Pelo contrário: o francês convence público em geral e críticos mais exigentes de que o pensamento acerca das questões mais cruciais e milenares, sobretudo se acompanhadas da parceria de gênios que em vinte séculos se debruçaram com método e paciência sobre elas, nos ajudam a compreender os temas mais comezinhos e os mais espinhosos de nossa vida. Tanto um caso (o do apelo místico) como outro (o da linguagem inacessível) serão desmentidos. Para melhoria – pela iluminação sem dogmas nem rigores insustentáveis – da existência do homem. (27/08/2008)&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;br /&gt;&amp;shy;&amp;shy;&amp;shy;&amp;shy;&amp;shy;&amp;shy;––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Obras de Luc Ferry lançadas no Brasil&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;A nova ordem ecológica: a árvore, o animal e o homem&lt;/em&gt;. Tradução de Álvaro Cabral. São Paulo: Editora Ensaio, 1994.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;A sabedoria dos modernos&lt;/em&gt;, em parceria com André Comte-Sponville. Tradução de Eduardo Brandão. São Paulo: Livraria e Editora Martins Fontes, 1999.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;O que é uma vida bem-sucedida? – Ensaios&lt;/em&gt;. Tradução de Karina Jannini. Difel, 2004.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Aprender a viver – Filosofia para os novos tempos&lt;/em&gt;. Tradução de Vera Lúcia dos Reis. Editora objetiva, 2007.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;O Homem-Deus ou O sentido da vida&lt;/em&gt;. Tradução de Jorge Bastos. Difel, 2007.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7659575339957537112-5357665451634233741?l=bentancur.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bentancur.blogspot.com/feeds/5357665451634233741/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7659575339957537112&amp;postID=5357665451634233741' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/5357665451634233741'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/5357665451634233741'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bentancur.blogspot.com/2008/09/filosofia-depois-da-filosofia.html' title='A FILOSOFIA DEPOIS DA FILOSOFIA'/><author><name>BENTANCUR</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17397945706691195345</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp2.blogger.com/_296zOjIvu2c/R_F9H73wKyI/AAAAAAAAAAs/Mx_DoNV9suo/S220/Paulo5.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7659575339957537112.post-6062913137311209616</id><published>2008-08-23T09:33:00.000-07:00</published><updated>2008-08-24T10:35:10.764-07:00</updated><title type='text'>A MORTE QUE SALVA</title><content type='html'>Morre fisicamente o escritor, célebre pela qualidade de sua obra. Imagina-se que a posteridade lhe será grata, reconhecendo seus méritos e povoando as décadas vindouras de ecos do aplauso que ele conheceu em vida. Entretanto, um professor de literatura mais afoito burla a vigilância precária da viúva e arranca das mãos hesitantes da mulher páginas que o autor desejaria enterrar consigo. Está feito o crime.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um mês depois de morto, sai em edição de luxo a primeira besteira no conjunto da obra do autor, até então cuidadíssima. Quer o tal professor, a exemplo do mau-exemplo Max Brod, impedir que caia no esquecimento o que o autor quis assim. Max Brod teve sorte, o Kafka inédito de fato valia a pena, mas foi uma exceção, a regra é o defunto ter razão, e o que deixou sem a luz do público de fato merecer tal escuridão. Fizeram isso com Fernando Pessoa depois de morto, cujo “baú inesgotável” de obras-primas efetivamente deu obras-primas, mas também muita bobagem, como &lt;em&gt;O Livro do desassossego&lt;/em&gt;, que nunca deveria receber a atenção que a maioria do material escondido mereceu. Com Pessoa tinha um atenuante, como com Kafka: o autor foi exigente além da sensatez, e realmente escondeu o ouro. Mas o normal é o autor esconder aquilo que não desejaria mesmo que lessem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Feito este prólogo, um pedido: respeitem a memória do morto – ele pede silêncio além do que disse em vida. Toda palavra nova, trazida ao palco postumamente, é som distorcido, é sentido extraviado, é um homem empalhado forçado a pular o carnaval. Cinco anos depois do funeral, um leitor menos informado acerca do ocorrido com nosso impotente e infeliz defunto, depois de ler cinco livros póstumos (a média com o coitado foi de uma exumação por ano), exclamará, desconsolado: “mas esse cara não é grande coisa! Engraçado, quando vivo festejavam-no com tanto empenho...”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O morto quer que o lembrem de quando era vivo, e escrevia. E, ao escrever, escolhia o que era melhor, o que funcionava, e isso ele tornava público; o resto, ele deletava o arquivo, queimava os&lt;br /&gt;papéis, rasgava (e até aí salvava-se, quase sem saber), ou simplesmente (ó imprudência!) deixa adormecido numa gaveta. Este último procedimento – delicadeza do autor com a imperfeição de seu trabalho – revelava um método simples, cômodo, e, enquanto vivo, eficaz. Alguma parcela daquele equívoco talvez servisse para ser aproveitada adiante. Só que adiante estava também a morte, e, morto, ele não poderia arbitrar sobre o percentual aproveitável. Ficava 100% do insuficiente, quando não do fiasco, para cair nas mãos das carpideiras de plantão. Chorando sua morte, insistem em revivê-lo pelo que não pretendeu dizer, pelo que, em última instância, não disse, esfregando ante nossos olhos o texto arrependido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora o desfecho deste reconhecimento e deste restabelecimento da justiça: evitemos de imputar ao autor, hoje sem chance de interferir sobre os desígnios de sua obra, a responsabilidade por um crime cujo impulso ele reconheceu porém cuja realização ele não autorizou. Paremos de acrescentar aos seus títulos – momentos que ele julgou raros, extraordinários, e, por isso, exemplares – quaisquer pedaços de experiências que o próprio ato de experimentar esgotou, trechos ordinários que o todo da obra selecionada dispensa, momentos menos felizes cuja derrota de execução já basta, quanto mais estender essa derrota aos pósteros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Morte feliz a daquele escritor cujo último livro publicado em vida é, sim, o último livro de sua bibliografia. E os seguintes não passem de homenagens de terceiros, clubes de leitores, associação de críticos, enfim, essa outra espécie de desdobramento – cá pra nós, na maioria lamentável –, mas pelo menos com a honestidade de ostentar a assinatura de gente viva que pode ser responsabilizada pelos próprios erros. Morto o autor, leva para o túmulo a paz de enfim ter descansado. Isso quer dizer simplesmente que agora não escreverá mais. Nunca mais. E não publicará mais. Nunca mais. O que já estava, ficou. O que não aconteceu com ele, não pode mais&lt;br /&gt;acontecer. A obra precisa ser dele para depois ser nossa. (23/08/2008)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7659575339957537112-6062913137311209616?l=bentancur.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bentancur.blogspot.com/feeds/6062913137311209616/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7659575339957537112&amp;postID=6062913137311209616' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/6062913137311209616'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/6062913137311209616'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bentancur.blogspot.com/2008/08/morte-que-salva.html' title='A MORTE QUE SALVA'/><author><name>BENTANCUR</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17397945706691195345</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp2.blogger.com/_296zOjIvu2c/R_F9H73wKyI/AAAAAAAAAAs/Mx_DoNV9suo/S220/Paulo5.jpg'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7659575339957537112.post-2556694213503845210</id><published>2008-08-20T14:18:00.000-07:00</published><updated>2008-08-22T18:25:21.227-07:00</updated><title type='text'>ONZE PASSOS PARA PAIS INCENTIVAREM SEUS FILHOS A LER</title><content type='html'>&lt;div align="center"&gt;&lt;em&gt;Tudo começa, naturalmente, na infância. É preciso ler, ler muito, para poder escrever.&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;em&gt;A seguir, alguns passos para o incentivo à leitura, quando o leitor ainda está verde&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;em&gt;e recém dá seus primeiros passos.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;br /&gt;1. A faixa etária adequada para o contato inicial com livros se dá entre os dois e os cinco anos.&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;br /&gt;2. É importante que o professor indique o livro correspondente à idade e à capacidade de concentração da criança ou que os pais avaliem a adequação desse material.&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;br /&gt;3. A leitura deve transcorrer em um ambiente calmo, sem interferências ou ruídos (rádio, televisão etc.). O adulto deve assumir o papel do narrador da história, familiarizando assim o pequeno “leitor” com o autor que apresenta a narrativa.&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;br /&gt;4. É fundamental que o adulto que está apresentando o livro à criança faça comentários sobre a aparência do volume, sobre as figuras, o formato, talvez até contando algum fato da vida do autor. Enfim, é decisivo mostrar à criança interesse em folhear o livro, demonstrando que ali, naquelas páginas, muita coisa se pode descobrir e se quer descobrir. E na hora de ler, faça-o dramatizando, com emoção escancarada. Tudo para que jamais o ato da leitura pareça algo chato ou desinteressante.&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;br /&gt;5. Se a criança quiser tomar o livro de suas mãos e folheá-lo devagar, de qualquer jeito, “erradamente”, nenhum problema. Deixe. Não se deve ter pressa, e esse processo de convivência com o livro, no início, vai ser assim mesmo.&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;br /&gt;6. Cada ilustração e cada palavra devem ser mostradas. Uma dúvida, uma hesitação? Pare, explique, volte atrás. É decisivo não perder o fio da meada. Compreender direitinho a história para gostar dela.&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;br /&gt;7. A criatividade da criança deve ser encorajada. Antes de cada cena seria interessante perguntar o que ela acha que vai acontecer.&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;br /&gt;8. O ato da leitura – nessa fase inicial – deve ser em conjunto. É uma ótima oportunidade para pais e filhos se sentirem juntos, unidos. Manifestando carinho, calor, o adulto envolve afetivamente a criança e a faz lembrar desse momento – a leitura – como um instante prazeroso.&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;br /&gt;9. Se a criança reagir negativamente ou não quiser terminar o livro, é importante deixar que isso aconteça. O livro não pode ser uma obrigação, uma sentença, um castigo.&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;br /&gt;10. Terminado o livro, deve-se conversar com a criança sobre a história lida. Pede-se que a criança conte o que acabou de ser lido. Pode-se ir escrevendo a história, agora contada pela criança, observando o nexo entre as partes, a correta ligação entre as diversas cenas do enredo. Com isso, a criança vai aprendendo que o pensamento tem uma estrutura com começo, meio e fim.&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;br /&gt;11. Não é raro a criança solicitar que se leia mais de uma vez a mesma história. Satisfaça-a, sem maiores preocupações quanto ao retorno, repetidas vezes, ao mesmo livro. Isso serve para fixar uma identificação com determinada trama, determinado estilo, determinado assunto. Não esquecer, entretanto, de oferecer livros bem diferentes, comparando-os, indicando assim a diversidade de opções de leitura. (20/08/2008)&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7659575339957537112-2556694213503845210?l=bentancur.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bentancur.blogspot.com/feeds/2556694213503845210/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7659575339957537112&amp;postID=2556694213503845210' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/2556694213503845210'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/2556694213503845210'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bentancur.blogspot.com/2008/08/onze-passos-para-pais-incentivarem-seus.html' title='ONZE PASSOS PARA PAIS INCENTIVAREM SEUS FILHOS A LER'/><author><name>BENTANCUR</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17397945706691195345</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp2.blogger.com/_296zOjIvu2c/R_F9H73wKyI/AAAAAAAAAAs/Mx_DoNV9suo/S220/Paulo5.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7659575339957537112.post-8075589843221742108</id><published>2008-08-17T10:17:00.000-07:00</published><updated>2008-08-17T10:50:06.534-07:00</updated><title type='text'>ANIVERSARIANTES</title><content type='html'>Hoje, 17 de agosto, é uma data e tanto. Ao menos para mim. Nascidos neste dia. Para começar, um herói bem ao estilo épico, David Crokett (1786), a leste do Tennessee, EUA, soldado, caçador e político do Velho Oeste. O poeta Fagundes Varela (1841), na Fazenda Santa Rita, Rio Claro, Rio de Janeiro. Simplesmente escreveu um dos poemas da língua, “Cântico do calvário”. Do trágico ao cômico (a demonstrar que os signos nada sabem): May West (1893), em Nova York. Atriz e cantora, supra-sumo da irreverência, uma das mulheres com mais humor que a história registrou (junto com outra norte-americana, Dorothy Parker). Pensando em cinema, que tal um dos maiores atores de todos os tempos (para o meu gosto, &lt;em&gt;Taxi driver&lt;/em&gt;, &lt;em&gt;Touro indomável&lt;/em&gt;, &lt;em&gt;Cabo do medo&lt;/em&gt; e &lt;em&gt;Tempo de despertar&lt;/em&gt;, cá pra nós!), Robert de Niro, em 1943, em Nova York, o primeiro vivo da lista. Tem um monte aí que eu poderia pôr só para constar. Mas o derradeiro nome não merece: é gente que só é citável pela vi-si-bi-li-da-de, os conhecidos bergamota-de-amostra, e não exatamente por algum talento que lhes conceda a imposição gerada por alguma importância que possam ter (Hélio Costa, Elba Ramalho, Zezé de Camargo... socorro!). Mas tem mais, gente que é gente além da conta, pelo que contam e cantam: Ed Motta (1971), das mais inacreditáveis vozes surgidas nos últimos 25 anos no País (desde os 19 anos dele). E uma voz mais jovem ainda que, sem precisar emitir notas em concentrada busca por uma melodia, hoje completa 24 anos. Voz que me embala num simples telefonema: a de minha filha Maria. Tá na história, pra quem me lê, e que sabe que a história é muito descuidada. Será comigo também. Mas eu não serei. E coloco o nome de Maria Bentancur ao lado de todos esses nomes citados, sem nenhuma pieguice, e com todo o compromisso do mundo. Os melhores. O acaso, de alguma forma, os reúne. E a mim bastaria May West contando piadas sacanas na festa de Maria, e De Niro fazendo uma performance para ela. Não vai dar, tá certo. Então vou eu lá, com aquela precariedade de todo pai, querendo ser desbravador, ator, cantor, poeta, para tentar dizer do seu amor. Mas o pai não é tudo isso. Não é nada disso. E, nessa hora, somente, e essencialmente, é pai. Mas o afeto – essa forma imprevisível de expressão –, ainda bem, acaba sempre dando o seu recado. (17/08/2008)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;PS.: Na quarta-feira, dia 13, tivemos o aniversário de um dos grande escritores infanto-juvenis do Brasil (embora pratique outros gêneros), Ernani Ssó. Não saiu nenhuma nota na imprensa, claro. O cara é pra lá de bom e não faz média, principalmente com a arte que pratica e com os críticos que poderiam lê-lo com muito proveito. No dia seguinte, 14, guria ainda, pouco mais crescida que minha filha, aniversariou uma das jornalistas mais inquietas e criativas que conheço, um tanto extraviada pelo mercado acomodado, isto é, sem informação alguma de onde de fato está o ouro. Seu nome: Bela Figueiredo. Bom nome, ótimo texto, péssimo mercado. Abração com o carinho nascido de tanto admirá-los, gente! Já quanto às editorias (de editoras de livro, imprensa etc.), que reaprendam a ler, inclusive currículos.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7659575339957537112-8075589843221742108?l=bentancur.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bentancur.blogspot.com/feeds/8075589843221742108/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7659575339957537112&amp;postID=8075589843221742108' title='13 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/8075589843221742108'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/8075589843221742108'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bentancur.blogspot.com/2008/08/aniversariantes.html' title='ANIVERSARIANTES'/><author><name>BENTANCUR</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17397945706691195345</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp2.blogger.com/_296zOjIvu2c/R_F9H73wKyI/AAAAAAAAAAs/Mx_DoNV9suo/S220/Paulo5.jpg'/></author><thr:total>13</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7659575339957537112.post-6034171614718645192</id><published>2008-08-15T19:11:00.000-07:00</published><updated>2008-08-15T19:12:06.226-07:00</updated><title type='text'>O BRASIL CORRE PARA TRÁS</title><content type='html'>Vicente Lenilson, nosso maior atleta nos 100m rasos, a mais nobre das modalidades olímpicas, neste 15 de agosto, numa das eliminatórias – que o derrubou– para classificação à prova final (que assistirá de algum lugar longe da pista), levou 10 segundos e 26 décimos para percorrer a distância que já baixou dos 10 segundos para os 9 há exatos 40 anos. O atual recorde mundial pertence ao jamaicano Usain Bolt, com 9seg e 72 décimos, marca atingida no começo de junho último. Nesta prova em que Lenilson correu como um Gordini ou voou como um 14-Bis, 7o colocado ao final, o mesmo Bolt, mais lento desta vez (9segundos e 92 décimos), fez o melhor tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lenilson, natural de Currais Novos, RN, 31 anos, 1,66m (baixinho o moço), com a velocidade conquistada hoje – o melhor dos brasileiros na modalidade, nestes jogos olímpicos –, superaria com folgados 14 décimos de segundo ao alemão Armin Hary e seu modesto tempo de10”30 na Olimpíada de Roma, em 1960, há 48 anos. Faltavam ainda 17 anos para o futuro atleta potiguar nascer. Nascimento demorado esse. (16/08/2008)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7659575339957537112-6034171614718645192?l=bentancur.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bentancur.blogspot.com/feeds/6034171614718645192/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7659575339957537112&amp;postID=6034171614718645192' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/6034171614718645192'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/6034171614718645192'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bentancur.blogspot.com/2008/08/o-brasil-corre-para-trs.html' title='O BRASIL CORRE PARA TRÁS'/><author><name>BENTANCUR</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17397945706691195345</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp2.blogger.com/_296zOjIvu2c/R_F9H73wKyI/AAAAAAAAAAs/Mx_DoNV9suo/S220/Paulo5.jpg'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7659575339957537112.post-4745502801696578076</id><published>2008-08-13T20:59:00.000-07:00</published><updated>2008-08-13T21:05:04.539-07:00</updated><title type='text'>"CATATAU" EM CATUÍPE</title><content type='html'>Qual era a liberdade criadora com que nos deparávamos naqueles idos de 1975, quando não havia liberdade política e a arte não podia dialogar à vontade? Quase nenhuma, embora ao artista a liberdade seja um bem comum inalienável e ele a use de todas as formas, sobretudo as imperceptíveis pelo vigia da hora. Assim, a vanguarda, mais que um experimento, era uma obrigação. E nesse ambiente vigiado as mentes experenciavam viagens mais longas, bem mais longas, que nossos rotos sapatos de Carlitos.&lt;br /&gt;            A estrada empoeirada por bombas de gás lacrimogênio quando muito jovem com cara de protesto se reunia precisava ser asfaltada por uma civilidade construída sobre cultura e liberdade. Gente com longas barbas de pose de hippie trilhava esse caminho, mas era necessário mais que uma performática pose de Walt Whitman; era fundamental dar munição verbal a si mesmo, saltando sobre os muros de um discurso vigiado. Paulo Leminski foi um sujeito que teve essa cara e essa coragem alimentadas por dois milênios de poética, desde a de Aristóteles.&lt;br /&gt;Daí que o rebelde não se fez de fúria pura e juvenil e sim transgrediu autorizado pela própria tradição que, enciclopédica, vence o que usa seu nome mas é apenas cânone constituinte da hora política severa.&lt;br /&gt;            Não faz muito tempo perdemos esse transgressor, o Leminski, 45 aninhos ainda, na flor da idade, mas com uma produção de quem passou dos 60. Foi em 1989 e muita birita derrubou o poeta-contista-ensaísta multimídia paranaense. Uns 15 volumes desaforados foram seu testamento, sobretudo sua obra-prima, &lt;em&gt;Catatau&lt;/em&gt;, uma prosa experimental com cara de romance, mas corpo de poema em prosa. Leminski se foi mas ficou uma legião de leitores formada às margens de seu texto coleante, humorado, inventivo.&lt;br /&gt;            Falar em invenção parece obviedade quando se trata de arte, mas em Leminski isso era o ponto de partida e de chegada. Homem da publicidade, vivia de antena ligada no que o mercado pedia sem trair o que ele próprio, Leminski, pedia a si mesmo, e afora o Catatau, nenhum texto seu ia fechar a cara para o público. Assim, promoveu a convergência entre o complexo das idéias e o simples da forma, em textos que iam da piada à crônica, transitando em meio à região afável de uma espécie de circo das letras (“A palmeira estremece / palmas pra ela, / que ela merece”).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O começo&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;            Mas isso foi o fim. Carreira interrompida pela doença (tinha tantos planos, conforme me contou ao telefone 15 dias antes de morrer: “vou partir pro conto, mas com calma, que tu estás na terra do Scliar”; “ainda estou me devendo um romance”), cada vez mais ia aproximando uma curiosidade insaciável que o fazia flertar com meia dúzia de línguas – consta que até egípcio ele andava estudando – com um registro verbal dessa curiosidade capaz de traduzir o mais remoto e o mais transcendental para a fala mais cotidiana possível.&lt;br /&gt;            Leminski queria o difícil tornado em fácil. Queria o mais profundo boiando na superfície, a nossa espera, leitores de sorte, alfabetizados no idioma desse paranaense.&lt;br /&gt;            Embora seu começo tenha pegado o monstro a unha. &lt;em&gt;Catatau&lt;/em&gt; (1975) “refaz” o percurso dos holandeses no Brasil, que trazem René Descartes na bagagem e o filósofo do mais supremo racionalismo mergulha na febre da selva tropical (uma hipótese, claro), na selvageria de um povoamento que não se fez com a liberdade essencial que se respirava na Holanda de então (país mais livre da Europa no século XVII, e para onde Descartes e Spinoza, por exemplo, tinham se mudado).&lt;br /&gt;            &lt;em&gt;Catatau&lt;/em&gt; é – hoje cabe chamá-lo assim, devido à fluidez dos gêneros literários – um romance, um monólogo, num ritmo alucinante de fluxo de consciência, de um Descartes perdido e achando um país que poderia ter ido por outro caminho. Mas é também o “espírito” do texto se manifestando, evocado pelas inúmeras entidades que o proclamam e por uma força suprema em ressurgir, ou melhor, permanecer enquanto sente que vai – sua chama, sua alma, sua força, sua luz, sua palavra – apagando-se ou confundindo-se já sem nenhuma identidade.&lt;br /&gt;            Foram duas décadas e meia em que a parte mais desenvolvida do Brasil esteve nas mãos da Companhia das Índias Ocidentais, capitaneadas por Maurício de Nassau, que para cá trouxe (desta vez, historicamente falando, de verdade) sábios, pintores, matemáticos, cientistas, gente capaz de conviver com alemães, polacos, índios, negros e brancos em paz e em liberdade de credo, não importando que houvesse entre eles católicos, protestantes, judeus etc.&lt;br /&gt;            Recife/Olinda foi a primeira experiência (exitosa) cosmopolita do País. Isso é História. Depois os holandeses, que viam no Brasil não apenas um paraíso físico a se explorar com fins econômicos, mas um mundo de fato novo, com fauna e flora exóticas, uma terra adequadamente chamada por eles de Vrijburg (pronúncia: “fraiberg”, cidade livre), foram derrotados pelos senhores de engenho luso-brasileiros que preferiram o feudo ao capitalismo e à liberdade. “Em Guararapes, o Brasil selou seu destino de ser nação periférica, dependente, lusitanamente condenada a viver o passado dos outros” escreveu Leminski num artigo póstumo, publicado no já extinto Nicolau.&lt;br /&gt;            No livro, um “catatau” de coisas (idiomas e dialetos, civilização e barbárie, conceitos, imagens, fatos da história, da ciência, das artes, plantas, reais e imaginárias, bichos, reais e imaginários, pessoas, reais e imaginárias, palavras, reais e imaginárias, muitas se entredevorando, num recurso usado por Guimarães Rosa entre nós e por James Joyce na Irlanda) é apresentado num esforço entre lírico e épico de tomar um território, habitá-lo e, por fim, compreendê-lo.&lt;br /&gt;            A última intenção é a que não fica.&lt;br /&gt;            Descartes/Nassau/a Voz que Fala (e que falha) com os ouvidos livres a todos os sons que se encontram numa pororoca lingüística naufraga no próprio discurso que monta. Monta? O discurso é que monta nele e em nós, leitores, atordoados da primeira à última página, levados pela correnteza, talvez em pleno mar já, longe do Brasil que não achamos.&lt;br /&gt;            Do Brasil que não se achou.&lt;br /&gt;            Leminski soube achá-lo. Precisou de um &lt;em&gt;Catatau&lt;/em&gt;, esforço hercúleo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;PS.: Catuípe é uma cidadezinha do interior do RS onde, durante uma semana, revisei as últimas provas da edição até agora definitiva do livro, que saiu pela Sulina dois meses após a morte do autor. Leminski já tinha feito duas revisões e me pediu: “lê mais uma vez, sempre aparece uma besteira, ainda mais nesse aí.” Peguei o livro e fui me esconder numa cidade de 20.000 mil habitantes a 300 quilômetros da sede da editora. Voltei sete dias depois sem nada anotado. Queria logo que os fotolitos ficassem prontos. Ficaram em três dias. Que fossem pra gráfica. Foram no dia seguinte. E que o livro ficasse pronto. Ficou mas o autor foi embora antes. (13/08/2008)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7659575339957537112-4745502801696578076?l=bentancur.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bentancur.blogspot.com/feeds/4745502801696578076/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7659575339957537112&amp;postID=4745502801696578076' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/4745502801696578076'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/4745502801696578076'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bentancur.blogspot.com/2008/08/catatau-em-catupe.html' title='&quot;CATATAU&quot; EM CATUÍPE'/><author><name>BENTANCUR</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17397945706691195345</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp2.blogger.com/_296zOjIvu2c/R_F9H73wKyI/AAAAAAAAAAs/Mx_DoNV9suo/S220/Paulo5.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7659575339957537112.post-7336696565836632238</id><published>2008-08-09T20:17:00.000-07:00</published><updated>2008-08-09T20:21:06.121-07:00</updated><title type='text'>MISTÉRIOS DA CRIAÇÃO LITERÁRIA 10</title><content type='html'>&lt;div align="center"&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Quem não gosta de descobrir? Quem pode descobrir se não vê? Quem pode ver se não escuta? Quem pode escutar se não fala? Quem pode falar se não lê?&lt;br /&gt;Na leitura está o caminho de uma série de mistérios. Continuamos aqui uma série sobre os mistérios da escrita criativa, da criação literária. Criação que nos ajuda a criarmo-nos enquanto seres cheios de mistérios.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;X&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;            A seguir uma pequena morfologia do artista. O que o constitui. O que o nega. O que o insinua. O que o anuncia. O que o ameaça. O que o salva.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;            O que é um artista? Alguém que tenta ser uma espécie de espelho do mundo, espelho no qual se refletem a vida e os seres que a vivem ou tentam vivê-la.&lt;br /&gt;            O que é um artista? Alguém que busca, por meio de tintas e telas (se é pintor), instrumentos musicais (se é compositor), palavras (se é escritor) recompor a existência humana e seus significados.&lt;br /&gt;            O que é um artista, afinal de contas? Para explicar isso direito milhares de livros foram escritos, milhares de artistas deram seu depoimento, e no entanto a resposta não é fácil nem é uma só.&lt;br /&gt;            É necessário, em primeiro lugar, saber que tipo de artista estamos falando. Por exemplo, um pintor: deve ter olhos. Um músico: deve ter ouvidos. E um escritor: um ator. Isso mesmo, um ator.&lt;br /&gt;            Um escritor é um homem que deseja “pintar” com palavras o que vê. Um homem que “canta” (se é um poeta) com palavras o que escuta. Um homem que procura, como se fosse um ator, vestir a pele da humanidade inteira (de um macho adulto, de uma mulher, de uma criança, de um velho) e com essa multidão de papéis que interpreta, atingir a voz e as verdades que servem para ele e para os que o lêem.&lt;br /&gt;            Um escritor sabe que uma boa história necessita de bons personagens. Bons personagens são marcantes, têm personalidade, falam de uma forma especial, como se o que dizem formasse um desenho único, irrepetível: o desenho de sua alma. Bons personagens possuem um modo original e próprio de falar. Suas frases, suas expressões, seu vocabulário, e também seus gestos, seu comportamento, suas roupas, suas manias, muitas de suas características, enfim, somam-se para compor um perfil que deixa fundas marcas no leitor, que impressiona, que vale como uma espécie de modelo humano exemplar.&lt;br /&gt;            Mesmo que esse modelo não seja exemplar, mesmo que se trate de um ser comum, de uma pessoa vulgar, sem qualidades, sem beleza, sem importância. A miséria – o drama – de sua desimportância constituem ótimo material literário.&lt;br /&gt;            Grande é o escritor que saiba “repetir” de forma convincente alguém que o leitor identifique (como a um vizinho, um parente, ou mesmo um desconhecido), alguém que o leitor reconheça como plausível, ou seja, verossímil. “Esse tipo de pessoa eu conheço” diria o leitor diante da personagem criada. Êxito do autor.Ou então, “que tipo mais extraordinário!” Isso nos casos de exceção, que combina mais com aqueles escritores capazes de criar gente que sintetiza o drama do homem diante dos mistérios da existência. Figuras cujo modelo não faz parte da nossa família (se fizesse, já tinha sido expulso). Figuras que julgamos únicas porque não lhes conhecemos a síntese senão ali mesmo, na obra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;            Criar um indivíduo, tomando todos os cuidados, observando cada mínimo detalhe na descrição, nos diálogos, fixar um tipo de pessoa a partir de seus hábitos, do tom de sua voz, do jeito neurótico como passa a mão repetidas vezes pelo cabelo, ou como grita desnecessariamente, ou como pensa, sim, principalmente como pensa.&lt;br /&gt;            Um homem são suas idéias.&lt;br /&gt;            E, antes de que as examinemos, um homem é a coragem de pensar ou o medo de pensar. Um homem que tema tanto viver, um fraco, e que por isso não ouse elevar seu espírito tão alto, ainda assim é um homem – uma vítima de si mesmo –, e interpretá-lo é um trabalho rigoroso, complexo, e tanto o ator quanto o escritor são chamados a fazê-lo.&lt;br /&gt;            O escritor apresenta-se, muitas vezes – a maioria delas, inclusive –, sem ter sido chamado. Um viciado cometendo excesso, mas excessos que revelam nossa verdade humana (portanto, nossa humanidade), e um vício que se apóia em duas dependências: a beleza e a verdade.&lt;br /&gt;            O escritor denuncia. Transforma (sempre em algo maior). Cria, onde antes havia, se não o vazio, ao menos o insuficiente.&lt;br /&gt;            Ele é o fruto dourado de uma terra (quando sem arte) estéril. E brota. Ou faz brotar.&lt;br /&gt;            Sem ele, sem sua obra, é o mundo cego, surdo, mudo.&lt;br /&gt;            É o mundo uma dimensão plana, exígua, sem fundo.&lt;br /&gt;            É mundo, sim, mas não habitável.&lt;br /&gt;            O artista, qualquer que seja sua ferramenta (neste caso estamos falando do escritor), torna o mundo real mais legível. É como se, sem ele, a realidade fosse intraduzível, e, de alguma forma, invisível a si mesma.&lt;br /&gt;            Nesse sentido, o escritor, é sem dúvida, um deus. Só depois dele o mundo, enfim totalmente criado, está pronto para a confissão.&lt;br /&gt;            Como um deus, porém, solitário, essa confissão só pode vir dele. Os homens que ele tenta salvar estão calados. Ou perderam-se na babel de palavras. Por isso mesmo ele fala por eles. (09/08/2008)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7659575339957537112-7336696565836632238?l=bentancur.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bentancur.blogspot.com/feeds/7336696565836632238/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7659575339957537112&amp;postID=7336696565836632238' title='9 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/7336696565836632238'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/7336696565836632238'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bentancur.blogspot.com/2008/08/mistrios-da-criao-literria-10.html' title='MISTÉRIOS DA CRIAÇÃO LITERÁRIA 10'/><author><name>BENTANCUR</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17397945706691195345</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp2.blogger.com/_296zOjIvu2c/R_F9H73wKyI/AAAAAAAAAAs/Mx_DoNV9suo/S220/Paulo5.jpg'/></author><thr:total>9</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7659575339957537112.post-9025385997376709550</id><published>2008-08-09T20:12:00.000-07:00</published><updated>2008-08-11T19:50:36.485-07:00</updated><title type='text'>MISTÉRIOS DA CRIAÇÃO LITERÁRIA 9</title><content type='html'>&lt;div align="center"&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Quem não gosta de descobrir? Quem pode descobrir se não vê? Quem pode ver se não escuta? Quem pode escutar se não fala? Quem pode falar se não lê?&lt;br /&gt;Na leitura está o caminho de uma série de mistérios. Continuamos aqui uma série sobre os mistérios da escrita criativa, da criação literária. Criação que nos ajuda a criarmo-nos enquanto seres cheios de mistérios.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;IX&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A arte é uma das tantas respostas para a dúvida. E não só para a dúvida. Mas todo artista é, antes de tudo, ou simultaneamente, um filósofo. O que é um filósofo?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Uma brevíssima história do espírito&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;br /&gt;Entre as milhares de formas de vida animal no planeta, o homem é a única com inteligência capaz de prodígios. Um desses prodígios é pensar o universo à sua volta. O homem é o único animal que pensa.&lt;br /&gt;Os demais animais aceitam o mundo como ele é, sem procurar alterar nada. A sua atividade, mesmo intelectual (a formiga, a abelha ou o castor são hábeis artesões, engenheiros e matemáticos) é essencialmente prática. O homem não restringe seu raciocínio somente à função utilitária deste. Vai além: constrói mentalmente obras cujo destino é apenas mental, ou seja, com utilidade teórica e não, prática.&lt;br /&gt;Se o reino da matéria é o único reino que as demais formas vivas reconhecem, o do espírito oferece uma porta que só o homem pode abrir.&lt;br /&gt;Há homens que, infelizmente, raramente abrem essa porta. Por medo. Por insegurança. Por hipocrisia. Por ignorância. Por falta de liberdade. Por pobreza.&lt;br /&gt;Outros a abrem, mas só um pouquinho, deixando ver através da fresta uma pálida noção do espetáculo que há lá dentro.&lt;br /&gt;A inteligência humana não tem limites, e abrir a porta do espírito é apostar tudo na extraordinária força de nossa mente.&lt;br /&gt;Essa aposta, como toda aposta, incorre em riscos, em erros, mas provavelmente acabará encontrando o maior dos tesouros: a verdade.&lt;br /&gt;Pensar é uma aventura inenarrável. Pensar é viver em dobro. Pensar é provar por que somos superiores ao gato, ao cachorro, ao cavalo.&lt;br /&gt;Pensar é descobrir.&lt;br /&gt;Pensar é ver além dos olhos. Pensar é escutar além dos ouvidos. Pensar é falar além da boca. Pensar é multiplicar.&lt;br /&gt;Pensar é enriquecer.&lt;br /&gt;Pensar é ganhar confiança. Pensar é amadurecer. Pensar é conquistar.&lt;br /&gt;Pensar é viver, viver mesmo.&lt;br /&gt;Um homem que não pensa de fato não é um homem por inteiro, é um homem pela metade. E de um homem pela metade não se pode dizer que viva.&lt;br /&gt;O pensamento conduz às respostas que precisamos para entender tudo o que acontece.&lt;br /&gt;O pensamento também conduz a novas perguntas, que com mais pensamento nos levarão a novas respostas.&lt;br /&gt;Quanto mais perguntas, melhores respostas. Isso porque se as dúvidas se multiplicaram, satisfazê-las exigiu mais e melhores argumentos.&lt;br /&gt;É uma ilusão pensar-se que a criança é um eterno inocente.&lt;br /&gt;Com três, quatro aninhos de idade é comum fazerem indagações, cobrando-nos a toda hora uma resposta satisfatória acerca da origem das coisas, do porquê de tudo ser como é.&lt;br /&gt;Ou seja: já nascemos filósofos.&lt;br /&gt;A curiosidade é inerente ao homem. O ser humano é o único animal da face da Terra que se faz perguntas.&lt;br /&gt;Que se admira. Que se espanta.&lt;br /&gt;Que não consegue dormir com uma dúvida martelando em sua cabeça.&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;Mas a atividade do espírito não é privilégio dos filósofos. É do homem em geral, embora nem todos os homens possam ser chamados de pensadores.&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;A origem da palavra filosofia vem do grego, e quer dizer “amor à sabedoria”.&lt;br /&gt;Mas amor à sabedoria têm também os cientistas e os inventores, que buscam através do raciocínio lógico não uma construção puramente mental, como os filósofos, mas de aplicação imediatamente prática. Se os filósofos vivem à procura de propor questões e respondê-las, os cientistas e inventores vivem à procura de soluções concretas para problemas concretos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E os artistas, eles não têm amor à sabedoria?&lt;br /&gt;Evidente que sim.&lt;br /&gt;Os escritores, os músicos e os pintores vêm a sabedoria por outro ângulo, não exatamente o da verdade, mas o da beleza.&lt;br /&gt;Para eles a verdade não é nada sem a beleza.&lt;br /&gt;É na apaixonada satisfação do gosto através da criação estética que eles atingem o ponto mais alto de suas vidas: a conquista do belo.&lt;br /&gt;O belo é um conceito complicado, difícil de se traduzir, e para chegar a ele é necessário muita transpiração e muita inspiração.&lt;br /&gt;A obra de arte anseia tocar a perfeição, como um amante quer tocar o ser amado. Mas o artista teme fazer o papel exatamente de um amante, apaixonado por algo que só ele reconhece como belo.&lt;br /&gt;O amante tem todas as desculpas do mundo. Sobretudo porque seu objeto desejado tem um só propósito: satisfazê-lo e fazer-lhe companhia.&lt;br /&gt;Já o artista, ao contrário, quer compartilhar com o mundo sua experiência de maravilhamento, e para isso deve fazer com que o mundo também se apaixone.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim, filósofos, cientistas, inventores, artistas – todos fazem do pensamento o que um atleta faz do corpo: seu instrumento incansável.&lt;br /&gt;A um corpo – já que falamos em atleta numa época em que o culto ao corpo está muito popularizado – é fundamental cultivar, isto é, malhar, alimentar, cuidar. Por que com um cérebro seria diferente?&lt;br /&gt;Uma mente que não se exija o máximo é uma espécie de corpo indolente, sedentário. Um cérebro que não se exercite, não faz com que as ligações entre os bilhões de neurônios se desdobrem em novos milhões de ligações, nunca chegando a conclusões – e dúvidas – novas, originais, fortes.&lt;br /&gt;Somos uma máquina, sem nenhuma dúvida, e uma máquina precisa de reparos e de manutenção.&lt;br /&gt;Parada, ela estraga.&lt;br /&gt;Em movimento, pode então mostrar toda sua serventia e poder.&lt;br /&gt;Nossa cabeça necessita, exige combustível. Trocando em miúdos, informação. Com mais dados informados, melhor ela processa os que possui. Seu percurso vai além, acelera e cresce em fôlego, em alcance. Chega a lugares – a idéias – que nem sonhou antes, quando ignorava o que agora sabe. (09/08/2008)&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7659575339957537112-9025385997376709550?l=bentancur.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bentancur.blogspot.com/feeds/9025385997376709550/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7659575339957537112&amp;postID=9025385997376709550' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/9025385997376709550'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/9025385997376709550'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bentancur.blogspot.com/2008/08/mistrios-da-criao-literria-9.html' title='MISTÉRIOS DA CRIAÇÃO LITERÁRIA 9'/><author><name>BENTANCUR</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17397945706691195345</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp2.blogger.com/_296zOjIvu2c/R_F9H73wKyI/AAAAAAAAAAs/Mx_DoNV9suo/S220/Paulo5.jpg'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7659575339957537112.post-6585248879156803038</id><published>2008-08-09T20:09:00.000-07:00</published><updated>2008-08-09T20:10:22.732-07:00</updated><title type='text'>MISTÉRIOS DA CRIAÇÃO LITERÁRIA 8</title><content type='html'>&lt;div align="center"&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Quem não gosta de descobrir? Quem pode descobrir se não vê? Quem pode ver se não escuta? Quem pode escutar se não fala? Quem pode falar se não lê?&lt;br /&gt;Na leitura está o caminho de uma série de mistérios. Continuamos aqui uma série sobre os mistérios da escrita criativa, da criação literária. Criação que nos ajuda a criarmo-nos enquanto seres cheios de mistérios.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;VIII&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Há perguntas que respondem mais que certas respostas. E há perguntas que exigem respostas. Abaixo algumas perguntas acerca de questões essenciais envolvendo a literatura e a vida literária.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1) O escritor é, por definição, um habitante das sombras mesmo, ou não será essa uma definição um tanto romantizada?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2) Tendo que escolher apenas uma das hipóteses – a fortuna de ter público ou a glória de ter crítica favorável –, qual você acha que seria a opção escolhida pela média dos escritores?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;3) Mesmo respeitando a opção particular pelo recolhimento extremo de um Dalton Trevisan ou de um Rubem Fonseca, qual sua opinião sobre os reflexos dessa inclinação ao esconderijo na obra desses escritores – ela ajuda ou prejudica na divulgação e na compreensão de seus livros?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;4) O conto parece ser o gênero de maior êxito entre os escritores brasileiros. Vide Rubem Fonseca, Dalton Trevisan, Moacyr Scliar e tantos outros. Por que essa vocação brasileira para o conto, até porque se sabe que romance vende mais?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;5) Qual sua opinião sobre uma certa rejeição do público ao conto? Considerando-se o pouco hábito de leitura e o menor tempo disponível ainda, é praticamente incompreensível que romances enormes vendam com muito maior facilidade que histórias curtas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;6) Quanto de crítico tem que ter o biógrafo de um escritor, 50%?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;7) Não será o escritor alguém que tem dificuldade em aceitar quem não se devora por dentro, com o ácido da autocrítica, por não estar criando (não importa o quê)? Afinal, o escritor, que cria para criar-se, sabe que todos não estamos prontos. (09/08/2008)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7659575339957537112-6585248879156803038?l=bentancur.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bentancur.blogspot.com/feeds/6585248879156803038/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7659575339957537112&amp;postID=6585248879156803038' title='10 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/6585248879156803038'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/6585248879156803038'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bentancur.blogspot.com/2008/08/mistrios-da-criao-literria-8.html' title='MISTÉRIOS DA CRIAÇÃO LITERÁRIA 8'/><author><name>BENTANCUR</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17397945706691195345</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp2.blogger.com/_296zOjIvu2c/R_F9H73wKyI/AAAAAAAAAAs/Mx_DoNV9suo/S220/Paulo5.jpg'/></author><thr:total>10</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7659575339957537112.post-26722795497800018</id><published>2008-08-09T20:04:00.000-07:00</published><updated>2008-08-09T20:07:00.194-07:00</updated><title type='text'>MISTÉRIOS DA CRIAÇÃO LITERÁRIA 7</title><content type='html'>&lt;div align="center"&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Quem não gosta de descobrir? Quem pode descobrir se não vê? Quem pode ver se não escuta? Quem pode escutar se não fala? Quem pode falar se não lê?&lt;br /&gt;Na leitura está o caminho de uma série de mistérios. Continuamos aqui uma série sobre os mistérios da escrita criativa, da criação literária. Criação que nos ajuda a criarmo-nos enquanto seres cheios de mistérios.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;VII&lt;br /&gt; &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;A literatura, como a arte em geral, como a vida, é feita de paradoxos, e obedece ao ritmo imprevisível e caprichoso das paixões humanas, dos vícios, dos enganos, do desconhecido. Tenta-se aqui iluminar um pouco esse reino nebuloso e contraditório.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Talentos – O sujeito, afinal de contas, era medíocre, porque, sendo talentoso, deu vez a um medíocre em sacrifício da própria genialidade, posta de lado pela dúvida sempre cruel da autocrítica, a princípio uma virtude, a seguir, um vício. Não acreditava no outro, claro, porém, incapacitado de crer em suas virtudes e engenho, preferiu render-se ao movimento contínuo, talvez monótono, da necessidade de afirmação do colega, sem talento algum, sim, entretanto tornado mais forte que ele diante da indiferença do mundo.&lt;br /&gt;Por outro lado, que talento o do sujeito que, sendo medíocre, sentiu a hora única na brecha mínima que foi a dor atroz da profunda insatisfação do amigo talentoso, e naquele segundo de hesitação deixou-o para trás, permitindo que ficasse inédita uma novela lancinante do outro, e que as portas se abrissem ao vazio fútil e fácil que foi então sua ascensão imposta pelo simples desejo de subir. Desejo que ninguém segura. E que o universo, feito de matéria escura, aplaude.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Legado – Anos e anos tentando, e fracassando como um miserável sem sol. A obra não lhe vinha, não de forma aceitável. Aliás, vinha-lhe a obra, sim, mas em forma de condenação: sua derrota cotidiana, o peso terrível de acumular fracassos. Faltava-lhe, talvez menos que engenho, paciência. Sua vida tinha sido até então aquela marca inapagável do insuficiente. E perto dele só ficavam os que não desejam obra alguma, os que aceitavam o silêncio vazio.&lt;br /&gt;Até o dia em que de repente ele achou a direção certa, e fez o que sempre sonhou, e acertou, ah, acertou, sem nenhuma dúvida acertou. E quis ficar quieto, quando terminou de criar, abraçado a um resto de rancor feliz por enfim ter acertado. Imaginou finalmente pertencer-se.&lt;br /&gt;Porém, o primeiro homem que passou por perto teve a atenção despertada pela obra, e interessou-se, e logo outro, e outro, e outro. E em pouco tempo muitos estavam querendo aquilo para eles. E pegaram o que ele achava que lhe pertencia. E, antes mesmo de transformarem a obra em outra coisa (ele já o pressentia), levaram-na para bem longe. E só lhe restou começar tudo de novo, órfão do que criara, reiniciando o doloroso ritual para que nascesse outro filho ou obra, que também lhe seria arrancada, se a fizesse atraente, e deformada bem longe dos seus braços.” (09/08/2008)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7659575339957537112-26722795497800018?l=bentancur.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bentancur.blogspot.com/feeds/26722795497800018/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7659575339957537112&amp;postID=26722795497800018' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/26722795497800018'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/26722795497800018'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bentancur.blogspot.com/2008/08/mistrios-da-criao-literria-7.html' title='MISTÉRIOS DA CRIAÇÃO LITERÁRIA 7'/><author><name>BENTANCUR</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17397945706691195345</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp2.blogger.com/_296zOjIvu2c/R_F9H73wKyI/AAAAAAAAAAs/Mx_DoNV9suo/S220/Paulo5.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7659575339957537112.post-1187481564113163774</id><published>2008-08-09T20:00:00.000-07:00</published><updated>2008-08-09T20:02:39.761-07:00</updated><title type='text'>MISTÉRIOS DA CRIAÇÃO LITERÁRIA 6</title><content type='html'>&lt;div align="center"&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Quem não gosta de descobrir? Quem pode descobrir se não vê? Quem pode ver se não escuta? Quem pode escutar se não fala? Quem pode falar se não lê?&lt;br /&gt;Na leitura está o caminho de uma série de mistérios. Continuamos aqui uma série sobre os mistérios da escrita criativa, da criação literária. Criação que nos ajuda a criarmo-nos enquanto seres cheios de mistérios.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;VI&lt;br /&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;br /&gt;Criar é um risco, um salto sobre o fosso, às vezes direto no fosso. Implica contradições, absurdos, olho no olho do medo mais puro. Criar, artifício de quem, ao menos em tese, já estava criado, é continuar; entretanto, é também nascer, e isso implica algumas mortes. A seguir algumas frases acerca da arte e suas miragens, distorções e verdades.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Shakespeare sabia tudo de Ben Johnson e nada de William Shakespeare.” – Manuel Urbano&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;            “A disciplina pode brutalizar um homem, mas a falta dela certamente brutaliza uma obra.” – Anthero Luz&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Nada há mais feio que dar pernas longuíssimas a idéias brevíssimas.” – Machado de Assis, em Dom Casmurro, que está completando cem anos de publicação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“A questão não é: Como podemos manter a imaginação pura, protegida dos ataques da realidade? A questão tem de ser: Podemos encontrar uma maneira de fazer as duas coexistir?” – J. M. Coetzee&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Cuidado: a autocrítica, a princípio, é uma virtude, mas a seguir, um vício.” – Teófilo Lins de Albuquerque&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Ritmo parece coisa de poeta (e é), mas não pode ser dispensando nunca, por ninguém, não importa o gênero. Os grandes ensaístas (Antônio Cândido, José Guilherme Merquior, Davi Arrigucci Jr., José Miguel Wisnick) possuem um ouvido atento ao escrever, imagine os grandes ficcionistas, que vivem de criar climas, atmosferas, e não há clima sem rigorosa atenção ao tempo (e inclusive à ‘música’) da situação criada.” – Anselmo Bicalho&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;            “Segundo Mario de Andrade, conto é tudo o que o autor tiver chamado de conto. Preguiça do Mário, ou ironia. Melhor partir de um pressuposto mais consistente. Conto é uma narrativa ficcional breve, cuja brevidade exige compactação (essa palavrinha tão &lt;em&gt;up-to-date&lt;/em&gt; no futebol), compactação entre todos os seus elementos.” – Otília Meirelles&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Consolo: Shakespeare, como a maioria de nós, não sabia o que estava fazendo.” – Anthero Luz (09/08/2008)&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7659575339957537112-1187481564113163774?l=bentancur.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bentancur.blogspot.com/feeds/1187481564113163774/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7659575339957537112&amp;postID=1187481564113163774' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/1187481564113163774'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/1187481564113163774'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bentancur.blogspot.com/2008/08/mistrios-da-criao-literria-6.html' title='MISTÉRIOS DA CRIAÇÃO LITERÁRIA 6'/><author><name>BENTANCUR</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17397945706691195345</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp2.blogger.com/_296zOjIvu2c/R_F9H73wKyI/AAAAAAAAAAs/Mx_DoNV9suo/S220/Paulo5.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7659575339957537112.post-2756623399779011398</id><published>2008-08-09T19:54:00.000-07:00</published><updated>2008-08-09T19:58:48.675-07:00</updated><title type='text'>MISTÉRIOS DA CRIAÇÃO LITERÁRIA 5</title><content type='html'>&lt;div align="center"&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Quem não gosta de descobrir? Quem pode descobrir se não vê? Quem pode ver se não escuta? Quem pode escutar se não fala? Quem pode falar se não lê?&lt;br /&gt;Na leitura está o caminho de uma série de mistérios. Continuamos aqui uma série sobre os mistérios da escrita criativa, da criação literária. Criação que nos ajuda a criarmo-nos enquanto seres cheios de mistérios.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;  V&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;br /&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;            Dois breves diálogos, quase dois minicontos, pocuram refletir sobre o artista e seu perfil fugaz e irônico. O escritor é sempre uma figura inclassificável, frágil e forte – como qualquer um.&lt;br /&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Um livro que não poderia ser escrito&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;            – Não há o que eu não escreva!&lt;br /&gt;            Quem se vangloriava era o Elizeu, inchado como um garnizé. A Bruna assombrada:&lt;br /&gt;            – Qualquer tipo de livro?&lt;br /&gt;            – Qualquer – confirmava o Elizeu.&lt;br /&gt;            – Até poesia?&lt;br /&gt;            – Ih, isso é fichinha...&lt;br /&gt;            – Rimada?&lt;br /&gt;            – Rimada.&lt;br /&gt;            – Metrificada?&lt;br /&gt;            – Metrificada.&lt;br /&gt;            – Cheia de imagens e símbolos?&lt;br /&gt;            – Cheia de imagens e símbolos.&lt;br /&gt;            Estava ficando monótona aquela conversa. Elizeu até se condoeu da modéstia da exigência da Bruna. Poesia! Isso é coisa pra quinze minutos, vinte. Crônica também é rápido, é só bate-papo. Conto demora um pouco mais, digamos, umas duas horas. Sabe como é, a situação, o clima.&lt;br /&gt;            Tinha uma coisa que ele nunca tentara: romance, mas romance é um troço deste tamanho. Mais de cem páginas, um monte de personagens, um monte de cenas, diálogo pra mais de metro – a Bruna nem ia lembrar que existe romance.&lt;br /&gt;            Só que a Bruna lembrou.&lt;br /&gt;            – E um livrão assim, tipo ...&lt;em&gt;E o vento levou&lt;/em&gt;?&lt;br /&gt;            Pô, o catatau da Katherine Mitchel tinha oitocentas páginas.&lt;br /&gt;            – Aquela chorumela? Tá louca, mulher!&lt;br /&gt;            – E daí, você faz ou não faz?&lt;br /&gt;            – Ah, não, um desses eu não faço... – tartamudeou.&lt;br /&gt;            Bruna sorriu, compassiva.&lt;br /&gt;            Elizeu reagiu, ferido de morte.&lt;br /&gt;            – Não faço porque não quero, só por isso. Já imaginou quanto poeminha e quanto continho eu ia deixar de fazer só por causa de um negócio arrastado assim?&lt;br /&gt;            – Quer dizer que não posso esperar um romance de você?&lt;br /&gt;            – Não! – Elizeu estava vermelho, mais um pouco e se descontrolaria.&lt;br /&gt;            – Que pena...&lt;br /&gt;            Elizeu saiu apressado, sem nenhuma pena da Bruna.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A namorada e o escritor&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;            A namorada lê o que o escritor escreve e estremece.&lt;br /&gt;            – Quanta bandalheira! E você não é bandalho...&lt;br /&gt;            Continua:&lt;br /&gt;            – Quanta loucura! E você não é louco...&lt;br /&gt;            E arremata:&lt;br /&gt;            – Quanta crueldade! E você não é mau...&lt;br /&gt;            – Sou um escritor – ele responde –, e um escritor é uma espécie de ator completo, até de um super-homem.&lt;br /&gt;            – Que faço eu – pergunta ela, preocupadíssima –, tão vulnerável contra tantos poderes? (09/08/2008)&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7659575339957537112-2756623399779011398?l=bentancur.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bentancur.blogspot.com/feeds/2756623399779011398/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7659575339957537112&amp;postID=2756623399779011398' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/2756623399779011398'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/2756623399779011398'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bentancur.blogspot.com/2008/08/mistrios-da-criao-literria-5.html' title='MISTÉRIOS DA CRIAÇÃO LITERÁRIA 5'/><author><name>BENTANCUR</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17397945706691195345</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp2.blogger.com/_296zOjIvu2c/R_F9H73wKyI/AAAAAAAAAAs/Mx_DoNV9suo/S220/Paulo5.jpg'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7659575339957537112.post-4188189051047530988</id><published>2008-08-09T19:52:00.000-07:00</published><updated>2008-08-09T19:53:06.359-07:00</updated><title type='text'>MISTÉRIOS DA CRIAÇÃO LITERÁRIA 4</title><content type='html'>&lt;div align="center"&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Quem não gosta de descobrir? Quem pode descobrir se não vê? Quem pode ver se não escuta? Quem pode escutar se não fala? Quem pode falar se não lê?&lt;br /&gt;Na leitura está o caminho de uma série de mistérios. Continuamos aqui uma série sobre os mistérios da escrita criativa, da criação literária. Criação que nos ajuda a criarmo-nos enquanto seres cheios de mistérios.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;IV&lt;br /&gt; &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Qual a receita, qual o segredo da ficção? Existe essa receita, esse segredo? O leitor nem quer saber, quer logo a ficção que o seduza, a história que o comova. Mas o escritor quer saber. Quer e tenta e parece que.... Nosso colaborador Anthero Luz conta uma história e com ela nos revela se o escritor compreende ou não o mistério de sua arte, quais os ingredientes que a compõem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O escritor Alaor é sério pra burro. Não quer conversa fiada. Passa as madrugadas na internet, as manhãs na biblioteca do pai, desembargador aposentado, e durante a tarde ele debulha para uma página em branco impotente todos os dados que acumulou. Cruza-os, relaciona-os, uma informação levando a outra, e outra a outra, e assim por diante. Alaor não quer conversa fiada, por isso pratica o alterofilismo mental, sustentando um conhecimento cada vez mais concreto, com fatos, figuras, teses mais do que respeitáveis. O diabo é que um crítico, de quem sempre falaram bem a Alaor, e ao qual Alaor pediu socorro acerca de seu mais recente romance, perguntou: “romance? Cadê as personagens?”&lt;br /&gt;Alaor apressou-se: “mas e o deputado, e o senador, e a mulher do senador, e o cientista, e o professor, e?” O crítico o interrompeu: “personagens se movem, gesticulam, suam, vagam, mais perdidos que encontrados dentro de um romance. O que você faz é listar uns nomes, umas ocupações, e mencionar situações em que essas figurinhas carimbadas se pronunciariam. Isso é só tema, pretexto, ponto de partida. Você não chegou a começar a fazer arte, Alaor, parou antes.”&lt;br /&gt;Alaor é um sujeito do qual se pode dizer tudo, menos que não seja sério. “Tem um monte de idéias interessantes na história.”&lt;br /&gt;“Mas não tem história”, devolveu o crítico.&lt;br /&gt;“Mas e o enredo que montei?”&lt;br /&gt;“Montou, Alaor, montou. E enredo é um troço pra lá de complicado. Deve ser a parte mais invisível da ficção, aquela que, quando o leitor foi ver, já aconteceu. Tudo, aliás, deve ser invisível, os personagens sendo o que são sem o autor gritar para mostrá-los. A trama se desenrolando sem trama alguma, uma cena levando a outra, com suavidade. Ou com sobressalto, que se há de fazer, mas um sobressalto do qual até o autor se ressente.”&lt;br /&gt;“Mas tem tanta frase inteligente no meu livro.”&lt;br /&gt;“E o que isso tem a ver com ficção?”&lt;br /&gt;“Mas aí fica meio confuso...”&lt;br /&gt;“Nada melhor que a confusão para revelar um caráter, um drama.”&lt;br /&gt;“O perigo, caro crítico, é o escritor cometer muita conversa fiada.”&lt;br /&gt;“Literatura é conversa fiada.”&lt;br /&gt;“Eu sou sério demais”, advertiu-o Alaor, ofendido já, e orgulhoso da própria seriedade.&lt;br /&gt;“A diferença é que arte é forma; e você, que só vive das idéias, é formal.”&lt;br /&gt;“Não, não, não!”, horrorizou-se Alaor. “A literatura não pode ser tão superficial...”“Num certo sentido, é bastante. Vive de olhar demoradamente a superfície, onde bóiam sinais remotos de algo que se agita no fundo – e nunca será revelado.” (09/08/2008)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7659575339957537112-4188189051047530988?l=bentancur.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bentancur.blogspot.com/feeds/4188189051047530988/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7659575339957537112&amp;postID=4188189051047530988' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/4188189051047530988'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/4188189051047530988'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bentancur.blogspot.com/2008/08/mistrios-da-criao-literria-4.html' title='MISTÉRIOS DA CRIAÇÃO LITERÁRIA 4'/><author><name>BENTANCUR</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17397945706691195345</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp2.blogger.com/_296zOjIvu2c/R_F9H73wKyI/AAAAAAAAAAs/Mx_DoNV9suo/S220/Paulo5.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7659575339957537112.post-7378668603298231935</id><published>2008-08-09T19:49:00.000-07:00</published><updated>2008-08-09T19:50:38.086-07:00</updated><title type='text'>MISTÉRIOS DA CRIAÇÃO LITERÁRIA 3</title><content type='html'>&lt;div align="center"&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Quem não gosta de descobrir? Quem pode descobrir se não vê? Quem pode ver se não escuta? Quem pode escutar se não fala? Quem pode falar se não lê?&lt;br /&gt;Na leitura está o caminho de uma série de mistérios. Continuamos aqui uma série sobre os mistérios da escrita criativa, da criação literária. Criação que nos ajuda a criarmo-nos enquanto seres cheios de mistérios.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;III&lt;br /&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;br /&gt;Morto o autor, se gostamos dele, queremos mais. Porém, cabe a pergunta: devemos querer? Morto, não terá ele concluído sua obra? Por que não nos entregarmos a simplesmente relê-lo. Pronto: reler é a forma mais aperfeiçoada de ler. Chega. O defunto já esfriou, não quer publicar mais. Simplesmente porque não produz mais. Mas hoje costuma-se desenterrar até bilhetes para o gerente de banco do escritor e querer dar à luz esses bilhetes como se fossem, porque assinados por quem são, obra a se considerar. Um crime. Nosso colaborador Anthero Luz reflete sobre esta questão polêmica:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;            “Morre fisicamente o escritor, célebre pela qualidade de sua obra. Imagina-se que a posteridade lhe será grata, reconhecendo seus méritos e povoando as décadas vindouras de ecos do aplauso que ele conheceu em vida. Entretanto, um professor de literatura mais afoito burla a vigilância precária da viúva e arranca das mãos hesitantes da mulher páginas que o autor desejaria enterrar consigo. Está feito o crime.&lt;br /&gt;            Um mês depois de morto sai em edição de luxo a primeira besteira no conjunto da obra do autor, até então cuidadíssima. Quer o tal professor, a exemplo do mau-exemplo Max Brod, impedir que caia no esquecimento o que o autor quis assim. Max Brod teve sorte, o Kafka inédito de fato valia a pena, mas foi uma exceção, a regra é o defunto ter razão, e o que deixou sem a luz do público de fato merecer tal escuridão.&lt;br /&gt;            Fizeram isso com Fernando Pessoa depois de morto, cujo “baú inesgotável” de obras-primas efetivamente deu obras-primas, mas também muita bobagem, como O Livro do desassossego, que nunca deveria receber a atenção que a maioria do material escondido mereceu. Com Pessoa tinha um atenuante, como com Kafka: o autor foi exigente além da sensatez, e realmente escondeu o ouro. Mas o normal é o autor esconder aquilo que não desejaria mesmo que lessem.&lt;br /&gt;            Morte feliz a daquele escritor cujo último livro publicado em vida é, sim, o último livro de sua bibliografia. E os seguintes não passem de homenagens de terceiros, clubes de leitores, associação de críticos, enfim, essa outro espécie de desdobramento, cá pra nós, lamentável, mas pelo menos com o honestidade de ostentar a assinatura de gente viva que pode ser responsabilizada pelos próprios erros.            Morto o autor, leva para o túmulo a paz de enfim ter descansado. Isso quer dizer simplesmente que agora não escreverá mais. Nunca mais. E não publicará mais. Nunca mais. O que já estava, ficou. O que não aconteceu com ele, não pode mais acontecer. A obra precisa ser dele para depois ser nossa..” (09/08/2008)&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7659575339957537112-7378668603298231935?l=bentancur.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bentancur.blogspot.com/feeds/7378668603298231935/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7659575339957537112&amp;postID=7378668603298231935' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/7378668603298231935'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/7378668603298231935'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bentancur.blogspot.com/2008/08/mistrios-da-criao-literria-3.html' title='MISTÉRIOS DA CRIAÇÃO LITERÁRIA 3'/><author><name>BENTANCUR</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17397945706691195345</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp2.blogger.com/_296zOjIvu2c/R_F9H73wKyI/AAAAAAAAAAs/Mx_DoNV9suo/S220/Paulo5.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7659575339957537112.post-2564740854273191786</id><published>2008-08-09T19:45:00.000-07:00</published><updated>2008-08-09T19:48:13.626-07:00</updated><title type='text'>MISTÉRIOS DA CRIAÇÃO LITERÁRIA 2</title><content type='html'>&lt;div align="center"&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Quem não gosta de descobrir? Quem pode descobrir se não vê? Quem pode ver se não escuta? Quem pode escutar se não fala? Quem pode falar se não lê?&lt;br /&gt;Na leitura está o caminho de uma série de mistérios. Continuamos aqui uma série sobre os mistérios da escrita criativa, da criação literária. Criação que nos ajuda a criarmo-nos enquanto seres cheios de mistérios.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;br /&gt;II&lt;br /&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;br /&gt;O que é a obra? Que condições a propiciam e o que exatamente a anuncia? Como pode ser reconhecida? Fomos buscar auxílio junto a um valioso colaborador, que fez questão de afirmar que “obra que é obra não tem espelho”. E, advertindo-nos, “não perguntem ao autor”, mandou-nos a seguinte história:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O homem termina mais uma de suas peças. Lê novamente o que acabou de escrever, francamente incomodado. Mais que as dúvidas habituais que assaltam os que pensam e produzem, em regra pressionados por prazos, o espírito do homem é tomado de um tormento já rotineiro: novamente vê no que criou a marca do excesso, do imperfeito.&lt;br /&gt;Relê tudo com uma atenção desconsolada. Lá estão, bem claros, o enredo improvável, cheio de episódios de exceção, os personagens descontrolados, neuróticos a um passo do inverossímil, e suas falas então, literárias em demasia, de uma profundidade só cabível a um artista, não a um homem ao qual a arte não elegeu.&lt;br /&gt;Sente-se incoerente esse homem que escreve. E, mais que incoerente, falho. Aceita a incoerência (não é ela moeda corrente em suas obras?), assim como aceita o descontrole emocional, o ridículo nos atos das criaturas que põe em cena, o despropósito de suas decisões, a natureza quase bestial de algumas, quase divina de outras. Aceita isso, sim, mas aceita como aceitamos um ritmo cego que nos toma e nos carrega e logo que ele acaba saímos em outra direção.&lt;br /&gt;E tudo isso que o homem escreve é feito numa linguagem que pinga, ressuma, reverbera. Muita música, muita imagem, muita ação, muita legenda. O homem sente-se francamente cansado. Cansado de tudo. Sabe que errou miseravelmente em seu projeto estético. Perdeu desde a primeira linha a possibilidade do equilíbrio. Qual seu destino?&lt;br /&gt;Evidente: cair. Cair do mais alto sonho até a mais baixa realidade. O mundo é impiedoso, disso ele sabe. Que glória poderá esperar? Nenhuma. Claro que nenhuma. O consolo é o relativo sucesso mais imediato – por enquanto ele está vivo e é isso o que mais importa – que seu trabalho faz junto ao público, vulgar, como se sabe.&lt;br /&gt;Quando acaba o espetáculo, ele volta para casa, e logo já bola outra peça descabelada, outro exagero, outro conjunto de vilanias, ridículos, incongruências, únicos sinais que lhe acenam e depois dos quais ele duvida que tenha chegado ao ponto certo.Um dia morrerá, não se ilude, tudo terá acabado, mas as dívidas não se acumularão, alguma herança material restará, e se seu nome – William Shakespeare – tiver sido varrido da face da Terra, ele não estará presente para lamentar esse resto de silêncio. Até porque concordaria com ele.” (09/08/2008)&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7659575339957537112-2564740854273191786?l=bentancur.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bentancur.blogspot.com/feeds/2564740854273191786/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7659575339957537112&amp;postID=2564740854273191786' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/2564740854273191786'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/2564740854273191786'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bentancur.blogspot.com/2008/08/mistrios-da-criao-literria-2.html' title='MISTÉRIOS DA CRIAÇÃO LITERÁRIA 2'/><author><name>BENTANCUR</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17397945706691195345</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp2.blogger.com/_296zOjIvu2c/R_F9H73wKyI/AAAAAAAAAAs/Mx_DoNV9suo/S220/Paulo5.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7659575339957537112.post-4061504448740451401</id><published>2008-08-09T19:43:00.000-07:00</published><updated>2008-08-09T19:44:58.615-07:00</updated><title type='text'>MISTÉRIOS DA CRIAÇÃO LITERÁRIA 1</title><content type='html'>&lt;div align="center"&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Quem não gosta de descobrir? Quem pode descobrir se não vê? Quem pode ver se não escuta? Quem pode escutar se não fala? Quem pode falar se não lê?&lt;br /&gt;Na leitura está o caminho de uma série de mistérios. Começamos aqui uma série sobre os mistérios da escrita criativa, da criação literária. Criação que nos ajuda a criarmo-nos enquanto seres cheios de mistérios.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;I&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem é o escritor? O que faz com que ele escreva? Fomos buscar na literatura portuguesa algumas vozes que dessem conta dessa resposta difícil, quase sempre paradoxal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eis tudo – obstinação. Ela nos une e nos diferencia, e nos prende por laços invisíveis. Não conheço outra forma de encontrar termos para nos definir. (...) Crença humilde porque regressa ao princípio, e produzindo uma teia sem pensamento como a aranha, no entanto tem a ambição parente das coisas criadas por Deus, porque se radica na intuição de que a palavra, mesmo caótica, quando pronunciada em voz alta, adia indefinidamente o fim.” – Lídia Jorge.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Só enquanto escrevo é que geralmente vou sabendo o que de fato desejava escrever. Daí decorre um acentuado gosto (...) pela aventura, tanto das palavras como dos seres. O que mais me importa  é partilhar com os outros o conhecimento (que também julgo ter certa invisibilidade) do real. Ou, pelo menos, a ilusão desse conhecimento.” – David Mourão-Ferreira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Para o escritor tudo é diverso. Porque o imaginário não está só nele e nos livros que escreve – e sim também em quantos os lêem e vivem. Além disso, nenhum escritor consegue revelar duas vezes o segredo das coisas que materialmente não existem. Por isso mesmo não saberei descrever a essencialidade, o espírito, o sentido do irrepetível, a voz extinta das personagens e dos livros que comigo navegaram o tempo e depois se extinguiram na vida e no mundo dos meus leitores. De tudo o que escrevi, sobram-me suspeitas, noções elementares, grandes desejos astutos, murmúrios que estão para o tempo como o ato de ter escrito pode estar para o destino eterno da literatura.” – João de Melo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“A arte é um absoluto porque fala não à nossa razão mas à emotividade que não discute. Ela opera-se e determina-se como a verdade, a qual assenta não em operações racionais – como nunca assentou – mas no que chamei um dia o nosso ‘equilíbrio interno’ onde se decide quase tudo o que à vida importa. As razões são a sobra do que nesse equilíbrio se decide, para um protocolo da nossa sobrevivência.” – Vergílio Ferreira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Aquele que me habita e escreve, vive uma espécie de treva. Quase nada sabe da sua própria escrita. Menos ainda falar dela.” – Al Berto (o nome é esse mesmo, moçada).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O melhor dum escritor é ser razoável no entendimento, comum no convívio, justo no aconselhar, benigno no julgar e sempre alerta perante as glórias. (...) Também não é bom ser austero demais, nem culto, que pareça solidão fingida. (...) Arregaço as mangas, não para escrever um livro, mas para me acotovelar com a multidão.” – Augustina Bessa-Luís.&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;(09/08/2008)&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7659575339957537112-4061504448740451401?l=bentancur.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bentancur.blogspot.com/feeds/4061504448740451401/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7659575339957537112&amp;postID=4061504448740451401' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/4061504448740451401'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/4061504448740451401'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bentancur.blogspot.com/2008/08/mistrios-da-criao-literria-1.html' title='MISTÉRIOS DA CRIAÇÃO LITERÁRIA 1'/><author><name>BENTANCUR</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17397945706691195345</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp2.blogger.com/_296zOjIvu2c/R_F9H73wKyI/AAAAAAAAAAs/Mx_DoNV9suo/S220/Paulo5.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7659575339957537112.post-2841803895418097113</id><published>2008-08-05T16:40:00.000-07:00</published><updated>2008-08-05T16:45:01.768-07:00</updated><title type='text'>CULTURA BRASILEIRA E CULTURAS BRASILEIRAS</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Há Brasil na cultura?&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;A cultura de um país com as particularidades do Brasil só pode ser considerada em um sentido plural, resultado, como Alfredo Bosi diz (“Dialética da colonização”, Companhia das Letras, 1992), “de um processo de múltiplas interações e oposições no tempo e no espaço”. Quando se fala em cultura brasileira imagina-se algo absoluto, ou quase. No entanto, é preciso compreender – incorporando à nossa leitura da realidade, mesmo que voltada ao recorte da Cultura – os elementos econômicos, sociais e, claro, culturais que constituem a identidade própria (nossa) e dos outros, enquanto sujeitos sociais que interagem no processo histórico, a partir da sua condição de gênero, raça e classe.&lt;br /&gt;Uma operação complexa, em resumo, que passa por evitarmos algumas armadilhas como, principalmente, a do amordaçamento de vozes que brotam naturalmente em nossa periferia (nem por serem marginalizadas, vozes menos nossas).&lt;br /&gt;A dimensão histórica não é unidimensional. Desdobra-se, curva-se diante de tantas épocas (cinco séculos) e tantos poderes, muitos deles organizados para solapar uma identidade nacional e simplesmente transplantar uma do país colonizador ao país colonizado.&lt;br /&gt;Assim, é preciso, em cada texto que lemos, em cada música que escutamos, em cada filme que vemos, etc. (no caso de produtos nacionais) qual Brasil se manifesta e, sobretudo, se de fato há ali, resistindo, uma manifestação brasileira.&lt;br /&gt;Um exemplo é Lima Barreto, brasileiríssimo em tudo. E desse esforço de romper com uma dicção lusitana em nossa literatura (dicção que prevaleceu até o ocaso do século XIX) nasceu a Semana de Arte Moderna, um capítulo à parte na resistência contra uma versão em falsete da literatura portuguesa e/ou francesa, influentes de tal forma no Brasil de então, que os modernistas – e, antes deles, Lima Barreto – resolveram botar pra quebrar, partindo pra gíria, pros fatos históricos mais imediatos, sacudindo o verniz do discurso tradicionalmente acadêmico e misturando à sua fala a fala “inculta” do povo, com piadas em forma de versos, sintaxe às vezes estropiada, neologismos em número elevado como forma de resistir.&lt;br /&gt;Esse tipo de resistência tem um século, quem sabe mais. Ainda hoje resistimos, e tal esforço não é o sacrifício isolado de um país de Terceiro Mundo. Está aí a França, a esfregar no insidioso processo da inserção de palavras inglesas em seu dia-a-dia o equivalente no idioma francês para objetos, seres e situações.&lt;br /&gt;Desta forma, cabe a pergunta: quanto há de Brasil em nossa cultura?&lt;br /&gt;Muito, é a resposta. Muito se formos buscar o país certo na cultura certa. Há, inevitavelmente, incertezas no processo cultural, e nessas regiões de incerteza habitam obras, artistas, manifestações de fato postiças. Aí não encontramos Brasil algum. Ou, de alguma forma, encontramos um Brasil esquálido, subserviente.&lt;br /&gt;Que, com um pouco de otimismo, vira Brasil aos poucos.&lt;br /&gt;Do rock de garagem, colado no rock inglês ou norte-americano, passa-se a um roque que progressivamente adquire cor local. E que encontra seus temas no caos urbano REAL de nossas metrópoles.&lt;br /&gt;Da música sertaneja, há trinta anos tributária da música country e do faroeste hollywoodiano, passamos aos poucos a um auto-reconhecimento com a “infiltração” cada vez maior da cultura nativa da região Centro-Oeste.&lt;br /&gt;Apesar de tudo.&lt;br /&gt;Tudo.&lt;br /&gt;Porque o processo de assimilação de uma cultura alienígena foi fácil, sem defesa, propagado por uma política imperialista que pôs o país e seu povo a serviço do invasor (não há outra palavra para isso).&lt;br /&gt;Desta forma, encontrar PELA PRIMEIRA VEZ em quase 500 anos a cara do Brasil, o jeito do Brasil, seu falar e sua filosofia, seu viver e seu sentir, seu dizer e seu estar, seu ser, em suma, tem sido uma aventura muitas vezes paga com a vida, como é a trajetória de heróis culturais que viveram num isolamento típico de sacrificados.&lt;br /&gt;Guimarães Rosa, brasileiríssimo, só foi saudado como gênio, num primeiro momento, porque ninguém o entendia. Afinal, escrevia como que num dialeto – o dos vaqueiros do sertão das Gerais, linguagem à qual Rosa acrescia sua inventividade lingüística.&lt;br /&gt;Ao mesmo tempo, escritores como Valdomiro Santana, no norte, e Simões Lopes Neto, no sul, tinham que esperar quase um século para serem lidos e compreendidos. Valdomiro ainda não foi. E o gaúcho Simões Lopes Neto começou a ser reconhecido quarenta anos depois de sua morte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Diante da TV&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A perda da dimensão histórica é uma morte simbólica pior que muita morte real. Um genocídio, na verdade, que atinge um enorme contingente de espectadores diante de um artefato artístico (um filme, uma novela, uma música, um quadro, um livro). O que ocorre é que a obra de arte, comprometida com o meio no qual é veiculada (meio devedor do mercado, mercado soberano sem uma política cultural saudavelmente mediadora), essa obra de arte busca a facilidade e a superficialidade. Essa facilidade se traduz na pressa com que é produzida essa obra, e essa superficialidade se traduz na forma com que a obra não mergulha fundo na realidade do país onde está sendo produzida.&lt;br /&gt;Daí que diante de tal obra, como pode o fruidor potencial de tal “arte” reencontrar-se nela? Primeiro, porque ele estará ausente como personagem e como tema. Não sendo agente histórico (porque foi alienado dessa história, já que alienou-se dela e nela), fica à margem do que é discutido na obra. Aliás, não há discussão. A obra serve tão somente para requentar preocupações remotas de uma outra terra que governa a terra onde o espectador mora. No nosso caso, temas caros aos Estados Unidos, visão norte-americana de relacionamento com o mundo e com os povos, arte norte-americana, e arte de segunda categoria mesmo lá, é bom que se diga.&lt;br /&gt;O espectador não percebe que está sendo traído. Pior, que estão roubando-lhe o país diante dos próprios olhos. Pior: que o estão emudecendo, tirando-lhe a voz que seria igual à do vizinho, por exemplo, e os personagens que ele assiste não falam, nem como ele, nem como o vizinho. Falam como quem?&lt;br /&gt;Ora, como falam figuras convenientes à política exercida pelos países dominadores. Sem contestação, sem visão crítica, sem reconhecer minorias, sem reconhecer diferenças, sem admitir a enorme diversidade cultural entre os povos e até dentro de um mesmo povo, como é o caso do Brasil.&lt;br /&gt;País-continente, como ficou consagrado, porque sua extensão territorial e sua divisão em regiões lhe dá a característica plural de ter no mínimo umas cinco realidades bem específicas, especiais, autênticas, e merecedores do melhor registro, seja ele estético ou histórico. A realidade do litoral. A do pampa. A do sertão. A da floresta amazônica. A das metrópoles. Esta classificação é só uma possibilidade. Aí teríamos cinco culturas dentro de uma mesma cultura.&lt;br /&gt;Porém, há mais possibilidades. O que seria uma riqueza, e é. Mas o processo cultural, assimilacionista, abre mão dessa riqueza e a substitui pela pobreza do discurso hegemônimo do capital estrangeiro internacional, que aqui aporta e aqui discursa. Temos os ouvidos alugados.&lt;br /&gt;Outra possibilidade de classificação: a cultura do rico, da classe média e do miserável. Três culturas. Outra: a erudita e a de massas. Duas culturas. E certamente poderemos encontrar outras classificações, por etnias (embora seja um caminho perigoso, chegando ao racismo).&lt;br /&gt;A verdade é que irônica e perversamente há uma trilha na História que nos desviou do único rumo aceitável, o que nos leva ao coração de nós mesmos: um povo desigual, num país desigual, com florestas e mar, com algumas das maiores cidades do planeta e vilarejos perdidos no fim do mundo, e que pode e deve dialogar consigo, ou monologar, se for o caso. A realidade de São Paulo. A de Ouro Preto. A de Uruguaina. A de Fortaleza. A de Belém. Temos aí, por certo, cinco registros bem diversos. Cinco ilhas. Que ficaram isoladas no imenso arquipélago brasileiro, condenado a ouvir uma só voz, muitas vezes num outro idioma, enquanto tantas vozes murmuram tantas histórias vindas de tantas bocas que logo se calarão. De desesperança, se não for de fome. (06/08/2008)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7659575339957537112-2841803895418097113?l=bentancur.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bentancur.blogspot.com/feeds/2841803895418097113/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7659575339957537112&amp;postID=2841803895418097113' title='10 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/2841803895418097113'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/2841803895418097113'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bentancur.blogspot.com/2008/08/cultura-brasileira-e-culturas.html' title='CULTURA BRASILEIRA E CULTURAS BRASILEIRAS'/><author><name>BENTANCUR</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17397945706691195345</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp2.blogger.com/_296zOjIvu2c/R_F9H73wKyI/AAAAAAAAAAs/Mx_DoNV9suo/S220/Paulo5.jpg'/></author><thr:total>10</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7659575339957537112.post-4037809984508726169</id><published>2008-08-04T15:11:00.000-07:00</published><updated>2008-08-05T06:30:53.398-07:00</updated><title type='text'>SEM CHANCE</title><content type='html'>Tá, tá, tá. Viver? Viver assim tipo o cara acreditar que a vida é uma coisa tão grande e importante como a palavra e-xis-tên-cia? O pessoal leva fé, não é não? Pois vejo um aviso prévio nisso tudo. Que vida que nada. Isso é coisa pra (desculpe o mau jeito) trouxa. Trouxa que é – vá lá! – esperto. Mas dessa esperteza eu me canso, tenho um desânimo que só vendo. Vida? Sei o que é, nada que se possa chamar de importante. Sei, sei. Roupa boa, saldo no banco que não te dê vergonha de dizer na frente dos colegas. Pois é, e os colegas. Cada um tem o seu ritmo, dizem. E tu te fodes enquanto eles se arrastam, saem para fumar no corredor, bebericar café de duas em duas horas, ir no banheiro, mijar ou retocar a maquiagem, sei lá quantas vezes. Vida é pra idiota, que se alegra com bobagem; pra louco, que é louco mesmo e enxerga o que quer ver; pra filho-da-puta, que só vai chorar pela mãe quando ela estiver morta. E, cá pra nós, não será por ela, será por ele. E ele não vai perceber que chorar por ele será por ela. Enfim, complicado demais pra essa gente demasiadamente ocupada em escalar a montanha social, alta. Como é alta, meu Deus do céu, aqui debaixo eu vejo. Vida é isso. Nada. Ou uma bosta que aparenta muito. O que é pior que nada, porque além do oco de sentido da coisa tem a pretensão de ser mais do que é. E eu não quero nada com a vida, entende? Não entende? Como não entender que alguém não queira nada com a vida? Não falo daquela, nos livros de ciências naturais, de zoologia, de botânica, de física, de astronomia. Falo da vida que arranjaram agora pra todo mundo consumir, a vida dos shoppings, das sextas e sábados à noite das baladas, dos domingos à tarde em estádio de futebol, dos churrascos de fim de semana apertando família que mente que é unida quando o que os une é uma cadeia de dívidas, favores em troca de outros piores, mais caros, um elo venenoso, criança sendo respondida com indiferença, impaciência ou com a alegria bestial dos que subestimam a imaginação infantil. Vida. Sei. Ouço sobre isso desde que nasci. Passei dos cinqüenta. Tenho tido que aturar essa merda de papo sobre a crise da meia-idade. Se fosse verdade, eu já tinha crise aos quinze. E tinha. Quem não tem, sendo capaz de ver ao menos um palmo além do nariz? Levei umas três décadas para descobrir isso: um homem é só uma máquina de enganar imbecis, inclusive a si próprio, produzindo risada e excreções fácil, fácil, ou uma máquina fria de subir ao pódio dos resultados que, afinal, são o que conta para falarem do sujeito enquanto ele respira e anda pelas ruas. Anda pelas ruas? Nananinanão. Rua está proibido. Viu o Rio de Janeiro? Viu São Paulo? Rua é para Catuípe, Veranópolis, Não-Me-Toque. Rua de fato é aquela que tem calçamento limpo, sem obstáculos, e árvores e gente passando e se cumprimentando sem pressa em perímetros urbanos de no máximo 30.000 habitantes. Mais que isso vira praça de guerra. Ou já vai virar, espera o próximo noticiário. Vida é pra fazer da mulher um poço de esperança com uma figura mitológica falecida, o Amor, esperança lançada na direção de um sacripanta, o homem cada vez mais infantilizado. Vida é pro homem virar no que é, um felino competitivo ou um relaxado cagando e andando para tudo, menos para ele mesmo, e isso quando no fundo ele não está, de fato, se lixando para absolutamente tudo, ele incluído. É caso para desistir? É claro que sim. Mas aí passaram os anos; há filhos na roda, sobretudo filhos; tem ex-mulher querendo te pôr na cadeia; tem ex-mulher querendo te pôr de novo na cama; tem ex-mulher, e pior que ex é sempre a atual, que custa mais caro, mais do que podes pagar. Vida, vida mesmo, era uma facada de prata do sol na água do açude quando se tinha sete anos. O açude hoje é um areião brabo de onde não se tira nada. O sol, com o furo da camada de ozônio, tá nos matando, que nem a bomba de Hiroxima, só que bem devagarinho. A lua virou piada desde 1969 quando os americanos foram lá e enfiaram uma bandeira listrada no cu daquelas rochas e ficaram dando pulinhos na nossa cara. Vida. Sei. (04/08/2008)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7659575339957537112-4037809984508726169?l=bentancur.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bentancur.blogspot.com/feeds/4037809984508726169/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7659575339957537112&amp;postID=4037809984508726169' title='8 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/4037809984508726169'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/4037809984508726169'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bentancur.blogspot.com/2008/08/sem-chance.html' title='SEM CHANCE'/><author><name>BENTANCUR</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17397945706691195345</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp2.blogger.com/_296zOjIvu2c/R_F9H73wKyI/AAAAAAAAAAs/Mx_DoNV9suo/S220/Paulo5.jpg'/></author><thr:total>8</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7659575339957537112.post-2707799738835639091</id><published>2008-07-31T22:59:00.000-07:00</published><updated>2008-07-31T23:00:15.051-07:00</updated><title type='text'>AMIGA E (QUASE) AMANTE</title><content type='html'>A melhor amiga de uma garota de programa deve mesmo ser uma garota de programa. Mesmos problemas, mesmas dúvidas, mesma amargura. Ombro amigo. Do ombro pode-se descer para o colo e do colo quem sabe subir até a boca e ali transformar uma amizade compreensível – até inevitável – num amor, com sexo e tudo. A tese existe, e há casos a ilustrá-la, mas na prática eles parecem ser minoria.&lt;br /&gt;Para o senhor P. H. F., 75 anos bem vividos, “sexo é mercadoria, no caso delas”, e a decepção com os homens não resume a decepção que têm com a vida como um todo. Não amam, ou amarão com tanta dificuldade que, se isso acontecer, será por caminho mais fácil: outro homem. Além do que, a maioria não tem cultura, e são presas fáceis do preconceito, o que leva à conclusão de que homossexualismo ali não se cria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há vinte anos na noite, atualmente numa das principais boates de Porto Alegre, uma mulher que se nega até mesmo a dar suas iniciais afirma que das cerca de 40 garotas da casa, três ou quatro, no máximo, já trocaram carícias. “Não dá 10%, e se der, não é coisa séria. É semelhante a masturbação para os homem.” Uma mulher com a outra corresponderia muito mais a um homem solitário se satisfazendo do que a uma postura lésbica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O hábito sexual, bem acentuado na comparação com uma mulher comum, faz desse tipo de profissional uma pessoa inquieta, viciada, que transa todos os dias, várias vezes, mesmo sem prazer. Nos momentos de solidão, ou simplesmente de ausência de programas, uma, eventualmente, toca a outra, gesto que permite algumas interpretações, todas elas com boa dose de probabilidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por exemplo: a típica combinação (fantasia masculina recorrente) de duas mulheres para um homem. Geralmente são amigas, que confiam uma na outra, e vão para a cama onde, a pedido do cliente, transam entre si. O hábito, se não faz a monja, faz a pitonisa. E mesmo quando o homem penetra uma delas, a outra geralmente é convidada para um papel coadjuvante: dar carinho para a colega enquanto ele dá aquilo no qual acha que se resume um homem. Tendo desempenhado esse papel de lesbianismo performático tantas vezes, as amigas ultrapassam o limite de qualquer hesitação, e dispõem do corpo da outra na hora de um mínimo estímulo. Basta não ter homem por perto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outra explicação interessante citada por um assíduo freqüentador de casas noturnas, R. P., 40 anos. A mulher sabe muito bem os pontos sexuais de seu corpo e, desta forma, tocando a parceira, propicia-lhe o prazer mais rápido do que os homens, em regra clientes apressados ou egoístas. E mesmo que elas cheguem a essa prática “homossexual”, não acabam estabelecendo um vínculo amoroso, no mínimo por não se sentirem à vontade num cenário onde todas as colegas, se não acreditam mais no amor romântico entre homem e mulher, ainda assim acham mais excitante o sexo oposto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para o caso hipotético de lesbianismo, há que se considerar que em regra, nessas situações, uma das parceiras costuma assumir uma postura ativa, com um perfil um tanto masculinizado, o que inviabilizaria seu negócio na noite. O mercado erótico vive da produção quase caricata de fêmeas estonteantes que vestem uma personagem na qual, se não acreditam totalmente, ao menos se esforçam em sustentá-la, com seus hábitos, charme (mesmo postiço) e desejo (mesmo encenado).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Solitárias, exploradas sem piedade ou levadas a se auto-explorarem, acabam solidárias entre si e, quando não há disputa acirrada – ou por um homem, ou por um cliente mais lucrativo –, e até chegam à amizade estreita, amizade passível de intimidades. Mas os abusos na alcova que essa amizade permite são apenas a distração de um desamparo momentâneo, um joguinho inocente de quem já perdeu quase toda a vergonha. Quase. O nome civil ainda é protegido, e algumas nem mesmo as iniciais consentem em dar. A não ser para as amigas, com quem não têm segredos. Não os do próprio corpo, familiar com tudo o que a família tem de assimilável. E de reservas. (02/08/2008)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7659575339957537112-2707799738835639091?l=bentancur.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bentancur.blogspot.com/feeds/2707799738835639091/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7659575339957537112&amp;postID=2707799738835639091' title='7 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/2707799738835639091'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/2707799738835639091'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bentancur.blogspot.com/2008/07/amiga-e-quase-amante.html' title='AMIGA E (QUASE) AMANTE'/><author><name>BENTANCUR</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17397945706691195345</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp2.blogger.com/_296zOjIvu2c/R_F9H73wKyI/AAAAAAAAAAs/Mx_DoNV9suo/S220/Paulo5.jpg'/></author><thr:total>7</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7659575339957537112.post-5926521058055418098</id><published>2008-07-31T22:36:00.000-07:00</published><updated>2008-07-31T22:38:16.073-07:00</updated><title type='text'>PAULO HECKER FILHO OU A ÉTICA DO NÃO</title><content type='html'>Tímido, escolhi a palavra escrita, cravada numa folha em branco ou numa tela de computador, para poder ir além do que a palavra, pronunciada pela voz – muitas vezes gaguejante, quando não inaudível –, poderia ir. As idéias sofriam o esmagamento que a pronúncia também sofria.&lt;br /&gt;A razão principal dessa timidez era uma ofensa moral diante de um mundo que legitimava um diluído cinismo a dizer sim aos horrores – estéticos, comportamentais. Escrevendo, só o papel me inibia, e essa inibição se revelava menor que o desejo de imprimir numa página beleza verbal e alguma denúncia que faria um bem enorme à minha frustrada carreira de testemunha muda de tanta hipocrisia criminosa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi aí, em 1974, eu com 17 anos, ele com 41, que conheci Paulo Hecker Filho, um crítico literário daqueles que não hesitaria em dizer que Jorge Amado é de segunda, quando não de terceira categoria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hecker tinha amigos como poucos têm, amigos que sabiam o quanto ele era confiável exatamente por ter a coragem de vaiar quando o comodismo da maioria levava ao impulso do aplauso fácil. Amigos que com ele tinham um espelho onde pudéssemos praticar o “não” como legítima expressão da verdade, contra o “sim” preguiçoso ou interesseiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vi-o, a princípio como um guru, depois como um amigo de quem também aprendi a discordar (nada mais lógico num homem que conviveu tão bem com a discordância). Não conheci ninguém mais livre nem mais boicotado, intencionalmente “esquecido” num reduto cultural que, como em toda área, reage segundo o que lhe interessa sustentar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Infelizmente perdi esse amigo, essa referência, essa literatura chamada Paulo Hecker Filho. Morreu a 12 de dezembro de 2006, com 80 anos de idade, em seu apartamento no bairro Cidade Baixa, em Porto Alegre. Eu estava morando no Rio de Janeiro e não chegaria a tempo do sepultamento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais que a escrever, aprendi com ele a ser honesto sem ser suicida e a ser generoso sem ser bajulador. Devo-lhe inclusive a independência de não lhe ser epígono e de nem ter seu retrato na parede. O que não combinaria com semelhante mestre. (01/08/2008)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7659575339957537112-5926521058055418098?l=bentancur.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bentancur.blogspot.com/feeds/5926521058055418098/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7659575339957537112&amp;postID=5926521058055418098' title='8 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/5926521058055418098'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/5926521058055418098'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bentancur.blogspot.com/2008/07/paulo-hecker-filho-ou-tica-do-no.html' title='PAULO HECKER FILHO OU A ÉTICA DO NÃO'/><author><name>BENTANCUR</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17397945706691195345</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp2.blogger.com/_296zOjIvu2c/R_F9H73wKyI/AAAAAAAAAAs/Mx_DoNV9suo/S220/Paulo5.jpg'/></author><thr:total>8</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7659575339957537112.post-728998289849297772</id><published>2008-07-30T20:56:00.000-07:00</published><updated>2008-07-30T21:21:50.757-07:00</updated><title type='text'>ÁGUA, ARTE E ALTAR (VERTENTE DE IDÉIAS E FORMAS)</title><content type='html'>&lt;div align="left"&gt;&lt;br /&gt;O livro mais popular de todos os tempos, a &lt;em&gt;Bíblia&lt;/em&gt;, já em sua primeira seção, o "Gênesis”, diz: “O espírito de Deus vagava sobre as águas”. Ainda não havia luz, só trevas. Nem calor, nem vida, nem emoção. A terra, “sem forma e vazia”, certamente possuía um só elemento que se movimentava: a água. Céus e terra haviam sido criados, como dois extremos, limites, e entre eles a história da vida ainda estava por começar. Nada se movia, além do sopro divino. Nada, exceto as águas.&lt;br /&gt;Só faltava a luz, e ela foi feita em seguida. A partir dali a água virou espelho, sobretudo dos céus. Talvez uma espécie de espelho do Criador, testemunha nem sempre muda dos fatos – e mais tarde da filosofia – que transitam entre o infinito espaço celestial e a superfície terrestre. “Quando o espírito pôde concluir-se / o mar rompeu feroz dominador / e a terra oblíqua ao mar eclipsou-se”, canta o milagre da criação o poeta maranhense Raimundo Fontenele.&lt;br /&gt;Essa voz – a da poesia – não é por acaso. Água e verso sempre se entenderam. Um dos quatro elementos básicos do planeta, a água propicia, com seu ritmo dissoluto, as oscilações próprias de um gênero que busca incessantemente reinaugurar o universo. Um gênero que, a exemplo da literatura fantástica, busca o estranhamento. Estranhamento anotado por Davi Arrigucci Jr. em seu ensaio sobre Cortázar: “é preciso desautomatizar a linguagem. Se ela se automatiza, congela-se na expressão do aparente. (...) É necessário desmascarar a aparência e sua expressão quitinosa, a fim de se reproduzir a visão intersticial do mundo. Desautomatizar a linguagem, desautomatizando a percepção do mundo, é o único meio de se conseguir o efeito de estranhamento sobre o leitor”.&lt;br /&gt;Campanha árdua, essa, de uma espécie de despoluição da atmosfera ficcional onde a realidade da ficção e suas formas correm o risco da asfixia e do aprisionamento. Ao necessário estranhamento corresponde com certeza essa água surpreendente, acariciante, de temperaturas úmidas e maternais. O poeta serve-se da água para não tropeçar na terra áspera e apressada.&lt;br /&gt;Talvez só o fogo, entre os demais elementos, dispute com a água o privilégio da convivência com os poetas.&lt;br /&gt;Mas se o fogo é mais mortal, a água é mais fértil.&lt;br /&gt;Fértil e purificadora. Fértil porque dá à luz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A luz que vem das águas&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O pintor inglês Joseph Turner, precursor do Impressionismo, embora eventualmente melodramático e romântico, pintava óleos onde a luz explodia numa nebulosa procissão de cores claras, sombras tênues, água e vegetação amarelada. O seu é um mundo líquido e incendiado. Inspirou-se sobretudo nas marinhas dos mestres holandeses. Chuva, vapor e velocidade captam a densidade quase irrespirável de uma atmosfera úmida a envolver um mundo em transformação. Turner, não por acaso, foi convidado a realizar uma série de 16 gravuras veiculadas em livro: &lt;em&gt;Os rios da Inglaterra&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;O Impressionismo é, na história da pintura, quem sabe a escola que melhor utilizou a água como tema. “O Sena em Vétheuil”, ou “Efeito de sol depois da chuva”, de Monet, é um instante único. A terra limpa e o céu claro contrastam com o leito cheio e a corrente agitada do rio. A água dá o ritmo, corre, é mais forte que tudo.&lt;br /&gt;Monet, aliás, é o nome principal quando se trata de água. Foi um quadro seu que batizou o movimento impressionista, escola que desmancha os contornos, acende todas as luzes (incluindo-se reflexos na água). O fato de ter sido influenciado por Turner não surpreende.&lt;br /&gt;Na mesma época Renoir compõe “La Grenouillère”, onde se vê “os reflexos das figuras e objetos dentro da água, a vibração das luzes – um momento fugaz de felicidade captada em momentânea impressão subjetiva do autor”. Em “Barcos a vela em Argenteuil” a “conjugação de pontos luminosos e coloridos” pousa na superfície iridescente da água.&lt;br /&gt;Nas artes plásticas só a pintura parece possuir os recursos necessários para fazer de rios, mar e chuva (a lágrima está sem função estética) motivos e justificativa de uma obra.&lt;br /&gt;Na literatura o uso da água é mais freqüente, mais nas formas de rio e mar, emblemáticos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O rio da vida: tempo e caminho&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Longfellow tem um poema clássico, presente em qualquer antologia que se preze da poesia universal. “O rio da vida” põe poeta e rio frente a frente, e ante a pergunta do primeiro acerca das ações e motivos do segundo, este responde: “sou a onda do rio da vida, / Que me volvo, do pó denegrida / Que das margens constantes me cai. // Rujo estreita na estreita corrente, / E fugindo apressada, fremente, / Vou buscando a amplidão desse mar. // Onde acabam-se as ribas que odeio, / E do limo do tempo meu seio / Possa – puro – bater e brilhar.” Neste caso, mais do que de água, trata-se do tempo e da maturidade. Maturidade que só vem depois de um lento processo de purificação.&lt;br /&gt;O tempo é o mesmo de Heráclito, que antes de todos serviu-se do rio e do fluxo da água para cantar o infinito correr do tempo e sua corrente transformadora. Jorge Luis Borges lembra: “Que rio é este cuja fonte é inconcebível? / Que rio é este / que arrasta mitologias e espadas? / É inútil que durma. / Corre no sono, no deserto, num porão. / O rio me arrebata e sou esse rio.”&lt;br /&gt;Nada líquido, como se vê; longe de constituir-se em qualquer acidente geográfico, incapaz de obedecer a alguma bacia hidrográfica. É de Cronos, de sua intangível caminhada, que se fala. O rio serve de veículo, como todo veículo contém o tempo. Mas o ar, por exemplo, parece paralisar o instante que passa. E o fogo, constrangê-lo. Só terra e água o acompanham. A terra, mais passiva; a água, mais imaginosa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O Pai das Águas, o Mississípi, o rio mais longo do mundo (...) é rio de peito largo – um vasto e escuro irmão do Paraná, do Uruguai, do Amazonas e do Orinoco. É um rio de águas escuras: mais de quatrocentos milhões de toneladas de lama sujam anualmente o Golfo do México, lançadas por ele. Tanto lixo antigo e venerável construiu um delta em que gigantescos ciprestes dos pântanos crescem dos resíduos de um continente em dissolução perpétua e no qual labirintos de barro, de peixes mortos e de juncos alongam as fronteiras e a paz de seu fétido império.” Eis o lugar onde transcorre “O estranho redentor Lazarus Morell”, conto que abre &lt;em&gt;História universal da infâmia&lt;/em&gt;, do já citado Borges. O Mississípi, um século antes, foi igualmente palco das aventuras de &lt;em&gt;Huckleberry Finn&lt;/em&gt;, de Mark Twain.&lt;br /&gt;Durante quatro anos, Twain foi piloto dos barcos que sulcavam esse rio. Tomou contato direto com todas as cidades à margem. Em sua obra-prima, o Mississípi desempenha um papel fundamental, mais do que cenário, incorporado à ação ao ponto de virar não um coadjuvante, mas personagem principal. O romance põe em cena dois adolescentes, o enjeitado Huck e o negro escravo Jim, em fuga através de uma jangada que desce as águas sempre surpreendentes do leito ininterrupto do rio. Desamparo e fuga, busca de afeto e remissão são conduzidos com mão de mestre e a estrada é uma só: o Mississípi e suas promessas e ameaças.&lt;br /&gt;Pascal observa bem: “os rios são estradas que caminham”. Parecem, desta forma, independentes do homem para serem trilhados. Os pés humanos pisam e violentam a terra, que os aceita quase indiferente. A água, entretanto, os acolhe – é diferente. O explorador a ausculta como a um coração: já se disse, aliás, que os rios são veias da terra, e a água sangue da terra.&lt;br /&gt;É desse sangue que se embebeda toda a literatura. É desse caminho que se servem os mais valentes. É nesse tempo que os navegadores se espelham para encarar a face dos descobrimentos.&lt;br /&gt;Camões, n’&lt;em&gt;Os&lt;/em&gt; &lt;em&gt;lusíadas&lt;/em&gt;, canta com fôlego único essa aventura portuguesa que tornou o mundo maior e o renovou. Herman Melville, em &lt;em&gt;Moby Dick&lt;/em&gt;, narra a fúria de uma natureza tão suprema que parece encarnar o poder divino. E uma fera monstruosa – a baleia branca Moby Dick – surge como símbolo inequívoco dos desafios que o mar enquanto metáfora de um universo a ser desvendado propõe ao homem.&lt;br /&gt;Nesse perfil cabem &lt;em&gt;Os trabalhadores do mar&lt;/em&gt;, de Victor Hugo, e algumas novelas de Joseph Conrad, um ex-marinheiro polonês que aprendeu inglês depois dos 30 anos e virou um virtuose da língua de Shakespeare.&lt;br /&gt;Outra rota seguem &lt;em&gt;O cemitério marinho&lt;/em&gt;, de Paul Valéry, ou, segundo Sônia Brayner, o vigor plástico e visual de &lt;em&gt;A&lt;/em&gt; &lt;em&gt;Cachoeira de Paulo Afonso&lt;/em&gt;, de Castro Alves.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Ritmo e medo, cenário e testemunha&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fonte suprema e primeira, a água arrasta atrás de si todos as realizações. Quem sabe o desejo pertença ao fogo, mas é à água que cabe o ato e o desfecho. Se o fogo deflagra, só a água encontra o gozo – que uma vez extinto ao fogo retorna.&lt;br /&gt;Água, para a filologia, significa: embriaguez, bebedeira; coisa fácil, facilidade; o líquido que se desprende quando rompe a bolsa amniótica, libertando a vida enfim chegada ao mundo; influência; rastro; nascentes; tesouro; chuva; designação genérica a acidentes geográficos como lagoas, rios, mares etc.; a urina; o suor. Multiplicam-se os sentidos e os nomes da água, e ela é cada vez mais mais coisas.&lt;br /&gt;Não seria a literatura, tão faminta por sentidos e, principalmente, combinações, que deixaria de evocá-la na hora ameaçadora e seca dos exíguos prazos da criação. Socorrem-se os escritores nessa fonte, como Luís Augusto Fischer no conto “Acerca do método de narrar”, que abre seu livro &lt;em&gt;O edifício do lado da sombra&lt;/em&gt;: “a sucessão de palavras que iam compondo o relato podia ser comparada ao fluxo de um rio em vias de afunilar-se numa curva, porque a água de sua narrativa adensava-se, escurecia e ganhava velocidade justamente para vencer o torneio caprichoso da natureza do conto em curso. E ninguém ficava livre de encontrar aqui e ali um redemoinho, superficialmente pequeno, talvez, mas cruelmente turbulento nas entranhas , por menor que fosse a pedra ou o galho que lhe tivesse dado origem”.&lt;br /&gt;Conduto preferencial de uma sintaxe amorosa com a língua, a água – travestida não importa como: lágrima, chuva, mar –, vê seus hinos de reconhecimento, gratidão, ameaça ou temor compostos um atrás do outro.&lt;br /&gt;Paulo Bonfim: “A loucura dos mares / invadiu os homens. / Hoje possuímos a voz das ondas, / e nossos gestos / rolam pela tarde...”&lt;br /&gt;Carmen Sylva: “Deus, nos mares, deu ao homem uma soberana caudal de vida e de sustento!”&lt;br /&gt;J. Camba: “O mar – tal qual o vemos – não é nem muito mais bonito nem muito maior que o tanque do Retiro. Água, água salgada que não presta para ser bebida, eis o que é o mar. Já é tempo de dizer a verdade a esse monstro tão orgulhoso. O mar é um prestígio falso.”&lt;br /&gt;Gonçalves Dias: “Oceano terrível, mar imenso / de vagas procelosas que se enrolam, / floridas rebentando em branca espuma / num pólo e noutro pólo, / enfim... enfim te vejo; enfim meus olhos / na indômita cerviz trêmulos cravo, / e esse rugido teu, sanhudo e forte, / enfim medroso escuto!”&lt;br /&gt;A tais nomes, hoje fora de moda, acrescente-se, num esforço não de atualização mas de justiça poética, o João Cabral de Melo Neto de “O mar e o canavial” (“O que o mar sim aprende do canavial: / a elocução horizontal de seu verso; / a geórgica de cordel, ininterrupta, / narrada em voz e silêncio paralelos.” [...] “O que o canavial sim aprende do mar: / o avançar em linha rasteira da onda; / o espraiar-se minucioso, de líquido, / alargando cova a cova onde se alonga”).&lt;br /&gt;Cabral, aliás, é reconhecido como dono de um verso duro, seco, mineral, rochoso. Nem por isso, acertadamente, resistiu ao Rio Capibaribe, descrevendo-lhe a viagem que faz da nascente a Recife e sua natureza humana de rio: “Sou viajante calado, / para ouvir histórias bom, / a quem podeis falar / sem que eu tente me interpor; / junto de quem podeis / pensar alto, falar só. / Sempre em qualquer viagem / o rio é o companheiro melhor”.&lt;br /&gt;Acrescente-se também o indispensável Fernando Pessoa, de “Mar português” (“Ó mar salgado, quanto do teu sal / São lágrimas de Portugal!” [...] “Deus ao mar o perigo e o abismo deu, / Mas nele é que espelhou o céu”).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Convém trazer aqui um acerto de Sêneca: “As grandes dores não têm lágrimas”. É certo, mas que bom que tivessem! Afinal, Lamartine declara, mais acertadamente ainda, que “depois do sangue o mais que o homem pode dar de seu é uma lágrima”.&lt;br /&gt;A dor, portanto, experiência humana lamentavelmente de maior freqüência, historicamente abandona-se à chuva, banha-se em lágrimas, afoga-se no rio, sucumbe ao pânico do mar. A água nos abraça, nos conforta, nos lava do duro resíduo das perdas, e quando nada pode fazer, serve de mortalha digna, dando-nos de alimento aos peixes, jamais aos vermes, como a terra madrasta costuma fazer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E se a dor busca atenta, ainda que perturbada, seu cenário ideal, dependendo dele – de sua grandeza e generosidade – emoções mais prazerosas brotam e mergulham a infelicidade em águas remotas. É o que se vê no mar de Copacabana, nas crônicas embevecidas e límpidas de Rubem Braga.&lt;br /&gt;Freqüentador do mesmo mar, Carlos Drummond de Andrade, menos “épico”, preferiu outra água corrente no poema “Sob o chuveiro amar”: “Sob o chuveiro amar, sabão e beijos, / ou na banheira amar, de água vestidos, / amor escorregante, foge, prende-se, / torna a fugir, água nos olhos, bocas, / dança, navegação, mergulho, chuva, / essa espuma nos ventres, a brancura / triangular do sexo – é água, esperma, / é amor se esvaindo, ou nos tornamos fonte?”&lt;br /&gt;Já Vicente de Carvalho, de uma intimidade, digamos, mais ecológica, chama ao mar como testemunha e parceiro num canto que se abre para a vida. Aí o poeta soma sua solidão e seu verso sem destinatário ao mar com suas ondas e murmúrios sós e sem destinatário. “Condenado e insubmisso / Como tu mesmo, eu sou como tu mesmo / Uma alma sobre a qual o céu resplende / – longínquo céu – de um esplendor distante. / Debalde, ó mar que em ondas te arrepelas, / Meu tumultuoso coração revolto / Levanta para o céu, como borrifos, / Toda a poeira de ouro dos meus sonhos.” (...) “Ninguém entenda, embora, / Esse vago clamor, marulho ou versos, / Que sai da tua solidão nas praias, / Que sai da minha solidão na vida... / Que importa? Vibre no ar, acorde os ecos / E embale-nos a nós que o murmuramos... / Versos, marulho! amargos confidentes / Do mesmo sonho que sonhamos ambos!” Beba o leitor destes excertos de “Palavras ao mar”, que fez de Vicente de Carvalho um nome sempre lembrado quando o tema é esse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O mar, de antigo templo da curiosidade e do temor humanos, transformou-se em irmão. O vaivém vigoroso de suas ondas, o movimento poderoso de suas ações, o infinito caleidoscópio do sol na superfície agitada, seus habitantes tímidos, submersos, seu tamanho espantoso e irônico de gigante indestrutível porém fragilizado pela insensatez dos outros, o aproximam da precária condição do homem que não tem com quem compartilhar sua voz. O canto do mar é para si mesmo, resignado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O canto que chega à praia&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando não vem das ondas esse canto, elas o causam. O Brasil, país essencialmente musical, banhado por um oceano e com um clima quente que empurra seu povo ao encontro de águas refrescantes, possui uma música popular que se sobressai entre as melhores do terço de terra (já que dois terços são mesmo de água) que formam o planeta.&lt;br /&gt;A família Caymmi, baiana, produziu peças irresistíveis sobre águas que nos banham, nos alimentam e nos educam. Dorival, o pai, é uma autêntica instituição nacional, compondo e interpretando canções de melodia simples e letras diretas, porém extremamente poéticas, acerca do mar e da vida dos pescadores. “O mar” e “É doce morrer no mar” são peças obrigatórias em qualquer discoteca exigente. Seu filho Dori Caymmi segue também nessas águas, só que mais doces que as do pai.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O rio&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Na ribeira deste rio&lt;br /&gt;ou na ribeira daquele&lt;br /&gt;passam meus dias a fio&lt;br /&gt;nada me impede ou me impele&lt;br /&gt;ele passa e eu confio&lt;br /&gt;ele passa e eu confio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vou vendo o que o rio faz&lt;br /&gt;quando o rio não faz nada&lt;br /&gt;as curvas que ele dá&lt;br /&gt;como eu atrás da amada&lt;br /&gt;ele passa e eu confio&lt;br /&gt;ele passa e eu confio.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;br /&gt;Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim, o Tom Jobim, é o mais internacional de nossos compositores populares. De suas peças mais felizes, sem dúvida um lugar de primazia cabe a “Águas de março”. Quem não conhece o refrão “são as águas de março / fechando o verão, / é promessa de vida / no teu coração”?&lt;br /&gt;Assolados por um Nordeste onde a seca arrasta seu espectro 350 dias ao ano, por um calor úmido e sufocante na floresta tropical na Amazônia, e por uma temperatura que praticamente nunca baixa dos 25º nas demais regiões do país, é inevitável que busquemos, brasileiros, a proximidade de uma margem, o frescor de um açude, o impacto restaurador da brisa marinha, o cenário propício às águas, quais sejam.&lt;br /&gt;Nossa música não podia cantar outra coisa. Temos carnaval, futebol e sede, muita sede. É o país do cafezinho, da cachaça e da cerveja. Mais desta do que daquela. A cerveja aplaca um calor cotidiano que coroa a febre dos corpos e das almas.&lt;br /&gt;Chico Buarque, em “Morena dos olhos dágua”: “Morena dos olhos dágua / tire os seus olhos do mar. / Vem ver que a vida ainda vale / o sorriso que eu tenho pra lhe dar.” (...) “Descansa em meu pobre peito / que jamais enfrenta o mar. / Mas as ondas não têm hora, morena, / de partir ou de voltar”. Letrista que flerta constantemente com as fronteiras do poema mesmo, Chico publicou um deles na revista &lt;em&gt;Realidade&lt;/em&gt; em dezembro de 1968. Ei-lo: &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O que é o mar&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esse mar perturbado&lt;br /&gt;Esse mar insistente&lt;br /&gt;Batendo nas costas&lt;br /&gt;Da terra, da gente&lt;br /&gt;Não sei se é carícia&lt;br /&gt;Ou provocação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esse mar, não sei não...&lt;br /&gt;Às vezes parece&lt;br /&gt;Um pequeno vestígio&lt;br /&gt;A primeira lição&lt;br /&gt;O mais próximo indício&lt;br /&gt;De revolução.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No entanto, olhem para mim:&lt;br /&gt;Criado na turbulência do mar&lt;br /&gt;Incerto, pouco lhe herdei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ajeitei-me como os peixes,&lt;br /&gt;Que acham ótimo ser peixe&lt;br /&gt;E já não cismam de&lt;br /&gt;subir pelas paredes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Atirei-me no mar,&lt;br /&gt;aliás, fogueira.&lt;br /&gt;Agitei a camisa,&lt;br /&gt;aliás, bandeira,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E senti que a partida,&lt;br /&gt;enfim, a vida,&lt;br /&gt;estava ganha.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;br /&gt;A história da música erudita nos dá títulos inequívocos onde leitos de água provocam a imaginação e o coração: “No belo Danúbio azul”, de Johann Straus Jr., “O Lago dos cisnes”, de Tchaikovsky, são, entre os clássicos, os mais lembrados. Para não ficar no óbvio: Vivaldi e o “Concerto para flauta n° 1” , “A tempestade do mar” , em que o italiano faz o imprevisível – usa a flauta não para o idílico, mas para o violento; e “Música aquática” , de Haendel – composta para um barão que desejava singrar as águas do Tâmisa enquanto ouvia música.&lt;br /&gt;Dos musicais dos anos dourados de Hollywood, “Cantando na chuva” , de Gene Kelly, certamente é aquele que realiza à perfeição o espírito romântico – sempre emergindo – de brincar na chuva com inocência infantil, liberdade poética e euforia apaixonada.&lt;br /&gt;A chuva: água vinda do céu, água divina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A água como fogo e como purificação&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com o Dilúvio Deus lança mão das águas de uma chuva ininterrupta 40 dias e 40 noites com a destruidora força do fogo, inundando a Terra e acabando com os pecadores. Já para lavar os pecados do mundo, bem mais tarde, a religião católica nos oferta a água na pia batismal: água benta que purifica o bebê nascido em pecado. O batismo é o ritual iniciático da convivência do homem com Deus. É o primeiro contato: a criança é acolhida pelo Criador. A água é o elemento desse encontro.&lt;br /&gt;O lava-pés na Quinta-feira Santa é outro cerimonial do catolicismo a utilizar-se da água. O sacerdote que celebra a cerimônia lava os pés de doze pessoas escolhidas em sua paróquia. Trata-se de lembrar Cristo, na Última Ceia, junto com os doze apóstolos. Como não os encontraria mais, decidiu-se a lavar-lhes os pés num ato de singela humildade e dedicação.&lt;br /&gt;Para o taoísmo, escoltado na figura do filósofo Lao-tsé, “nada há mais suave e frágil do que a água, e no entanto, nada é tão eficaz para atacar as coisas duras e fortes.”&lt;br /&gt;No sagrado Ganges, na Índia, os banhos são prática ritualística das multidões de peregrinos que o induísmo vomita nas águas rasas e preguiçosas do rio.&lt;br /&gt;No candomblé, Iemanjá é um orixá feminino das águas, em especial do mar. Seu culto é enorme no Brasil, e ela atende por muitos nomes: Janaína, Princesa de Auicã, Princesa do Aiocá, Sereia do Mar, Rainha do Mar, Senhora das Águas. Sua imagem – geralmente uma senhora com vestes brancas e seios enormes – representa a gestação, a procriação, e dizem-na mãe de todos os orixás, entre os quais Xangô, Iansã e Oxóssi. O sentimento maternal, a afabilidade, a doçura, o apego à hierarquia, a retidão e alguma rigidez, a responsabilidade, a determinação e a força compõem seu caráter ligado sempre à água.&lt;br /&gt;Elemento vital para a ponte entre os seres, e entre estes e os deuses, a água configura, primeiro, a passagem; segundo, a transcendência; terceiro, o encontro; por último, a comunhão.&lt;br /&gt;Revela-se caminho iniciático, veículo e condução de uma alma afim. Em sua transparência, oferece a sublimação pelo que possui de superior, elevando através de um convívio que encaminha para a purificação. Ao propiciar o encontro, banha-nos de reconhecimento, habitantes de um reino singular. Atingida a plena comunicação, comungamos, criaturas e Criador, santificados pela imersão redentora.&lt;br /&gt;A água, enfim, sopra sobre a face de todos. E nos dá uma voz universal.&lt;br /&gt;A voz que as religiões procuram.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Universais também são as intenções suspeitas da humanidade, capaz de servir-se da água às vezes mais como arma do que bálsamo. Como há séculos se sabe, o homem, perigosamente, é capaz de transformar coisas: bastou que acrescentasse à água cor, sabor, espessura, textura, e transmutou-a em vinho, perfume, tinta, veneno.&lt;br /&gt;Criou-se o perfume para a arte da sedução, da paixão, do encantamento. É água inebriante a escrever importante capítulo da história das vaidades.&lt;br /&gt;Quanto à tinta, é sagrada na América desde o tempo dos incas. Entre incas, maias e astecas a pintura (a água em cores, ou a cores) foi vestuário e anúncio de guerra.&lt;br /&gt;Veneno, como coisa que mata, é água em estados alucinatórios: álcool, absinto, chás alucinógenos etc.&lt;br /&gt;Vinho – com a palavra, Omar Khayyãm, poeta, matemático e cientista persa admirado por gente como Borges: “Só o vinho / te libertará de / cuidados, só ele te impedirá / de ficar hesitante entre / as setenta e duas seitas. // Não abandones nunca / o mágico que tem / o condão de conduzir-te ao / doce país do esquecimento”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nem só de vinho vive nossa embriaguez, que se compraz em envenenar terra e água. Porém, uma vez tingida – e atingida – a água permanece, irrecuperável, fora do alcance do homem. Lao-tsé adverte: “Quem dentre vós pode tornar límpidas as águas lamacentas? Deixai-as quietas, no entanto, e elas, por si só, se tornarão transparentes”. Ingênuo propósito o do homem controlá-las na totalidade. Impuros e condenados, não as alcançamos em poder e renovação, e nos servimos delas até matá-las. Longe de nós, a ressurreição, que ignoramos, existe para elas. E a realizarão sem nos contar o segredo.&lt;br /&gt;A voz de Píndaro não se cala nunca: “a água é o mais nobre dos elementos”. (31/07/2008)&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7659575339957537112-728998289849297772?l=bentancur.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bentancur.blogspot.com/feeds/728998289849297772/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7659575339957537112&amp;postID=728998289849297772' title='8 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/728998289849297772'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/728998289849297772'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bentancur.blogspot.com/2008/07/gua-arte-e-altar-vertente-de-idias-e.html' title='ÁGUA, ARTE E ALTAR (VERTENTE DE IDÉIAS E FORMAS)'/><author><name>BENTANCUR</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17397945706691195345</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp2.blogger.com/_296zOjIvu2c/R_F9H73wKyI/AAAAAAAAAAs/Mx_DoNV9suo/S220/Paulo5.jpg'/></author><thr:total>8</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7659575339957537112.post-8030763153222961998</id><published>2008-07-27T15:50:00.000-07:00</published><updated>2008-07-27T15:58:02.756-07:00</updated><title type='text'>O TRABALHO SECRETO DE VER ALÉM</title><content type='html'>O trabalho de criar histórias, ou de simplesmente (aliás, nada simples) achar um jeito de contá-las a todos, é pouco compreendido. Vejam essa cena descrita por Moacyr Scliar:&lt;br /&gt;“O vizinho olhava o escritor que estava sentado, quieto, no jardim, e perguntava: Descansando, senhor escritor? Ao que o escritor respondia: Não, trabalhando. Daí a pouco o vizinho via o escritor mexendo na terra, cuidando das plantas:&lt;br /&gt;Trabalhando?&lt;br /&gt;Não, respondia o escritor, descansando.”&lt;br /&gt;Secreta e silenciosa labuta a do homem que busca desenhar em palavras o mundo que está diante de nós, que nos acena, até mesmo com gritos, ou que, sutilmente, nos toca, e frente ao qual muitas vezes, ainda assim, sem esse retrato perfeito realizado pelo escritor, não escutamos, não enxergamos, não nos sentimos tocados por esse mundo, que é de outro e é, também, o nosso. O mais secretamente nosso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tenho mais que um rosto no qual uma voz, produzida por minhas cordas vocais, fabrica um som comandado por uma mente que busca sentido através desse som. Tenho uma voz que possui uma personalidade, e é em qualquer cenário que essa voz ecoa, para poder dizê-lo, ao tal som, desejando ser música (se se trata de poesia), poder dizer-me nele, poder dizer-nos, confissão feita de puro afeto ou coragem para o indispensável reconhecimento, realização suprema.&lt;br /&gt;A partir desse registro, todos podem saber o que acontece, não apenas comigo, mas, de fato, o que acontece. E se não todos, EU fico sabendo. Pelo menos, eu. O que, na minha opinião, não é pouco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lembro que, recém alfabetizado, eu já imaginava como as palavras eram: algo que me fazia mais que apenas um corpo. Se simplesmente ditas, representavam (para mim, menino incorrigivelmente curioso e de ouvido sedento) um acontecimento. Imaginem ditas de forma especial. Essa forma eu fui encontrando à medida que crescia – nos contos de terror, nas histórias de aventura, nos poemas de amor ou metafísicos, nas frases caprichadas, musicais, que às vezes eu flagrava na boca de um parente, de um padre, de uma professora.&lt;br /&gt;Percebi, bem cedo – que sorte a minha! –, que as palavras eram como semente, como água, como carne, como oxigênio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Descobri o tesouro: salvei-me de ser somente um homem condenado aos azares da vida. Diante desses azares, se eles acontecessem, eu buscaria respostas, buscaria, através das palavras, consolo, compreensão frente ao pior, calma e controle ante o melhor (que até o melhor pode nos perturbar).&lt;br /&gt;Entendi, menino ainda, que meu idioma era minha verdadeira pátria, e que o chão onde eu pisava podia, sim, livrar-me da queda, mas seria a minha língua que daria meu rumo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando perdi minha mãe (nesta terça-feira, dia 29, completam-se seis anos), até naquela hora as palavras me salvaram, me deram um pouco do colo que ela já não podia me dar. A literatura, então, toma o lugar materno e me embala, continua a me ajudar a crescer, sempre, junto com a vida que mesmo nas perdas renasce um pouco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma vez um jornalista me perguntou: “o que sentes pelos livros?” Respondi: “gratidão! São meus pais também. Me criaram e me ajudaram a viver, junto com meus pais de carne e osso.”&lt;br /&gt;Eis o poder das palavras, eis o amor das palavras. Eis o seu papel miraculoso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem lê, descobre que pode viver muitas vidas numa vida só.&lt;br /&gt;Quem lê, percebe que um livro foi escrito por uma pessoa muito, mas muuuuito especial. (Evidente: refiro-me aos livros escritos com mais engenho que vaidade.) E que essa pessoa escreveu seu livro como quem pega o melhor de si e o oferece ao mundo.&lt;br /&gt;Devemos ser gratos a quem escreve. Devemos ler tudo o que for possível lermos, escolhendo temas e linguagens de nossa preferência. Não como uma obrigação, mas como um remédio, porque saber salva.&lt;br /&gt;Como uma ferramenta, porque saber constrói.&lt;br /&gt;Como uma voz que se incorpora à nossa e faz com que possamos falar não apenas como um homem solitário, mas como toda a humanidade. (27/07/2008)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7659575339957537112-8030763153222961998?l=bentancur.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bentancur.blogspot.com/feeds/8030763153222961998/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7659575339957537112&amp;postID=8030763153222961998' title='10 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/8030763153222961998'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/8030763153222961998'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bentancur.blogspot.com/2008/07/o-trabalho-secreto-de-ver-alm.html' title='O TRABALHO SECRETO DE VER ALÉM'/><author><name>BENTANCUR</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17397945706691195345</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp2.blogger.com/_296zOjIvu2c/R_F9H73wKyI/AAAAAAAAAAs/Mx_DoNV9suo/S220/Paulo5.jpg'/></author><thr:total>10</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7659575339957537112.post-4217980225175342896</id><published>2008-07-26T11:52:00.000-07:00</published><updated>2008-07-26T12:19:28.764-07:00</updated><title type='text'>MENINOS NADA QUADRADINHOS</title><content type='html'>Todo menino, em algum momento de sua vida, sonhou ser Picasso. Nenhum menino sonhou ser Machado de Assis.&lt;br /&gt;A infância conhece bem a força de uma imagem, e aposta tudo nela. Mais tarde, quando crescemos, ficamos surpresos em ver que as laranjas já não são tão douradas como antes, as águas se tornaram menos azuis. Lodosas agora, marrons ou cinzas, justificam-se, segundo dizem, pela atual poluição. Mas não é só isso. Nossos olhos, menos impressionados, emprestam ao tom da água uma opacidade que quando criança não enxergávamos.&lt;br /&gt;Hoje, já adultos, dividindo os sentidos entre os reinos da imagem e da palavra, tudo fica um pouco diluído, e nada brilha, não reverbera, não explode, não nos causa o impacto de um sopro no coração, de um cisco no olho. Nossa mente ocupa-se demasiadamente fazendo as contas entre o que é dito e o que é desenhado. E o que, afinal, resta dito e desenhado não depende mais só do desenho e só da informação verbal.&lt;br /&gt;Mas isso agora, hoje, já adultos. E antes, como é que era mesmo antes?&lt;br /&gt;Antes eu tinha seis anos e morava entre Livramento, no Brasil, e Rivera, no Uruguai. Em Livramento havia a casa dos meus pais. Em Rivera, a de minha avó materna, Lela, na frente de um cemitério abandonado.&lt;br /&gt;O cenário era propício: restos de tumbas. Algum osso, de repente, apontando em meio a areia. A lua branca no céu escuro sobre o campo santo, campo, aliás, não mais santo, abandonado. Eu e meus amigos nos sentávamos no que restara do portão de entrada do cemitério e ficávamos contando histórias, uma mais aterrorizante que a outra.&lt;br /&gt;Lembro de um dia em que minha avó, particularmente impressionável, vinha passando e viu osso comprido. Pegou-o temerosa mas sem resistir à curiosidade. mediu sua canela e viu que o tamanho era o mesmo. Jogou rápido o osso por cima dos muros roídos do cemitério. Naquela noite, e durante um mês, ela sonharia que uma mulher vestida de preto vinha mancando e gemendo: “devolve minha canela, devolve minha canela!”&lt;br /&gt;A voz era lúgubre, dizia minha avó (e eu, que hoje rio, ficava de olho estalado). Havia um açougue ali perto, e os cachorros do bairro roubavam os ossos e os espalhavam nas ruas. A gente nunca sabia se a origem do osso era prosaica ou poética, natural ou sobrenatural.&lt;br /&gt;A verdade é que em meio a essas categorias (o horror/o humor, o mundo visível/o mundo invisível), eu me perguntava que linguagem seria capaz de reproduzir tal ambiente com fidelidade. Na verdade esta pergunta eu me fiz bem mais tarde, mas naquele tempo, embora a infância me ocupasse com sua permanente distração, certamente a semente dessa pergunta já germinava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desenhar uma caveira não era difícil. Rudinei, meu melhor amigo, fazia isso. Era um futuro bom desenhista. Eu preferia recontar histórias que Gilberto, meu avô paterno, havia contado. Rudinei sentia-se em desvantagem diante da minha capacidade de improviso verbal. Eu, por mais que falasse e falasse e falasse, me sentia mudo diante de alguns traços que ele fazia com o lápis de cera numa cartolina. O desenho parecia tão mais imponente, tão mais ritualístico, tão mais real.&lt;br /&gt;Era apenas aparentemente mais visível. Eu não havia me apercebido ainda que os olhos são analfabetos, que gravam a imagem sem saber nada sobre ela. E se nada sabem, de que adianta ver o que vêem? Os olhos precisavam de tradução, de legendas, de um apoio. Como um desenho solitário parecia uma cripta, uma gárgula, um monstro estacado no meio do cemitério na madrugada dos meus pesadelos. Como um texto sem desenho parecia a terra seca, árida, onde nada brotava. Um podia alimentar o outro, eu ia descobrindo, a cada livro que lia.&lt;br /&gt;As palavras também podiam desenhar, eu saberia mais tarde, mas bem mais tarde. Assim como as imagens (um cartum, por exemplo) podem constituir-se num comentário político, assim como um desenho de Gustave Doré pode constituir-se num poema, num conto.&lt;br /&gt;Vivem isolados, e bem. E podem igualmente compartilhar um mesmo tema. Naturalmente com impressões particulares, diferenciadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A imagem é sempre a resposta mais eficiente. Menino que é menino tem pressa. Não usa relógio mas tem pressa. Não porque obedeça a prazos, mas por que se sente permanentemente empurrado pela curiosidade e pela fome do olho e das mãos e das pernas. Menino é um atleta do conhecimento. Se esse conhecimento é revestido de prazer, de alegria.&lt;br /&gt;Com poucos anos decidi ser escritor. Primeiro, porque não sabia desenhar, e minha escolha nascia de uma derrota. Mas essa impressão era ilusória.&lt;br /&gt;À medida que eu ia escrevendo as histórias, elas iam se fazendo, portanto nasciam e se tornavam o que viriam a se tornar muito depois de eu começar a escrevê-las. Só quando punha o ponto final. Agora sim, a história existia, estava ali, era possível ver. E era essa invisibilidade da palavra que aturdia nossos olhos. Como podíamos julgar o que tínhamos que ler, e reler, e pensar sobre. O desenho, na sua imediata materialidade, capaz de uma apreensão mais rápida que a do texto (no processo mecânico de visualização, nada mais que isso) nos prometia uma vida mais fácil.&lt;br /&gt;Cresci debaixo dessa sombra, dessa falsa disputa. Uma imagem: mil palavras; uma palavra: nem um mísero risquinho? Quando via as obras de literatura infanto-juvenil, buscava compreender, com muito esforço.&lt;br /&gt;Livro com belas ilustrações e péssimo texto: aí eu sentia a força da imagem e o desprezo pela palavra. Se o desenho era tão maravilhoso e eles puseram uma porcaria de texto, é porque ninguém estava mesmo dando muita bola pro texto.&lt;br /&gt;Livro com bom texto e péssimas ilustrações: aí eu TAMBÉM sentia a força da imagem e o desprezo pela palavra. Um texto tão bom... e aqueles desenhos! Só podia ser porque ilustração era imprescindível, TINHA que ter imagem e pronto, não importando sua qualidade.&lt;br /&gt;Conclusão: até ali me parecia que imagem e texto brigavam, um anulava o outro.&lt;br /&gt;Aí caras como o Ziraldo, por exemplo, foram apaziguando essa guerra que secretamente eu assistia. Grande desenhista, grande texto. Era a perfeição. Tudo o que eu sonhara. Ou Angela Lago, ilustração se fazendo texto, exigindo uma leitura para além de olhos afoitos em busca de apenas uma figura colorida, bonita.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era o resultado de todo um processo, longo, ao qual Monteiro Lobato dera um senhor empurrão. A literatura dos contos de fada viera pouco a pouco dando voz a temas que incorporavam, com o avançar das épocas, problematizações infantis para além das emoções mais elementares do medo e do fascínio faceiro. Junto com essa perspectiva ficcional, digamos, menos inocente, o texto, até então pouco mais do que esquemático, conheceu um adensamento, admitiu brechas na narração, passou a conviver sem complexos com a ausência de uma linearidade até então inevitável, porém agora sem justificativas.&lt;br /&gt;Atualmente são até comuns os livros infanto-juvenis que encaram frente a frente a morte, a violência, o sexo, as drogas, a excepcionalidade, a separação dos pais, a filosofia. Aquele tipo de literatura feita para crianças, que apostava tão-somente na essencialidade da aventura, de mãos dadas com uma linguagem que não podia correr riscos, que não ousava, sobrevive hoje praticamente apenas nesses livros-jogo, onde se admite a história comportada só para a convivência da estrutura movimentada do livro. Você decide qual o destino da Princesa, escolhe o inimigo que o Príncipe enfrentará, opta por qual castigo para o malfeitor.&lt;br /&gt;Felizmente, os livros são inesgotáveis, ainda mais para esse público, ávido por novidades. Um exemplo: &lt;em&gt;O menino quadradinho&lt;/em&gt;, de Ziraldo, obra não tão badalada quanto &lt;em&gt;O menino&lt;/em&gt; &lt;em&gt;maluquinho&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;No princípio do livro são quadradinhos, primeiro brancos, depois coloridos, com belos desenhos, cada vez mais detalhados. A seguir os quadradinhos vão dando lugar às palavras, uma onomatopéia aqui, uma descoberta modestamente registrada por poucas sílabas ali, e logo um rio de frases começa a correr. O menino, que conhecia a imagem, não a palavra, começa a viajar pelo som e o sentido dos bichinhos vivos do dicionário. Descobre o dicionário. Multiplica a sua vida. Lê.&lt;br /&gt;À medida que o texto do Ziraldo avança, o corpo das letras impressas no livro vai diminuindo. Quando o livro começa, temos letras enormes, típico tamanho de letra para criança ler. Quando o livro acaba, o corpo da letra é 9, menor do que isso só para nota de rodapé. Aliás, é uma nota a última frase: comenta que o leitor deve estar estranhando, que deve estar achando que esse livro era para crianças só no início. Sim, que nem a vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tal livro, que considero obra-prima absoluta, configura para mim um resultado que, afinal, apagava a labareda incômoda no meu coração dilacerado: texto ou desenho?&lt;br /&gt;Primeiro: porque a solução de Ziraldo é rara, não é regra. E há outros nomes (muitos, além do de Angela Lago!) que possuem essa mesma habilidade dupla. Segundo: porque essa experiência provava exatamente o contrário. O grafismo de Ziraldo, desenhando até com a mancha impressa na página (o texto, texto mesmo, servindo de ilustração), mostrava que o texto, texto mesmo, pode prescindir dessa possibilidade se a história for outra.&lt;br /&gt;Era simples. Minhas preocupações eram, na verdade, diferentes. Eu estava mais para a filosofia do que para o desenho. Meu texto tinha caminhado, talvez sem que eu percebesse, para o terreno das perguntas, da mancha neutra, sem função gráfica.&lt;br /&gt;Depois de tanta cabeçada, creio que o tempo se cansou de mim, e eu cresci. Irremediavelmente cresci. Vi na palavra o meu desenho. Assim como não é difícil vermos no desenho de alguém a sua palavra. E são só metáforas, que, na verdade, vão além de sua função.&lt;br /&gt;Minha palavra era apenas a palavra, palavras, um rio delas, um mar, ou cemitério, talvez condenado ao abandono. Quanto mais palavra a minha palavra, mais poderia representar o que eu queria representar. Quanto mais desenho o desenho do desenhista, mais ele poderia representar o que desejava.&lt;br /&gt;E nem era representação. Há muito tempo a mimese cedeu lugar a algo mais audacioso. A arte é um mundo à parte que não dispensa o mundo. E, às vezes, até dispensa. Mas, sendo um mundo à parte, seus elos eram menos evidentes do que eu suspeitava. E sua solidão, mais funcional – e fascinante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu projeto estético era o seguinte: eu queria desenhar o mundo, e desenhar o mundo invisível, o mundo que o real desconhecia. Todo artista quer desenhar essa visão, visão que jamais se completa. Geralmente é uma tarefa que leva toda a nossa vida e sempre ainda falta um pouquinho, um retoque.&lt;br /&gt;Talvez por isso eu tenha me tornado um escritor de vários gêneros. Querem poema? Eu faço. Crônica? Eu faço (esta, todo brasileiro faz). Conto? Escrevo, sim. Romance? Agora mesmo estou atolado num de quase 300 páginas. Literatura infantil? Sim, sim, sim. Juvenil? Claro, por que não? (As duas últimas, tema desta reflexão.) Crítica literária? Evidente: já publiquei, sei lá, algumas centenas de resenhas, artigos, ensaios.&lt;br /&gt;Tanta fome se explica como?&lt;br /&gt;Parece-me que a explicação é exatamente por eu ter, durante algum tempo, permanecido indeciso na fronteira rebelde entre o desenho e a palavra. Um cutucando o outro.&lt;br /&gt;Na verdade, não se cutucam. Vivem bem, sozinhos. E podem, muito bem, viver juntos. O casamento dos dois, como todo casamento, exige atenção constante, cuidados extremos.&lt;br /&gt;Quando eu tinha seis anos de idade e ficava na frente do cemitério, conversando até altas horas com meus amigos, naquela época eu já estava me tornando um filho legítimo desse casamento.&lt;br /&gt;Não como criador, mas como leitor. Como criadores podemos citar o Ziraldo, o André Neves, e, de outra forma, uma dupla afinadíssima como Eliardo e Mary França, ou as duplas que os editores tão bem improvisam, tendo à disposição ilustradores inacreditáveis e autores incansavelmente criativos. Como criador, só pude carregar o peso da palavra. Como leitor, ainda hoje busco o desenho no desenho, a palavra na palavra, que é como deve ser, num primeiro momento, mas também a palavra no desenho e o desenho na palavra. Que é, no fundo, a ambição maior dos dois (criadores e elementos).&lt;br /&gt;Assim como cada homem é a humanidade inteira, um texto busca cumprir um papel que é apenas seu, mas, é só bobearem, e ele cumpre todos os papéis possíveis. A mesma coisa com a ilustração que, se deixarem, vale a história toda.&lt;br /&gt;E é bom a gente deixar. (26/07/2008)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7659575339957537112-4217980225175342896?l=bentancur.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bentancur.blogspot.com/feeds/4217980225175342896/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7659575339957537112&amp;postID=4217980225175342896' title='8 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/4217980225175342896'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/4217980225175342896'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bentancur.blogspot.com/2008/07/meninos-nada-quadradinhos.html' title='MENINOS NADA QUADRADINHOS'/><author><name>BENTANCUR</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17397945706691195345</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp2.blogger.com/_296zOjIvu2c/R_F9H73wKyI/AAAAAAAAAAs/Mx_DoNV9suo/S220/Paulo5.jpg'/></author><thr:total>8</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7659575339957537112.post-3069670811405551993</id><published>2008-07-25T06:18:00.001-07:00</published><updated>2008-07-25T06:22:24.962-07:00</updated><title type='text'>A IMPOSSÍVEL ARTE DE NÃO LER</title><content type='html'>Leio, leio bastante, leio demais. Sempre li, leio todos os dias, lerei sempre. Como deixar de ler? Atravessei mais de quatro décadas, já alfabetizado, a experimentar pequenos milagres dentro do cotidiano que inclui a leitura. A leitura constante me ensinou a falar muito além da fala natural, aquela que todos somos capazes. A leitura constante me levou a chegar até o mais próximo possível do desenho complexo de quem sou de fato. Leio tanto, e escrevo e falo a partir disso, como se a cada momento refizesse o mesmo caminho, aperfeiçoando-o a cada retomada. Desfazendo e refazendo esse percurso e, nele, me refazendo.&lt;br /&gt;De alguma forma, pela palavra, me reinauguro. Não há nenhum exagero nisso. Exagero, penso, é não ler. Como podem existir pessoas que não lêem?!, me espanto. É espantoso pensar que alguém possa viver aquém do mundo verbal na sua expressão máxima (a desse mundo, na escrita impressa). Em tal situação, sem o remédio, sem a ferramenta, sem a arma que a palavra impressa representa, sofrem de um sério problema de saúde. Saúde mental. Ler deveria ser prescrito pelos médicos. Os psiquiatras, no caso.&lt;br /&gt;Os que não lêem praticam uma arte dificílima, que ignoro qual seja. Uma arte que ignora a arte, uma arte de existir apenas, sem a vida que há na apreensão das mil variantes da existência, apreensão só possível através da leitura de textos que recriam todas as experiências humanas possíveis e impossíveis. A vida, mais que na própria vida, está nos livros. Uma vida especial, aprofundada de um modo que a vida mesma, sem o suporte verbal, não suporta.&lt;br /&gt;Que difícil – que terrível! – deverá ser não ler. Nem imagino como se pode conseguir sobreviver a essa catástrofe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Através da palavra, recomeço a cada fala, a cada pensamento. Quem fala (e falar também é ler, porque é espelho de nossa leitura) se apresenta a quem escuta e nesse encontro nasce o novo, uma relação até então inédita. O escritor: eu. A cidade: o cenário, o personagem e o tema. Uma obra se inicia? Não. Ela já existe há muito tempo. É um capítulo que se abre e nele nos encontramos.&lt;br /&gt;Já visitei mais de cem cidades no Rio Grande do Sul, e em todas elas estive a convite de escolas, universidades, feiras de livro organizadas por instituições. Fui “a trabalho”, isto é, dar palestras, ter encontros com alunos, professores. Sempre buscando, não promover meus livros, não, mas promover um dos bens mais preciosos que conheço: a palavra impressa, cuja convivência nos ajuda a nos entendermos melhor, a entendermos melhor nosso próximo, a acharmos um jeito eficiente e verdadeiro de mostrarmos quem somos para os outros e para nós mesmos.&lt;br /&gt;Sem as palavras, seríamos seres ilegíveis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A palavra nos desenha. Nos recorta. Nos seleciona. Nos traduz. Deixamos de ser um estranho, de ser um animal belo porém de poucos recursos. O uso das palavras – o bom uso delas, naturalmente – nos aproxima uns dos outros e nos aproxima dos mistérios da vida mais concreta (que é indiferente a nós sem tal ponte) e das profundezas mais insondáveis do espírito.&lt;br /&gt;Aliás, através das palavras tais profundezas deixam de ser insondáveis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sempre achei que nasci duas vezes. Quando minha mãe me deu à luz e quando aprendi a ler.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois que comecei a ler, não parei. Não parei mesmo. E resolvi que queria escrever para, de alguma forma, retribuir o prazer que os livros me davam.&lt;br /&gt;Decidi cedo que seria escritor. Acho que com doze anos eu já sabia que o meu destino seria o de publicar livros. Embora faltasse muito tempo ainda, claro.&lt;br /&gt;Mas comecei, pré-adolescente, a escrever contos, poemas, quase todos os dias.&lt;br /&gt;Eu era um menino como qualquer outro. Levantava pandorgas em Santana do Livramento, onde nasci (depois que fui para Porto Alegre não levantei mais), jogava futebol e era metido a craque (metido apenas, os adversários discordavam dessa minha opinião e geralmente estavam certos), me apaixonava mensalmente por uma colega de aula. Como todos. Ou quase todos, já que alguns de jeito nenhum que iriam... querer ser escritor! Apaixonar-se mensalmente dá menos trabalho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minha família mudou-se para Porto Alegre em 1967. Comecei a publicar contos, artigos e poemas nos jornais da capital aos 18 anos. Em seguida fui trabalhar em editoras. Minha tarefa consistia em ler livros escritos e convencer o dono da editora em publicá-los ou em recusá-los. 90% eram recusados, o que é normal. Nesse trabalho, acho que conquistei 10% de amigos e 90% de inimigos.&lt;br /&gt;Demorei para decidir-me a publicar meus próprios livros. Primeiro, preferi testar meus escritos em concursos literários. Quando ganhava algum, mandava o texto premiado para alguma editora. Se a editora aprovava o texto, que bom. Eu topava e o livro saía. Foi assim que passei a publicar. Bastante até. Minha bibliografia consta de mais de 30 títulos, a maioria de infanto-juvenis. Por quê?, me perguntam. Acho que porque tenho um temperamento adolescente, ou seja, sou inquieto, curioso, em constante transformação, o que me parece um sinal de vitalidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ser leitor não significa ser escritor, é claro. Mas como sou escritor e como a coisa que um escritor mais faz na vida não é escrever, mas é ler, sou um leitor antes de mais nada. Um leitor voraz, insaciável.&lt;br /&gt;Vivo, dentro do universo, como todos, um universo em especial, o do livro, do escritor e da leitura. Universo que passa pela escola, que pode formar leitores mas também pode destruí-los. Passa pelas feiras de livro, que, como qualquer evento, qualquer festa, servem de convite – nem sempre irrecusável, infelizmente – para o convívio com o livro. Passa, em resumo, por diversos aspectos, uns e outros contribuindo ou atrapalhando uma relação que deveria ser natural, como nossa vontade de ir ao cinema, de escutar música: a relação do ser humano com o ato de ler.&lt;br /&gt;Ler – faço questão de destacar – QUALQUER COISA. Existem gibis fantásticos, histórias em quadrinhos maravilhosas. Algumas graphic novels superam muita literatura metida a besta que anda por aí. Questão de ler, ler bem e então poder distinguir. Há revistas com matérias insuperáveis, reportagens com todos os ingredientes de uma boa ficção (e com o tempero de a personagem principal ser a realidade), artigos, crônicas e entrevistas de excelente qualidade. Tem jornal cuja leitura constante nos deixa pessoas mais completas.&lt;br /&gt;Ler. Isso é o que importa. Leitura que não se resume apenas à palavra, mas que não a dispensa. Leitura que igualmente se dá no ato de olhar uma gravura, uma foto, um quadrinho, um olhar de ressaca ou um olhar limpo, um expressão de contrariedade ou um sorriso no que ele tem de menos evidente.&lt;br /&gt;Falo mais em livros porque é neles que em geral há material impresso mais denso, é neles que moram os clássicos, os autores importantes. Mas eu, por exemplo, além dos 2.000 livros que possuo em casa, assino dois jornais e três revistas. E ainda fico com vontade de assinar outros mais. (25/07/2008)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7659575339957537112-3069670811405551993?l=bentancur.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bentancur.blogspot.com/feeds/3069670811405551993/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7659575339957537112&amp;postID=3069670811405551993' title='14 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/3069670811405551993'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/3069670811405551993'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bentancur.blogspot.com/2008/07/impossvel-arte-de-no-ler.html' title='A IMPOSSÍVEL ARTE DE NÃO LER'/><author><name>BENTANCUR</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17397945706691195345</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp2.blogger.com/_296zOjIvu2c/R_F9H73wKyI/AAAAAAAAAAs/Mx_DoNV9suo/S220/Paulo5.jpg'/></author><thr:total>14</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7659575339957537112.post-1769876847500068458</id><published>2008-07-21T22:38:00.000-07:00</published><updated>2008-07-21T22:41:04.073-07:00</updated><title type='text'>MEU PERSONAGEM, MEU IRMÃO?</title><content type='html'>Um texto de ficção pode sobreviver de várias coisas. Só o cenário já pode dar conta do recado, um cenário que não serve apenas como locação, mas é presença forte, trama e personagem da história, porque vai além de pano de fundo e sufoca tudo, serve mais que de moldura, serve como movimento, ação, presença.&lt;br /&gt;Só o cenário, em geral posto em segundo plano pelos escritores. Quem se preocupa mesmo com cenário é cenógrafo, é o teatro, é o cinema, é o quadrinista. Escritor quer contar uma história, desde Aristóteles, que recomendava isso em sua Poética. E uma história, mesmo boa, fracassa se não for vivida por bons personagens, isto é, seres vívidos.&lt;br /&gt;Daí chegamos ao meu tema neste instante: o personagem.&lt;br /&gt;Nunca sei quem ele é. Preciso de mim mesmo, de minha experiência e da experiência daqueles com quem convivo, experiência de vida que dá substrato, essência real ao personagem a ser criado. Criado?&lt;br /&gt;No meu caso, dificilmente crio, isto é, invento. Descubro-o simplesmente. Vou avançando muito devagar, não invadindo o sujeito de súbito – que é para não assustá-lo e ele inventar de se retrair e eu perder a preciosa oportunidade de, afinal, descobrir quem é o cara.&lt;br /&gt;Parto, como estava explicando, de alguma experiência humana que revele um caráter, uma generosidade, uma mesquinharia, uma coragem, uma fobia, mais um tipo físico que fique em pé, isto é, que se sustente, seja convincente, cuidando (é meu jeito) de não torná-lo, pelo desenho, uma caricatura.&lt;br /&gt;Se dessa mistura de elementos (jamais selecionados a priori, e sim, sempre a partir da situação criada ou do tipo necessário para vivê-la) surgir alguém, ótimo. Ótimo não, menos é inaceitável. Tem que ser alguém, ou seja, um ser verossímil, quase de carne e osso não fosse feito apenas de palavras.&lt;br /&gt;Eis meu personagem, que só conheço depois da última página, não antes. E muitas vezes – na maioria, devo dizer – nem depois da última página.&lt;br /&gt;Meu irmão de fato, porque acaba vivendo coisas que vivi, ou quase vivi, ou sonhei viver, ou temi viver, ou escutei que alguém viveu, ou nada disso mas o empurrei para algo que alguém de que tomei conhecimento viveu ou poderia perfeitamente ter vivido.&lt;br /&gt;Desta forma, meu personagem é um duplo (meu irmão gêmeo) e um estranho (não o controlo nem o compreendo e, por isso mesmo, por causa dessa incompreensão, preciso acompanhá-lo passo a passo e, como já disse, termino a história às vezes sem entendê-lo). É por essa razão que ele pode funcionar. Pelo risco que conscientemente assumo em tratá-lo como se nada soubesse dele, sabendo tudo.&lt;br /&gt;Por contraditório que isso pareça, não é. Sei tudo porque fui eu quem escreveu tudo. Mas minha descrição desse personagem em regra é feita mais de perguntas, de dúvidas, de tateios através dos quais vou deixando (tenho escolha?) que o personagem faça o que bem entender. E é aconselhável que ele possua essa suprema liberdade de aparentemente não ter sido criado por mim. Ele DEVE ser cria de si mesmo, seguindo exemplos extraídos da vida sem as facilidades que a vida dá (refiro-me a essas execráveis simplificações que só existem fora da literatura, pelo menos fora da boa literatura, já que a má literatura imita a vida como ninguém, não quer ir muito fundo mesmo).&lt;br /&gt;Meu personagem, em suma, é um pobre diabo e um ser à beira do abismo, uma alma que se contorce entre as forças opostas que o jogam de um lado a outro, forças invisíveis para ele e, pior, para seu deus também – eu, cuja existência ele ignora; eu, que ignoro essas forças também.&lt;br /&gt;Ou, claro, meu personagem pode ter todas as certezas que não tenho, toda a força que não pude encontrar. Nesse caso, trata-se do estranho que mencionei.&lt;br /&gt;Meu personagem, em resumo, não é meu. (22/07/2008)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7659575339957537112-1769876847500068458?l=bentancur.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bentancur.blogspot.com/feeds/1769876847500068458/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7659575339957537112&amp;postID=1769876847500068458' title='8 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/1769876847500068458'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/1769876847500068458'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bentancur.blogspot.com/2008/07/meu-personagem-meu-irmo.html' title='MEU PERSONAGEM, MEU IRMÃO?'/><author><name>BENTANCUR</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17397945706691195345</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp2.blogger.com/_296zOjIvu2c/R_F9H73wKyI/AAAAAAAAAAs/Mx_DoNV9suo/S220/Paulo5.jpg'/></author><thr:total>8</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7659575339957537112.post-2302475932310662407</id><published>2008-07-19T14:26:00.000-07:00</published><updated>2008-07-19T15:17:51.235-07:00</updated><title type='text'>JÁ ESTÁ NA HORA DE CITARMOS DREXLER. ALÉM DE ESCUTÁ-LO</title><content type='html'>Se você é um dos felizardos que conseguiu seu ingresso para assistir o uruguaio Jorge Drexler (Montevidéu, 21/09/1964) no 3&lt;span style="font-size:85%;"&gt;o&lt;/span&gt; Festival de Inverno, no Teatro do Bourbon Country, amanhã, domingo, 21 de julho, às 22h, parabéns. Lotação esgotada desde o meio da semana. Vitor Ramil, uma sobremesa no show, vai estar junto, dando as boas-vindas ao vizinho com quem tem uma música em parceria, “12 Segundos de Escuridão”. A letra? Naturalmente de Drexler, de sensibilidade literária como um Caetano Veloso porém discreto como um Chico Buarque. E com sólida formação intelectual (sem o pedantismo que poderia tornar ilegíveis suas letras) num país mais que discreto, grave. “12 Segundos de Escuridão” canta o movimento de um farol cuja luz não importa, somente os 12 segundos que o farol, em sua incessante rotação, demora até retornar com a previsível iluminação sobre o óbvio visível. É naquele intervalo de 12 segundos, no escuro – quando a luz se movimenta na direção oposta –, que se pode ver o possível de si. Sem a distração inevitável do que a claridade, chegada, apenas encobre com mostrar o cenário evidente. Mas Drexler, filho dos filhos da ditadura uruguaia, que em 2005 emergiu para o cenário internacional com o Oscar para melhor canção original no filme &lt;em&gt;Diários de Motocicleta&lt;/em&gt;, de Walter Salles, tem dez álbuns lançados, desde 1992. Dezesseis anos de um estilo entre a balada, substituindo o que seria explicitamente político há meia geração pela metafísica possível da constatação das ausências, das revelações tardias, do amor cuja precariedade é, contraditoriamente, sua única plenitude e, rara, a ser apreendida com toda a entrega, isto é, a dos desarmados de ilusão. E eu sem ingresso!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Drexler é um romântico sem inocência alguma, um filósofo diluído em canções cuja transparência não cedem à simplificação, um pensador que nos embala, nos toma com sua melodia que cabe no amplo nicho do pop de qualidade. Altíssima, aliás. Seu violão vai do minimalismo à procura do acorde menos gritante e, assim, menos surdo, ao toque enérgico de um homem que mergulha não só na letra, sempre ambiciosa e altamente sugestiva, mas na melodia que nos deixa tensos pela força que convoca e com a qual nos carrega para longe. Longe do barulhinho chato empurra-empurra e das letras que andam por aí, letras que, se lidas, o ouvinte se surpreende com algo entre o simplório e o gratuito. Pop, definitivamente, não serve. Drexler tem experimentado, nessa década e meia de carreira, diversos gêneros, o rock entre eles. Mas um rock mais (ou menos) que progressivo, acariciando as cordas e, noutras músicas, fazendo-as vibrarem como elásticos de atiradeiras cuja pedra estilhaça nossas vidraças e, através delas, deixa entrar o alarido da época, o vento que vem do rio soprando lá fora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E eu sem ingresso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Exagero? Ouçam “Hermana Duda”, ouçam. E ouçam outra vez. Quando conseguirem parar de ouvir, me escrevam. Eis o link para chegarem nessa peça contagiante e perturbadora (o que dá no mesmo).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;http://www.youtube.com/watch?v=nxYrbw9hu9o&amp;amp;feature=related&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aí vai a tradução da letra, para se ter uma idéia. Mesmo dissociada, aqui, da melodia, sobrevive, e bem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“&lt;em&gt;Irmã dúvida&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não tenho a quem rezar, pedindo luz.&lt;br /&gt;Ando apalpando o espaço às cegas.&lt;br /&gt;Não me interpretem mal,&lt;br /&gt;Não estou me queixando.&lt;br /&gt;Sou jardineiro dos meus dilemas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Irmã dúvida,&lt;br /&gt;Passarão os anos,&lt;br /&gt;Mudarão as modas,&lt;br /&gt;Virão outras guerras,&lt;br /&gt;Perderão os mesmos&lt;br /&gt;E tomara que tu&lt;br /&gt;Sigas me levando contigo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas esta noite, irmã dúvida,&lt;br /&gt;Irmã dúvida, da-me um respiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não tenho a quem culpar&lt;br /&gt;Que não seja eu,&lt;br /&gt;Com meu monte de “coisas pendentes”.&lt;br /&gt;Não me interpretem mal,&lt;br /&gt;Estou me dando bem. Ou pelo menos&lt;br /&gt;Tenho a intenção.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Irmã dúvida,&lt;br /&gt;Passarão os discos,&lt;br /&gt;Subirão as águas,&lt;br /&gt;Mudarão as crises,&lt;br /&gt;Pagarão os mesmos&lt;br /&gt;E tomara que tu&lt;br /&gt;Sigas mordendo a minha língua.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas esta noite, irmã dúvida,&lt;br /&gt;Dá-me uma trégua.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Irmã dúvida,&lt;br /&gt;Passarão os anos,&lt;br /&gt;Mudarão as modas,&lt;br /&gt;Virão outras guerras,&lt;br /&gt;Perderão os mesmos&lt;br /&gt;E tomara que tu&lt;br /&gt;Sigas me levando contigo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas esta noite, só esta noite,&lt;br /&gt;Irmã dúvida, dá-me um respiro...”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Carajo. E eu sem ingresso. (19/07/2008)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7659575339957537112-2302475932310662407?l=bentancur.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bentancur.blogspot.com/feeds/2302475932310662407/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7659575339957537112&amp;postID=2302475932310662407' title='7 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/2302475932310662407'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/2302475932310662407'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bentancur.blogspot.com/2008/07/j-est-na-hora-de-citarmos-drexler-alm.html' title='JÁ ESTÁ NA HORA DE CITARMOS DREXLER. ALÉM DE ESCUTÁ-LO'/><author><name>BENTANCUR</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17397945706691195345</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp2.blogger.com/_296zOjIvu2c/R_F9H73wKyI/AAAAAAAAAAs/Mx_DoNV9suo/S220/Paulo5.jpg'/></author><thr:total>7</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7659575339957537112.post-6973221823279263021</id><published>2008-07-17T19:28:00.000-07:00</published><updated>2008-07-17T20:05:42.594-07:00</updated><title type='text'>CARAS-DE-PAU E "UP-TO-DATES"</title><content type='html'>&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="font-size:0;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="font-size:0;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="font-size:0;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;span style="font-size:0;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;em&gt;"Nada disso me espanta, Paulo. O que me espanta é a quantidade de escritores medíocres que estão nas grandes editoras, que são levados a sério pela imprensa e pelos acadêmicos. Nem o argumento de que vendem muito cola, porque muitos deles não vendem grande coisa. Quer dizer, que dois ou três bons escritores se dêem mal, pode ser compreensível, mas que manadas de medíocres faturem parece forte demais &lt;/em&gt;&lt;em&gt;pra uma coincidência."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ernani Ssó&lt;br /&gt;(17 de Julho de 2008, 08:43)&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;br /&gt;O escritor e leitor citado aí em cima, que me dá o prazer da companhia, propõe, com seu comentário postado no texto “Cavalos afogados no Mampituba”, uma pauta e tanto. Dureza.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu propósito anterior era menos espinhoso. Pinçar aqui e ali, não dois ou três nomes, como o rigoroso Ernani acena, mas meia dúzia, uma dúzia provavelmente, de autores excepcionais que foram relegados à periferia do panteão literário. Imersos em suas províncias, não receberam o ruído das buzinas, dos tiros e dos aplausos do Rio de Janeiro, São Paulo e adjacências. Não tiveram seus textos publicados por editora de prestígio. Arcaram com prejuízos, metendo a mão no bolso e sacando o talão de cheques para pagar – para nada, ou quase nada – prestadores de serviços editoriais (designer para o projeto visual, capista, editoração, gráfica) e ainda depois mendigar junto a uma distribuidora e outros espaços “facilitadores” para a veiculação do seu livro sem futuro, sem presente. Isso quando amigos não o fizeram por eles, mais por constrangimento do que por incapacidade desses autores de se mexerem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, afinal, que capacidade é essa? A resposta talvez esteja na iniciativa dos amigos. Tais escritores escrevem, e só. Escrevem a melhor literatura possível, e só. Escrevem a partir de suas influências (mesmo quando elas são, sim, as melhores), e só. Escrevem com rigor, com entrega, com uma autocrítica do cão, e só. Não escrevem para as namoradas (considerando-se, aí, que sejam atrizes, e famosas), não escrevem para alguma pauta transitória dos editores de olhar simplificador e imediatista. Não escrevem de olho na tevê. Não escrevem de olho no cinema. Escrevem com a mão contaminada pela influência de um Felisberto Hernández (1902-1964), uruguaio, ou um Raymond Carver (1938-1988), norte-americano – para só citar caras que não se costuma citar como cânone –, e nunca servindo de lacaios fashion (forte essa, hem?). Estão ralados, esses escritores. Podem ser o máximo, mas não serão convidados pra p* nenhuma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas não é a esses escritores que Ernani Ssó se refere. É a outros, dispostos a adaptar seu “projeto estético” a projetos alheios. Alheios, inclusive, ao que eles sempre pensaram fazer. Ou nem pensaram, sabe-se lá. Pensaram apenas em safar-se, garantir a vi-si-bi-li-da-de, custe o que custar. E nem custa. Custa o quê? Para escritores assim é barato e um barato (perdoem o anacronismo da gíria). O custo, alto, é de quem paga pelo livro e ainda tem de ler. Produtos. Simplesmente... &lt;em&gt;produtos&lt;/em&gt;! Palavra mágica, instrumento que vende, que aparece, que faz carreiras que duram cinco anos – ou dez, ou vinte no máximo – e vão parar nas salas de cinema através de seu gênero inconfundível e insaciável de ser um... &lt;em&gt;produto&lt;/em&gt;! Claro que viram filme, ou peça de teatro, ou acham outra mídia que aqui não me ocorre. Porém, ah, época da reprodutibilidade técnica: que capacidade assombrosa de multiplicação daquilo que, não importando a qualidade, apresentou-se, emprestou sua mão-de-obra “especializada” para seguir o trio elétrico do “só não vai quem já morreu”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Evidente: pode-se (e eu próprio já fiz isso) atender uma encomenda editorial. Escrever algo que me pediram, pautaram, e até deram algumas coordenadas bem específicas. Se o sujeito tiver sorte e algum engenho, realiza um bom trabalho (como Ruy Castro). Até Luis Fernando Verissimo tem escrito muitos de seus livros – depois de uma certa época, acredito que a maioria – por encomenda. Não é a natureza de encomenda que determina a qualidade. É o escritor, óbvio. Se ele for bom, tira de letra – gigolô das palavras – o desafio proposto. Mas uma liberdadezinha é mais que bem-vinda, é essencial para que a obra surja com cara de criação, legítima. Gente como Ruy Castro e Verissimo gozam de prestígio suficiente – construído ao longo não de vinte anos, mas de 35 – a garantir a liberdade essencial para que cumpram os propósitos da encomenda e não insultem a literatura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O problema está, me parece, na forma afoita com que essa empresa atua, forçando nomes e títulos em meio à inexistência de leitores críticos em um país onde o mercado de livros é diletante e preguiçoso, entregue quase ao acaso e apostando em produções baratas, não no custo, mas na dignidade, na desfaçatez de a literatura ser tratada como obrigação, não como fonte de prazer. E se o que vende, pressupostamente, é fonte de prazer, pedem que se produza o que historicamente tem vendido. O historicamente aí dura em média uma onda de três anos, às vezes três meses – o suficiente para empurrar goela abaixo dos “leitores” dezenas, centenas de milhares de livros cujas tiragens incham à medida que o rosto do autor (autor sim, escritor é que são elas!) vira um ícone, sua inserção massiva na mídia, as lendas ou o falatório em torno dele inchando também. Questão de quantidade. Mensuração. O tamanho do País: gigante pela própria natureza e, perdido nela, adormecido em berço nada esplêndido porém convicto que uma editora é uma empresa com fins comerciais e, a julgar pela maioria dos títulos, somente comercial.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Podia ser diferente? Podia. Mas isso exige muita coisa. Exige que editores não cedam &lt;em&gt;totalmente&lt;/em&gt; a certas pressões, tanto econômicas quanto políticas (aqui o sentido é amplo). Mas cedem. As econômicas eu compreendo. As políticas, não. Nesta área dá para escolher, ser isento, não se vender. Dirão: mas as políticas também determinam o fluxo do caixa. É verdade. Mas... Bem, então paremos de uma vez por todas com a hipocrisia de falar em arte quando, na maioria das vezes, estamos, editores, contratando o nome da hora e não, nunca, o nome que atende antes por Literatura do que pelo próprio nome com que assina seus livros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Puxa, chamem os bons para fazer o serviço sujo. Os bons, mesmo pouco conhecidos. Sei: bandido traz mais frisson para uma cidade que mocinho. Mocinho é complicado, cheio de éticas, um estorvo. E aí pegam cantores para torná-los escritores. E tornam. Pegam atrizes para torná-las escritoras. Pegam editores para torná-los escritores. E professores, obviamente. Pegam o que vier pela frente, até a escritores mesmo. Até a escritores da gema... O que é uma armadilha. Numa coleção encontramos um escritor de primeira com gente que já foi de tudo na vida e acabou dando tanta bandeira que virou “escritor” também. E a maciça maioria dos mal-preparados leitores nacionais não separa alho de bugalho.&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;Ou separa. Fica com o bugalho.&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;Além disso, um grande número de escritores autênticos, que matam a tia para escrever um bom livro, que arriscam a pele para escrever um bom livro, estes, uma maioria deles, por não estar no trio elétrico (sentem vergonha do carnaval), ficam fazendo o papel de tradutores, copidesques, revisores, e de vez em quando beliscam um prêmio, uma vez que sua qualidade uma hora acaba vindo à tona, nem que seja para o reconhecimento-relâmpago de uma comissão julgadora cuja eleição não garante a posse de nenhum cargo, nenhuma oferta editorial séria, só os dez salários mínimos do prêmio. Desde que o escritor, evidentemente, pague a passagem e a estadia do próprio bolso para ir lá receber as honrarias. Descontados os impostos e as despesas, ainda sobra a mensalidade da escola do filho. Não é pouco. (18/07/2008)&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7659575339957537112-6973221823279263021?l=bentancur.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bentancur.blogspot.com/feeds/6973221823279263021/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7659575339957537112&amp;postID=6973221823279263021' title='7 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/6973221823279263021'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/6973221823279263021'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bentancur.blogspot.com/2008/07/caras-de-pau-e-up-to-dates.html' title='CARAS-DE-PAU E &quot;UP-TO-DATES&quot;'/><author><name>BENTANCUR</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17397945706691195345</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp2.blogger.com/_296zOjIvu2c/R_F9H73wKyI/AAAAAAAAAAs/Mx_DoNV9suo/S220/Paulo5.jpg'/></author><thr:total>7</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7659575339957537112.post-1098008600471889615</id><published>2008-07-16T22:12:00.000-07:00</published><updated>2008-07-17T08:23:38.048-07:00</updated><title type='text'>CAVALOS AFOGADOS NO MAMPITUBA</title><content type='html'>&lt;div align="center"&gt;&lt;em&gt;No Rio Grande do Sul, muitas são as vozes literárias significativas condenadas ao silêncio diante do leitor brasileiro. E não só no Rio Grande do Sul...&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outro dia, de madrugada, assisti a um programa de tevê sobre um grande escritor. Falavam, apresentador e convidados, acerca de um autor que no Mato Grosso do Sul fazia pelas letras do País o mesmo que o mineiro Guimarães Rosa fez, instalado no Itamarati, no Rio de Janeiro. Rosa, como se sabe, é um dos três ou quatro mais importantes escritores de nossa literatura. O mato-grossense, pauta do programa que me impressionou (mais, consternaria), chama-se Ricardo Guilherme Dicke. Publicou e foi premiado, com alguma repercussão, no final dos anos 1960, 1970. Depois atravessou a década de 80 como uma sombra ou menos. No início dos anos 90, tentaram ressuscitá-lo, sobretudo sob as mãos zelosas de José Paulo Paes. O seu romance &lt;em&gt;Caieira&lt;/em&gt; (Estação Liberdade, 1982) ganhava página inteira de um dos mais importantes jornais brasileiros. E sua obra já fora objeto de duas resenhas na mais importante revista semanal brasileira (mas isso em 1968).&lt;br /&gt;Era uma guerra perdida. Diante da tevê, na madrugada, eu revia a trajetória de um homem que fez 70 anos a 16 de outubro de 2006 (e o programa apoiava-se nesse efeméride), que publicou livros fortíssimos e singulares no plano lingüístico, na contundência da trama, no realismo tocante das personagens, e que, mesmo assim, foi e é ignorado. &lt;em&gt;Deus de Caim&lt;/em&gt; (Bloch, 1967), &lt;em&gt;Décima-segunda missa&lt;/em&gt; (edição do autor, 1968), &lt;em&gt;Figueira-mãe&lt;/em&gt; (1969), &lt;em&gt;Caieira&lt;/em&gt; (1ª edição 1971), &lt;em&gt;Madona dos Páramos&lt;/em&gt; (1993). E &lt;em&gt;O Salário dos Poetas&lt;/em&gt; (2000), que foi dramatizado até em Portugal. O programa, ao término, rolando sua interminável lista de créditos, apôs a seguinte informação: “O autor possui oito livros inéditos e está à espera de editoras interessadas.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Uma Rússia com calor e mosquitos&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não há espaço, num periódico legível, para o exame necessário de tal fenômeno. Em síntese, que fique, em linhas gerais, o seguinte diagnóstico: o Brasil – azar nosso – é um país-continente; uma colcha de retalhos, sim, mas descosturada. Uma espécie de Rússia com calor, mosquitos e a mesma remota distância geográfica de um centro a outro, a gerar acesso difícil entre as “províncias”. Um caudal de culturas, sim, mas o caudal não vem à tona, e duas ou três expressões regionais predominantes (as cosmopolitas ou as folcloricamente exportáveis) conquistam o mercado e a História, esta cada vez mais de braços dados com o mercado. Usando a Rússia como exemplo, Brasil é pior ainda, pois sem unidade nacional alguma, a não ser aquela que a displicência tropical consente.&lt;br /&gt;Vamos, assim, direto à circunscrição deste texto: o país dos gaúchos. Não chamado desta forma gratuitamente. É um país à parte, como o Mato Grosso da Cuiabá de Ricardo Guilherme Dicke, como a Amazônia de Milton Hatoum (de quem não fogem) e Vicente Franz Cecim (de quem fogem), condenado talvez pela falta de fôlego de uma nação tão prodigiosa territorialmente quanto em talentos – e que não sabe dar conta disso de forma digna. Esquecer é mais fácil do que se supõe.&lt;br /&gt;Não basta escrever. Publicar é outro desafio tão ou mais difícil. Para alguns, mais difícil. Escrever depende, praticamente, só de si. O autor se impõe o ato, ou necessita, vitalmente, da ação. E ela acontece, com êxito ou sem. Mas, uma vez pronto, é preciso dar visibilidade ao livro, e não basta imprimi-lo, entregá-lo a uma editora que o tornará tão invisível quanto era quando inédito.&lt;br /&gt;As melhores casas publicadoras, óbvio, estão no coração financeiro do país, São Paulo-Rio de Janeiro. Salvam-se pouquíssimas em outras capitais. Mas quase não contam. Desta forma, o autor gaúcho, municiado de seu novo original impresso, encadernado, monta seu metafórico tordilho e tenta atravessar o Mampituba, rio com 60km de extensão, em cujo leito inferior, na margem oposta, acena o estado de Santa Catarina. É preciso atravessar o rio, e então o estado vizinho, depois o Paraná, e chegar em São Paulo, onde...&lt;br /&gt;As águas não são rasas. E não é uma metáfora. Se fosse, ainda assim a travessia é longa e, mais que geográfica, temporal, histórica, cultural. Não termina nunca. Não há cavalo nem cavaleiro que agüente.&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;Tânia&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;O leitor já se deparou com o nome de Tânia Jamardo Faillace? Pois devia. Ela andou publicando, e muito, nos anos 1970 e início dos 80. Há vinte anos as portas estão fechadas. Por indicação de Erico Verissimo, começou na Globo, à época com sede em Porto Alegre: &lt;em&gt;Fuga&lt;/em&gt;, 1964, e &lt;em&gt;Adão e Eva&lt;/em&gt;, 1965. Pela Editora Movimento, em 71, saiu sua obra-prima: &lt;em&gt;O 35º ano de Inês&lt;/em&gt;. Furaram o bloqueio do eixo SP-RJ (naquele tempo gaúcho só editava no RS, com raríssimas exceções) os contos de &lt;em&gt;Tradição, família e outras histórias&lt;/em&gt; (Ática, 1978) e o romance &lt;em&gt;Mario-Vera / Brasil 1962-1964&lt;/em&gt; (Marco Zero, 1983; Círculo do Livro, 1986). Participou de antologias que em plena ditadura reuniam os escritores malditos, aqueles que incomodavam mesmo, como João Antônio, Ignácio de Loyola Brandão, Caio Fernando Abreu (um gaúcho que atravessou o Mampituba já no segundo livro – explicação: com 19 anos, Caio foi trabalhar em São Paulo, na redação de uma grande revista) etc. Vinte anos depois, meados dos anos 90, Tânia foi tema do &lt;em&gt;Fantástico&lt;/em&gt;, programa dominical da Rede Globo, vejam só, e de várias notícias da mídia televisiva, radiofônica e jornalística (com capa em suplementos culturais). Terminara seu maior projeto, o maior projeto da literatura brasileira. Para sermos mais exatos, o maior da literatura ocidental: o romance-rio &lt;em&gt;Beco da Velha&lt;/em&gt;, 7.000 páginas; se dividido em volumes (o que seria editorialmente imperioso), 20 tomos de 350 páginas. Nada há que se lhe compare em fôlego narrativo na literatura universal em qualquer tempo. Uma espécie de folhetim em alto nível contando cerca de 30 anos da história do Brasil, dos Anos 1950 ao presente da protagonista (situado em 1975), Maria Geneci, uma mulher de extração social simples, mas que... age!&lt;br /&gt;A experiência de jornalista e militante da autora, somada ao rigor narrativo, à sensibilidade para os tipos em sua psicologia individual e também em sua circunstância social, e o rigor com que revive (ampla pesquisa, intensa vivência direta) os instantes-chaves do País em seu impacto político e, desta forma, a envolver a todos, leva Tânia a um resultado assombroso, muito acima dos grandes painéis e épicos de que se tem notícia.&lt;br /&gt;Verdade: é praticamente impossível publicar tamanho catatau. Mas se a dimensão do projeto assusta, a qualidade literária estimula. (Ainda que poucos o tenham lido, bastam os livros da autora já publicados e a dúzia de nomes referenciais que não resistiu a dar uma folheada no monumento para endossarem a edição do prodígio.) O que será – não nos perguntemos acerca de Tânia, que já fez a sua parte – de todos nós, privados de tal obra, superior, sob diversos aspectos, à maioria do que tem vindo a público?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;Hecker&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Paulo Hecker Filho (1926-2006) escreveu cerca de 20.000 cartas. Foi um... Mário de Andrade gaúcho. Recebeu o reconhecimento (sempre mais nos bastidores do que diante da platéia) de João Gaspar Simões, grande biógrafo e crítico português, Drummond, Darcy Ribeiro, Dalton Trevisan, Rubem Fonseca. Uma vez, disseram-lhe: “És autor de autores.” E era. Pela paciência e pela intensidade com que se envolvia com os novos. Recebia diariamente muitos originais para avaliar, mesmo de autores com carreira assentada, e lia com agilidade, mas não menor atenção, anotava tudo, reescrevia, revisava, apontava (80% dos casos) falhas, insuficiências, coisas a melhorar. O remetente agradecia (apenas nos bastidores), seguia todas as instruções – tinha o livro salvo; e mandava, esquivo, o próximo texto para ser examinado. Se o resultado fosse semelhante, mexia menos, não mais agradecia, e nunca mandava outro. Cortava relações. Grandes nomes de nossa literatura chegaram a dizer-lhe: “Agradeço a boa vontade, a franqueza, mas te peço, não escreve sobre meu livro no jornal.” Como dizia o Eclesiastes...&lt;br /&gt;Hecker foi também um grande poeta, além de tradutor de Rimbaud, Apollinaire, Yasunari Kawabata (Prêmio Nobel de Literatura de 1968), Maurice Leblanc, os argentinos Benito Linch e Eduardo Mallea, entre vinte outros nomes relevantes, tanto do francês, espanhol e inglês. Sua mais significativa tradução é de &lt;em&gt;A Celestina&lt;/em&gt;, de Fernando de Rojas, contemporâneo de Cervantes e que, sem exagero, não lhe fica muito abaixo. Poeta a merecer importantes prêmios, teve livros reconhecidos por gente como Ferreira Gullar e outros insignes nomes que a civilidade nos impele a declinar. Tudo porque tal reconhecimento sempre se deu através de cartinhas entre a delicadeza e a mesquinharia, bilhetes apressados, quase numa demonstração de temor ante assumir que o crítico, severo e escandalosamente honesto, de seus livros tinha talento literário (e provável razão nos reparos que lhes fazia).&lt;br /&gt;Paulo Hecker Filho publicou, desde 1949 até 2004, dois anos antes de morrer, em 55 anos de carreira literária – não é tempo mais do que suficiente para um reconhecimento em vida? – aproximadamente 30 livros, 15 de poemas. Ficou marcado como crítico, porque incomodou demais. Como poeta, alguns lhe apontaram os excessos prosaicos, provavelmente porque incomodados com a figura que não se deixava levar pelo carreirismo e, na estética, pelas fórmulas poéticas que confundem falta de coragem ao criar e insinceridade literária com síntese e rigor. Hecker era “derramado”, como um Whitman, um Pessoa, um Eliot são “derramados”.&lt;br /&gt;Seis livros de crítica, com destaque para &lt;em&gt;Um tema crucial – Aspectos do homossexualismo na literatura &lt;/em&gt;(Sulina, 1989), no qual expõe Proust, Gertrude Stein, Guimarães Rosa, Darcy Penteado (quem lembra?) e uma vintena de autores e obras nas quais o homo-erotismo é protagonista tratado pela crítica oficial com a ponta dos dedos. Já era hora.&lt;br /&gt;Com a morte de Hecker, em 2006, a poesia brasileira perdeu um poeta diferente de todos e de tudo que até então se fizera na lírica mais lírica ou menos lírica. Aos desconfiados, peço que confiram apenas dois poemas: “Os poetas menores”, do livro &lt;em&gt;Vento, águia, coelho&lt;/em&gt; (SMC, 1991), uma peça irresistível sobre a mediocridade, e “Condições”, de &lt;em&gt;Ver o mundo&lt;/em&gt; (Camaleoa, 1995), onde, num tom quase pessoano, não o ultrapassasse, Hecker bate os pregos em si mesmo, numa desconcertante toada em prosa poética: "sou judeu, sou negro, sou louco, sou puto". Respondam, os que encontrarem tão inestimáveis e raras peças: não se tratam de dois dos mais contundentes poemas já escritos em língua portuguesa?&lt;br /&gt;Podem verificar com calma e responder sem medo. Hecker está morto e nunca saberá disso.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;Santos de casa fazendo milagres... em casa!&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;br /&gt;De fato, dois nomes emblemáticos podem acontecer em qualquer região, como dois fenômenos caídos do céu, dois acidentes. Mas o que dizer de Luiz Antônio de Assis Brasil, que chegou a beliscar, com &lt;em&gt;A margem imóvel do rio&lt;/em&gt; (L&amp;amp;PM, 2004), o Prêmio Portugal Telecom de 2005? Assis Brasil, segundo Wilson Martins, é um dos maiores romancistas vivos do Brasil. Vende, no RS, cerca de 10.000 exemplares, em média, de seus aproximadamente 15 romances com ambientação histórica sul-riograndense. Alguns, como &lt;em&gt;Videiras de cristal&lt;/em&gt;, levados ao cinema e já em 6ª edição. Mas seu público e sua crítica mais dedicados residem aí, onde ele reside. O mesmo se dá com Sergio Faraco (&lt;em&gt;A Dama do Bar Nevada&lt;/em&gt;, &lt;em&gt;Majestic Hotel&lt;/em&gt;, &lt;em&gt;Dançar tango em Porto Alegre&lt;/em&gt;, todos da L&amp;amp;PM), um contista de primeira grandeza, no nível de um Rubem Fonseca dos bons tempos, de um Dalton Trevisan, de um Sérgio Sant’Anna. Clássico vivo. Visto com alguma reserva, velada, por ser “regionalista”, com temas e linguagem rurais em boa parte de sua pequena e meticulosa produção. Leram-no tão mal, e apressadamente, que mal sabem que metade de sua contística é urbana.&lt;br /&gt;A lista não é pequena. Tabajara Ruas é outro exemplo dessa travessia difícil. Seu &lt;em&gt;Os varões assinalados&lt;/em&gt;, publicado 35 anos após a primeira parte de &lt;em&gt;O tempo e o vento&lt;/em&gt;, de Erico Verissimo, apresenta notáveis progressos à literatura herdada de um mestre. A novela &lt;em&gt;Perseguição e cerco a Juvêncio Gutierrez&lt;/em&gt; é um García Márquez sem maneirismos, cinematográfico, e mais ágil.&lt;br /&gt;Paremos por aqui, embora a lista prossiga. Nos anos 90, surgiram diversos nomes. A lição aprendida com as gerações precedentes (era preciso fazer alguma coisa, atravessar o Mampituba, não mais a cavalo, mas em jatos, ou através da rede mundial de computadores), fê-los subir o país, no mínimo até o centro, adotar uma nova postura de relações pessoais, fatalmente – e lamentavelmente – decisiva para a difusão de uma arte que não circula com facilidade, por mais importância que possua.&lt;br /&gt;Cantada, nesses subtrópicos, a aldeia nem chega a ser brasileira. Que dirá universal.&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;Nota&lt;/strong&gt;: Ricardo Guilherme Dicke morreu na quinta-feira passada, dia 9 de julho, em Cuiabá, e foi enterrado na cidade onde sempre viveu, no dia 10. A causa da morte, segundo a assessoria de imprensa do Hospital São Matheus, em Cuiabá, onde o escritor estava internado desde o dia 5, foi "insuficiência respiratória aguda após parada cardiorrespiratória revertida em hipertensão arterial severa". Pelo menos no Mato Grosso seus livros, neste dias, devem receber bastante procura e esgotarem. Tarde demais. (16/07/2008)&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7659575339957537112-1098008600471889615?l=bentancur.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bentancur.blogspot.com/feeds/1098008600471889615/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7659575339957537112&amp;postID=1098008600471889615' title='12 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/1098008600471889615'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/1098008600471889615'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bentancur.blogspot.com/2008/07/cavalos-afogados-no-mapituba.html' title='CAVALOS AFOGADOS NO MAMPITUBA'/><author><name>BENTANCUR</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17397945706691195345</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp2.blogger.com/_296zOjIvu2c/R_F9H73wKyI/AAAAAAAAAAs/Mx_DoNV9suo/S220/Paulo5.jpg'/></author><thr:total>12</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7659575339957537112.post-8575238946700263664</id><published>2008-07-12T19:05:00.000-07:00</published><updated>2008-07-13T06:25:08.057-07:00</updated><title type='text'>INCORRESPONDÊNCIAS – A AMEAÇA</title><content type='html'>Meu &lt;em&gt;post&lt;/em&gt; de sábado, o primeiro, “Incorrespondências”, gerou um efeito forte mas meio óbvio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todo mundo pulou os dois parágrafos iniciais. O primeiro, a opor um único voluminho do certeiro Flaubert a uma biblioteca inteira escrita pelo espumante Coelho Neto, espécie de repolho verbal das letras. E avisando, ironia e tortura anunciada: lesse o francês impecável, teria de ler o brasileiro opulento como um barril em páginas. Ninguém mencionou a danação de conviver com três horas de paraíso e pagar com anos de leitura, esta sim, da mais pesada. Coelho fornicou nas letras graúdas como um coelho: mais de cem ficções a esmo. A vida não é justa, sabemos. Não seria no mundo da leitura (não só as obrigatórias) que haveria equilíbrio. Para cada cem porcarias, uma maravilha. Aritmética pura. Percentual sensato.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O segundo parágrafo, que ninguém comentou, era uma variante do primeiro. Escolha, se for capaz. Pode ler esse prodígio que são as quinze páginas de “A Construção”, conto de Kafka, mas para tanto é preciso estar socialmente habilitado. Isso significa que terá de passar pela prova de fogo de aturar (suplício dos suplícios) os diários completos de Josué Montello, 5.000 páginas – ou 4.000, que diferença faz? O cara não pode deixar de travar contato com Kafka, que lhe muda a vida, e então passa um ano e alguns meses ligando o cérebro no automático para atravessar os quilômetros de páginas impressas do maçante, desinteressante e infatigável Montello. Duro preço para, afinal, o que vale tanto. Talvez por Montello ainda estar quentinho por aí, a turma ficou na moita. Silêncio de novo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas o terceiro parágrafo (há um quarto e um quinto, porém esses passaram pela garganta sensível dos leitores), ah, o terceiro parágrafo! Alguns comentários não são postados no blog não porque haja um moderador, não. O único moderador existente são os leitores, e muitos deles preferiram me escrever e-mails ao invés de expor seu horror ao terceiro parágrafo em público.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que há de tão terrível no terceiro parágrafo? Voltem dois textos atrás e releiam. Eu tento (em vão, claro) descrever a exuberância de Scarlett Johansson, imagem feminina perturbadora neste começo de século. De Natasha Kinski, valendo o mesmo para vinte anos atrás. E desenho um ícone que oscilasse, no cabelo, entre Júlia Roberts ou Michelle Pfeiffer, e o corpo fornido e sinuoso – arquitetônico – de Jennifer Lopez. Pra quê! Reduzi a estereótipos o conceito de beleza, é o que muitos disseram. Espera aí, pessoal: essas moças citadas são um escândalo, não menos. Sejamos concretos: elas parecem irreais e... são reais! Dá para resistir? Eu não. E como não, e são inalcançáveis, resta-me então a melancolia de nem chegar perto, e ainda não conhecer as que, sem tal popularidade aqui nesta floresta equatorial disfarçada de concreto, exibem formas semelhantes. Isso para ficarmos só no plano da descrição.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas meu parágrafo ia além. Falava que o problema era a equação “tudo isso” e a capacidade quase miraculosa de sustentar uma conversa capaz de transcendências debaixo das estrelas, ou do teto de um quarto, o resto da noite. Estereótipo de novo! BPB = Bela Porém Burra. Não era um estereótipo. Não é. Burras são a maioria. Inclusive as menos dotadas pela natureza. Burros somos todos nós, e sem nem a beleza para nos justificar ou distrair.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu pobre parágrafo – acusado de fealdade moral – colocava, como nos ignorados parágrafos iniciais (só porque eles falavam em literatura, e isso é politicamente correto, só que mais complicado), as incorrespondentes naturezas entre matéria e espírito. Flaubert é espírito; Coelho Neto é matéria (cem volumes! Bota matéria nisso...). Kafka é espírito; Josué Montello é matéria (cita todos os citáveis, gerando mais um índice onomástico do que nos dando um pingo de arte ou motivo para reflexão). E as belas – não essas, exatamente: quem me garante que Natasha, por exemplo, filha do alucinado Klaus, não seja capaz de solapar minha literatura de décadas com o improviso de um único poema seu, poema de ocasião? Júlia parece ter talento para educadora. Michelle é um tanto conservadora, mas não burra. Jennifer é um doce, generosa (não, &lt;em&gt;please&lt;/em&gt;, esqueçam suas formas): não há &lt;em&gt;cast&lt;/em&gt; do qual ela participe que não a elogie como exemplo de colega. O diabo é que criei uma hipótese, forçada naturalmente. Para funcionar como equação, triste reflexo da encruzilhada da vida. Belas e, no entanto, “incomunicáveis”, digamos assim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, pior, contrapus a tais fenômenos as habitualmente discretas na aparência, passando desapercebidas por todos os homens do mundo. E capazes, em contrapartida, das mais notáveis habilidades intelectuais, sensoriais, ágeis com a língua não onde um maldoso como eu imaginaria, mas num microfone, num diálogo em alto nível provocado por um sarau. E concluía, o infeliz que sou (“vê se cresce, rapaz!”), que o homem passa a vida tentando dezenas de deusas, como as citadas no desenho estereotipado, e quando já está a pouco menos de dez anos de bater as botas, renuncia a toda a alegria e, aposentado, dedica-se à boa conversa e à ótima convivência com mulheres cuja beleza não salta aos olhos mas, sim, existe. O diabo é que chamamos ao que elas transmitem de beleza mas podíamos chamar de muitas outras coisas, podíamos utilizarmo-nos de dez, vinte palavras diferentes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todas elas respeitáveis, é verdade. (13/07/2008)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7659575339957537112-8575238946700263664?l=bentancur.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bentancur.blogspot.com/feeds/8575238946700263664/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7659575339957537112&amp;postID=8575238946700263664' title='10 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/8575238946700263664'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/8575238946700263664'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bentancur.blogspot.com/2008/07/incorrespondncias-ameaa.html' title='INCORRESPONDÊNCIAS – A AMEAÇA'/><author><name>BENTANCUR</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17397945706691195345</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp2.blogger.com/_296zOjIvu2c/R_F9H73wKyI/AAAAAAAAAAs/Mx_DoNV9suo/S220/Paulo5.jpg'/></author><thr:total>10</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7659575339957537112.post-4223095459370630042</id><published>2008-07-12T08:28:00.000-07:00</published><updated>2008-07-12T14:40:44.671-07:00</updated><title type='text'>BREVE CAPÍTULO DE AUTO-UFANISMO</title><content type='html'>Dia 3 de julho postei neste blog um texto, “A Palavra Desenha o Mundo”, tentativa (por isso talvez excessiva para um blog) de apreender o fluxo verbal através do qual busco capturar algum ritmo do mundo e, se menos – provavelmente menos –, de mim mesmo, emergindo içado por frases que funcionam como forças de uma energia incalculável.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dia 12, agora, nove dias após (a internet não nos brutaliza ao ponto de matar o nosso tempo pessoal, tanto nossas pressas quanto nossas demoras), o escritor W. J. Solha, uma das mais fortes referências do que de mais criativo e rigoroso se realiza na literatura contemporânea no Brasil, lá da Paraíba, deixa um comentário ao texto, comentário que não resisto em destacar aqui. Não por vaidade (seria vaidade afirmar que não sou vaidoso; como posso afirmar semelhante coisa? Mas, creiam, acredito que não seja), não por vaidade, repito, mas por alívio. Temi pela ambição do texto. E a ambição, a julgar pela reação do exigente e diferenciado Solha, foi justamente meu maior trunfo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Exagero? Se exagero, então Solha exagera também. Prefiro acreditar nele – sobretudo porque tenho acredito através de sua obra, que leio desde a década de 80. Leiam-no comigo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Paulo,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;acabo de ler "A Palavra Desenha o Mundo" e o que posso lhe dizer é que me parece um maravilhoso exemplo de stream of consciousness que poderia se estender num romance de seiscentas páginas sob uma epígrafe tirada de Enzo Paci: "Nunca estamos completamente acordados, assim como não estamos jamais num sono completo", ao que ele acrescenta: "Durante o sono, a linguagem fala pelos sonhos. No estado de vigília, a linguagem fala com palavras de uma cultura" etc. Você parece ter encontrado um corredor (daqueles de Kubrick em "O Iluminado") depois daquele seu notável poema "Despertando" (de "Bodas de Osso"): "Mal amanhece o dia/ largo a minha fênix/ volto à vaca-fria". A vaca-fria, aqui, é substituída por um jorro de logos spermatikós. Sua mente, liberada pelo surto criativo, funciona como esses filmes de animação em que o sujeito traça uma porta na parede da prisão e sai por ela, sem limitações, mais, de espécie alguma. Deu-me tal prazer sua leitura, companheiro, que fiquei, aqui, dizendo "quero mais".&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;em&gt;(W. J. Solha, autor de "História Universal da Angústia",&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;em&gt;João Pessoa, PB.)&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="left"&gt;Continuarei, continuarei – o quê? Um comentário (um texto, melhor dizendo) desse nível emudece, momentaneamente, o sempre possível devir a ser expresso. E, súbito, me paralisa e me empurra na direção de receber o abraço, o confronto, o complemento e o crescimento de uma recepção que não apenas encontra-se cara a cara com o que escrevi. Antes o transforma, e para melhor. (12/07/2008)&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7659575339957537112-4223095459370630042?l=bentancur.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bentancur.blogspot.com/feeds/4223095459370630042/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7659575339957537112&amp;postID=4223095459370630042' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/4223095459370630042'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7659575339957537112/posts/default/4223095459370630042'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bentancur.blogspot.com/2008/07/breve-captulo-de-auto-ufanismo.html' title='BREVE CAPÍTULO DE AUTO-UFANISMO'/><author><name>BENTANCUR</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17397945706691195345</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp2.blogger.com/_296zOjIvu2c/R_F9H73wKyI/AAAAAAAAAAs/Mx_DoNV9suo/S220/Paulo5.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7659575339957537112.post-4808746253230817439</id><published>2008-07-11T19:05:00.000-07:00</published><updated>2008-07-12T19:22:37.408-07:00</updated><title type='text'>INCORRESPONDÊNCIAS</title><content type='html'>Um romance de Flaubert, “Bouvard e Pécuchet”, e a ficção completa de Coelho Neto (atenção: publicou cerca de cem livros! Não encontrou estilo, voz, entre tanto tema e tanta tentativa de forma). Vêm casados. Leu o primeiro, tem de ler todas as milhares de páginas do outro. Você não não tem escolha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um conto de Kafka, “A Construção”, e os diários completos de Josué Montello, 5.000 páginas. Exponha-se ao estupefaciente espetáculo da armadilha do theco, entregando sua alma ao demônio da tortura reveladora. Só que aí deverá expor-se à monotonia do redundante e da gordura verbal e da retórica. Enfim, do dispensável (este mundo exige-nos públicos, formalmente políticos, e é construído pelo óleo de rícino das convivências obrigatórias) de um registro inacabável, anotações calculadas para mostrar aos vizinhos: “olha como sou importante e conheço gente importante.” Você não pode escolher. Ou os dois, ou nenhum. E Kafka é imperdível. E Montello é um porre. Grafômano como Coelho Neto. O estigma foi lançado na origem do tempo: vocês vê-se obrigado a ler os dois. Um, por questão de não resistir à literatura com L maiúscula. Outro, por sobrevivência. Pediram-lhe... Não, não – seja ético.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cinco mulheres belíssimas, o rosto a sugerir a lírica da geração de ouro da poesia espanhola do início do século XX – o rosto, só o rosto! –, lábios como polpas frutuosas de uma Scarlett Johansson (ou, para leitores que tinham sua musa nos anos 1980, os mesmos inacreditáveis lábios e os olhos vítreos – misto da pureza de uma Cecília Meireles com a depravação de Capitolina – de Natasha Kinski), nos cabelos a frondosa cachoeira de Júlia Roberts ou a floração ensolarada de Michelle Pfeiffer; no corpo, espaço longilíneo a exigir todo o fôlego de atleta e um coração liberado após exames no mais conceituado cardiologista do País, o desenho afrontoso do biótipo de Jennifer Lopez: curvas quase típicas de Niemeyer. Tal soma me leva ao vórtice da mais febril perturbação, meu espírito trêmulo tomado pela carne enfim, mas – nada inteligentes, maldição!, nada curiosas, só podia!, mentes que bocejam, neurônios que se afogam na profundidade de palavras de mais de quatro sílabas, indelicadas com nossas barriguinhas de cerveja porque exigem que malhemos como elas e não nos perdoam trocarmos a academia por um Shakespeare. Escolha, meu am
